le ne fay rien sans Gayeté (Montaigne, Des livres) Ex Libris José Mindlin Ati És p Dra fio ksa ER fu lb oracs pa 139/40 Ze "qui = Rs asd Al PRO B L EM A ARCHITECTURA Cir, DEMONSTRADO POR MATHIAS AYRES RAMOS DA SYLVA DE EÇA, Provedor , que foi da Caza da Moeda defla Corte: e author das Reflexoens fobre a Vaidade dos Homens, QUE DEDICA, E OFFERECE A o, SENHOR Ê GONCALO JOZÉÊ DA SILVEYRA PRETO, aeee da Caza de Sua Mageftade , do feu Confelho , do e fua Real Fuzenda, Chanceller, e Deputado da Sereuiflima Caza de Bragan. qgà, do Confelho, e Eítadio da Rainha Mãi N, Senhora, Procu. xador da Fazenda da Repartiçaô do Ultramar, Senhor Donatario da Villa de S. Miguel de Acha, Alcaide Mór de Monçaõ , Com. mendador das Commendas de Santa Maria dos Anjos da meíme Villa , e da do Cazal do Bogalho , ambas na Ordem de Chrif« to Xc. Sc. MANOEL IGNACIO RAMOS DA SYLVA DE EÇA. LISBOA Na Offc. de ANTONIO RODRIGUES GALHARDO, Impreflor da Real Meza Cenforia, MDCCLXKXVIL Com licença da mefma Real Mexa, SENHOR GONÇALO JOZE DA SILVEYRA PRETO. O... » que me atrevo a dedicar aWV S. be do mefmo auétor que compoz o da Vaidade dos Ho- mens. O unico objecto, que me obrie de “ga ga aimprimillo, be a gratidao de fi- lho , que quer levantar das fombras da fepultura onome de quem lhe deo ofer, e afortuna, fazendo durar a Jua memoria nefe eferito publico, confagrado à utilidade da patria. Temendo, que abrangeffe ao li- vro a difgraça , em que acabou o feu auétor , quiz bufcar-lhe bum azylo fe- guro, bum nome refpeitado, que pof= to na faxada da obra'preveniffe o pêblico a favor della. co amizade, com que V. S.bon- rou o pui;e os beneficios com que fe digna proteger o filho , uitidos à jujta reputaçao, que tem adquirido o fem refpeitavel nome ; fizeraô , que eu por obrigaçao, e por interefje bufcafe o amparo de V S. para fer bem a- ceita aobra de bum Cidadad; a quem os aggravos da fua patria naô pu- deraô arrancar do coraçaõ os fagra- dos direitos , que ella nos impoem , de dbe fer-mos uteis ; quanto as nofas for- forças o confentem“ Os altimos tema pos da difgraça » que encurtaraôd os “dias do auétor defie livro, talvez confirmado , quecelle era bum Cida- dao benemerito: V.:S. be.a melhor prova, de que as difgraças às vem mes feguem mais a quem be menos digno dellas. A razad ,.e o merecimento » que nem fempre faô o efcarneo da fortuna, chamaraô a V S..aos em- pregos, e aos applauzos da.Gorte; e as jujtas providencias dos nofjos Soberanos ; unidas aos votos: do pu- blico naô quizerad deixar enterrado hum talento, que pojfo no commer- cio da vida" cival daria tanta ubilix dade: à noffa naçaô. Se be da nutureza, que a fim Ibança.de fortunas faz mais folidas as vamizades ;xV So, que fempre mereceo fer feliz, mas que nem fem- pre o tem fido, queira. dignar-fe de. proteger nefte livro a memoria pof thuma sbuma de bum homem, a quem vio, correr amefma fortuna, que pertur- bou o focego de V. S. He obra de hum homem de'letras , deve achar. acolhimento nos olhos de outro. V.. S., que tem confagrado os feus. pre- ciozos annos ao efêudo fublime de manejar as leis, que [Jaó a alma do Eftado , nad fe deve defprezar de proteger buma arte , que ainda que muito inferior pela fua materia , concorre notavelmente para a poli- cia das Cortes, e dá aos Reinos as mefimas ventagens , que o ornato dá. ao corpo. e ak Eu unindo efe benefício aos mais, com que PV. S. fe tem digna do honrar-me , olharei para todas as profperidades, que baô de encher a eftimavel vida de V. S., como para outras tantas provas de juffiz ga dos nofos Soberanos , que ar rancaô das trevas , e do efquecimen- to homens provados , em cujas maôs de- depozitad os premios , e os caftigos dos feus povos Estes votos faz Liss boa toda ; porém com mais obrigar çaô, e com mais zelo os faz De V S. O Criado mais humilde, c obrigado Manoel Ignacio Ramos. da Sylva de Eça, PROBLEMA DE ARCHITECTURA CIVIL PARTE I EFE E O E VESTE AS Ge | e—em ema meira sem aaa emana ELPITULO E O problema de Architectura Civil, que devemos refolver , e demonftrar , be o feguinte. Porque razaô os edifícios antigos tinhaô , e tem mais duraçaô do que os modernos ? eeftes porque razad refitem menos ao movimento da terra quando treme ? Sta queítaô parece facil de refolver ; porque cômummen- te fe diz que a diuturnida- de do tempo faz caldear as pare- des ( como os Artifices fe expli- A cad ) 2 Problema caô ) fazendo-as mais conglutina- das para poderem fuftentar o pe- zo do edificio , e para refiftirem ao impulío extraordinario que faz tremer a terra. Efta foluçaô, fundada fó na divturnidade do tempo , parece me- nos bem eftabelecida : porque , ain- da que-o tempo contribue muito para folidar os muros de que os edificios fe compoem , com tudo, io he afim quando preexiftem as circumflâncias , por meio das quaes fica tendo lugar a acçaô do tempo : porém, fem a concurren- cia daquellas circumíftancias , ne- nhum tempo baíta para fazer for- te hum muro defpois de fabrica- do contra a regra dos principios. Os artifices antigos: conhece- raô muito bem efta verdade; e os modernos tambem a conhecem : porém De Arcbiseltura Civil. 3 porém eftes pouco attentos á du- raçaô dos edificios , e com eco- nomia menos juíta, tem mais pot objecto a conclufaô da obra, do que a duraçaô della; e fendo efcrupu- lofos na ordem da perfpettiva, e em outras partes menos importan- tes, faô faceis na eleiçaô dos max teriaes com que fabricaô. O ponto principal eftá nos materiaes,; de cu- ja bondade , e fimplicidade depen- de a fortaleza ainda mais, que de outro artifício algum. De forte que a permanencia naô vem do ferro , nem do bronze que fe ajun- ta; eftes metaes devem fer confi- derados como adjutorios auxilia- res, e adventicios. A duraçaô pro- vém da propria fubftancia do edi- ficio, naô do remedio que fe buf- ca para o fazer forte : devemos prefuppôr a pureza da fubítan- Au cia, 4 Problema cia, ilto he dos materiaes; entad contribue o tempo , o ferro , eo bronze. Porém fe o muro he feito com materiaes incongruentes, que per- manencia póde ter para fuftentar o feu mefmo pezo, e para refiftir ao movimento ? Aquelle vicio origi- nal fempre lhe ferve de obítaculo invencivel; e nefte calo nenhum tempo , ou artifício póde extrahir do muro o vicio interior, introdu= zido deíde os primeiros rudimen- tos da fua conftrucçaõ : os annos naô o fortalecem , antes o debili- taô; porque a natureza do mal he progrefliva ; raras vezes fe diminue, e quafi fempre fe augmenta. Nos edificios antigos obfer- vamos huma exaétiflima uniad en- tre as pedras, e mais materiaes, de que os feus muros fe compunhaõ; e to- De Architectura Civil. 5 e todos taô confolidados entre fi, como fe foflem caminhando para de muitas pedras formarem huma fó: e com effeito vemos que nel- les he mais facil quebrar a pedra, que defunilla ; e que mais de pref- fa fe confegue o deftruir o muro pelo coraçaô das meímas pedras , que pela juntura dos feus angulos: e quando o movimento da terra; ou de outro accidente tal, induz a fatalidade da ruina , o muro naô cahe desfeito em pequenas partes; mas precipita-fe dividido em lanços; nem fe desfaz como moído em pó, mas abate-fe em troços, confer- vando de algum modo a fua figu- ra. Daqui vem que os edificios an- tigos bem moftraô que foraô fei- tos para muitos feculos. Naô fe fegue porém que os antigos tivellem melhores ope- A mi rartos; 6 Problema rarios; porém fabiaô efcolher me- lhor. Os artifices modernos dif- penfaô facilmente na bondade, e regularidade dos Ífeus materiaes ; por vifto que os tenhaô promptos, e menos difpendiofos : contentaô- fe de fabricar para o Íeu tempo, fem fe embaraçarem do futuro ; ba- fta-lhes que a obra dure em quan- to elles durarem , deixando para os que haô de vir a trifte occupa- çaô de reconftruirem. Por iflo vemos tantas vezes que os edificios novos, apenas aca- bados da maô do meítre , logo daô finaes de fentimento : por hu- ma parte perdem as paredes o Ífeu equilibrio vertical ; por outra fa- zem aberturas ; e por outra cof- pem os ingredientes que lhes faô contrarios. E fe fobrevém á terra algum movimento irregular , fazem- fe De Arebiteltura Civil. q fe perceptíveis os defeitos , e vaô moftrando indícios infalliveis de ruína. Pelo que fica expofto pode- mos inferir que a razaôd , porque os edifícios antigos eraô duraveis, he por haverem fido feitos com bons materiaes: ea razaô, porque os modernos naô tem a mefma du- raçaô, he porque faô cômummen- te fabricados com materiaes impro- prios. Efta he a refoluçaô do pro- blema : e para a demonítrarmos he precifo examinar quaes faô os'ma- teriaes, de que os muros fe com- poem; quaes faô as qualidades que tem os com que hoje fe fabrica, e as que devem ter , para que a obra fique permanente, e para que refifta mais ao movimento da terra quando treme. Av CA- 8 Problema He eme mete eee ret es pe mm CAPITULO I. i t À bondade dos materiaes de- pende inteiramente a firmeza das paredes ( fuppondo fempre fe- rem feitas com arte, e como a arte pede) : o tempo as faz confo- lidar , quando os materiaes fe naô oppoem á Ífua acçaô. Hum com- poífto de barro , ou de qualquer terra commua , em nenhum tempo póde admittir firmeza. Ainda que a hum compoiíto tal fe lhe ajunte a melhor pedra, nunca de huma tal compoliçaô fe ha de formar hum corpo Íolido; porque o barro con- ferva fempre propenfaô para deí- unir-fe , ou desfazer-fe na agua. “Toda a duraçaô de hum com- pofto De Architetura Civil. tambem, e fem intervençad de terra alguma, haô de dar aquel- le fal, ou aquelle acido que lhes for ellencial ; o qual naô podem as flores, no cafo propoito , tirar de ou- tra alguma parte , nem de outro lu- gar, fe nad do ar. O acido nitrofo nad he con- creçaô da terra , porque no inte- rior profundo della nunca fe achou , aquel- De Architeiura Civil. 7 aquelle fal ; como alguns entende: raô ,ve ainda entendem hoje com menos bem fundada experiencia. He certamente producçaô do ar, for- mada na Íuperficie de huma terra particular , e apta para receber, é concentrar em fi aquelle acido ad miravel, e verdadeiramente efpan- tofo pelos Íeus rariílimos , e tre- mendiflimos effeitos, Daqui vem que a maior parte do falitre , ou nitro que nas fabri- cas da polvora fe confome , todo he artificial, cujo artifício naô con- fifte em mais do que em efpalhar fobre a fuperficie da terra outra terra calcária ,- ageregando-fe fu- perfluidades de animaes ,. e vege- taes fummamente putrefaétos ;' cu- ja mifturaiexpofta ao ar ( e. prin- cipalmente.ao vento Norte , de que relultou -dizer-fe fallando-fe do ni- tro é 78 Problema tro: Pentus in urero portavit) com o tempo fe incorpora a ella o aci- do do ar ,-de que provém hum ver- dadeiro nitro, concorrendo para a mefma producçaô outras circunf- tancias que acceleraô , e promó- vem a geraçaô , e appariçad da- quelle fal. Por caufa dos ingredi- entes que concorrem para a for- maçaô do nitro, .e pelo ingreflo que tem nos mineraes, chamaraô- lhe os artiftas fal animal, vegetal; e mineral, + O mefmo fuccede ás terras aluminofas, e vitriolicas , das quaes depois de extrahidos aquelles aci- dos, que tem naturalmente ; tornan- do-fe a expor ao ar livre, o cons curfa -do melmo ar faz tornar a concrecer nas mefmas terras ou- tros novos acidos da mefma natu» reza , e de igual qualidade dos pri- meiros; De Árchiteltura Civil. vó meiros ; ficando as terras fervindo aílim de matriz perpetua para efta- rem fempre attrahindo do ar ou- tras femelhantes producçoens. Os Cirurgioens methodicos tambem conhecem a exiftencia do acido do ar; por iflo na cura das feridas attendem com cuidado a defendellas do contaéto immediató do ar ambiente que circúla; e ifto taô porque o at como fimples ele. mento poíla' fer nocivo, mas ports que o acido ; que contém , retarda à cura, e aggrava mais as partes of- fendidas; e quanto mais fenfivels e dé mais exquifito fentimento he a parte, em que a ferida eftá, tan- to mais fenfivel he tambem nella a impreílao do ar; porque efte juntando-fe aos humóres já defor- denados, ow degenerados por qual- quer cafo natural óu accidental, entaô 80 Problema entaô, o acido do mefmo ar, aug- mentando o mal, perturba a in- tençaô de quem o quer remedear. Por iflo na cura das feridas, o ob- jeéto primeiro , e principal, con- fifte em as cobrir exactamente ;: de- pois de applicado o remedio pro- prio. E com effeito muitas feridas faraô por fi mefmas fem. mendigar os foccorros da arte , mas Íó- por virtude, e forfa medicinal da na- tureza ; porém difficultofamente fa- raô eftando delcobertas., e expoí- tas ao rigor , impulfaô , ou aci- do do ar. e. E dido cf Com o que fica ponderado fe convence que no ar ha hum aci- do exiftente , perpetuo , phyíico , appreheníivel, e em certas circunf. tancias tambem vifivel; e que efté mefmo acido he como hum Pro- theu; a quem a natureza -faz to- mar De Architeitura Civil. 81 mar infinitas fórmas , infinitas fi- guras, e infinitos modos. Efte he talvez o verdadeiro Mercurio, que os Philofóphos antigos indicaraô , fi- gurado na apparencia de huma in- domita ferpente , e outras vezes na de hum dos feus deofes fabulofos , armado do famofo caducêo , e azas talares. A efte acido do ar chamaô nitrofo os Philofophos modernos , e a elle atribuem, como privativa- mente, a fabrica, ou acçaô de ve- getar ; porém nefta propriedade , graciofamente concedida ao acido nitrofo., talvez que tambem haja fabula; fó com a diferença de fer menos antiga, e por confequencia menos refpeitavel, 82 Problema CAPITULO V a pois certo que ha hum acido no ar , efte acido paí- fa por conftante fer nitrofo; e tan- to, que fundados alguns naquelle principio incerto, entraraô a idear, ou inventar compofiçoens diverfas com o título de fegredos , nas quaes o nitro he ingrediente principal, e por meio delle pertendem promo- ver fingularmente todas as forfas feminaes em cada hum dos tres reinos da natureza; no reino mi- neral entrou o nitro a fazer as mais fauítuofas efperanças , como ma- teria que devia fer da celeberrima pedra Philofophal; e efta entrou tambem a fer o objeéto das mais obfti- De drcbiteblura Civil. 83 obitinadas indagaçoens , ainda que fempre infruétuofamente, e talvez nunca com o fruto defejado da cha- mada pedra por excellencia ; ori- gem porém de muitos inventos uti- hífimos, curiofiflimos, e admiraveis; porque, buícando-fe huma coufa que fe naô achou, acharad-fe ou- tras que fe naô bufcavad. No reino Animal, devia o nitro fazer reculcitada a raça dos Gigantes , e prolongar confidera- velmente a vida : porém fuccedeu o contrario, porque o invento da Polvora; parece que fó veio para fazer mais diminuta , e breve a du- raçaô dos homens. No reino Vege- tal devia o nitro forçar a terra a dar muitos mil por hum, augmen- tando-lhe o vigor para produzir abundantemente ; porém tambem naô fuccedeu aflim ; porque qe u a 84 Problema la mãy univerfal ficou com a mef- ma fecundidade que teve fempre, nem fe fez mais liberal por fer aju- dada pelo nitro, antes efte he ca- paz de a fazer efteril, e infe- cunda, As minhas proprias experien- cias, enaô as dos outros, em que confio poucas vezes pela multidad de apparatos menos finceros , de que os livros eftad:cheios , e em que os Authores com menos fincerida- de elcreveraô na Phyfica Chimica , eifto, ou foffe por falta da inftruc- çaõô neceflaria a refpeito dos prin- « ticulares,: que. tambem tem aptidad para receberem-, e tomarem-efta ouaquella fórma, : ! IRo fe comprova com o exem- plo de qualquer fal alchalino fixo 3 efte: por fi mefmo ,'e fegundo a fua idole natural, attrahe a humidade todas as vezes que fe expoem ao ar; fermenta.com os.acidos, e com elles fe reduz a hum fal, a que chamaô Fiv neu- 88 Problema neutro; abforbe os meímos acidos, e os deftroe ; diffolve-fe em todos os licores , exceptuando os oleofos ; delle refultaô as compofiçoens fa- ponarias ; diflolve promptamente todas as materias fulphureas, e un- Etuofas ; e depois de as diflolver , as larga, e faz precipitar ao fundo do valo , todas as vezes que fe intro- duz algum acido na difloluçaô. Porém depois que hum fal al- chalino fixo fe acha vitrificado com. qualquer arêa, ou terra, jáfica per- dendo todas aquellas qualidades que lhe faô eflencialmente proprias ; e com effeito já entad naô faz effer- vefcencia com os acidos , nem póde mudar-fe com elles em fal neutro; Já naô póde diffolver os mixtos oleo- fos para formar hum coagulo, ou fabaô; já naô póde diflolver-fe na agoa , nem attrahir a humidade aé- rea; De Architeltura Civil. 89 rea; Já naô póde fazer corrofaô al- guma ; e de hum corpo cauítico veio a reduzir-fe a hum corpo infulfo, impenetravel a todos os efpiritos, e licores corrofivos. E afim veio o fal alchalino fixo .a perder todas as fuas propriedades , e ifto facilmen- te e para fempre ; e-fem já mais poder tornar a fer, o que tinha fi- do, nem poder recobrar nunca os feus primeiros dotes; e por iflo fe lhe póde applicar o que o Poeta ie : o facilis defcenfus Averni; Noctes , arque dies patet atri janta Ditis : Sed revocare gradum , fuperasque evadere ad auras » Hoc opus , bic labor ef. E aflim , o dizer-fe que o acido ni- trofo contribue. para. todas. as ve- geta- 98 Problema getaçõens , he hum entender divis natorio ; porque por nenhum «exi perimento fe faz certo ; ou verifi- fas que feja aquelle acido, e naô outro : antes parece que aquella tal prerogativa devia dar-fe ao acido fulphureo. vitriolico.; porque defte he fummamente abundante o ar; como. fe obferva commumente nos diverfos meteóros que fe fórmaõ, e:acóntecem na atmoíphera , don- de aquelle meímo acido fe mani- fefta por varios , e diverfos modos, E fe com efeito o acido nitrofo co- opéra para aquella maravilhofa ac- çaô da naturaza, póde fer; fe mais provavelmente entendermos, ou to- marmos o acido nitrofo na fua pri- meira indeterminaçaô , ifto he-no eftado potencial, mas naô depois de corporizado , ou realizado em actual, e verdadeiro nitro ; porque “4 Ja De Architetlura Civil. gr jáneite grao ,,e depois de efpeci- ficado , fica certamente inhabil pa- ra vegetar, nem fazer vegetar. O referido Poeta o achou aflim na fua materia, e excellente inftrucçao da agricultura : Semina vidi equidem multos media care ferentes Et nitro prius, & Era put dere amurca: Grandior ut fetus filiquis follasi- bus eljes. Es quamois igni exiguo properãs ta maderent , Vids leéta diu , de multo fiectara labore » Degenerare ramen , ne vis bumas " na quotannis pe Maxima queque manu legeret : fi omnia fatis Inpeius ruere , ac retro fublapfa referri. To- 92 Problema Todos os Authores, que efcreverad com methodo fobre a Agricultura , e que quizeraô difcorrer com mais provaveis fundamentos , aflentarad em que os faes da terra faôd os que a fertilizaô ; por iflo dizem que a terra depois de repetidas , e conti- nuadas producçoens , vem final- mente a canfar, ficando confide- ravelmente diminuta no vigor, por lhe faltarem aquelles faes que foi fucceflivamente empregando nas producçoens antecedentes , fican- do para os mais annos como hu- ma terra ufada ,.e pouco vigorofa. - Porém aquelles fuppoitos faes nunca os pude defcobrir ; e por mais que examinafle varias terras , e por varios modos, naô achei nel- Tas o fal de que fe diz depende a fua fecundidade : oque fe encon- tra fempre he huma materia inflam- a mavel, De Archite&tura Cyvil. 93 mavel, e unfluofa, e ella analy- zada exaétamente , nad moltra fal de qualidade alguma , nem fixo, nem volatil, nem nitrofo, nem ful- phureo : dei que fe fegue que o fal, que na terra fe fuppoem » he Mi ente, que a imaginaçaô creou; e ainda que todos os Efcritores fazem mençaô delle, he porque huns fo- raõ elerevendo º mefmo que outros tinhaô efcrito já , admittindo to- dos fem exame hum Íyftema que a experiencia contradiz. E de faéto naô ba fal > que naô feja oppofto à vegetaçaô, co- mo póde facilmente convencer-fe quem o quizer experimentar ; e if- to pelo fundamento de que todo o fal faz fufpender as acçoens ulte- riores, a que os corpos tendem na- turalmente ; 3 das quaes (fem fallar na vegetaçaô ) huma he a fermen- taçaô e 94 Problema taçaô, ea outra a corrupçad; def- ta todos Ífabem que o fal a impe- de, e nelle eftá o melhor meio de a impedir: a fermentaçaô tambem fica fufpendida pela introducçaô de qualquer fal, e em porçaô conve- niente, no corpo do liquido fermen- tavel. De forte, que naô fó os faes falitos (que faô os acidos) impe- dema vegetaçad, acorrupçaôd, ea fermentaçaô, mas tambem os Íaes dulciformes , como he oaflucar, e outros femelhantes. Naô fó os faes em fubltancia fervem para impedir efficazmente aquellas tres operaçoens ; ou acções principaes da natureza, mas tam- bem o vapor delles faz o meímo effeito; porque o vapor, ou efpiri- to, que exhalaô o fal commum, o nitro, o enxofre, e todos os mix- tos que contém falacido ; impedem a cor- De Architeltura Civil. gs a corrupçao , a fermentaçaôd , eain- da a melma vegetaçaô; efta total- mente fe fufpende , como fe ob- ferva nos montes, e lugares mine- raes, donde os vapores fulphureos, que dos mefmos mineraes fe exha- laô, fazem a terra efteril para fem- pre, porque os effluvios vaporo(os, falinos , e corrofivos , reduzem a mefma terra a huma qualidade cauí- tica, e infecunda. O vapor do enxofre inflam- mado , fendo agitado em valo proprio com qualquer liquido fer- mentavel tambem (fuffoca inteira- mente a acçaô de fermentar. Def- te principio tem nafcido compofi- çoens diverfas ; e huma dellas he a que chamaô vinho Íurdo , o qual naô he outra coufa mais do que o mofto batido , ou mifturado com o vapor do enxofre acezo; € E Eca e 96 Problema he o que enerva a aptidaô que to- do o moíto tem para fermentar , fi- cando por efte modo fem poder mudar-fe , confervando a doçura, que tem naturalmente a qual por outro nenhum artifício conhecido fe póde confervar melhor, nem re- ter a mefma doçura taô conftante- mente. “- Eaffim de nenhum acido po- demos afirmar com probabilidade raciônavel , que feja proprio para incitar, e promover a acçaô de ve- getar; porque antes por muitos ar- gumentos, e experimentos fe con- vence que todos os acidos impedem, e fuffocaô aquella mefma acçaõ, deftruindo os efpiritos feminaes de que toda a vegetaçaõ procede: e if- to , ou feja por caula da corrozad dos acidos, ou por outro qualquer principio que lhes feja natural o fa- éto De Architeilura Civil. oz éto de impedir, e enervar inteira- mente a vegetaçaô , he certo, co- mo a experiencia moftra facilmente. Só temos huma objecçaõ con- fideravel , que favorece o Ífyítema aa temos reprovado , de que o aci- o nitrofo he agente progenitor de toda a vegetaçaô ; e vem a fer que o nitro Íó porfi, e em fi mef- mo, parece que vegeta , fem de- pendencia de outro algum corpo , ou femente vegetal. E com efeito, fe puzermos a difloluçaõ do nitro; feita em agoa fimples em qualquer vafo de vidro, de barro, ou de me- tal, deixando eftar a difloluçaõ fem a mover-por eípaço de alguns dias, ( contendo a agoa todo o nitro que derreter ) veremos fem fallencia , começar o nitro a fobir pelos lados do vafo que o contém, fazendo ra- mificaçoens diverlas , e.à iii de 98 Problema de hum arvoredo criftallino , em que fe diftingue admiravelmente a figu- ra das raizes, troncos, folhas , for- mando tudo a imagem agradavel de hum boíque variado por mil mo- dos, e em que o acido nitrofo, co- mo unico architeéto , fez em pe- queno efpaço, e em ana tempo aquella meíma reprefentaçaô que a natureza faz em grande , e depois de muito tempo. O fal commum, tratado pelo mefmo modo , faz tambem as mef- mas apparencias ; mas naô com tanta fubtileza , nem com tanta fe- melhança , nem com tanta graça; affeclando fempre a fórma cubica que lhe he propria, e que affeéta fempre. Outros faes compoítos imi= taô tambem aquellas reprefenta- çoens falinas , tomando cada hu- ma dellas a indole ou figura natu- ral De dribiseciura Civil. 99 ral dos mefmos faes. Porém o ni- tro fimples excede a tudo , tanto na variedade dos paizes que re- prefenta viftofamente , como na promptidaô , e propriedade com que os imita. E fendo afim , como havemos de negar aos acidos , e principal- mente ao acido nitrofo , a potencia, ou alma. vegetativa , naô fó para vegetar , mas tambem para exci- tar vigorofamente a vegetaçad em todos os fujeitos vegetaveis ? Com que razaô havemos de difputar a aquelle acido huma acçaô maravi- lhofa, e fingular de que tantos EL- critores eruditos o fizeraô (empre author, cuja opiniaõ , feguida uni. formemente ha tanto tempo, pa- rece que tem preícrito; fe he que nas materias phyficas tem lugar a prefcripçaô ; e ainda que o naó te- il! nha, 100 Problema nha, he fem duvida que tanto he erro o idear hum fyftema mal fun- dado , como em arguir fem jufto fundamento aquelle que eftá ple- namente recebido. Com tudo nem por iflo de- vemos affentar que o nitro he ve- getavel, nem que tem particular propriedade para promover qual- quer vegetaçao. Os faétos aflima deduzidos, e ainda outros que fe poderiaô expender a favor do mef- mo intento, naô induzem mais do que a apparencia de hum fyítema verdadeiro , mas naô verdadeiro com effeito. Alim Ífaô outros fyf- temas, que introduzidos ha muito tempo, e eftabelecidos tambem em plaufiveis fundamentos , e corro- borados com experimentos fingula- res, nem poriflo faô mais certos; porque de muitos phenómenos ad- mira- De Architeetura Civil. 101 miraveis refultaô confequencias in- certas e falliveis ; porém depois que fe examinaô maduramente , entad a verdade fe deícobre, e a illufaô defapparece. O nitro he hum dos mixtos que tem exagitado todos os enge- nhos, pelos Íeus rariflimos effeitos, fervindo de bafe , e argumento pa- ra nelle fe fundarem muitos dog- maticos difeurfos ; deítes alguns fe fuftentaôd ainda , e com razaô plau- fivel ; outros a experiencia def- mentio, e moíftrou o contrario do que. parecia : entre os-que fubfif- tem, hum he o'que dá ao nitro a virtude vegetante ; porém talvez. que mal fundadamente ::e fuppof- to que eíta materia feja de algum modo alheia do prefente aflumpto, com tudo, como feja util a fua dif cuíflao, bom ferá que naó deixe- G ii mos 10% Problema mos indecifo o ponto, ainda que naô foíle mais que para defabu- zar os que inutilmente crem que o nitro he bom para promover a vegetaçaô das plantas, e que aílim períuadidos trabalhao infruétuola- mente na preparaçaô daquelle fal, para com elle excitarem a força das fementes vegetaes. CAPITULO VL Sfima diflemos que o nitro vegeta por fi mefmo, como fe verifica na diffoluçaô defte fal em qualquer agoa : porém a verdade he, que a chamada vegetaçaô do nitro , naô he mais do que huma fimples configuraçaô , ou fublima- çaô do meímo fal, procurada pela exha- De Architelura Civil. 103 exhalaçaô , ou evaporaçaõ da agoa que o contém : daqui vem a appa- rencia de vegetar que o nitro faz; apparencia viftofa com effeito, fe- melhante á arte do pintor , que imita tudo , fem dar realidade a nada ; fórma a figura, naô a cou- fa; debuxa hum corpo fem lhe dar fubftancia alguma ; tudo fica para a vifta, e nada para o fer. O nitro pela. exhalaçaô da agoa entra a criftallizar-fe fuccelli- vamente; e nefta acçaô ;-em que fe aparta da agoa , donde eftava , vai ficando pelos lados do valo que o contém , tomando ao melmo tem- po a fórma de hum fal configura- do por diverfos modos. À irregu- laridade das fuas:partes, encadea- das humas' pelas outras , faz o ap- parato de hum bofque criftallino 5 ou de muitas arvores juntas entre G iv fi. 104 Problema 6. Efta femelhança he fó fuperfi- cial, provinda das particulas do nitro unidas diverfamente; naô de efpirito vegetal que as configure ' nem que as informe precifamente. A mefma confufad , com que o nit- tro tende a criftallizar-fe ,. le a que vai difpondo as fuas partes para formarem huma efpecie «de labe- rinto ou! vegetaçad:: O que moíftra:fobre tudo que aquella concrefcencia naô provém de efprrito vegetante ,vhe que O nitro, depois de vegetar por aquel- le modo, naô adquire maior pe- zo , e conferva o meímo que ti- nha fem augmento algum; fendo que a verdadeira vegetaçaô fempre induz pezo maior , e maior volu- me no fujeito que vegeta ; porque o vegetar he hum principio de cref- cer , até chegar ao tamanho pros prio De Arcbiteblura Civil. ros prio do corpo vegetante; e tudo o que .naô crefce ; naô adquire: mais volume nem mais pezo , e por con- fequencia: nad vegeta ; porque a vegetaçaô Ífuppoem- precifamente hum tal ou. qual augmento de ma- teria, e de fubltancia, e donde o naô ha, tambem naôd ha verdadeis ra, e formal vegetaçaô. À corrup- çaô diminue hum corpo, a vege- taçaô: o augmenta .;. faô duas' ac- goens'contrarias; huma tende a fa- zer, e outra a desfazer. - — "Temos a arvore, aque os ar- tuftas chamaô de Diana, a qual naô he outra:coufa maisc do: que huma fimples difloluçaô do. azougue na agoa forte ; nefta fe fórma huma ramificaçaô perfeita , que reprefen- ta huma arvore com frutos, e com tanta fingularidade , que caufa ad- miraçaô a quem nunca. a vio, nem conhe- 106 Problema conhece o artifício. Parece com effeito huma vegetaçaô metallica ; porque tudo , quanto a vifta póde deftinguir , naô he mais do que hum metal perfeitamente vegeta- do.. Porém nada diflo he; porque o mais leve movimento desbarata a arvore ,re o metal fe precipita ao fundo do valo que o contém ; e além difto, o pezo do mercurio he fempre o mefmo, cuja circunf- tancia indica claramente , que na- quella operaçaôd naô ha mais do. que huma vegetaçaô illuforia, e apparente. Por outro modo, e naô fabi- do ainda, fe póde fazer vegetar a prata em breve tempo; para o que tome-fe huma porçaô arbritraria de prata pura , e granulada , e pondo- fe em retorta de vidro forte, por fi ma fe lhe deite o azougue em por- “çaõ De drcbiteélura Civil. 10% çaô dobrada a reípeito do pezo que a prata tinha ; ponha-fe a retorta em fogo de reverbero, e na boca della fe lhe applique hum vafo de vidro, ou barro, com agoa fimples até ametade da fua cavidade inte- rior. Adminiftre-fe hum fogo len- to no principio , e depois fe aug- mente em fórma , que todo o azou- gue paíle por deftillaçaô ao reci- piente. A operaçaô fe faz dentro em duas , outres horas. Ficará a prata na retorta 'fingindo hum ad» miravel boíque compoifto de. arvo= res diverfas , tanto no tamanho , como na figura; em humas partes argentinas, e brilhantes , em ou- tras de hum branco .efcuro; e em outras como de hum pallido: dou- rado. * Affim parece que a natureza fe diverte a illudir os noflos olhos, eá 108 Problema e a nofla arte, moftrando-nos o que naô he , em figuradas, e fingidas reprefentaçoens, à maneira de hum fonho dilatado ; em que entendemos ver mil imagens diferentes , mil ca- fos, e fucceílos raros, fendo. tudo unicamente effeito de huma fanta- fia turbada , e delirante, ou de hu- ma idéa vaporofa, e defordenada. Aflim fe enganaô os fentidos no ef- paço que dura hum fono turbulen-= to; e fe enganad, da mefma forte que os noflos olhos acordados fe allucinaô com objeétos' parecidos, mas nem por io verdadeiros ; tan- to-he: certo, que apenas podemos diftinguir a verdade da illufao , a imagem natural, daquella que naô he mais do que apparente. Ifto vemos naquella vegeta- çaô da prata, em que efte me- tal; incapaz de vegetar, como os * outros De Architeélura Civil. 109 outros todos, e tambem como to- dos os mineraes , toma com effei- to huma fórma vegetante , finge hum prado, hum jardim, hum bof. que; e com taô viftofa fingularida- de, que oartifice fe admira a pri- meira vez que a vê, como Íucce- deo ao expertifimo Grofle alumno da Academia Real das Sciencias de Pariz meu Meftre nos experimen- tos Chimicos , e a quem devo os primeiros elementos daquella admi- ravel arte, cuja memoria me ferá refpeitavel fempre naô fó pelas vir- tudes moraes , de que era ornado , mas tambem pela candidez, e def- interefle com que quiz tomar o tra- balho de inftruirme : foi Alemaô de nafcimento, e o moflrou fer na finceridade do feu animo, imitan- do as qualidades generofas, que (ad proprias, e naturaes naquella eru- diuffi- TIO Problema ditifima naçaô. Recordo-me do il- luftre nome daquelle Academico fa- mofo , cujas obras fazem o feu elo- gio mais permanente ; e neíta lem- brança fundo o faudofo modo de moftrarme agradecido á amizade fiel que fempre lhe devi. Tinha fido o meu intento o purificar o azougue de algumas fe- zes fulphureas, que o acompanhaõ muitas vezes; ea prata me pareceo hum corpo idoneo para aquelle fim; entendendo que as partes Íulphu- reas, e unctuofas do azougue ha- viaô de unir-fe à prata, e que O azougue na deftillaçao pallaria pu- ro. Porém a experiencia defmen- tio o difeurfo ; porque o azougue naô ficou adquirindo mais pureza que aque tinha, ea prata, que fi- cou no fundo da retorta, tomou a figura vegetal, como temos dito ; mas De drchiteélura Civil. 11 mas nem por illo a prata vegetou, como parecia; porque pezada de- pois continha o mefmo pezo fem augmento algum : e fegundo o prin- cipio que temos eftabelecido , nad ha verdadeira vegetaçao , donde naô ha augmento de pezo, e devos lume. Ha outro experimento raro; que indica com mais probabilida- de , que em hum corpo incapaz de vegetar, póde encontrar-fe hum efpirito formador, e femelhante a aquelle, de que refulta a vegetaçaôd. Deftille-fe o azougue doze vezes fobre o eftanho puro de Cornualha; na ultima deftillaçao ficará o efta- nho fundido no fundo da retorta ; efta fe quebre , e fe lime o eftanho. Etfte eftanho limado deitando-fe fo- bre o azougue deftillado, no mef- mo inftante as particulas do metal fe IIZ Problema fe juntad , e formaô muitos corpos Íolidos, e regularmente cubicos. À figura folida, regular , e formada em hum inftante, naô tem exem- plo em outro experimento algum , e parece que denota hum efpirito agente, e vegetante. Os Phyficos poderad indagar attentamente a caufa daquella .configuraçaô metal- lica : eu defeubro a operaçaôd; ou= tros poderãd dar a razaô della, porque eu a naô fei ; por cafuali- dade a encontrei, bufcando outra coufa mui diverfa; agora facile efê inventis addere. Com tudo o phenómeno pro- poíto naô deve perfuadirnos que o eftanho vegete por aquelle mo- do ; porque examinado depois da referida operaçaô naô tem aug- mento algum no pezo, e fica com as meímas qualidades , e proprie- dades De Architeétura Civil. 113 dades efpecificas de hum tal metal; a mudança fó confifte na figura, e naô no pezo , e no volume: e em quanto naô virmos que hum corpo crefce , naô podemos dizer que vegetou ; porque a mudança de figura naô he vegetaçaô ; as partes devem crefcer em volume , e pezo, fem o que naô fe póde afirmar que vegetaraô. Temos vif- to que os metaes naô tem facul- dade vegetativa. Continuemos a moftrar a mefma conclufad a ref- peito dos faes que conhecemos. CAPITULO VI. T Odos os Authores , que efcre- veraô da Agricultura , a ffentad commumente em que os Íaes da ter- ra 114 Problema ra faô os que a fertilizad ; por io dizem que a terra, depois de repe- tidas producçoens, canfa, por lhe faltarem aquelles faes que foi em- pregando nas producçoens antece- dentes , ficando para os mais annos, fendo huma terra ufada, e pouco vigorofa. Porém aquelles faes nun- ca os pude achar, nem ver; e por mais que examinafle com cuidado varias terras, naô encontrei nellas os faes de que fe diz depende a fua fecundidade : talvez que outros fi- zeflem melhor exame ; porém na Phyíica cada hum eftá pelas fuas proprias experiencias, e difcorre fe gundo o que acha nellas. O que de fa£to fe encontra na terra quafi fempre he huma ma- teria inflammavel, e unétuofa; de que refulta que muitas terras ex- poftas ao fogo ardem como o car- vaõ ; De Archisektura Civil. 115 vaô; e o melmo carvad de pedra naô he mais do que huma terra, em que abunda o principio fulphureo, e inflammavel que a faz arder, co- ma denota bem fenfivelmente o chei- ro ingrato , e pouco faudavel do carvaô de pedra. Outras terras ar- dem com menos fortaleza, porque nellas naô abunda tanto aquelle principio inflammavel , que he de donde procede a inflammabilidade do enxofre, e de outros mixtos fe- melhantes. Além difto, todo o fal, de qual- quer genero que feja,he fummamen- te oppofto a toda, e qualquer ve- getaçaô, como facilmente fe póde experimentar; e ifto porque faz fuf- pender as acçoens.ulteriores, a que es corpos tendem naturalmente , ca- mo (ad (além da vegetaçaõ ) a fer- mentaçaà, e acorrupçao; porque Hi todos 116 Problema todos eftes tres movimentos natu- raes ficad como prezos , e fem ac- çaô, todas as vezes que algum fal compofto , ou natural fe junta a el- les: com o que fe verifica que ne- nhum acido he proprio para fecun- dar a terra. Porém fe o acido do ar, de- pois de efpecificado , e corporizado em nitro, he inutil, e contrario a toda a vegetaçaô; com tudo tem vit- tudes fingulares , e efpantofas em outras occafioens, e em outras ac- çoens da natureza. Na Medicina naô fe dá hum melhor refrigeran- te, nem mais benigno, nem mais feguro; e das compofiçoens Phar- maceuticas, que tem por bafe o ni- tro, faô efficazes ( fendo applica- das congruentemente ) o Antiphlo- giftico , ou criftal mineral , cha- mado tambem Sz/ Prunelle. O fal Poly- De Architectura Civil. 117 polycreíto he excellente febrifugo , principalmente nas febres intermit- tentes. O nitro nitrado naô he de menos efficacia nas febres arden- tes. Todas eftas compofiçoens,que nos feus principios foraô achadas, e reveladas em fegredo , depois de fe haverem vulgarizado foraô ef. quecendo de algum modo , ficando menos indicadas na pratica; talvez por naô terem Ífucceilo igual em to- dos os calos , e em todas as occa- fioens; fendo que, fe os mefmos pra- ticos ufaflem de juntar o nitro ás preparaçoens de kina, entaô veriad feliciflimos fuccellos ; e fe ilto he hum fegredo , eu o revelo aqui, fem que me embarace a razaô in- jufta , em que fe fundaô os artiftas quando , para occultarem algumas coufas uteis que defcobriraô , alle- H ii gaô ,18 Problema ga” como axioma aquelle que diz : «drcanum revelaram vilefcit. No artefacto da polvora fe vê hum dos mais poderozos, e fubli- mes effeitos do nitro; o qual imi- tando a luz repentina dos relampa- gos , o ruidofo eftrepito dos tro- voens, o eftrago inevitavel dos raios, moftra fer o agente principal da- quelles corufcantes meteóros, e ló com a notavel diferença de fer a polvora , e juntamente o nitro hu- ma obra das mãos dos homens, e poder fer adminiftrado , e dirigido tambem pela maô dos mefmos ho- mens, em lugar que aqueles phe- nómenos tremendos , os elementos faô os que os compoem, e lhes daô o movimento. Compoem-fe a polvora de nt- tro, de carvaô, e enxofre ; eftes dous ingredientes podem fer fubfti- tuidos De Architectura Civil. 19 tuidos por outros , igualmente in» flammaveis, e de qualidade igual : fó o nitro naô póde fer fubftituido por outro nenhum fal; porque ne- nhum ha, que tenha a fua nature- za, nem que poíla entrar em feu lugar naquella compofiçaõ ; de for- te, que ainda que naô houvefle en- xofre, nem carvaô, fempre pode- ria haver polvora , mas de nenhum modo a pode haver fem nitro. Os Philofophos antigos ; ainda fem conhecerem a qualidade defte fal, chamaraõ-lhe Jupiter fulmi- nante, porque viraô que, eftanda junto a tados os corpos inflamma- veis, ou foflem animaes, vegetaes; ou minerães , em fentindo o ardor do fogo fazia a mefma deflagra- aô que o raio faz. Até que hum Religiofo Chimico (fegundo a tra- diçaô commua ) querendo extrahir H iv do 120 Problema do nitro hum efpirito mais forte, e mais activo, mettendo em retorta os tres ingredientes , eftes apenas fen- tiraô o calor do fogo , quando em acçaô repentina rompendo o car- cere da retorta , fe exhalaraô in= flammados , deixando o Chimico fem o efpirito forte que buícava , e talvez por milagre com o que tinha. Defte phenômeno veio a naf- cer depois a polvora , naô bufca- da entaô, mas achada por acafo ; e por mais que os Phyficos fe te- nhaô empenhado na explicaçaô dos feus tremendiflimos effeitos, dedu- zindo eftes da elafticidade , expan- fibilidade, e incoercibilidade do ar que o nitro tem como comprimi- do em fi; efta explicação he: pou- co intelligivel , porque em todos os mais corpos fe dá hum ar elaf, tico De Architeetura Civil. 121 tico , expanfivel , e incoercivel, fer que em nenhum delles fe obferve o movimento , e acçaô local que o nitro tem todas as vezes, que eftan- do involvido em materias inflam- maveis chega a fentir o calor do fo- go. E aflim de outro principio de- vem de refultar as fuas proprieda- des eflenciaes; e Ífuppoíto que até agora fe: naô tenha defcoberto; o tempo o defcobrirá talvez, & da- bit dies, quod bora negat. Em quanto diícorremos fobre o nitro , juíto ferá dizer que naô ha para que execrar, nem abomi- nar o invento fingular da polvora com o pretexto de fer hum artifício ideado para ruina, e extincçaô dos homens ; porque refpondendo a ef- ta preoccupaçaô vulgar , póde af- firmar-fe com verdade que a pol- vora naô foi mais inventada para ex- tincçad IZ2 Problema tincçaô dos homens , que para a confervaçaôd delles ; aflim como ou- tros muitos artifícios, de que o ufo commum nos faz conhecer o bem; e o abufo nos faz tambem conhecer o mal, - Aquelle, que primeiro defco- brio o modo para dar ao ferro iner- to a figura de hum inftrumento agu- do ; foi tambem o primeiro que en- finou a tirar a vida com aquelle du- rilimo metal: efte na fubltancia he innocente , e ainda na figura pro- pria para o mal: a culpa fó póde eftar na maô que dirige o golpe, naô no inftrumenro que executa. À terra, que produz a rofa faluti- fera, tambem produz o opio ver nenofo; mas quem ha de culpar a terra pela qualidade que tem de fer mãi univerfal? Tudo, o que ha no mundo , he proprio para a vi- da, De Arcintectura Civil. 14 3 da, eparaa morte: ascoufas, que tem huma propenfaô nociva , efta lhes vem mais da applicaçaô de quem fe ferve, que da fua-natus ral malignidade. A vibora mortal he antidoto de fi meíma:: tanto he certo que o bem, eo mal tem a mefma origem , o mefmo naf- cimento , e fe criaô no mefmo berço. O ferro tanto conduz para of- fender , como para defender ; he como hum remedio, que repercúte os feus proprios accidentes ; e tu» do , o que he remedio , he permittis do quafi fempre , em lugar que o impulfo do aggreflor raras vezes tem difeulpa. Que triíte feria a con- diçaô dos homens fem o ufo daquel- le guerreiro , e tambem pacifico me- tal! O mefmo deftino tem'a pol vora ; ella fe ide, tambem de- fende. 124 Problema fende. Louvemos a providencia na- quelle sartificio facil, por meio do qual quiz igualar as forças def- iguaes. Hum homem ainda meni- no, ou já triftemente annolo , ou já valetudinario , e debil , que defe- za póde ter contra o que for robuf- to, mancebo, eforte? Outro de eftatura inferior , e de membros de- licados, como póde refiftr à força de hum gigante ?- Nefte cafo quem vence he a natureza , naô o esfor- go; e o render-fe fica fendo parti- do neceflario : os opprimidos ac- cufariaô juftamente o desfavor do feu mefmo fer; e injuftamente os oppreílores entenderiaô dever á re- foluçad do animo o que fó deve- riaô ao pezo do volume ; fendo que o valor ainda vencido tem mais eftimaçaô , do que o venci- mento fem valor A polvora veio fazer De Archivektura Civil. 125 fazer iguaes , a força a eftatura, a idade. Nos combates grandes ferve a polvora para as mefmas circunf- tancias, para que ferve nos comba- tes particulares ; porque fuccede ás vezes o defenderem-fe poucos contra os aflaltos de muitos: fe fe lerem as hiftorias antigas , ha de achar-fe que os confliétos entaôd du- ravad mais, e eraô mais fanguino- lentos , e nunca fe acabavad fem deftroço univerfal. Depois que a polvora entrou tambem a militar , os combates naô faô .taô obítina- dos ; como fe aquelle artifício hor- rendo fizefle: o furor dos homens mais civilizado : ao menos póde confiderar-fe a polvora como hum inimigo , cuja acçaô he de mais longe; aquele, que eftá perto, he formidavel até pelos fignaes de o em- TZá Problema femblante irado. E com efeito a artelharia bem difpofta , e elcon- dida, em fe deixando ver decide o dia :. os batalhoens contrarios, con tra quem ella fe dirige, faô os pri- meros que baixando as armas , e eftandartes acclamaô a vitoria. Que felicidade de vencer ,' e tambem que felicidade de ficar vencido ! a empenho fe conclue antes que as lanças cheguem: a medir-fe, e an- tes que as eípadas cheguem a to» car-fe. Bem fei que nem fempre fe compra a vitória taô barata ; po- rém bafta que fe compre alguma vez por aquellepreço ; por efte mef- ma a procura alcanfar o Capitaô experimentado.;; e efle he todo o fen-objetto ; porque fá a barbarida- de Grega media pelo fangue a qua- dade das emprezas ; hoje mede-fe pelas De Arcbitebtwra Civil. 127 pelas confequencias que fe feguem, naô pelos eitragos antecedentes; e tem-fe por defaire da vitoria o ha- ver cuftado muito. “Tambem fei que aquelle arti- ficio impetuofo he prompto, e ar- rebatado , e que ainda dura me- nos, que hum abrir , e fechar de olhos ; porém na guerra que im- porta que a morte feja breve, ou efpaçofa ? taô leves fad as fuas amar- guras, para que fe haja de querer tomar-lhe algum fabor? Ao menos o mórrer de preíla he morrer fem dor», ou com muito menor. dor ; porque aflim como nada fe faz fem tempo , tambem fem tempo nada fe fente; e que fe póde .fentir no imperceptivel efpaço de hum imf- tante? O raio quando fere dá tem- po para penar? O accidente mor- tal, que de improvifo chega , deixa os 128 Problema os fentidos com viveza para fentir ? ue infeliz fituaçaô he a de hum Soldado valerofo , quando , ferido mortalmente, ainda reípira; e que fervindo de theatro, ou chad, pa- ra os que vaô paílando , outros ca- daveres fobrepoítos, apenas o dei- xaô palpitar ! Só para adquirir a vi- da eterna póde conduzir hum tal tormento ; porque todo o genero de tormento, fe fe applica bem, con- duz para ditofo fim; ainda que quan- do fe padece, fó por infpiraçaô , e favor celefte póde haver lembran- ça de outra vida que fe efpera ; porque naturalmente quem fe acha agonizando , já eftá morto para tu- do , e até para faber que morre ; entaô o ter dor de haver pecca- do , fó fuccede a aquelles , de quem difle elegantemente, ainda que fa- bulofamente o difereto Mantuano: Quos De Architeélura Civil, 119 OQuos equus amavit - Suppiter, aut ardens evexit ad «tbera virtus. Temos difcorrido fobre os effeitos do nitro na compofiçaõ da polvora: refta-nos dizer tambem as virtudes daquelle mefmo fal a refpeito dos metaes, ou ao menos huma das mais confideraveis. O nitro deftillado por meio dos intermedios competentes, dá o famofo efpirito corrofivo cha- mado efpirito de nitro; e quando o vitriolo, ou a pedra hume ferve de intermedio , o efpirito , que pro- vém na deftillaçaô , he aquelle a que chamamos agoa forte , cuja ferventia naô fó fe eftende ao uío das artes mechanicas vulgares, mas tambem tem lugar quotidiano na pratica da Medicina. Na agoa forte fe funda intei- I ramen- 130 Problema ramente a Docimaíftica, ou arte de enfaiar o ouro. Enfaiar quer di- zer (nos termos daquella arte ) co- nhecer os quilates que o ouro tem, e conhecer tambem os dinheiros que tem a prata; e ifto a fim de fe fa- ber o valor de cada hum deítes metaes, cujo valor he derivado dos quilates do ouro , e dos dinheiros da prata. Da operaçaô do enfaio de- pende aquelle tal conhecimento de forte , que fem o nitro, de que fe ex- trahe a agoa forte , difhcil feria, por naô dizer impoflivel, o faber verda- deiramente, e com exaétidad o va- lor daquelles dous excellentifimos metaes: o exame, que delles fe faz, a que chamaô pelo toque, he con- Jeétural, incerto, e duvidofo , por- que pende mais da perfpicacia , e agudeza da vifta, que de outra al- guma regra certa; e tudo o que depen- De ArchitetiuraCivil. 131 depende de hum arbitrio regulado pelos olhos, he fallivel muitas vezes, porque igualdade naô a póde haver entre olhos diverfos : Ífendo que quando a queítaô he determinar qual feja o valor de algum metal, o mais leve engano [empre induz prejuizo grande; e por iflo às ve- zes naô fe julga bem quanto valo ouro, e quanto a prata val, fe o ar- tita. fó fe guia pelo toque. Devemos pois ao nitro o fer a rimeira , e indifpenfavel bafe em que fe eftabelece , e funda a arte de enfaiar ; a propriedade, que tem o feu efpirito de diflolver perfeita- mente a prata, e deixar o ouro in- tafto, he fómente o de que reful- ta huma taô eftimavel , e util in- vençaô. Porém naô faô muitos os artífices que praticad aquella arte com conhecimento de principios ; Li exer- 132 “Problema exercitaô como por tradiçaô , fe- guindo a fórma que viraô exerci- tar a outros. Vem que a agoa for- te diflolve a prata, e o ouro naô ; mas naô inquirem o porque aflim fuccede. Sabem v. g. que efta agoa forte he debil, e que outra tem a actividade neceflarta; mas faô me- nos curiofos na indagaçaô do fun- damento,porque acontece aflim. Sa- bem o methodo de extrahir da agoa forte a prata diflolvida nella , mas naô examinaô fempre fe a aprovei- taraô toda. Eftas, e outras muitas circunftancias faô com tudo eflen- ciaes , e ainda mais precifas do que podem parecer. Porém fallando finceramente, nad fe póde culpar , nem arguir por modo algum a menos perícia do ar- tifice neíta arte, naô fó porque ha poucos meítres que tenhaô cabal in= telli- De Árchitetlura Civil. 133 telligencia della , mas tambem por- que os meímos metres raramente enfinaô tudo quanto fabem , como fuccede vulgarmente em todas as mais artes que tem os metaes por objecto principal; refervando para fi, e em fegredo o modo de obrar mais facil, e mais certo : a efte mo- do de obrar chamaô os Latinos: Manipulatio, e os Francezes com energia mais fignificativa chamaô a aquelle meífmo modo: Letour de main. Os meftres, que enfinaô por obrigaçaô, julgaô ( naô fei fe bem) que cumprem a obrigaçaô, enfinan- do fó aquillo , de que foraô enfina- dos, e naô o que alcanfaraõ por fi mefmos: Quod accepi , id ipfúm do. Se enfinaô mais do que aquillo de que forad inftruidos , entendem que nefla parte ufaô de huma mera li- Liu bera- 134 Problema beralidade. E além difto, nem to- do o Jurifcunfulto póde faber para enfinar ex Cathedra ; nem todo o Medico fabe diftinguir a enfermida- de que he dificil de curar ; nem to- do o Militar fabe difpôr bem a fór- ma de hum ataque ; e da mefma for- te nem todos os artiftas podem co- nhecer a arte por principios, e pro- fundamente ; a materialidade baíta. Todos, e cada hum nas fuas profif- foens parece que cumprem com aprenderem ; o faber menos com- mumente naô he culpa; devem ef. tudar para faber; porém fe eftudan- do o naô confeguem , ficaô incul- paveis, porque entad o vício he (ó da natureza, naô do Íujeito. O de- lito provém do animo , ainda mais que do faéto do deligto meímo: e tal- vez que o erro fó venha da mali- cia, e nunca da ignorancia ; por- que De Archireélura Civil. 135 ue o mal confifte em fer conheci- E e feito. De tudo, quanto temos pon- derado , a conclufaô para o noílo intento , he, que no ar ha hum acido verdadeiro ; ou feja de qua- lidade nitroza , vitriolica , ou de outra qualquer , fempre he certo que efle memo acido corróe , dif- folve, penetra , e altéra todas as pedras que naô tem dureza capaz de lhe refiftir. Os edificios, que ef- taô nas vizinhanças do mar , ou de outras agoas correntes, ou pa- ludofas , faô os mais expoítos; por io fe ha de ver, que as pedras menos duras , de que os feus muros fe compoem , facilmente contra- hem concavidades, perdendo pri- meiramenre a uniao exterior das Íuas partes, ficando eftas divifiveis, e como pulverulentas, e aflim vaô Liv conti- 136 Problema continuando até que pela fuccef- faô do tempo vem a ficar desfei- tas todas as daquella qualidade. A vizinhança das agoas , enchem a atmofphera vizinha da humidade dellas, e entaô o acido do ar tem hum vehiculo continuo , e proprio que o conduz, e o faz como fub- fiftente nos corpos em que tem acçaô. Naô fó nas pedras fe verifica aquella propofiçaô ; em outros cor- pos fuccede o mefmo , e tem a mefma Íujeiçaô; e no ferro a ve- mos praticada muitas vezes , e mais promptamente que em outro cor- po algum; por iflo para o defen- der do acido do ar, coftuma pin- tar-fe , ou olear-fe o ferro; por- que geralmente toda a materia un- étuofa repelle eficazmente o aci- do, por fer impenetravel a corro- faôd De ArchiteluraCivil. 137 faô mordaz daquelle agente, eim- penetravel tambem a toda a forte de humidade. Daqui vem que o ferro defcoberto , e fem defenfa, mais fe inficiona no tempo humi- do, e chuvofo, que no tempo fec- co; naô porque nefte efteja O ar fem acido, mas porque entaô lhe falta , ou tem menos vehiculo de humidade. Alguns ferros vemos em gra- des antigas, e em fituaçaô perpen- dicular , que tem a parte inferior roida, e reduzida em ponta agu- da, confervando inteira , e illefa a parte fuperior, e com a meíma figura que teve fempre. A cauía defta diferença naô he taô facil de encontrar como parece, ainda que o faéto he certo, e perma- nente, como póde obfervar-fe fa- cilmente nas grades das Tercenas, deita 138 Problema defta Corte ; na figura oblonga , e perpendicular, achaô-fe algumas propriedades que outra qualquer configuraçao, e fituaçad naô tem. Fe bem fabido que o ferro fem artificio algum mais, que o de certo tempo, adquire todas as virtudes magneticas, mas ha de fer naquella mefma configuraçao , e fituaçaô ; de forte que pofto em mafla efpherica, quadrada , trian- gular, ou outra qualquer, já naô adquire nenhum dos dotes fingulares que o Iman tem. Quantas quef- toens, e indagaçoens phyficas po- deriaô excitar-fe , fundadas naquel- le phenómeno vulgar , e fimples ! He vulgar no que refpeita a magne- tizar-fe o ferro; mas naô o he na circunftancia , de que o ferro oblon- go , e perpendicular , fica a Íua par- te inferior mais expoíta à acçaô do ats De Architeélura Civil. 139 ar, do que a parte Íuperior. Dei- xo ao Leitor eftudiofo o cuidado litterario de indagar a caufa. Os edifícios, que eftaô mais chegados às agoas falgadas , faô os que padecem mais , quando faô for- mados de pedra menos dura; por- que o ar mais falino daquellas agoas faz huma atmofphera quafi corrofi- va, emais propria para penetraras pedras em que a falta de dureza fa- cilita a penetraçaô ; por iflo em cer- tos caíos, e em certas enfermida- des he mui conveniente que o in- fermo naô perfifta em lugar mari- timo , e efteja apartado delle o mais que puder fer , porque a exhala- çaô falgada he naquelles cafos co- mo hum veneno que continuamen- te fe reípira, e que faz aggravar o mal confideravelmente. Peg vem que alguns quizeraô inferir que a nau- 140 Problema a naufea que importuna aos que começaô a navegar , procedia do fal do mar vellicando as fibras efto- machaes : porém cuido que injuf tamente fe attribue ao fal do mar hum tal effeito ; porque o mais cer- to he que o devemos attribuir uni- camente ao movimento ondulante das agoas que fe movem ; o qual perturbando de algum modo as par- tes nervolas da cabeça , efta he a que faz comprimir o eftomago, de cuja compreflaô refulta o vomito ; porém deixemos efte: ponto ao Me- dico erudito, para que naô fe diga que em tudo mettemos a fouce em feara alheia. De Architeltura Civil. 14x CAPITULO VIL. À fabrica dos edificios entraô muros , e madeiras ; deítas naô tratamos , porque a prefente difcuflaô fó tem as paredes por af- fumpto : ellas fuftentaô o pezo do edificio; e da fortaleza dellas de- pende a duraçaô ; todas as mais par- tes faô de menos confequencia , e podem fer menos efcrupulizadas fem prejuizo irreparavel.-Os mu- ros devem fer formados com mate- riaes finceros , e naô fophifticados: qualquer ingrediente improprio faz que o muro fique contrahindo hu- ma qualidade caduca , e fempre im- peditiva da fua perfeiçao. O mate- rial inficionado he como hum mal inte- T42 Problema interior, e perpetuo que contami- nando a fubltancia toda, naô póde admittir remedio. Logo veremos o em que confifte aquelle mal. A pedra, com que fe fabrica nefta Corte (exceptuando alguma de qualidade branda , e conhecida- mente má ) he excellente, nem fe póde dar melhor, nem que condu- za tanto para a duraçaô; e fea if- to accrefcentarmos a abundancia della , diremos com razaô que a Providencia quiz favorecernos , an- ticipando a exiftencia , e bondade da pedra para repararmos as ruinas nas occafioens de terremotos. As pedreiras, que contém a ribeira de Alcantara, podem baftar , naô fó pa- ra reedificar-fe huma Cidade popu- lofa,mas para fe edificarem outras de novo. Da melima pedra fe faz a me- lhor cal, cuja força excede a todas; e com De Architeétura Civil. 143 e com efeito, fe fe examinalle a qua- lidade da cal com que fe fabrica em Londres , em Pariz, e em ou- tras muitas partes , achar-fe-hia que nenhuma dellas póde comparar-fe com a noffa tanto em aétividade, como na brancura. Naô he menos perfeita a arêa, nem em menos abundancia ; por- que temos montes inexhauriveis e terrenos dilatados , dunde póde extrahir-fe facilmente aquelle ma- rial indifpenfavel. A aréa, que a “Trafaria tem, he moralmente in= extinguivel. Naô importa que haja de exigir mais cal; porque defta de- pende a liga , ou uniaô dos mate- riaes. Seja embora com mais algum difpendio ; a fortaleza da obra pa- ga tudo largamente. Huma defpe- za maior naô aflombra a quem quer edificar com fegurança, Que dif- golto 144 Problema gofto naô tem o proprietario quan- do logo depois de acabada a obra a vê mal fegura , e defeituola ? No principio todos querem edificar com economia ; porém depois o arre- pendimento he certo; e entaô he que confideramos que, por fogir a alguma maior deípeza , vimos a def- pender mais. A boa economia nad confifte em defpender pouco; mas em naô tornar a defpender na mefma coufa. Seja Íordida a economia na fabri- caçaô de huma barraca, ou de ou- tra qualquer obra humilde ; mas naô deve fer aílim nos edifícios fum- ptuofos ; eftes fazem a decoraçaô das Cortes, e Cidades; e toda a decoraçaô ha de algum modo pro- metter a meíma duraçaô da coufa condecorada. O ornato tranfitorio ou he feminil,ou de theatro. Os tema plos, De Architeélura Civil. 145 plos, as habitaçoens Reaes, osmo- numentos , e edificios publicos , fen- do feios para em quanto durar o mundo , devem fer fabricados neíla intençao. He certo que nefta Corte, e para os edificios della, temos ex- cellentes materiaes ; e fendo aflim, porque razaô os edificios modernos naô tem a duraçaô que os antigos tinhaô? Será por ferem fabricados mal? Tambem naô he por efla cauza ; porque de faíto temos of- ficiaes peritos, architeétos admira- veis que fazem executar tudo com notavel perfeiçao , e fegundo .as regras mais exactas. A obra, verda- deiramente Real, de Mafra., foi huma efcola, ou academia univera fal, de donde fahiraô os metres mais feleétos. Defde aquelle tem» po até o prefente naô tem perdi- K do 146 Problema do nada aquella arte, antes vai fempre florecendo com augmento conhecido , animada pelo Auguf- tifimo Monarca , que a protege. Sendo bem conftante que as ar- tes, e as ciencias protegidas ad- quirem mais vigor, e fe adiantad confideravelmente, a mefma protec- çaô parece que as inípira. Qual he pois o principio infaufto, por- que em tantos edificios naô cor+ refponde a duraçaô a tantas felices circunítancias ? Já diflemos que o fegredo to- do eftá na eleiçaô dos materiaes, e em fe advertir de que importan- cia feja a pureza, e fimplicidade delles. Das pedras já diflemos tam- bem que devem fer aquellas que tenhaô a dureza neceflaria para re- fiftir à corrofad elementar. A pe- dra, que chamaô verdadeira lioz, tem De Architelura Civil. 147 tem aquella qualidade ; outras há, commumente, e injuftamente re- provadas, como faô todos os fei- xos das praias, e humas que pa- recem vidro, e daô fogo fendo to- cadas com o aço. Eltas pedras, que alguns artífices condenaôd dizendo que naô caldeaô por ferem frias, naô merecem femelhante reprova- çaô; porque a frialdade he qualt- dade puramente imaginaria nas pe- dras; e o naô caldearem prompta- mente naô he por ferem frias, mas porque afigura liza uniforme, e de alguma forte regular em todas as fuas fuperficies, faz que a cal naô tem donde pegue facilmente, nem donde faça preza, como faz nas outras. pedras de figura efca- broza e impolida. Porém aquellas mefmas pedras , depois de haver paíflado o tempo conveniente, e K ii depois 148 Problema depois de fecca aagoa , com que a cal foi amaflada, ficam taô exa- Etamente caldeadas, que naô he facil feparar dellas a aréa, e a cal com que fe fabricou o muro. Nem póde deixar de fer ; por- que aquellas mefmas pedras, fendo lizas, e roliças, ficad como mol- dadas entre a cal, e a arêa queas circunvolve por todas as partes igu- almente , em lugar que as outras cujas figuras faô irregulares, em cada huma dellas fe daô varios, e differentes interíticios, donde tem vaons; e eftes, naô eftando cheos, ficaô as pedras menos prezas, e ligadas: e aflim parece que naô he Jufto o reprovar pedras femelhan- tes; quando aliás fad as mais pro- prias para fazer fortes, e duraveis as paredes. Só tem contra fi o fe- rem commumente mais ds o De Arcbiteétura Civil. 149 do que as outras; e por illo leva- rem mais porçaô de material; po- rem por iflo mefmo fazem a obra mais fortificada. Títo fe obferva nos maílames ordinarios , que fe fazem nos tanques para fuftentarem , e vedarem agoa , nos quaes os bons artifices naô querem pedras gran- des, mas buífcaô, e efcolhem as pequenas. Temos vifto a qualidade que as pedras devem ter: paílemos ago- ra á cal, e depois paílaremos tam- bem á arêa, que faô os tres ingre- dientes indifpenfáveis na conftruc- çaô dos muros. À pedra boa ou má facilmente fe conhece ; porque nel- la naô fe exige outra circunflancia mais do que a dureza. A cal de- pende de maior exame. Compo- emfe a cal de pedras, que faô pro- prias para ferem calcinadas; por- K ui «que Iso Problema que nem de toda a pedra fe póde fazer cal. As que faô fummamen- te brandas faô inuteis; as que faô brandas, mas com talou qual du- reza, fazem cal inferior , e parda; e as que faô excelfivamente rias naô admittem calcinaçaô alguma. O diamante , e as outras pedras preciofas naô «fe pódem calcinar ; por mais que o fogo Íeja violento; e dinturno. As partes, de que a na- tureza as fabricou, faô taô umi- das, e compaétas entre fi, que os poros. com que ficarad , fó daô paí- fagem à materia fubtil, e etherea, mas naô aos corpuículos do fogo ; fendo que a calcinaçaô provém de huma certa delunad de partes , caufada pela introducçad violenta, e fuccefliva das particulas igneas , que entraô a occupar os poros, ou interíticios do corpo que fe cal- cina, À pe- De Architetimra Civil. 131 A pedra faxatil tambem naô fe calcina, mas hum fogo conti- nuo, e forte a vitrifica; pot fer repra certa que todo o corpo; que fe vitrrfica nao fe calcina ; e o que fe calcina naô fe vitrifica. Ou- tras. pedras ha que fahem já da terra vitrificadas; eftas' faô total- mente inuteis, e o maior fogo nad as póde reduzir a cal; porque a vitrificaçad he o ultimo periodo a que a natureza chega, e tambem a arte; vííto que depois de hum cor- po eftar vitrificado, ou feja artifi- cialmente,: ou feja naturalmente; nefle termo ' permanece fempre, fem admittir: mudança ou altera- çaô alguma. Ko porém fe entende na ver- dadeira vitrificaçaô, mas naô na im- propria ; porque o chumbo; e o eftanho , depois de vitrificados , fe K iv fe Içã Problema fe lhes junta qualquer materia un- étuofa, e inflammavel;da qual aquel- les metaes tornem a recobrar a par- te pghlogiftita que na fundiçaô per- derad, tornaô a apparecer, ea fer o metal que tinhaô fido. Tito aílim procede nos metaes inferio- res, e em algum dos mineraes, como o antimonio, mas naô no ouro, nem na prata, porque a per- feiçaô deltes metaes os defende fempre contra toda a acçaô do fo- go, e nelle fó fe purificaô ; de for- te, que o fogo , que deitroe tudo » exceptuando o vidro, e as pedras preciofas, que formaô huma efpe- cie de vitrificaçaô natural, deixa illefa a propria fubftancia daquel- les dous metaes; por iflo he axio- ma chimico: Quod facilins fit aurum confiruere » quam defêruere. Os metaes inferiores ie e De Architeclura Civil. 153 fe podem calcinar, e fe calcinad com effeito facilmente, ainda que em imperfeita calcinaçad. O azar- caô naô he outra coufa mais do que o chumbo calcinado , e expof- to ao fogo até que tome a cor ver- melha. O eftanho, e ocobre tam- bem recebem a mefma alteraçaô ; porém a cal deftes metaes, ou ou- tros mineraes 5 de qualquer genero que fejaô, fó conduz para a con- feiçao das tintas, ou outros artes factos Ífemelhantes; e muitas vezes tambem para varios ufos medici naes, chirurgicos, ou mecanicos ; porém. de nenhuma forte para o noílo intento. “Os artífices da cal conhecem muito bem quaes faô as pedras proprias para aquelle minifterio , e tambem as que o naô faô; por iflo efcolhem humas , e rejeitaô a 5 e fe 154 Problema e fe por acafo as que faô improprias fe introduzem com as outras na operaçaô do cozimento , depois ao fahir do forno ainda eftaô na mef- ma fórma com que entrarad ; ape- nas ficaô mais quebradiças do que eraô; mas nunca reduzidas a cal, por mais que o fogo feja activo, e longo. À eftas pedras, fahidas aflim do forno,chamaõ os operarios cruas, para as diftinguir das que fahem co- zidas, ou calcinadas. À fragilidade,que as pedras fa+ xatiles adquirem por aquelle modo, deu lugar ao engano dos que que- tem fingidamente oftentar maiores forças, que as que commumente os homens tem; para o que pondo ao fogo alguns dos mais duros feixos, e depois de excandecidos, ou fei- tos como em braza , os deitaô logo em agoa fria. Eftes feixos ficad con- fervan- De Architelura Civil. gs fervando a fua propria, e natural figura; e quando fe afferece a oc- eafiaô de moftrar a pertendida for- ça, os taes fingidos alentados intro- duzem aquelles meímos feixos , pre- parados antes por aquelle modo ; e pondo qualquer delles fobre hu- ma banca forte fuftentando-o com a maô efquerda , para que o feixo naô chegue immediatamente à ban- ca ; dando-lhe com o outro punho cerrado huma pancada, o feixo fe defpedaça logo ; naô pela força da pancada que recebe , mas porque o fogo, e a agoa fria o tinha. já dif- pofto. para dividir-fe ao menor im- pulfo. Quantas artes. naô bufcad os homens para moftrarem com enga- no , e eftrategema , fuperioridade de força , fuperioridade de enge- nho , fuperioridade de poder! Mas que importa que façaô illufaô aos outros, 156 Problema outros , fe a naô podem fazer a fi? Seria habilidade rara fe a fi mefmos podeflem enganar ; entaô eftando livres da importunidade da confcien- cia propria, que os accufa , a per- fuafad interior lhes ferviria como de hum fonho viftofo , e agrada- vel; fó entaô teriaô goíto de fe imaginarem fortes , fendo fracos ; de fe crerem engenhofos, fendo ru- des ; e de ferem poderofos , fem poder. A pedra lioz he a de que commumente fe faz cal, nos fubur- bios deíta Corte; e a cal que del- la provém , he de excellente quali- dade, como já diflemos : porém os mefmos homens , que a fabricaô, a perdem; naô por ignorancia na ma- nufaétura, mas por evitarem a def- peza, de que a mefma pedra necef- fita depois de calcinada, Bem fa- bem De Architeélura Civil. 1 57 bem os artifices que perdem aboa qualidade daquella cal , mas nem por iÍlo deixaô de a perder ; e iíto porque allim meímo a vendem, e aílim mefmo achaô quem a compre; vejamos o em que confifte a perdi- çaõ. CE E EEE o A re, e a as eme eee um eee er, CAPITULO JX. Bas de calcinada a pedra deve fer pulverizada; porque fo depois de reduzida a pó , he que fica em termos de fer amaflada, ou mifturada com arêa. Efta pulveri- zaçaô fe faz por hum de dous mo- dos: O primeiro he expondo as pe- dras já cozidas ao ar ; aflim que fe tiraô do forno em que fe cozem; nefte eftado as particulas igneas con- 158 Problema concentradas, e como introduzidas por força nos interíticios, ou póros Invifieis das pedras,vaô-fe lentamen- te difpondo , e como pondo-fe em liberdade ; para o que concorre a a humidade do ar que vai fuccefli- vamente occupando o lugar que as particulas de fogo vaôd deixando ; começando fempre eíta acçad pe- las fuperficies das mefmas pedras ; as quaes por efte modo fe pulve- rizaô inteiramente. A mobilidade do ar, e a humidade que contém, faô os agentes infalliveis deíta obra; e para mais a accelerar , fe vai com hum inftrumento , a que chamaô rodo, movendo as pedras de huma parte para a outra, e apartando a que eftá já pulverizada , para que efta naô impeça o contaíto imme- diato do ar nas fuperficies das pe- dras que ainda naô eftaô pulveriza- das. De Architeilura Civil, 159 das. Segue-fe daqui que aquellas pedras , em que o ar naóô tiver con- taéto immediato , refifte ao inten- to da pulverizaçao; de forte, que mettida huma pedra de cal em vafo proprio, que a defenda do ar, ou da humidade, tapado exactame o vafo , conferva-fe a pedra inteira fem divifaô alguma nas fuas partes, e fem perder nada da fua força. Daquelle primeiro methodo naô fe fervem os operarios nunca; naô porque faibaô a razaô funda- mental porque naô devem ufar del- le; mas porque tem outro metho- do melhor , mais facil, e mais prom- pto. Tiradas as pedras da fornalha, e eftendidas , entraô a deitar-lhe agoa por cima paulatinamente, me- xendo fempre as pedras que fe vaô alternativamente desfazendo , ere- duzindo em pó. Efte fegundo meio he 160 Problema he com effeito o mais conveniente, naô fó pela facilidade , e prompti- daô com que fe executa, mastam- bem porque as pedras , pulverizadas unicamente ao ar , perdem quafi toda a Íua força , ficando a cal co- mo huma terra branca, inerte, e fem vigor: em lugar que as pedras, desfeitas com agoa pelo modo re- ferido , daô huma cal forte, e vi- gorofa , e com requifitos neceflarios para com ella fe fabricar fegura- mente. A razaô Phyfica daquella dif- ferença, deve fer tirada do nafei- mento, e formaçaô da mefma cal: efta o que a faz fer cal, e o que lhe dá todas as propriedades que a cal tem, faô as particulas, ou corpuf- culos de fogo entranhadas exaétif- fimameute pelos póros, e interfti- cios das pedras quando fe cozem, como De ArchiteéturaCrvil. 161 como já diffemos ; de forte, que; fe- paradas as partes igneas totalmen- te; o pó da pedra, que chamamos cal, naô he com effeito mais do que huma terra defanimada , e fem efi pirito igneo , e já inhabil para o ufo que deve produzir. Aflentado efte princípio , devemos tambem af fentar em outro, e vem a fer que as pedras quanto mais de prefla , ou repentinamente fe pulverizaô , tan- to mais confervaõ as partículas ig- neas, de que depende o vigor da cal; e pelo contrario quanto mais lenta- mente fe pulverizaô, tanto mais fe diflipaô as fuas partes igneas, que faô as que a fazem vigorofa , e cau- tica. Defta hypothefis fe fegue que as pedras pulverizadas efpaçofamente ao ar;neftefe diflipaõ,e tem lugar, ou tempo pára fe difliparem as parti L culas 162 Problema culas de fogo involvidas nas mefr mas pedras; e as que faô pulveri- zadas com agoa, efta por huma acçaô repentina , e prompta com- prehende , e liga em fi aquellas mefmas particulas, que de outra forte fe haviaô de diflipar, e como evaporar, Nem pareça que as pare ticulas de fogo faô fuppoftas, e fó- mente imaginadas, como muitas vezes fuccede , quando fe quer ex- plicar phyficamente algum phenó- meno, cuja caufa naô he patente, Nem fe duvide da exiftencia daquel- les corpuículos igneos, fó porque fe naô demonitraô vifivelmente; por quanto de muitas coufas fe nad póde negar a exiftencia, ainda que fe naô vejad; e bafta que fejad vif- tas pelos feus effeitos. E no que refpeita á cal, que maior demonf- traçaô, nem mais vifivel fe póde dar De Architeétura Civil. 163 dar dos corpuículos igneos que con- tém, do que o effeito material, e fenfivel, de fazer ferver aagoa, fem intervir outro algum calor, que o da mefma cal? E de que o calor manifeíta a prefença do fogo , ou feja activo, ou potencial, he certo. Por muitos, e varios experi- mentos fe verifica a exiftencia das partículas igneas embaraçadas , e detidas naquelles corpos que tem difpofiçaô para as receberem, e reterem algum tempo , e ainda fem o mais leve indicio de calor; como fe obferva no mimium , chamado vulgarmente azarcaô. Efte he uni- camente chumbo. derretido, e ex» pofto ao fogo até que fique reduzi- do em pó vermelho , ficando de- pois com maior pezo do que tinha o chumbo empregado na opera» Li çaõ; 164 Problema çaô; cujo pezo accreícido torna a diminuir, quando o mefmo azar- caô, depois de reduzido a metal, torna a fer chumbo. Ifto mefmo fe obferva em outros corpos depois de haverem paílado pela acçaô do fogo; e o mefmo fe ha de achar tambem em qualquer pedra, fe fe pezar antes, e depois de calcinada. À compofiçaô chamada Mer- curius precipitatus. per fe, naô he mais do que hum azougue reduzi- do a hum pó rubicundiflimo: do fogo lento, e continuado fem in- terrupçaó , procede aquella cor, e tambem o maior pezo com que fi- ca; porém tanto o pezo, como a cor defapparecem em o Mercurio precipitado tornando a fer azougue por meio da reducçaôd. O oleo de vitriolo conferva fempre, e fem in- dicio exterior ; as particulas de fogo que De drchiteetura Civil. 165 que tem concentradas em fi; e fó por alguns effeitos fe conhece a ex- iftencia dellas no corpo daquelle liquido corrofivo , e cauítico. Quem diflera que hum fogo aétivo podia unirfe eftreitamente, e confervarfe permanente em hum liquido fali- no? E que, naô tendo o vitriolo por fi caufticidade alguma, logo a ad- quire, quando o fogo reduz huma parte delle em efpirito concentra- do ! O mefmo fuccede a outros faes nativos, e ainda com mais promptidaô , e facilidade. E de que as pedras calcinadas, fendo pulverizadas com agoa, con- fervad muita parte do feu vigor (o que naô fuccede aflim ás pedras , que faô pulverizadas pelo ar fó- mente, e fem concurrencia de agoa) tambem he certo. E com efeito as pedras calcinadas podem fer confi- Li deradas 166 Problema deradas em tres tempos; e emca- da hum deftes tem differente forfa : No primeiro , que he logo quando fahem do forno depois de acabada a operaçaô do cozimento, entaô tem as pedras a maior força que pó- dem ter, e a que pódem chegar ordinariamente. O fegundo , que he quando as mefmas pedras fe achaó pulverizadas ao ár, a efle tempo Já tem perdido a maior aétividade. O terceiro, que he quando forad pulverizadas logo com agua , entao tem o vigor precizo, e todo aquel- le, que a boa cal coftuma, e de- ve ter. Defte conhecimento refulta a utilidade no ufo pratico da cal; porque efta, quando he precizo traníportar-fe para partes remotas, donde a naô ha, nem commodida- de para a fazer, he neceflario naô a tranf- De Architelura Civil. 167 a tranfportar em faccos , como fuc- cede ás vezes ; mas devem metterfe as pedras quando fahem do forno em caixoens, ou em barriz muito bem vedados , na fórma que fe pra- tica com outros generos, que he precizo defender da agoa, e da hu- midade. E ifto porque as pedras de cal, que fe tranfportaô em faccos , quando chegaõ ao lugar , para don- de fe encaminhaô, achad-fe redu- zidas totalmente a pó; e neíte ef- tado, fendo o ár, que paíla livremen- te pelos faccos , o que faz a pulveri- zaçaô das pedras ,a cal, que dellas provém, fica inhabil, e debilitada das fuas forças para poder fervir congruentemente ; cujo inconveni- ente he para evitar , fegundo a importancia , e confequencia da obra para que a cal deve fervir; A Phyíica naô fó fe occupa em obje- ly étos 168 Problema étos pompofos, e fingulares; em inveftigar o que fe pafla nas entra- nhas da terra, ou porque modo fe formaô os meteóros na efphera im- menfuravel que defcrevem; mas tambem fe emprega nobremente em aflumptos humildes, e em indagar tudo quanto he util para a econo- mia civil; e talvez que feja mais proprio, e racionavel o apprender a conftrucçaô de huma parede fim- ples, do que enfinar a fórma por- que giraô os orbes celeítes na vaf- ta regiaô do Firmamento. Nefta conformidade devemos aflentar que a cal, para fer per- feita, e para fazerfe com ella edi- ficios permanentes, deve fer def- feita com agoa, e naô ao ar. Os antigos conheceraô bem a regra, que de qualquer leve circunftancia defprezada , naô fó fica fruítrado o effei- De Architetlura Civil. 169 effeito que fe procura , mas tam- bem refulta o contrario efeito, Quem vêa cal desfeita, e já redu- zida em pó , embaraça-fe pouco do modo porque foi desfeita; porque a cal naquelle eftado toda he hu- ma na figura exterior, mas he mut- to diverfa na compofiçad que deve produzir ; e efta diverfidade , ainda na Ífubftancia interior , verifica- fe por muitos experimentos cer- tos. Vejamos alguns exemplos, que comprovaô aquella propofiçao. A cal desfeita ao ar he im- propria para o artefacto do fabãô ; he precifo tomalla ainda em pedra , para a ter com toda a fua força. So- bre aquella pedra calcinada fe dei- taô os faes alchalinos fixos, para que eftes fe liguem com os corpuf- culos igneos da meíma pedra; de- pois ; lixiviando-fe eftes dous in- gre- 170 Problema gredientes , a agoa , que refulta delles , fica com a qualidade neceí- faria para a feitoria do fabãô ; de forte , que fem intervir a circunftan- cia de ler a cal tomada com toda a fua força, naô adquire a agoa, à que chamaô meftra , a precifa aéti- vidade para diflolver perfeitamente a materia cebacea , ou oleofa de que o meímo fabãô fe faz. Daqui vem que alguns operarios algumas ve- zes naô confeguem a perfeiçad da obra que adminiftrad, porque def. prezaõ algumas leves circunítancias, que lhes parecem defpreziveis fem o ferem. Por iflo em outros artefa- £tos acontece muitas vezes achar-fe delufo o artífice, naô confeguin- do o intento que tinha confeguido infinitas vezes; e ilto por falta de obfervancia de hum pequeno requi- fito , que aliàs naô he pequeno, por- De Architeétura Civil. tzr porque delle depende o bom exito da obra. A pedra, a que chamaô infer- nal Alchalica , tambem naô póde fabricar-fe com a pedra de cal pul- verizada ao ar; porque nefte eíta- do (como temos dito ) tem perdi- do a fua maior força , de que aquel- le cauítico neceflita. E da mefma forte para fazer-fe o efpirito vola- til de fal armoniaco , he precifo que a pedra de cal feja pulverizada com agoa , e de frefco, e nad com mui- ta antecedencia. O mefmo fe re- quer para o celebrado Phofphor de Homberg. Para caiar deve fer cal- dada a pedra repentinamente , e em grande quantidade de agoa; por- que toda a cal, depois de pulveriza- da » Já fica ineficaz , e impropria pa- ra aquelle ufo. E de faéto he certo que qual-: quer 172 Problema quer circunftancia leve, e que pa- rece de muito pouca confequencia, he com tudo eflencial em alguns ca- fos; e de ferem omittidas procede o erro de huma operaçaõ aliás bem dirigida. Exemplifiquemos ifto. A fermentaçaô do moíto exige que o vafo, que o contém, tenha na par- te Íuperior huma abertura efpheri- ca, chamada vulgarmente batoque; eíte fe he demaziado , por elle fe diflipaô os efpiritos melhores , e mais fortes; de que refulta ficar o vinho fraco, e de pouca duraçaô ; e ou- tras vezes provém hum liquido fem fabor ,a que os Latinos chamaô va- pa. Se o batoque he mais pequeno que o que deve fer, fegundo a ca- pacidade do vafo, e da quantida- de do moíto que fermenta, entaô, naô tendo o ar ingreflo , e egreflo Jivre , e facil; a fermentaçaô fica im- perfei- De Architetura Cívil. 173 perfeita, e o vinho, que procede della ; fempre'eftá com difpofiçad, e inclinaçaô para mudar-fe , e alte- rar-fe; porque lhe faltaô os efpiri- tos vinofos , de que depende a fua confervaçad. Sero batoque he pes queno exceflivimente , ou fe fe fe- cha de todo: por acafo , ou impru- dencia de quem cuida naquella for- te de trabalho, refulta exploíaô vio- lenta com fracçaó do vafo;ou do to- nel em que o moto eftá, De qual- quer deftas circunftancias , que aliãs parecem. de entidade pouca. pro» xém efeitos (ad diverlos ; e cons traros, CA- CAPITULO X. a FE pois fammamente necefla- Hi que as pedras de cal fejaô pulverizadas com agoa , na fórma que commumente fe pratica ; mas naô com agoa falgada , nem falo- bra, como alguns fazem , e de que fuccede infallivelmente a perdiçaô da melhor cal; porque o fal , intro- duzido nella por aquelle modo , faz perder inteiramente à boa qualida- de della, por fer o fal hum mate- rial improprio , e incapaz de forta- lecer-fe em tempo algum ; vifto que tudo , o que attrahe humidade a fi, impede confideravelmente a uniaõ intrinfeca das partes , as quaes fó fe confolídaô , ou conglutinaô, depois de De Architetlura Cívil. gs de expellida a humidade toda ; mas quando contém algum principio hu- mido , efte fempre eftá fazendo as partes divifiveis , e feparaveis. E fendo aflim, como ha de ti- rar-fe da cal o fal depois de introdus zido nella, e por confequencia in- troduzido tambem na fubítancia da parede? O fal fempre tende a hu- medecer (em quanto conferva a na» tureza de fal); e por mais efcon-» dido , e abforbido entre outros mix tos, fempre fe humedece , e efta ten- dencia natural por nenhum artifício fe lhe póde remover. Poderá dizer-fe que as paredes, que contém fal, fempre o cofpem para fóra fucceflivamente , como fe obferva em huma leviflima lanus gem albiforme, de que as paredes fe reveftem commumente nas fuas partes exteriores, e Íuperficiaes ; e que 176 Problema que aflim pelo decurfo do tempo ficaô as paredes perdendo o fal que contraétaraô por meio da agoa fal- gada ; com que as pedras de cal fe pulverizaraô. Efta objecçaô he me- nos concludente ; porque aquella materia falina , ealbicante , que ás vezes fe manifefta nas fuperficies das paredes, naô he o fal que ellas tem em fi, mas outro mui diverfo que o ar cria. Iífto fe comprova pelo fundamento verdadeiro de que o fal do mar, introduzido por aquel- le modo no groílo das paredes, he hum fal quafi fixo , e decrepitante ; em lugar que o fal, que vemos na parte exterior de qualquer muro , he de qualidade nitrofa, que pen- de para alchalina. E com effeito ha muita diffea rença entre hum fal decrepitante e hum fal nitrofo ; efte deflagra quan- De Architeciura Civil. 77 quando o deitaô fobre o fogo, e intuméce quando propende para al- chalino; aquelle, fe o deitaô fobre o fogo ardente , eftala fucceíliva- mente , e faz eftrepito , e a ilto chamaô os artiftas decrepitar. Só o fal do mar , ou que tenha a fua mefma qualidade, decrepita ; ne- nhum dos outros faes nativos, ou compoftos , tem aquella proprieda- de; e da mefma forte fó o fal ni- trofo deflagra. Aílim fe diftinguem os faes pelos feus caracteres effen- ciaes, e diftinétivos: e da melma forte os mixtos , ou naturaes, ou artrficiaes , tambem faô reconheci- dos pela indole , e genio proprio de cada hum. E aflim quando o ar- tifta vê decrepitar hum fal, julga com certeza que he fal do mar, ou procede delle ; e quando vê de- flagrar outro , tambem julga com igual 178 Problema igual certeza que he nitrofo. Que admiravel arte, que com mais juí- to titulo tem por inflituto o co- nhecer os effeitos pelas fuas caufas, e as caufas pelos feus efeitos , e em que Íó a experiencia tem voto decifivo , e em que as regras, e preceitos naô vem de humana, ou pofitiva inftituiçaô , mas de huma ordem permanente, e indefeétivel! nella naô tem os fyftemas authori- dade alguma , e os fyllogifmos nad concluem quando a prova naô con- fifte em faéto vifivel, e conftante. Efta he a Chimica inftruida , ou Phyfica por excellencia. Além da decrepitaçaô fe co- nhece o fal domar (a que chamad fal commum ) por meio da analyfe ; efta fe deriva da circunftancia , e propriedade , que daquelle fal fe exrrahe hum efpirito Íalino, que, fendo De Architebtura Civil. 179 fendo concentrado , he o verdadei- ro diffolvente do ouro ; e efte me- tal, que regularmente refifte , e per- fifte indifloluvel em todos os ou- tros acidos , cede facilmente ao do fal commum ; e para que os mais acidos o poflaô diflolver he precifo Juntarlhes certa porçaô daquelle fal, ou de fal armoniaco, que he hum falcompofto, e tem por bafe o fal commum. O fal porém que as paredes coípem , he de diverfa natureza, e inteiramente contraria á do fal do mar. Aquelle fal ( como fica dito ) henitrozo, porque deitado fobre a braza, ou carvaô accelo , deflagra e arde como huma eÍpecie de pol- vora, e delle fe faz a meíma pol- vora depois de purificado , e crif- tallizado em nitro; o que aliás fe naô póde fazer de nenhuma forte M ú com 180 Problema com o fal commum, porque efte naô tem a elafticidade que no outro fe confidera : defte fal fe compoem a agoa forte, e de nenhuma forte do fal commum; antes, efte fe por acafo , ou por impureza do nitro fe encontra nelle, ainda que feja em minima porçaô, fica a agoa forte que provém com diverfa qualida- de, e fempre impeditiva da acçaô que deve produzir o mefmo efpiri- to do nitro. Por iflo nas fabricas, em que fe compoem a polvora, primeiro fe purifica exaétamente o nitro, cuja purificaçaô confifte em apartarfe delle qualquer pequena porçaô que poíla ter (e que ordinariamente coftuma ter ) do fal do mar; por- que o nitro , em que fe acha alguma parte daquelle fal, deflagra fem promptidad , e fracamente á ma- neira De ArchitetluraCivil. 181 neira de huma lenha verde, ou hu- mida ; que fe quer queimar; e fe a parte do fal commum he grande, impede totalmente a deflagraçaõ do nitro, a que chamaô os artiftas Detonaçaõ: fuccede tambem infalli- velmente que a prata diflolvida em agoa forte, fe fe lhe deita qual- quer porçaô do fal commum, a prata fe precipita ao fundo do va- fo que contém a difloluçaô; com o que fe verifica a repugnancia, ou differença efpecifica que ha entre hum, eoutro fal. Além de que impropriamente fe diz que as paredes cofpem para fora o fal que tem, porque efte certamente naô fahe do groflo ou fubftancia interior dos muros , mas cria-fe nas fuas Íuperficies exterio- res, a modo de huma vegetaçaõ falina , e filamentoza, e á maneira M ini de 182 Problema de outro qualquer nitro, que todo fe cria na Íuperficie da terra, quan- do acha na qualidade della algu- ma matriz propria para conçentrar- fe, ou embeber-fe o efpiritonitro- zo, que eftá como nadando em to- do o ambito do ár; por cuja razad falando do nitro alguns differaô : Portavit eum ventus in utero. E com effeito as paredes nad cofpem, nem lançaô de fi o fal commum: efte eftá taô ligado, e entranhado com os mais materiaes de que os muros fe compoem , que por nenhum modo fe póde defem- baraçar delles. Ifto fe prova com o efpirito, que fe extrahe daquelle fal; para o que depois de decrepi- tado fe miftura com certa porçad de qualquer terra argiloza, e me- tendo-fe em vafo proprio para a def- tillaçaô, e adminiftrado gtadual- mente De Aribiteélura Civil. 183 mente hum fogo aftivo, naô fe fe- para do fal commum, fenaô huma limitada quantidade do feu efpirito falino , ficando a maior parte delle fem mudança na retorta , donde rezifte immobil ao fogo mais vio- Jento. E fendo aflim ( como he na verdade ) como póde feparar-fe o fal commum fó por fi do groflo da parede, e fahir della , fe ainda hum fogo forte o naô póde reduzir a flo? O fogo he o melhor fepara- dor de todos quantos há; e o cor- po» que fe naô fepara das partes, a que eitá conjunto, por meio daquel+ le agente, naô póde fepararfe fá por fi. Daqui vem que qualquer parede, em cuja cal entrafle agoa falgada , o fal ha de permanecer nella fempre, ou até que a parede fe desfaça , € as agoas a lavem in- iv teira- 184 Problema teiramente extrahindo-lhe o fal que em fi continha ; porque a agoa he o diflolvente natural, e univer- fal dos faes, quando eítes naô ef- taô alflociados a algum principio oleolo , que impeíla a acçaô da- quelle diflolvente: de que fe fe- gue que em toda a parede, expolta a hum fogo ardente , fempre o fal fica confervado, e adherente a el- la; porque fó a agoa he capaz de o defentranhar , derretendo-o , € levando-o comfigo fempre. Com outros mais experimen- tos fe póde verificar evidentemente que o fal, que as paredes cofpem , naô he o fal commum da agoa fal. gada, com que as pedras de cal fe pulverizaraô , mas he outro adven- tício novamente creado nas fuas fi- perficies, e produzido pelo ar am- biente da atmofphera ; e he como huma De Archireétura Civil. 185 huma florificaçad, ou bolor que fe fórma em modo vegetante na fu- perficie de todos os corpos humi- dos. Daqui tambem refulta que as aredes, que contém fal , fempre taó mais humidas do que aquellas que o naô tem ; e.ifto conforme o tempo, e qualidade da eftaçaõ. Aquella mefma humidade attrahe avidamente o fal aereo que fe con- denfa, e toma corpo; porque re- gularmente o fal, e a humidade faô correlativos de algum modo ; e aílim como o fal attrahe a humi- dade, tambem a humidade attrahe o fal, O afucar v. g. em quanto ef tá fecco naô póde crear bolor ; mas fe eftá fummamente humido ou por fi, ou por algum mixto adjun- t0, logo na parte fuperior começa à formar-fe aquella têa an d> 136 Problema fa, a que coftumamos chamar bo- lor; efta naô he mais do que hum principio de vegetaçaô , produzida pelo concurfo da humidade propria, e da humidade do ar exiftente em todo o tempo na vafta capacidade da atmofphera. Por iílo para evitar aquelle bolor defagradavel ( que na verdade he hum principio de cor- rupçaô) o remedio he guardar a coufa, que fe pertende prefervar ; em lugar fecco, e menos expoíto à humidade , como todos fabem. DS e oe remos | CAPITULO XI. Aô muitos os danos , que re- fultaô do fal entranhado nas pa- redes por meio da cal feita com agoa falgada ; ou ainda falobra, como De Archisectura Civil. 107 como em muitas partes fe pratica ordinariamente. O primeiro dano conhiíte em ficarem as paredes com huma propenfaô perpetua para hu- medecerem, naô fó nas fuas fuper- ficies, mas tambem no interior del- las. Efta humidade impede que as paredes poflaô nunca caldear , nem, adquirir aquelle grao de fequidad, que he precifo para ficarem Íolidas, e para fazer de muitas partes ag- gregadas hum fó corpo bem uni- do. Devemos aflentar que a cal; aarêa, e a agoa faô os pregos (cos mo os artífices fe explicado ) que fervem de juntar as pedras, de que hum muro fe compoem ; fe aquel- les chamados pregos forem molles, ou tiverem difpofiçaô para amolle- cerem, e para fe naô feccarem to- talmente, que firmeza póde ter o muro? 188 Problema muro? Os meímos materiaes tam- bem fe podem comparar à cola ; el- ta fetiver difpofiçaô para naô fec- car de todo, como havemos de efi perar della algum effeito perma- nente? A obra grudada naô fica com vigor ; fe naô depois que a cola fécca; a coufa pregada tam- bem naô dura , fe o prego foi defei- tuofo. Temos hum exemplo na fabri- caçaô da telha ; e do tijolo. Eltes compoem-fe de hum barro argilofo , amaçado bem com agoa. Aquelle barro aílim preparado, depois que os operarios lhe daô a figura de te« lha , de tijolo , ou de outra qualquer coufa, entraô a feccalla lentamente ao Sol, até que a cozem na forna- lha, propria para iflo, a fim de ex- pulfar della toda a agoa, e humi- dade ; que tnhaõ entrado no com» poíto. De Architeétura Civil. 189 polto. O cozimento he indifpenfa- vel, e nelle confifte a bondade, ou a perdiçaô da obra. He neceflario que a humidade feja expulfa intei- ramente ; porque , naô o fendo , em chovendo na telha, ou no tijolo, tornaô a desfazer-fe em barro , e lhes fuccede o mefmo que fuccede ao homem por decreto inevitavel : Pulvis es, & in pulverem reverte- ris. De forte, que o barro nad fe conglutina , nem adquire eftado fo- lido, fe naô depois que o fogo faz exhalar delle a humidade toda que fervio a difpollo para tomar efta, ou aquella fórma ; antes diflo eftá im- perfeita a obra, e fó como debu- xada , porque o barro, ainda re- tém huma propenfaô perpetua pa- ra desfazer-fe ; a perfeiçaô depen- de da exaéta fequidad. E por io, fe 190 Problema fe o barro for falgado , ou fe for falgada a agoa com que de prin- cipio fe amaçou , por mais que o fogo o feque, em fe apartando del- le, torna o barro a humedecer de novo em todas as Íuas partes, e ef- tas entraô de novo a defunir-fe , e a perder infenfivelmente a uniad que tinhad, e vem a fer como fe tor- nafle a derreter-fe a cola , oua que- brar-fe o prego. Porém poder-fe-ha dizer que atelha, ou tijolo naô fe desfazem na agoa : ifto aflim he; mas por- que ferá? he porque huma, e ou- tra coufa depois de cozidas perfei- tamente adquiriraô huma uniaõ tal em todas as fuas partes difgrega- das, que já a agoa as naô póde di- vidir, nem apartar. Pelo cozimen- to adquírio o barro differente natu- reza que a que tinha. Antes de co- zido De Architethira Civil. 191 zido exaftamente póde o barro tor- nar a fer o que de antes era; mas depois naô póde retroceder. Às ac- çoens da natureza caminhaô fuc- ceflivamente para hum fer diverfo. A folha de huma planta já naô pó- de tornar a fer humor; o fruto já naô póde tornar ao eftado de ver- dura. O vidro v. g. compoem-fe de hum fal alchalino fixo, e dearêa pura. Eítes dous ingredientes fen- do mifturados , e expoítos algum tempo ao rigor do fogo, vitrificad- fe, e fazem a materia do vidro que vemos commumente. Quem dirá, a naô fer conftante, e bem vulgar o artefato , que hum fal alchalino fixo podefle entrar na compofiçaã do vidro? Aquelle fal, e arêa faô corpos naturalmente opacos ; O Vie dro he clariflimo , e diáphano , e póde 192 Problema póde refleQir os objeêtos por meio da interpofiçaô de qualquer corpo lucido; aarêa, e o fal naô tem fe- melhante propriedade. Que diffe- rença naô vai de hum vidro crif- talno a huma arêa ingrata ! À agoa Forte diílolve a aréa, mas O vidro refifte fempre a toda a actividade dos licores corrofivos. O falalcha- lino fixo contém huma pungentiffi- ma acrimonia; o vidro naó tem fa- bor algum; he infipido totalmente, Para onde foi a acrimonia daquelle fal depois de vitrificado ? Se alguem differ que o fogo foi o que tirou a aquelle mefmo fal a fua acrimonia cauítica, engana-fe; porque todos os faes alchalinos fi- xos , fem exceptuar nenhum , quan-= to mais tempo eftaô ao fogo, e em fufaô , tanto mais fe fazem acrimo- niofos ; e de tal forte, que ainda os faes De Architelura Civil. 193 faes unicamente acidos, excitados continuamente pelo fogo , mudaô- fe para alchalinos, mas nunca de al- chalinos para acidos. Da perfeira uniaô daquelle fal com arêa re(ul- ta o vidro, e defte os ingredientes receberaô , fó pela acçaô do fogo, propriedades contrarias ás que ti- nhaô antecedentemente , e natural- mente, A farinha, depois de cozida em paô , recebe novas propriedades ; e perde as que antes tinha ; era hum corpo fermentavel, depois fi- ca incapaz para nunca mais entrar em femelhante alteraçaô ; a difpo- fiçaô, que tinha para fermentar, fe lhe acabou, e difipou aflim que fermentou huma fó vez. O mofto antes de ferver naô dá na deftilla- çaô nem huma pinga de liquido inflammavel, a que chamamos ef- pirito 191 Problema pirito de vinho; porém depois dê fermentado, o mefmo mofto exhi- be copiofamente aquelles efpiritos admiraveis. Que eftupendas diffe- renças naô notamos no molto fim= ples, e no efpirito que procede delle depois de fermentado ! antes diflo he hum liquido doce, e inca- paz de inebriar; depois de fermen- tar perde confideravelmente aquella doçura natural , e tem aétividade para fobir á cabeça promptamente por caufa dos efpiritos que adqui- rio na fermentaçao ; porém elles mefmos efpiritos que, em quanto ef- taô no vinho, fazem titubear, ow inebriar , depois que fe feparaô delle, já naô tem a mefma força para perturbar o cerebro, nem mo- ver defordenadamente os efpiritos animaes. Aflim he o tijolo, atelha, e outros De Architeétura Civil. 19s outros váfos de femelhante compo- fiçaô. Antes do feu perfeito cozi- mento conferva o barro a pro- penfaô que tem para desfazer-fe na agoa; mas, depois de huma vez cozido , perde aquella primeira qua- lidade ; póde entaô quebrar-fe, mas desfazer-fe naô; conferva a fragi- lidade, naô a deliquefcencia. E he para notar que quando a te- lha, ou o tijolo fahem do forno mal cozidos , já naô tem remedio aquelle mal; porque, ainda que tor- nem para o forno, já mais podem receber o perfeito cozimento que faltava; a remiflãõ, ou intercaden- cia do fogo , faz arruinar a obra; nem fe póde melhorar, ainda que depois feja adminiftrado hum fogo aétivo, e continuado; elte devia fer fuccelivo, e naô interpolado ; por huma mefma acçaô, e naô por u mui- 196 Problema muitas intercadentes. E nelte efta- do ficou o barro , de que a telha, ou o tijolo fe compoem , confervando a aptidaô nativa para desfazer-fe na agoa. O mefmo fuccede na calcina- gaô da pedra; fe nefta, depois de excandecida , o calor remitte, e O forno algum tanto esfria, já da- quella pedra fe naô póde fazer cal, ainda que o calor, que depois vier; feja ainda mais violento , e forte. He neceflario que o fogo feja igual continuadamente , e naô fufpenda a fua actividade; porque fe chega a embrandecer confideravelmente , Já a pedra fica inutil, e perdida para aquelle minifterio. Os artifi- ces conhecem efta regra , porém naô fabem a razaô theorica por- que aflim fuccede ; e para a dar- mos aqui, feria neceflario apar- tar- De Architeétura Crxil. 197 tarmo-nos muito do [ujeito. Só diremos para utilidade com- mua, que toda a pedra que pelo modo referido , fica inutil para a fabricaçaô da cal tambem fica in- util totalmente para a fabricaçaô dos edificios, e geralmente para toda , e qualquer obra; porque a pedra, de qualquer genero que feja, de- pois de excandecida ao fogo , fica mas nunca com a natureza de arêa ver- dadeira. Efta deve fer indiffoluvel na agoa, e deve precipitarfe logo ao fundo della, deixando a meíma agoa clara, e fem fedimento ter- reo na fua parte fuperior. Defte modo fe conhece facilmente a arêa pura; porque a terra derrete-fe de alguma forte na agoa , deixandoa turva por algum efpaço , imprimin- dolhe a cor que lhe he propria, até que De Arcbiteciura Civil. 63 que fazendo aflento fobre à arêa, moftra diftinétamente o que he ter- ra na parte Íuperior; .e na parte in- ferior o que he arêa. Efta como mais pezada affenta logo; a outra como mais leve fultenta-fe mais al- gum efpaço incorporada na agoa , até que tambem fe precipita fobre a arêa, em fórma de polme, ou li- mo “terreo. mA arêa nunca muda de figura , nem de confiftencia na agoa ; as fuas particulas naô fe dividem, e fempre confervaô a fua meíma fór- ma, e naô occupaõ, mais nem me- nos efpaço de lugar ; naô endure- cem fó por fi, ainda depois de exhalada a humidade toda. Em lu- gar que a terra admitte huma tal, ou qual confiftencia dura, por meio de hum calor proporcionado; mas nunca dureza lapidífica, como fuc- cede 64 Problema cede á arêa depois de unida com a cal por meio da agoa , e fem in- tervençaô de calor externo artificial. Daqui vem que a terra depois de endurecida fica confervando a ap- tidad para embeber a agoa , e pa- ra a reter em fi; a arêa pelo con- trario, depois de endurecida com a cal, fica impenetravel á agoa, e a repelle vigorofamente, como fe fofle hum corpo fem póros , ou com póros taes, em que a agoa fe naô pó- de introduzir com facilidade. Além difto, a terra depois de amaçada com aagoa exaétamente, qualquer calor a faz abrir, e de tal forte, que já mais fe póde fazer obra com a terra Íó por fi; porque ou ella fende logo com o calor do ar, ou na fornalha, em que fe coze, faz aberturas fem remedio; por if- fo aarte de trabalhar o barro con- fifte De Architelura Crvil. 65 fifte no temperamento , ou na mif- tura das terras areofas ; porque a arêa ferve de as ligar, e impede de algum modo a divifaô das fuas par- tes; e ainda neíte eftado he pre-: cifo fempre que o calor, que as fec- ca, feja muito moderado no princi- pio, e que a humidade fuperflua fe evapore antes que a obra receba na fornalha o (eu ultimo cozimento. Nas terras fortes dos campos, e dos montes, tambem fe obferva o mefmo inconveniente ; o calor do Sol intenfo faz elas profundas aberturas ; de que refulta menos fertilidade ; porque pelas mefmas aberturas fe exhala a maior parte da humidade que deve fervir de nutrimento ás plantas. Daqui vem que o bem inftruido agricultor naô coftuma cavar femelhantes terras em annos feccos , fó por naô dar Part. IH. E lu- 66 Problema lugar a que mais facilmente fe dif fipe a humidade , ou gluten nu- tritivo; de que provém ficarem rai- zes aridas , e delcobertas , e por confequencia mais expoftas aos ar- dores da atmofphera. Nefte cafo, a concreçaô , ou codea compacta que fe fórma na fuperficie daquel- las terras , ferve para reter a fref- eura , ou lentura , que ellas con- tém no feu interior ; e impede a to- tal diflipaçaô da humidade glutino- fa, e vegetante, Bem he verdade que he preci- Ío cavar a terra, para que neíta fi» tuaçaô pofla receber melhor a mef- ma humidade de que toda a vege- taçaô depende , e fem a qual toda a terra he como morta, e infecun- da. Porém efta regra geral ( como todas as outras ) padece largas li- mitaçoens. À eftaçad , e tempera- tura De Archizeélura Cívil. 67 tura do anno, a qualidade da ter- ra, fazem que o agricultor mude de fyftema a cada paflo. O racio- cinio Phyfico naô confifte fó em feguir as regras univeríaes , mas tambem em fe afaftar dellas quan- do a occafiaô o exige ; por iflo mui- tas vezes acerta mais quem fabe menos. A natureza quafi fempre fe- gue as fuas regras , naô as que os homens lhe querem pôr; eftes per- turbaô-lhe as fuas producçoens quando entendem que as melhoraô. O beneficio da cultura ás vezes he perniciofo ; porque no tempo naô. ha regulaçaô , nem principios cer- tos, mas fempre incertos , e falli- veis. Quem diflera que o promover a fertilidade por meio de materias putrefactas , he prejudicial ás ar- vores quafi todas, e príncipalmen- E u te 68 Problema te às vinhas? eftas que fem contra- dicçaô fazem hum dos mais ricos prefentes que a natureza nos faz abundantemente, defgoltad-fe da- quelle modo de as incitar para pro- duzirem mais; e quando por aquel- le modo produzem com mais for- ça, o fruto fempre vem degenera- do em qualidade, e os vinhos in- fipidos , e fem graça confervaô fem- pre huma certa propenfad para mu- darem , e para tomarem hum fa- bor eftranho , e defagradavel. Quem diflera que a abundancia de vigor efteriliza as arvores de fruto, e que para as fazer fruétificar he precifo diminuirlhes. o vigor, diffipando as raizes principaes ? Ex abundantia vigoris inopia fruétus. Inopem me copia fecit. Que outra coufa faz a fabia Medicina em muitos , e di- veríos cafos, fe naô diminuir o de- mazia- De drchiteciura Civil. 69 mafiado alento do homem egrotan- te, por meio da fangria indicada quafi fempre; feguindo o axioma, ou aphorifmo verdadeiro, de que he melhor diminuir as forças, do que-deixar morrer o enfermo com todas ellas? .E aflim naô he parado- xo o fuftentar, que para confervar a vida, he necellario tirar alguma porçaô della. CNAS — Diffemos aíflima que o faibro he huma, arêa imperfeita que tem portbafe hum certo genero de ter- ra, Ífegundo a qualidade de que o faibro he ;:e por iflo todo o faibro he. improprio. para” a. conftrucçaõ dos muros. Efta propofiçaô fe, ve- rifica pela propenfad que o faibro tem para vegetar todas:as vezes que a agoa tem nelle accéflo livre. Ifto obfervamos bem vifivelmente em quafi todos os telhados; os Part. II. E ui quaes; ÁS) Problema quaes, paflado algum tempo de- pois de fabricados , entrad a vegetar diverfas hervas, de que commumen- te os telhados fe cobrem dentro de alguns annos. Aquella vegetaçaõ denota a exiftencia actual de huma verdadeira terra introduzida no fai- bro, ou na arêa com que a cal foi amaílada. As mefmas hervas dei- tando raizes fubtiliflimas , e fortes, apartaô a mafla de cal, e arêa, fazendo nella varias aberturas por onde paflaô livremente deftruindo , ou arruinando aflim a mefma maça que ferve de conter as telhas, e de as ter em modo que façaô co- bertura regular. As paredes fabricadas com aquelle faibro, ou com qualquer arêa terroza , tambem vegetaõ nas Íuperficies que ficaô expoftas ao ar, e à humidade exterior, brotando huma De Archizetura Civil. Z1 huma efpecie de mufgo pardo, ou verde efcuro que as faz deformes, e mal configuradas. Nas partes po- rém , donde coltuma fabricarfe com arêa pura, qual he a que fe tira das margens ou alveos dos rios, depois que as agoas feccad, ou di- minuem, nunca fe haô de ver nos telhados dos edificios femelhantes vegetaçoens: por iflo as cafas de campo (aô duraveis commumente, ainda aquellas que faô menos habi- tadas; e ifto naô fó porque a cal fempre he desfeita, e amaçada com agoa doce naquellas partes , mas tambem porque as aréas cof- tumaô fer mais puras. Bem fei que ha faibros excel- lentes, e que tem os mefmos do- tes que a melhor arêa ; porém faõ rarillimos os que fe encontraô da- quella qualidade; porque o mais E iv com- 72 Problema commum he ferem affociados com mais ou menos porçaô de terra; e fegundo as proporçoens defta, e fegundo a fua indole, e cor, re- fulta a diferença que ha na cor, e qualidade particular de cada hum dos faibros. Aquelle, que tiver mais terra, he certamente o mais im- proprio; o que tiver menos , he menos mao; e o que tiver muita he reprovado totalmente. Já difle- mos que o méthodo breve , e facil para examinar a aréa , confiftia fimplefmente em a deitar na agoa ; e que aquella que logo defce ao fun- do, fem deixar tintura alguma na agoa; nem fedimento terreo, era a melhor; e à proporçaô da mais ou menos cor que a agoa recebe logo; e juntamente do mais, ou menos fedimento terreo que reful- ta, he que deve julgarfe da bon- dade De Árcbitelura Civil. 3 dade efpecifica da arêa; eiflo pelo principio certo, de que a arêa pura nem deixa fedimento algum, nem imprime na agoa a menor tintura, Todos os architeétos conhe- cem bem efta verdade pratica; po- rém nem todos podem ufar della ; porque fabricad à vontade do pro» prietario, e naô á fua: entendem perfeitamente o que he melhor ; porém o feu entender he tomado -ás vezes por hum efcrupulo pouco neceflario , e impertinente: o pro- -prietario fempre quer a arêa que leve menos cal; e quer aquella cal que he de menos preço; e que os materiaes fejad aquelles que eitaô “perto, e de que o traníporte feja menos difpendiofo. Eftas condições raramente fe conciliaô com a bon- dade, e fortaleza da obra; e como eita naô falla fenaô depois de arrui- nada, z4 Problema nada, fó entaô conhece o fenhor della a trifte confequencia de huma mal difpofta economia. Nas cidades populofas, e ma- ritimas, os fornos da cal ordinaria- mente fe conftruem á borda do mar; eaagoa, com que alli fe der- rete a cal, ouhe a meíma do mar, ou de poços de agoa falobra, que naquellas vizinhanças fe encontraô facilmente. A conducçaô dos ma- teriaes precifos para. aquella fabri- ca, e principalmente a lenha ne- ceflaria, faz efcolher aquelles lu- gares com pteferencia a outros qua- efquer; porque tudo o que fe póde tranfportar por rios, ou por mar, he fem duvida mais facil, mais breve, e de menos cufto. Ifto obfervamos todos nos for- nos aflentados junto ao mat ; à agoa, com que nelles fe pulveriza a pedra De Architeétura Civil. 75 pedra depois de calcinada , ou he falgada inteiramente, ou he falo- bra. Que edificio fe póde fabricar com femelhante cal , ou que per- manencia póde ter o muro em que o fal entra por aquelle modo ? Cor mo fe ha detirar o fal depois de entranhado intimamente na parede? E defta que duraçaô ha de efperar= fe, fe o fal he hum dos feus in- gredientes ? Logo aos primeiros dias, de- pois de levantado o muro, vemos. ao pé delle cahida a cal, e aarêa que eftavaô mais fuperficiaes; efta he a primeira prova do defeito, e que para manifeftar-fe nad neceffi- ta muito tempo. À cal falgada, e a arêa barrenta nunca podem unir- fe, nem fazerem corpo fubfiftente; e todas quantas vezes aguelles dous materiaes fe puzerem nas fuperfi- cies 76 Problema cies lateraes do muro, tantas ve- zes os havemos de ver cahidos, e eftendidos fobre o chad em todo o prolongo delle. sado A mefma defuniad, que fe dá naquelles materiaes quando eftaô nas fuperficies das paredes , tam- bem fe encontra no interior dellas. E com efeito: fe fe defmanchar. al- gum pedaço de huma tal parede , havemos de achar a cal, e arêa fem uniaô alguma ; faceis em fe desfa- zerem entre os dedos , e fem pro» penfaô para aquella efpecie de pe- trificaçaô , que devem adquirir na- turalmente para poderem ligar, e conter fortemente as pedras en- tre fi, Aquella defuniaô de partes fe obferva bem,ainda que infauftamen- te, nas occafioens dos terremotos ; porque o impulfo da terra , que pe a De Architetura Civil. 57 la primeiramente os muros , moe a cal, e aarêa comprehendidos nel- les; e quando o muro fe precipita, vê-fe huma nuvem efpefla, e bran- ca compofta da mefima cal, e arêa, que reduzidos em pó Íubtil pelo movimento extraordinario, cobrem, e offuícad o ambito do ar vizinho: Tudo denota imperfeiçad na cal, e imperfeiçaô na arêa; porque ef- tes dous materiaes, fendo como de- vem fer., depois de eftarem uni- dos algum tempo , tomaô huma dureza quafi lapidifica , e naô ad- mittem facilmente o ferem reduzi- dos em pó ; antes ( como aílima já diflemos ) quando fe quer rom- per o muro, he mais facil confe- guillo quebrando as pedras, do que defapegando dellas a arêa , ea cal que as liga; e fea parede cahe por algum movimento eftranho , e vio= lento ; 78 Problema lento, nunca a cal, ea aréa fe pul- verizaô totalmente, mas cahem co- mo fe foflem tambem porçoens de pedra , e fem deixarem o ar inficio- nado de huma poeira importuna , e muitas vezes foffocante. Devemos pois formar-nos huma idéa , ou fyítema certo, de que nenhum muro póde fer dura- vel, e em fórma que pofla refiftir mais algum tempo ao movimento irregular da terra, fe na fua conf trucçaô entra fal por algum modo; ou tambem fe de alguma forte en- tra terra , ou barro : efítes mixtos faô contrarios á intençaô de quem fabrica; porque em entrando qual- quer delles, a maça que refulta ha de fer precifamente fragiliffima , pouco compacta , e pulverizavel fa- cilmente; qualquer deítas circunítan= cias induz fraqueza , e debilidade no compofto. Te- De Archirectura Civil. 9 Temos dito que nos fornos; em que a pedra fe calcina, e que fubfiftem junto ao mar, coftumad os operarios pulverizarem a pedra, depois de calcinada, com agoa do mefmo mar, ou com agoa de po- ços falgados, que fempre fe defco- brem, e fe achaô em fe abrindo qualquer poço junto ao mar. Por razaô defte meímo aflumpto , naô ferá fóra de propofito o do nef- te lugar alguma digreílaô a refpei- to de alguns poços, e fobre mate- ria ainda naô obfervada , e naô tos cada talvez pelos Efcritores. CESAR ATE TEES eccpeteaão [EE O [TR CAPITULO VL N Efta Inclyta, e Real Cidade de Lisboa , e vizinhanças da rua 80 Problema rua das Janellas Verdes, achad-fe alguns poços cavados na rocha que difcorre pela parte fubterranea da- quelle deftriéto todo, os quaes to- maô agoa abundantemente à pro- porçad que a maré vaza; e perdem a mefma agoa á proporçad que a maré enche. Efte phenómeno he hum facto permanente que póde fer examinado , e vifto todos os dias naquelle fitio ; de forte, que da exif- tencia delle naô fe póde duvidar ; a duvida fó eftá na caufa de que procede hum phenómeno taô raro. Que os poços, que ficaô junto ao mar, fe regulem pelas marés pa- ra terem agoa quando a maré en- che, e para a naô terem, ou te- rem menos, quando vaza, parece que he coufa natural, e em que naô ha razaô alguma que deva cau- far admiraçaô , porque facilmente pode- De Architelura Civil. 81 podemos perceber que as agoas do mar fobindo occupaô os meatos da terra, de donde (e communiquem ao vaô dos poços , maiormente fen- do immenfa a força daquellas agoas tanto na acçaô de fobir, como de baixar. Porém o Íucceder o contra- rio pofitivamente ; ifto he, que os poços tomem agoa quando a maré vaza, e que fiquem fem ella quan- do a meíma maré enche , he calo raro, que merece indagaçaô. He de advertir mais que aquel- les poços naô tomaô, nem largaõ a agoa, que recebem , fubitamente, mas lentamente , e fempre á pro- porçaô que a maré vai enchendo , ou vai vazando : os poços, que faô profundos confideravelmente, nunca fe feccaô de todo , e ficaô confervan- do nos Ífeus fundos huma tal, ou qual porçaô de agoa ; os que tem Part. II. F huma 82 Problema huma cavidade ordinaria , feccad» fe inteiramente quando a maré che ga ao preamar. Pela regra com- mua, e obfervada commumente, to- dos os poços , que tem communica» çaô com o mar, tem mais agoas no preamar , e muito menos no bai» xamar , e neíte faô menos falo- bras as fuas agoas , e naquelle faô mais falgadas. Aquelles pos ços porém, de que falamos , fe» guem conftantemente hum movie mento contrario. “ Accrefce que na occafiad do terremoto'do primeiro de Novem- bro de 1754. ouvia-fe, em che- gando a aquelles poços, hum rugi- do continuo, e elpantofo , que fa- zia promptamente retirar aos que eftavaô junto a elles; e ainda no tempo , em que aterra naô tremia, perfiftia o mefmo rugido fubterra- neo ; De Architeetura Civil. 83 neo, porque naô tinha intermiflad; e ilto á maneira do eftrepito que coftuma fazer hum mar tempeítuo- fo: o Poeta o defcreveo em outro calo ; quando diffe : Tremere omuia vifa repente » Liminaque, laurusque Dei; totus- que moveri Mons circum , ds mugire aditis cora tina reclufis Ecce autem primi fab lumina folis ds ortus Sub pedibus mugire folum, & juga capta movers Sylvarum » vifegue cones ululare per umbras. Sape cavas motu terre mugire ca- vernas, F u De- 84 Problema Depois que a terra ceflou de tre« mer inteiramente, tambem veio a ceflar o medonho eftrondo daquel- les poços , tornando a entrar regu- larmente na acçaô de receberem agoa á proporçaô que a maré vaza, e de a perderem quando enche. Naô fe obfervou porém, ( que eu faiba) fe o eftrondo referido prece- deo ao terremoto , ou fe fó lhe fuc- cedeo depois ; porque, fe obferva- da foíle, e bem verificada a prece- dencia , teriamos hum fignal certo, ou ao menos provavel, para conhe- cer, ou prognoíticar hum terremo- to futuro, e imminente. Os homens feriaô mais felices nefta parte , fe podeffem de algum modo vaticinar os feus perigos ; e nefte calo ca- da hum daquelles poços feria hum oraculo verdadeiro, e natural, No Molteiro de Odivellas da Ordem De Architeétura Civil. Bs Ordem de S. Bernardo, fe adver- tio , que na veípera do fobredito terremoto feccou a agoa, que vin- do de fóra encanada corre em hum magnifico lago que aquellas Reli- giofas tem na Íua cerca, (obra da muito religiofa Madre Dona Luiza Maria de Moura, tres vezes Ab- badefia naquelle efclarecido, e Real Motteiro ; as fuas virtudes Ífaô co- nhecidas nefte Reino, e o feu no- me he digno de que aqui fe faça memoria delle ) e depois de haver eftado dous dias fem correr , come- çou a vir muito pouca agoa, até que fe poz na quantidade coftuma- da. Efte faéto foi notorio, e ob- fervado por muitas Religiofas , por fe fervirem , e ufarem daquella agoa continuamente. Daqui fe infere, que algumas vezes podemos predi- ger algum fucceflo impremeditado , F iu eraro, 86 Problema etaro, mas (empre por anteceden- cias naturaes, e por fignaes conhe- cidos, e obfervados antes. Porém com que principio phy- fico havemos de explicar a natu- ralidade de que hajaô poços jun- to ao mar, que tomem agoa nas vazantes, e a larguem nas enchen- tes? Por mais que queiramos idear meatos fubterraneos', proprios para aquelle fim , nenhum poderemos facilmente excogitar, do qual re» fulte hum tal efeito: tudo quan- to imaginarmos , ainda com vio- lencia, ou repugnancia do entendi- mento, naô nos ha de perfuadir, nem contentar; nem ainda admit- tindo as fuppoliçoens mais força- das, e menos bem fundadas. Con- duétos extraordinarios, tubos ca- vernofos, agoas da terra encontra- das com as do mar , impulfaô de humas , De Árchiteclura Civil. 87 humas., e repulfaô de outras, na- da difto ha de fazer que os poços tomem agoa nas vazantes, e a vaô perdendo à proporçaô que as agoas do mar. fobem. O faéto porém he certo; e tambem he certo que ha huma razaô , ou principio phyfico, porque aílim Ífuccede, e de que procede naturalmente. . Aquelle principio ou razaõd phyíica depende de mais larga, e mais difcutida explicaçaô ; porque ; fabida a caufa daquelle phenómeno dos poços, tambem ficará fabido (ao meu parecer ) qual he a caufa dos terremotos ; qual he a caufa do fluxo , erefluxo do mar ; e qual he a caufa dos ventos. Cada huma deftas tres queítoens (que tanto tem exagitado os maiores enge- nhos fem terem achado ainda al- guma demoftraçaô palpavel, com Iv que 88 Problema que fazerem provaveis, e intelli- giveis os feus fyftemas) talvez ne- ceflitavad da exiftencia de hum fa- éto permanente, e bem verificado para darem o verdadeiro conheci- mento daquelles tres problemas in- trincados. E com effeito a caufa dos ter- remotos, a caufa do fluxo, e re- fluxo do mar, e a caufa dos ven- tos, tem fervido de tormento a todos os Philofophos; porém tudo: quanto vemos expendido , faô con- Jecturas confufas, e fuppofiçoens admittidas, e naô provadas; fen- do que todo o fyftema he incerto, é duvidofo em lhe faltando o requi- fito da clareza ; e efta deduzida em fórma, ou fundada em prova taô natural, e facil de perceber, que o entendimento fe convença della, eareceba fem força ; mais por ap- pro- De Architeélura Cívil. 89 provaçaô, intelligencia , e acquieí- cencia propria, que por fe fubmet- ter à authoridade do author que ideou o fyftema. Algum dia (fe a vida lá chegar ) moftrarei com aquella evidencia de que a materia he fufceptivel, a razaô porque as agoas do mar fe movem; a razaô porque ha ventos; e a razaô por- que a terra treme. ER Trem | ce te me PERO [O CR pre ——— as mem a CAPITULO VIH. Ornando ao modo de edificar (que he o noflo principal af- fumpto 3 já diflemos que nenhum muro póde fer folidamente fabrica- do, fe na fua primeira compofiçaô entrar terra, barro, ou fal. E com eífeito eftes tres ingredientes faô os 9o Problema os inimigos capitães da perfei- çaô de qualquer obra, nad fó quando todos fe achaô conjunta- mente, masainda feparadamente , e cada hum por fi: e quando to- dos os tres fe encontraô , he inutil o efperar duraçaô alguma no edi- ficio. O fal, de qualquer genero que feja, fempre tende a humedecer ; e a terra, ou barro, ainda fem fal que os humedeça, e ainda que fa- çaô hum corpo duro quando fec+ cad, qualquer movimento os pul- veriza; e nunca podem reduzir-fe a aquella efpecie de petrificaçaõ , que he donde refulta a fortaleza das paredes. Tambem diflemos que a pe- dra depois de calcinada deve fer desfeita com agoa doce , e naô fa- lobra; nem do mar (como ordina- riamente fe coítuma ) cuja opera- a çaõ De Árchiteétura Civil. 91 çaôd deve fer feita por hum aéto continuo , e como repentino ; por- que a pedra de cal, desfeita por fi mefma ao ar, ou por huma afper- faô de agoa efpaçofamente prati- cada, fica fendo hum pó inerte, fem efpirito, nem vigor para po- der petrificarfe com a arêa, e unir- fe eftreitamente com a pedra crua de que o muro fe compoem : nem he para admirar que aquella opera- çaô fe deva fazer fucceflivamente , e fem mais interpolaçaô de tem- po, que oque he precifo para: fe hir pulverizando a pedra calcinada; porque outras muitas operaçoens ha que dependem da meíma prom- ptidaô, e que deita refulta o ef- feito procurado ; é naô correfpon- dem à intençaô do artifice, fe fe lhes applica huma acçaô vagarofa ; ou hum tempo de defcanfo. Pelo 92 Problema Pelo contrario tambem ha ou- tras operaçoens, que exigem ne- ceflariamente defcontinuaçaô. A fermentaçaô v. g. de todos os lico- res fermentaveis querem defcan- fo, e immobilidade. Ifto fe vê no moito , o qual quando as fuas par- tes entraô na acçaô de fermentar, he precifo naô as mover, e deixal- las fó com o movimento inteftino que naturalmente tem; outro qual- quer movimento exterior , e Íuc- ceflivo impede a fermentaçaô , e a producçad de elpiritos inflamma- veis, A corrupçaô dos vegetaes tambem fe faz em focego, e len- tamente ; por iflo toda a quantida- de de hervas, ou arvores verdes, accumuladas humas fobre as outras, vaô apodrecendo de vagar; porém, fe as moverem de huma parte para outra De Architekiura Civil. w% outra continuadamente , céfla a pu- trefacçaô ; porque o ar, que fe in- troduz entre ellas, ao mefmo tem- po que as fecca diflipando a hu- midade Ífuperflua, tambem diflipa todas as partes aétuolas , e putrefa- étiveis. Daqui vem que o trigo, e “outras fementes vegetaes neceflitad de movimento para fe conferva- rem; o defcanfo, ou:immobilida- de brevemente os corrompe , e altéra: A humidade, e o calor faô os dous principios de corrup- çaô. O movimento externo, ein- troducçad do ar Íuffoca aquelles dous agentes. Ainda as partes dos animaes mortos, prefervao-fe al- gum tempo de corrupçaô, quando fe expoem na fituaçad de hum ar fecco, e ventilante; o fumo os pre- ferva da mefma forte ; menos na a 94 Problema fal acido volatil que exhalad os ves getaes queimados, e que infeítad os olhos dos que fe expoem a elle, que pela qualidade que o fumo tem para feccar, e apertar. E aílim hum ar fem movimento corrompe., e hum ar com mobilidade preferva ; he o mefmo ar, porém a acçaô delle naô he a mefima. | - —Aquellas alteraçoens fazemfe progreíliva , e lentamente, naô com precipitaçad ; porque (como fica dito ) a natureza naô fe ferve de huma ordem fó de obrar; em cada coufa obferva hum certo mo» do, e hum certo tempo; em hu- mas neceflita prefla, em outras va» gar; em humas quer interpolaçaôs em outras a mefma interpolaçaô lhe ferve de impedimento. Os metaes; e mineraes, para fe formarem, ne- ceílitaô Íeculos; os vegetaes em pouco De drcbitetura Civil. os poucô tempo recebem a fua ultima perfeiçao; os animaes nad tem o caminho taô curto, e querem an- nos. Os mefmos orbes celeftes nad abfolvem os feus periodos igual» mente; huns caminhaô mais de pref- fa, outros mais lentamente. Satur- no percorre o giro da fua orbita em trinta annos; Jupiter em doze ; Marte em dous; Venusiem oito mezes; Mercurio em tres, feguin- do a direcçaô do Occidente para o Oriente. Os corpos;! que exigem mais tempo para fe acabarem de formar inteiramente, faô os que perma- necem mais. O ouro, a prata, as pedras preciofas, eas que faô con- fideravelmente duras, requerem fe- culos para ficarem perfeitamente formadas : por iflo Ífaô poucas aquellas producçoens ; porque Fe o vó “Problema do quanto a natureza cria lentai mente he raro; e he mais com- mum tudo o que produz em menos tempo ; porém ficaô incorruptiveis, e capazes de durar , talvez até o fim do mundo. Os animaes, que re- querem annos , no eípaço de al- alguns annos fe corrompem. Às ar- vores duraô mais, ou menos tem- po» á proporçaô daquelle que gaf- taô em crefcer : os cedros do Liba- no vegetaô de vagar, mas por iflo duraô muito mais do que o falguei- ro viçofo , e apreílado. As flores, que nafcem quafi de repente, tam- bem quafi de repente acabaô, Em tudo fe acha huma certa compen- façaô entre o nafcer, e o acabar; entre a facilidade de exiftir, e en- tre a dificuldade de permanecer. Só o vidro, fendo aliàs obra do artifício, em poucos dias fe faz, e póde De Architeétura Civil. 97 e póde durar tanto como as mef- mas pedras preciofas ; e como os dous mais folidos metaes. Quem diflera que hum artifício taô facil, e de compofiçao taô prompta po- dia fer tad permanente , e podia refiftir a toda.a maior aétividade doselementos! Nem a agoa , nem o ar, nem a terra , nem o fogo mais violento podem caufar altera- çaô no vidro para o deftruir , ou para mudar-lhe a contextura : os licores mais fortes , e corrofivos, naô tem acçaô em qualquer mate- ria vitrificada , antes efta ferve de os guardar, e confervar. . - - Quem differa que hum fal al- chalino fixo , difpofto fempre ace. der ao ar, e à agoa , poderia em poucas.horas tomar hum corpo conf- tante , e inalteravel ! À polvora, e o vidro fados dous compoítos ad- Part. II. G mira- 98 Problema miraveis , que fe naô foffeim vifz tos, e taô vulgarmente conhecidos, todos lhes negariaô a poflibilidade da exiftencia. Por iflo o Philofopho prudente , nunca nega abfoluta- mente que huma coufa pofla fer, por mais extraordinaria que pareça; porque para negar-fe a exiftencia defta, ou daquella coufa, he ne- neflario faber até donde chega o que a natureza póde; e elle limi- te de poder , fó Deos o fabe co- mo Author da meíma natureza. Os homens difcorrem fegundo algumas regras , ou principios de que tem noticia ; porém naô podem difcor- rer fobre outros muitos , de que naô tem conhecimento , ou o tem er- rado. aà Depois do artefa£to do vidro; eoda polvora , feguem-fe outros menos efpantofos, que fazendo-fe em De Archiveetura Civil. 99 em pouco tempo , duraôd, ou po- dem durar muito , e ainda que de algum modo caufem menos admi- raçaô , naô faô porém menos ad- miraveis, fe confiderarmos attenta- mente as fuas propriedades. O fuc- co das uvas, a que chamamos mo(- to, he hum liquido doce, e fumma- mente phlegmatico , inerte , e fem efpirito : depois de fermentado per- de o fabor que tinha, mudado efte em outro mui diverfo ; adquirin- do abundantemente os efpiritos in- flammaveis ;'os quaes , depois de feparados por meio da deftillaçaõ , conftituem hum licor clarifimo , ar- dentiflimo , e diáphano ; e efte fen- do reétificado , ou deftillado fegun- da, e terceira vez, fica taô Íubtil, e concentrado, que perdendo o feu pezo efpecifico , fica já taô leve, que nada fobre o azeite ; e fobre el- Gii le ICO Problema le fe fuftenta fem miftura, ou con- fufaô. Nefte eftado , ou nefte grao de pureza , e exaltaçaô , chamaôd os praticos ao efpirito de vinho Al- chool. Efte he o menítruo univer- fal em que fe diflolvem as gommas ; e rezinas, e em que fe diflolvem tambem os oleos eflenciaes das plan- tas. Que differença notavel entre o mofto fimples, e o alchool ! À fer- mentaçaô foi o unico artifice da mudança ; a deftillaçaô naô fez mais do que feparar o licor inflammavel da maça do vinho que o produzio, E aflim fe vê que do moífto doce, glutinofo , e turvo vem a relultar hum liquido diáphano , qual he o vinho ; e deíte procede outro li- quido ainda mais diáphano , eain- da mais prompto a inflammar-fe , que he o efpirito do vinho ; ficando no De Architettura Civil, Tor no valo deftillatorio outro liquido infulfo, e phlegmatico em que re- fide o tartaro (a que chamamos farro ) corpo opaco, e fixo depois de calcinado. x Todos aquelles liquidos com qualidades diferentes, e contra- nas entre fi, achaô-fe potencialmen- te no fimpliflimo liquido do mofto; no qual o ultimo grao de mudança he aquelle em que fica reduzido a hum licor quafi corrofivo, que he o vinagre; e neíte eftado veio a perder inteiramente naô fó o fabor de moífto, e vinho, mas tambem ficou perdendo todos os efpiritos inflammaveis que continha. E com effeito do vinagre ne- nhum efpirito fe extrahe que feja capaz de fe accender ; antes o vina- gre todo fe compoem de proprie- dades oppoftas ao moíto, e vinho; Part. II. Gui prin- 102 Problema principalmente na aptidaô que tem para produzir, e confervar em fi huma multidaõ innumeravel de ani- malculos invifiveis, e fó percepti- veis por meio do microfcopio , os quaes fe achaô como nadando em todo o liquido acetolo , como em elemento ou efphera propria. Quem diflera que hum licor quafi corrofivo, qual he o vinagre, era a verdadeira matriz de huma certa efpecie de animaes, que alli naícem , e alli vivem em continua agitaçaô , de que o microfcopio fez a primeira defcoberta! Quem diflera que efteve a pratica medeci- nal entendendo tantos annos que o vinagre era o anthelmitico mais fe- guro, fendo que naô ferve para deftruir a eftirpe verminofa, mas fim para a produzir! Muitas cou- fasha, que paffaraó fempre por no- civas De drchiseeturá Civil. 103 civas, e depois veio a conhecerfg ferem faudaveis, et vice ver/a. Porém aquella metamorpho- fe, ou aquella mudança de hum li- cor para outro diferente, e de hum liquido com certas qualidades para outro liquido com qualidades contrarias, humas vezes faz-fe len- tamente, e outras com vagar; por graos) imperceptiveis, mas fempre fucceflivos ; porque a natureza , naô defeanfa, nem remitte a lua acçaô, :ou feja para formar ,: ou feja para transtormar ; e ainda quan- da nos parece que ella pára, ou fe fuípende, entaô trabalha mais ; por- que o trabalho vifivel, e mamfef- to talvez que naô feja o mais act» vo, !e forte. À quiefcencia; ou langor das partes, procede da mu- tua, e igual refiftencia das meímas partes entrefi; de forte, que o def- Giv canfo 104 Problema canfo parece naô refulta da inac- çaô, mas da igualdade de acçoens oppoftas : aflim como duas forças iguaes quando mutuamente fe en- contrad, e refiftem, perde cada huma dellas o feu movimento ap- parente, mas (empre perfiftem na agitaçaô, ou força de reziftir. A luz nunca eftá em hum mefmo fer a noíTo reípeito, e tam- bem trabalha fempre; porque ou vai crefcendo, ou vai diminuindo ; porém taô infenfivelmente, que naô podemos perceber, nem o augmento, nem a diminuiçao ; e quando percebemos , he já depois de ferem paflados infinitos graos de mais ou menos luz. E com efleito na fombra póde haver fignal, na luz naô. Da mefma forte crefcem, e decrefcem as agoas; e commu- mente o que caminha de hum e o De Árchiteétiira Civil. ves fo lento, e fummamente igual, parece immobil; e o movimento , ou mudança de lugar Íó fe diftingue pelos termos, ou balizas que co- nhecidamente fe naô movem. Fal- tanos a paciencia para notar a ace çaô , e reacçaô dos corpos que fe movem muito lentamente. Obferva- mos melhor , e com mais certeza o que obfervamos comparadamente, ilto he, a mobilidade de hum cor- po pela immobilidade de outro ; o fabor de hum pelo femfabor de outro ; a dureza de hum pela bran- dura de outro; a fenfibilidade de hum pela infenfibilidade de outro ; o luminofo de hum objeéto pelo opaco de outro. Affim fe vê que a natureza commumente em tudo, o que pro- duz, vai lentamente, e por iflo faô perfeitas as Íuas nd 106 Problema A arte he mais apreílada, e por iffo naô acerta fempre; e ainda obrando fegundo as regras de pro- porçoens e medidas conhecidas,mui- tas vezes erra, e fe deívia do in- tento procurado : fim faz quafi de repente o vidro, mas que importa fe o faz fragil, etaô facil de que- brar? Sendo que nem fe poderia fazer fem fer por aquelle modo ; e como de repente, e accelerada- mente , porque o fogo devendo fer violento , nefte eítado naô have- riaô vafos que podeflem conter a materia vitrificavel fem fe vitrifica- rem tambem; de que refultaria in- troducçaô de fragmentos heteroge- neos no corpo do meímo vidro , milturados confufamente;com o que ficaria imperfeita a maffa vitrifica- da, fem adquirir duétilidade no eftado de fundiça 6. O ferro De drckiteéiurá Civil. Goy O ferro, o cobre, couro, a prata faô metaes que fe naô fun- dem fem calor grande, e eíte de- ve fer adminiftrado como de repen- te; porque fendo pouco aétivo, ain- da que dure por efpaço mais conti= nuado , naô fe fundem os metaes; em lugar que baftaraô poucos mi- nutos para fe fundirem, quando o calor he tal, que póde duvidir ou desfazer o nexo que une as partes metallicas entre À, e as tem como encadeadas, e intimamente chega- das humas com as outras. Porém naô haô de baftar feculos para fa- zer aquella defuniaô, quando o fo- go naô adquire o grao precifo de calor; ou quando efte naô perfifte fucceflivamente no meímo ponto de actividade. Os mefinos metaes de- pois de excandecidos obedecem ao martello facilmente , mas he por im- pulfos 108 Problema pulfos apreflados , e repetidos fem defcanfo ; porque em o ar frio fe introduzindo no corpo do metal, fica efte adquirindo mais dureza, e tornando a tomar toda aquella que deve ter naturalmente. De tudo , o que fica expofto , devemos inferir que entre os phe- nómenos naturaes huns ha , que fe formaô de vagar, e que fem hum certo tempo naô alcanfad aquella perfeiçaô, ou aquelle fim para que os deítina a natureza; e pelo con- trario ha outros (ainda que em me- nos numero) que exigem prompti- daô, eque fem efta naô correfpon- de nelles, nem fuccede o efeito que fe efpera. Nefta clafle entra a cal, que fe prepara para a conftruc- çaô dos edificios. Supponhamos cozida , ou cal- cinada a pedra de que a cal fe faz; de- De drcbiseciura Cívil, 109 depois deve fer reduzida a pó pela aíperfao fuccefliva da agoa pura fobre a mefma pedra: porém efta afperfaô deve começar-fe, e aca- barfe fem que fe metta muito tem- po em meio. "Tambem naô deve fer tanta a quantidade de agoa , que poíla reduzir a pedra em pol- me, ou maíla; porque neite efta- do fica como fem fubítancia a cal, e inhabil para qualquer obra. À razaô he, porque (como já diflemos) a força da cal toda con- fite nos efpiritos igneos concen- trados na pedra pela acçaô do fogo, e introduzidos intimamente nos in- teríticios della. Aqueles efpiritos naô fe podem confervar todos ; mas he precifo confervaremfe os que póde fer : nefta hypothefe fuc- cede que a reducçaô em pó pela aíperfaô da agoa, ainda que al- guns IO Problema guns efpiritos fe diffipem , outros fe confervaô, Porém fe a agoa for demaziada, e em quantidade tal que reduza a pedra em mala, ou polme, os efpiritos igneos todos fe diflipaô, e a maíla, que fica, he inerte, e fem calor. Na arte da Agricultura fe co- nhece aquella verdade phyfica ; por- que em muitas regioens coftumad fecundarfe com cal os campos; e ilto naquellas partes em que a cal fe fabrica com difpendio pouco ; tanto por fer abundante a lenha, como por haver pedra propria para aquelle minifterio. Para o dito fim naô fe pulveriza a pedra , mas logo ao fahir do forno he conduzida para as terras que fe querem fecundar ; e alli fe poem dividida em porçoens, ou monticulos diverfos, cobertos eftes com barro bem amafado, para De ArchitecluraCivil. 111 para que o calor da cal fe naô dif. fipe de repente pela acçaô do ar, depois de eftar pulverizada pela hu- midade do chaô : entad a repar- tem igualmente pela terra; ficando efta recobrando de algum modo o vigór perdido , e animada por aquelle calor artificial, para pro- duzir abundantemente. Se porém aquella pedra for reduzida em mafla, deitandolhe agoa em quantidade tanta, quea mefma pedra: fe derreta , ou desfa- ça em polme, efle-fica inhabil, -e totalmente :improprio para o inten- to; porque os efpiritos igneos, que involvidos com a terra lhe conci- haô fecundidade, diflipad-fe por meio de huma exhalaçaô promptas e violenta. Sim he precifoque em parte fe diffipem ; porque ; eftando todos, ou eftando a pedra de cal com II> Problema com toda a fua força, ferve mais de cauítico deftruente , que de au- xilio vegetante. Todas as producçoens, ou fe- jaô vegetaes, animaes, ou mine- raes , exigem hum certo grao de ca- lor proporcionado a cada huma ; porque fe o calor he mais intenfo , deftroe; fe he mais remiflo , do que deve fer, naô excita. Os animaes querem hum grao de calor que fe fente apenas, e por iflo fe chama natural. O feto tem no utero ma- terno hum liquido em que eftá como nadando em banho menos que vaporofo. Os vegetaes amaô o calor de huma atmoÍphera tempera- da; e como nefte ha mudanças in- finitas, dahi vem a variedade no modo de vegetar. Os mineraes faô os que fe formaô por meio de ca- lor maior; por iflo muitas pedras fe De Árcbiteetura Civil. 113 fe calcinaô pelo calor da-meíma terra; e da melma forte que a cal fe faz artificialmente , como fe ob- ferva no geílo, e em outras feme- lhantes pedras, nas quaes fe acha a propriedade da cal, ainda que em grao, ou força algum tanto in- ferior. E a razaô, porque a cal fecun- da a terra, naô vem fó do calor que em fi contém, mas porque aquelle meímo calor attrahe a humi- dade nutritiva efpalhada em todo o ambito do ar. E com efleito fem calor, e humidade naô fe dá ve- getaçaô vegetal, animal, nem mi- neral, "Todos os corpos vegetaõ, fegundo a indole que lhes he pro- pra. Os meímos metaes achados no lugar, em que fe formaô, moftrad muitas vezes configuraçoens, ou delineamentos vegetantes. Part. II. H Cada 114 Problema Cada hum dos faes affe&a hu- ma figura propria, e infeparavel de cada hum; e quando a perdem, mudaô de natureza, e já naô faô os meímos. Tudo fe move:, po- rém fem calor tudo entorpece. A fufpenfaô de acçad he morte. A humidade he receptaculo dos efpi- ritos feminaes ; eftes naô fe alteraô fem calor; e excitados huma vez, tendem a bufcar inceflantemente a fua propenfaô , ou genio natural. Em quanto o calor fubfifte, profe- guem na fua operaçaõô ; fe o calor fe extingue, ficaô no ponto em que fe achavad, e fe deíviaô do caminho começado. Daqui reful- taô effeitos raros, e partos monf- truozos. No concurfo porém da hu- midade, e do calor, ainda fe naô fabe qual deítes dous agentes he o prin- De Arcbiteétura Civil. 115 o principal, ou qual delles entra em mais porçaô na compoliçaõ dos mixtos. À humidade parece que conftitue o corpo, e o calor dif. poem a organizaçaõ ; aquella faz a mala, efte a figura; ou huma a materia, e outro a forma: fendo que hum, e outro faô infeparaveis; porque verdadeiramente naô há hu- midade fem calor, nem calor fem humidade. Iíto parece hum para- doxo, mas naô he o que parece ; porque a agoa quando perde o ca- lor em hum certo grao, fica corpo duro, e folido, como fe obferva bem no gélo: o calor quando per- de totalmente a humidade, fica tambem perdendo o movimento ra- pidiflimo em que confifte a fua na- tureza ; nefte eftado fe extingue in- fallivelmente, como no fogo vulgar fe ve; O qual, em lhe faltando a Hi com- LIÓ Problema communicaçaô do ar (que he don de recebe a humidade 3 apaga-fe ; e quando fe lhe introduz mais humi- dade por meio do afloprar de hum folle, crefce em força; e aétivi- dade. - Quem differa que a humida- de, ea agoa tambem fabem accen- der o fogo da meíma forte, que o fabem apagar? De que o fabem apagar, todos o vemos commu- mente, e naô he neceflario prova, nem demonítraçad ; porém de que o accendem, naô he menos certo ; e ainda que o vemos, he fem ad- vertir, e fem reparo; porque tudo, quanto vemos fem advertencia nem ponderaçaô , he como fe o naô vil- femos. É com efeito a humidade , e aagoa, em quanto eltaô em fub- ftancia liquida, fuffocad , e apa- gaô o fogo promptamente ; porém aflim De Archiseclura Civil 117 aflim que fe reduzem a fubftancia vaporola, e halituofa , entaô en- tretem o fogo, e lhe fazem dobrar, e ainda triplicar os graos de aéti- vidade , e força. Ito fe conhece por meio do inftrumento chamado eolipilo, com que a phyfica experimental def- cobrio; e demoftrou aquella verda- de phyfica. Naô he o ar impellido do vacuo do folle o que augmen- ta o calor do fogo, mas he a hu- midade defle meífmo ar rareficada a que augmenta, e faz creícer pro- orcionalmente o movimento rapi- do daquelle fubtiliflimo elemento. Aflim o moftra o eolipilo em hum inftante. Os licores fermentados , e inflammaveis accendemfe, ainda ef- tando em fórma liquida ; porém, lançados fobre o fogo, naô o fa- zem mais aétivo : efta propriedade Pare. IL H im fó 118: Problema fó tem a agoa ou humidade , re- duzidas em vapor, e dirigidas com violencia para a parte do fogo, que fe quer fazer mais forte. Os metaes ( exceptuando a chumbo e eftanho ) naô fe fundem fem que a humidade do ar avive o fogo; e por mais que os queira- mos fundir.por meio de materias refinozas ,' como faôd o pinho, o alcatraô, ou outros femelhantes mixtos oleozos, naô he poflivel que fe fundad; por mais tempo que queiramos confomir na opera- çaô. O ferro funde-fe no enxofre derretido, e acefo, mas naô he pelo calor do enxofre , mas porque efte fe une intimamente com o fer- ro, e porque o acido do melmo enxofre val o mefmo que hum li- cor corrofivo em que aquelle metal fe funde ;'e principalmente porque a ho- De ArchitecturaCivil. 119 a homogeneidade de principios he caufa das difloluçoens dos corpos huns nos outros; a heterogeneida- de os faz indifloluveis : por iflo al- guns repellemfe reciprocamente , outros attrahemfe. A impulfaô, e repulfaô parece que vem da Te. e e diverfidade. sos! ns A pedra iman ( chamada de cevar) Íó attrahe o ferro, e nada mais; porque entre o ferro, e aquella pedra vai pouca “differén- ça; Os principios, de que fe com- poem, Ífaô quafi os mefmos. :Hu- ma porçaô de ouro fundido jun- ta-fe com a prata na mefma: fundi- çaô, e formaô hum'fó corpo , por- que os principios: faô os meímos na razaô de metaes ; porém melhor fe funde com outra por çaô tambem de ouro ;: porque naô fó faô unifor- mes na razaó generica de metaes, H iv mas 120 Problema mas tambem na razaô de hum tal metal, Para haver entre partes uniaô intrinfeca , e perfeita, he ne- ceffario que fejaô femelhantes no genero da qualidade, ainda que fe- jaô diverfas no numero da efpecies meça meters eee dep ee mete te CAPITULO VII. sã que em humas com- pofiçoens era precifo vagar, e em outras preíla; e que humas deviaô fer preparadas lentamente e outras como repentinamente , e fem difcontinuar ; porque a hu- mas perde huma maô accelerada , e prompta, e a outras diflo mef- mo depende o Íuccederem bem. Tudo ilto he para moftrar que a pulverizaçad da pedra calcinada pela De Archiseélura Civil. 121 pela afperfaô da agoa deve prati- carfe por hum aéto Íucceflivo, e naô interpolado.” Ifto exemplifica- mos com a fundiçaô de alguns me- taes, os quaes naô cedem fem lhes fer adminiftrado hum calor aétivo , e fucceflivo; para cujo fim he ne- ceflario que o fogo feja incitado pelo ar exterior introduzido nelle com violencia, como fe obferva na agitaçaô do fole, artificio ideado ; e achado para aquelle intento. Porém que-folle ha que excite o fogo nos incendios que a'conte- cem algumas vezes , nos quaes fe achaô os metaes fundidos fem de- pendencia de artifício algum ? A efta objecçaõ facilmente fe refpon-- de Ífó com advertir que he “raro o grande incendio, em quê o vento naô feja o que o defperte'; e no mefmo vento temos hum fole, e fem 722 Problema fem artifício algum , e ainda mui- to mais aétivo ; porque o folle naô incita o fogo fe naô naquella par- te, para donde fe dirige a fua ac- gaô; em lugar que o vento por to- das as partes avivaa chama, por- «que a comprehende toda ; por iffo ie fundem os metaes dificeis de fun- dir ; porque:naquelle fogo achaô o mefmo , ou maior grao de calor «om que fe fundem com effeito. Ainda temos outro fundamen- tos de que procedem o fundirem-fe os metaes em todos os Incendios, ainda quando naó ha vento ; e vem a fer, que ha' certas fituaçoens que por fi melmas attrahem o ar vigorofamente , e o dirigem por ef- paços determinados ; porque, fe ob- fervarmos bem , veremos que aquel- las portas; que eftaô fronteiras, por ellas pala conhecidamente o ar, “ainda De Archiseitura Civil. 123 ainda em-eftaçaô ferena. E regu- larmente, fe em hum efpaço gran- de, fó lhe:dermos huma falida eftreita, e hmitada , nefta veremos que o,ar paíla com mais força, e fe faz perceber fenfivelmente. Por eita regra fe inventarad varios mos dos de fornalhas , fegundo .ôs ufos mechanicos, para que eraô necef, farias. Além difto nos incendios en- contraô-fe commumente ceftanho, o chumbo , o bronze. Aquelles dous metaes» fempre faô fufiveis , e fe fundem com effeito em calor remif- fo , ou branda ; fe entre elles: fe acha algum ouro, ou prata”; eftes metaes , que aliás exigem.! maior fogo, fem efte chegaô a fundir-fe afim. que.tocad no teftanho:, ou chumbo derretido .; afim como fe desfazem , ouamalgamaó no azou- gue s 124 Problema gue,ainda fem calor algum. Ifto vem pela razaô que já diffemos , de que hum metal fundido faz fundir fa- cilmente outro , pela analogia que tem huns com os outros , fégundo a qual hum metal fundido penetra eoutro, e o faz fundir tambem. Daquella miftura , ou confu- faôd entre o ouro, e prata fundi- dos com o eftanho, ou bronze , re- fulta difficuldade quando he quef- taô de feparallos ; porque em quan- to eftaô confulos , nem o ouro, nem a prata tem valor determina- do, e certo, porque eftaô incapa- zes de fervirem , e faô totalmente inhabeis para ufo algum ; viíto que o bronze , e o eftanho induz fragi- lidadade em cada hum dos dous metaes, e quebraô facilmente ao pri- meiro golpe do martello. Por io a feparaçaô , ou affinaçaô he in- difpen- De Architethura Civil. 1 24 difpenfavel, e deve procurar-fe pe- los meios mais feguros, e compe- tentes , com tanto que fe pratique em fórma, que fó fe deftrua o ef- tanho , ou bronze , fem fe diffi- par alguma parte do ouro , ou prata. Nefte cafo recorrem os ar- tifices aos meios fabidos de affinar; porém eftes meios fabidos naô faô os que. convém , porque mais con- duzem para perder parte do ouro; ou prata, que para os aproveitar. O primeiro meio , que lhes lembra, he aquelle que chamaô de cupella; mas efte tambem he o primeiro oe naô ferve ; porque. a cupella ó deve ter lugar quando aquel- les dous metaes fe achaô miftura- dos com ferro , ou cobre ; e naô quando a miftura he de eftanho, ou bronze ; porque o eftanho pe- netra 126 Problema netra a cuppella entranhando-fe nella com parte de ouro, ou pra- ta, até que a rompe. O fegundo meio , a que recorrem , he o anti- monio ; porém efte mineral vola- tiliza à prata ; e tambem o ouro quando acha eftanho nelle. O ter- ceiro meio , de que alguns ufaõ , he o do folimaô ; porém efte, em achan- do eftanho , ou bronze incorpora- do no ouro , ou prata , faz exha- lar o eftanho , e efte leva comfi- go huma grande parte da mefima prata, ou ouro, fazendo huma ef- pecie de butyrum que fe diflipa no ar, e juntamente os metaes de que o mefmo butyrum fe fórma. O quarto meio,a que recorrem, he o do falitre; porém efte tem os mefmos inconvenientes ; porque, em achando eftanho, ou bronze , faz com eftes metaes aquella detona- çaõ De Architectura Civil. 127 çaô a que os Chimicos chamaô fi)- men Sovis , na qual o eftanho fe evapora , e tambem baftante parte do metal a que eftá conjunêto , dif. fipando-fe hum, e outro no mef, mo inftante em que o nitro chega a penetrallos. O artifice naô conhe- ce o que perdeo de prata , ou ouro que affinou por aquelle modo ; e o pezo , que lhe falta no metal affina- do, parecelhe que foi metal im- puro que o falitre confomio: po- rém engana-fe ; porque naquelle cazo o falitre naô Íó confome o ef tanho , ou bronze que o metal tem; mas tambem parte defle mefmo me- tal que fe quizer afinar por aquelle méthodo. Para prova do referido, to- memos v.g. huma porçaô arbitra- ria de ouro, ou prata; efta feja de doze dinheiros, e o ouro da lei de 128 Problema de vinte e quatro quilates. Eftes dous metaes poftos naquellas leis, naô pódem quebrar depois de fun- didos, fe na operaçaô naô houver erro. Ifto fuppoíto como princi- pio certo, fundamos hum daquel- les metaes em hum cadinho, e nefte mefmo lhe deitemos huma igual porçaô de eftanho , ficará huma maífa compofta de ouro, e eftanho; ou de prata, e eftanho. Aquella maffa , fe a quizermos affi- nar, ifto he, fe quizermos feparar do ouro, ou da prata o eftanho que em fitem, e para iflo nos fer- virmos do falitre, veremos infalli- velmente que efte fal, em chegando á mafla fundida , e fundindofe tam- “bem , faz com oeftanho, a que fe une, o chamado fulmen Fovis. Aca- bada a operaçaô, e pezando o ou- to, ou prata que continha a maíla, entaô De Architettura Civil. 129 entaô acharemos bem vifivelmente o quanto na operaçaô fe perdeo de prata, ou ouro. Quando a affinaçaô , praticada por aquelle modo, fe faz em por- çoens grandes, naô he facil de dif- tinguir a perda que nella houve ; porém póde fazer-fe a conta por ef- te modo; dizendo: Por cem mar- cos de ouro no eftado , em que fe achava, davaô-me, ou poderme- hiaô dar tanto ; aquelles cem mar- cos; depois de affinados , ficarãô re- duzidos a oitenta v. g.; por eftes oitenta marcos de tal lei devem darme tanto ; efte tanto abatido do total, que me davaô pelo ouro an- tes de affinado , a quantia, que fo- brar naquelle total, he a que per- di na aflinaçaô; a cuja perda devo accrefcentar mais a importancia do falitre, e todas as mais deípezas Part, JE I feitas 130 Problema feitas na meíma affinaçaô. Aquella mefma conta, feita em porçaô grande, pode fazer-fe tam- bem em porçaô pequena quutatis mutandis , dizendo : Por efte marco de ouro de tal lei devem darme tanto; o meífmo marco depois de affinado ficou reduzido Ífómente a tantas onças ; por eftas devem dar- me tanto; efte tanto abatido da quantia que me davaôd pelo marco de ouro no eftado em que fe acha- va, o que falta para completar aquella quantia, que me davaô, he juftamente o que perdi; a cuja per- da devo da mefma forte accrefcen- tar a importancia do falitre, e to- das as mais que fiz na aflinaçaô. Naô he menos para notar que o ouro, ou prata antes de af. finados perfeitamente, naô fe po- dem enfaiar , nem faber as Íuas Jeis ; De AÁrcbiteélura Civil. 3x leis; e fe de faéto fe enfaiad, faô errados os enfaios infallivelmente : e aquelles metaes fe dizem affina- dos, quando acquirem a ductilida- de neceflaria; porque em quanto quebraõ ao golpe do martello, ou em quanto quebraô no paflar pe- las fieiras; he fignal certo de con- terem materia eftranha que os faz precifamente quebradiços: e entaô fe diz naô eftarem affinados, ecom effeito naô eftaô; porque a duéti- lidade he circunítancia indifpenfa- vel em cada hum daquelles dous metaes : o falitre fim os faz duéti- veis em certos cafos; mas quando contém eftanho , ou bronze, a du- étilidade , procurada por meio do falitre, he muito à cuíta dos mef- mos metaes , porque huma parte delles fe perde na operaçaô ; fe bem que a perda verdadeiramente — Ti he 132 Problema he do fenhor, naô dos metaess nem do artifice que os prepara; e efte fempre faz a conta em fórma, que o fenhor do metal naô perce- ba a fua perda; eelta fó quem he da mefma profiflaô a póde facil. mente diftinguir. Porém já diffemos aíflima que regularmente a imperícia naô he culpa. Hum artifice fatisfaz quando fabe o mefmo que os outros da Íua profiflaô fabem. O cafo dos incen- dios (que he quando coftuma ha- ver confufaôd , ou miftura de me- taes ) he cafo raro, para o qual ne- nhum artifice póde eftar aparelha- do , nem ter feito eftudo para fe- parar metaes EE raras vezes fe achaô juntos. Mas fempre pelo que fica dito ficará fabendo que aquel- la feparaçaô:naô deve fazer-fe por meio do falitre.; e que he neceíla- rio De Architelura Civil. 133 rio bufcar outro caminho para fe- parar-fe o eftanho; e.o faber que hum caminho naô he bom , he meio para bufcar outro melhor: eu o def- crevera aqui fem fazer diflo my(- terio , nem fegredo;; porém naó devo entrar em huma digreflad, que faria perder de vifta o noflo ponto principal. CAPITULO IX. T Inhamos dito, (e era o ponto M em que ficâmos ) que a pul- seRRaçaE da cal pela aífperílaô da agoa Ífobre a pedra calcinada , de- via fer por hum aéto continuado , e naô deixado , e tornado a praticar por intervallos. Em prova difto fi- zemos mençaô de alguns exemplos; Part. II, Iii e te- 134 Problema e temos outro na fermentaçaô de todas as farinhas de que eloa o paô; nas quaes a agoa ; com que fe amaífaô , deve fer lançada de vagar , mas fuccellivamente por hum aéto continuo , e naô inter- polado. Se a agoa he em menos porçaô , fica imperfeita a fermen- taçaôd; fe he em demazia , o que provém , he hum polme glutinofo , q indigefto : e em lugar de huma mafla fermentada, o que procede he huma efpecie de bitume vifco- fo, e fem fabor. Ito he afim; porgue naô ha' fermentaçaô perfeita , fem que as partes fermentaveis , trabalhem igualmente ; e para aflim fer ne- ceflitaô huma porçaô de agoa com-. petente: quando he muita, as par- tes achad-fe taô foltas, ou diluídas, que nenhuma tem acçaô para mo- ver-fé, De Architeélura Civil. 135 ver-fe, nem fazer mover as oui tras; e quando he pouca , ficad co- mo prezas entre fi, e fem pode- rem entrar em reciproco movimen- to. He porém precifo que o paô fe coza logo, que a fermentaçad célla , e antes quafi no fim , que depois que ella tem ceflado intei- ramente; porque neíte eftado já naô creíce o pãô, nem acquire mais vo- lume, que o que tinha a maífa ao entrar do forno. Em conhecer aquel- le certo ponto , confifte aquella arte, : | O mefmo fuccede na fabrica- çaô , ou pulverização, da cal. À aí- perílao da agoa fobre a pedra cal- cinada a reduz em pó : alguma parte da mefma agoa fe evapora , e com ella alguns efpiritos igneos que a reduzem em vapor ; outros ficad concentrados no pó! e'fad Liv os 136 Problema os que fazem aquella efpecie de pe- trificaçaô que fe obferva nos mu- ros antigos, e que fervem de mof- trar que foraô fabricados com bons materiaes. E com effeito o muro, que demolido efpalha no ar huma poeira fubtil, e como branca , dá indício certo de haver fido conftrui- do com materiees improprios ; por- que fendo fabricado com cal, e arêa, depois de paflar hum certo tempo; fica taô folido ; e compaéto, que quando fe desfaz cahe em pedaços unidos , e apenas faz huma poeira pezada, que fe naô póde Íultentar no ar, nem póde fubir a grande al- tura , mas logo fe precipita , fem o offufcar confideravelmente. Outro indicio verdadeiro de que os materiaes de huma parede foraô efcolhidos fem regra, e in- advertidamente , he que quando a pare- De Arcbiteélura Civil. 137 parede.cahe, fica nas ruinas gran- de porçaô de pó chamado caliça vulgarmente, em: lugar que quando os materiaes faô bons , a caliça he pouca ; e para fe haver quando he precifa, neceílita pizarem- fe os pe-. daços da parede demolida. Porém como naô ha coufa no mundo, que em alguma occafiaô naô tenha al- guma ferventia, a caliça provinda do muro feito com materiaes im- proprios ferve a varios uíos, para que naô póde fervir a que provém de parede feita com bons materiaes. Ito fe obferva tambem na Agricul- tura ; porque os campos fe fecun- daô por meio de huma caliça impu- ra, principalmente quando a terra eftá cançada com as repetidas pro- ducçoens; porque eftas com effei- to elterilizad a terra , como enten- deo Marcial quando difle : p Ter 138 Problema Ter centum Lybici modios de mefje coloni Sume , fuburbasus ne moriatur ager. A mefma caliça, que provém de materiaes irregulares, ferve para a fabricaçaô do falitre artificial, por- que nella fe acha o acido do fal commum , que coftuma fervir de bafe ao nitro, camo fe vê quando o falitre fe purifica ; porque depois de repetidas criftallizaçoens daquel- le fal aereo, no fim fe acha hum verdadeiro fal commum , que já fe naóô criftalliza como o nitro. Daqui vem que a agoa forte feita com fa- litre bruto naô he taô propria pa- ra diflolver a prata; porque , con-. tendo alguma parte do acido com- mum, efte tem a propriedade de diflolver o ouro, e a prata naô. Para De Architeétura Civil. 139 Para nenhum dos referidos mi- nifterios ferve a caliça que provém de materiaes finceros ; porque nem para fecundar os campos , nem para as fabricas do falitre póde fer conveniente ; e vem a fer o mefmo que huma pedra moida, e efteril totalmente para aquelles ufos. Por iflo muitas vezes naô fuccedem bem alguns experimentos, fendo prati- cados (ao parecer ) com os mefimos ingredientes; porque qualquer cir- cunitancia baíta pára que oartifiz ce humas vezes configa o feu in- tento, e outras nãô ; é para qué trabalhando da mefina foge, e fe- guindo o meftno méthodo , nad al- canfe o que procura. * Ecom efeito quem ha de di. zer que entre as caliçás haja tanta diferença? e queicom huítas fé faça o que fe nad póde fazer com ou- 140 Problema outras? Iíto mefmo fe obferva em outros muitos artefactos, v. g. fe deitarmos a diffoluçaôd da prata em agoa da mais pura fonte, logo a ve- remos turvar-fe, e tomar a cor de leite :. porém a agoa da mefma fon- te, fe for primeiro deftillada , naô veremos nella tal mudança , e ha de ficar taô diáphana como era, e a veremos milturar com aquella dif- foluçaô , fem perder a fua tranípa- rencia natural. A agoa pura depois de deftillada parece que naô ad- quirio, nem perdeo nada, por on- de ficafle mais pura do que tinha fi- do; e ifão porque a tranfparencia ou claridade he a mefma; o pezo efpecifico,obfervado antes da deftil- laçaô, tambem he o mefmo; e fe ha differença alguma de pezo a pe- zo, he certamente imperceptivel, Porém o contrario moftra a diflo- De Architecturá Civil. 141 difloluçaô da prata, porque logo fe precipita em toda, e qualquer agoa , e ainda na da chuva (toma- da em parte livre) que fem duvida he a mais pura , e como tal mais leve que todas quantas agoas ha ; e Íó na agoa deftillada naô fe preci- pita aquella: difloluçaô, nem con- «cilia cor alguma ; o que he fignal clariflimo , e infallivel de que as agoas , por mais puras que pare- çaôd, com tudo naô o Ífaô ; por- que fempre contém porçaô acida ou alchalina , imperceptiveis total- mente á vifta , e totalmente in- fenfiveis ao fabor, e em pezo mi- nutiflimo , que naô póde perceber- fe, nem ainda por inftrumento al- gum hydraulico; de que refulta a precipitaçaô da prata; cuja diflo- Juçaô no efpirito do nitro he a pe- dra de toque para examinar-fe a ulti- 142 Problema ultima regularidade , e precizãô , a qualidade de todas quantas agoas ha no mundo ; e para diftinguir in- fallivelmente o grao de pureza, ou impureza dellas, fegundo a quan- tidade de prata que nellas fe pre- cipita, e fegundo a turvaçad lactea que Ífuccede (empre. Daqui poderiamos inferir, e naô fem provavel fundamento, que a agoa deftillada feria a melhor pa- ra beber, e mais faudavel, viito fer de todas a mais pura, e por con- fequencia a mais leve, por naô con- ter (ou conter imperceptivelmente) particulas acidas , ou alchalinas , que introduzidas nos vafos; em que a circulaçaõ fe faz, podem fer caufa primeira de muitas obítrucçoens , e coagulaçoens que naquellas partes fe fórmaô pela fucceflaô do tempo , e incuraveis quafi fempre, ou, ao menos De Árchitetlura Civil. 143 menos, difficeis de curar. Com tu- do, naô obitante o que temos di- to, e ferem com effeito as agoas deftilladas as mais puras, e mais. ligeiras, nem por 1flo faô proprias para fe beberem ; eiftohe tanto af- fim, que ainda os que ufaô de agoa morna em tempos frios, (o que aliás he mui conveniente ) nad a devem beber amornada toda, mas fim deftemperarem (como fe diz) a agoa fria com agoa morna, e naô amornada toda ao calor do fogo. “A razaô de diferença, ou a razaô, porque aquillo deve fer af- fim, exigiria hum difcurfo dilata- do, e proprio para hum profeilor de Medicina » à quem compete co- mo privativamente tudo o que ref- peita ao corpo humano, ou feja para curar a enfermidade, ou Íeja para 144 Problema para a precaver, fegundo o axio- ma certo em que fe diz: Principiis obfra, fero medicina pas ratur Cum mala per longas invaluere moras. E fuppofto que he permittido a to- dos o difcorrer em algumas partes daquella nobiliflima (ciencia, e au- gmentar os feus thefouros com ob- fervaçoens proprias, (porque ella mefma deíta forte começou, e te- ve a Ífua origem de obfervaçoens particulares ) com tudo , iflo deve proceder quanto à narraçaô ou ex- pofiçaô de hum faéto fimplefmente expoíto, e naô quando fe trata dos porquez , ou razoens phyficas, de que o mefmo faéto veio a refultar. Neite cafo o profeílor tem mais autho- De Architettura Civil. 14s authoridade , ou deve faber mais do que outro qualquer : fe bem que tudo, quanto heutil, todos tem di- reito, ou obrigaçaô para o dizer ; pre a utilidade publica deve preferir a toda, e qualquer confi- deraçaô ; por iflo nefte Tratado , ou Problema de Architeétura, dif- corro eu fobre profifloens que naô profeílo, e muitas vezes me aparto do intento principal, Íó por naô omittir o que tem com elle alguma relaçaô, e de cuja expofiçaô póde refultar alguma utilidade. Além difto , profeflor da arte naô he fó quem a exercita, mas tambem todo aquelle que de algum modo a fabe. Tornemos á caliça. Pelo que fica aflima referido fe verifica bem que a differença notavel que ha, e que obfervamos com effeito nas caliças , denota a Part. II, K diffe- 146 Problema differença que ha tambem nos mu ros, de que foraô extrahidas ; naô fó a refpeito do tempo em que fo- raô conftruidas , mas a refpeito dos materiaes com que foraô fabricados. Os muros , de que provém muita ca- liça depois de demolidos ; e aquel- les, que no inftante da ruina elpa- lhaô no ar huma grande porçaô de poeira fubtil, e importuna , e que em eftaçaô ferena fe conferva mais efpaço Íufpenfa no mefmo ar , mof- traô com certeza que forad Fabri» cados com materiaes incompeten- tes. Aquelles muros porém , que quando cahem efpalhaô huma te- nue porçaô de pó » e que efte em eftaçaô igual naô fe fuftenta mui- to no ar que offufca ( porque he mais pezado, emenos fubtil) dad niílo mefmo prova certa de que forad De Archiseltara Civil. 147 foraô fabricados com regularidade, ifto he, com bons materiaes: e ifto porque os pança: naô fe havendo unido bem os feus princi= pios, confervad aptidaô para fe dividirem em partes minutiflimas ; a que chamamos pó : os fegundos por- que havendo uniaô eftreita entre os Ífeus materiaes , ficaô eftes mais pe- zados, e 'difficilmente fe feparaõ ; e ainda quando fe dividem , he em particulas maiores; e poriflo, pe- zando mais, logo fe abatem. Segue-fe pois do que fica expoíto ,- que a pedra de cal logo ao fahir do forno deve fer pulve- rizada por meio da agoa lançada fucceflivamente , e de vagar, mas fem mais interpolaçaô de tempo que aquelle que he precifo para fe moverem de huma parte para ou tra as pedras:que fe vaô pulverizan- FT do 3 148 Problema do, até que toda a pedra fique igualmente reduzida em pó; eain= da depois defta reducçaô , deve continuar-fe o mefmo movimento , para procurar-fe a igualdade necef- faria, e para que naô hajaô porçoens pequenas menos bem pulverizadas e naô de todo defunidas. Todos os artifices fabem efta pratica, mas talvez que naô conheçaô a impor- tancia de que he, meme remo meme me maça mt era meme CAPITULO X. Elo modo acima deduzido te- mos a cal propria para o ulo deftinado : mas a cal Íó por fi naô faz a obra; nem eftando Íó fe pe- trifica, por mais bem que feja pre- parada; neceílita aréa pura, e fi» na. De Architeélura Civil. 149 na. Eltes faô os dous ingredientes, que eftando exactamente miftura- dos por meio da agoa competente, e em proporçoens devidas, unem- fe de tal forte, e taô intimamente, que delles refulta huma efpecie de lapidificaçaô ; ficando habeis em pouco tempo, para refiftirem á ac- çaô dos elementos, e principal- mente à acçaô da agoa ( que he contra quem fe dirige o intento principal da obra) e para conterem apertadamente as pedras cruas, de que os muros fe compoem, fazen- do com ellas hum corpo congluti- nado, e fó defunivel por huma grande força, ou por hum grande movimento. A pureza da arêa naô confif- te em outra coula mais, do que em fer fômente arêa, fem outro algum corpo junto : fe contiver al- Part. TI. K ui guma ISO Problema guma porçaô de terra, ou barro, Já fica fendo arêa impura, e total- mente impropria para a conftruc- çaô dos muros; porque a terra ou barro, de qualquer genero que fe- jaô, impedem a cal para naô li- gar-fe, nem petrificar-fe com a aréa; e ifto como fe fofle hum in- termedio que retunde a acçaô da cal na aréa, e a deíta tambem na cal; da mefma forte que as mate- rias oleofas enervaô os efpiculos fa- linos de todos os corrofivos, ou fe- Jaô naturaes, ou artificiaes. O barro milturado, e amal- fado com arêa, faz hum pó folido , depois de eftar fecca a compofiçad, como fe ve no tijolo, e telha, e «em outros artefaétos femelhantes , fegundo o ufo cominum, para que fe fazem. Porém fe ao barro junto com a arêa lhe múlturarmos cal, Já De Architeilura Civil, agi já fe naô faz nem telha , nem tic jolo; porque ertaôd a cal he o in- termedio que impugna a liga exa- ca entre aarêa, e o barro. O barro ainda he mais impro- prio, do que a terra fimples; por- que efta, ainda que propenda a def- unir-fe em eftando fecca;; e que aquelle mais fe incline a fazer cor- po quando endurece; com tudo o barro fempre he mais unétuofo , do que a terra; e aquella meíma un- etuofidade ( quali faponacea ) lhe interrompe o poder ligar-fe com ou- tros corpos que «naô fejaô da-fua natureza. Por-iflo na fabricaçaô da telha, ou do tijolo , efcolhem-fe barros; differentes , para que o que huns tem de fortes, e queros faz abrir quando vaô feccando, fique temperado com os que faô delga- dos, os quaes faô areolos commu- K iv mente, 152 Problema mente. Nefta eleiçaô, ou compofi- çaô de barros de diverfas qualida- des entre fi, confifte a arte a que os Latinos chamaô figulina. A mefma impropriedade tem o faibro ou terra aflim chamada, de que os artifices fe fervem muitas vezes em lugar de arêa na conf- trucçaô dos muros. He improprio naô Ífó pela razaô fabida de fer fó- mente huma efpecie de arêa mif- turada com terra ; mas tambem por- que a terra, que contém, pende para oleofa ; e de tal forte , que até he impropria para a producçaõ dos vegetaes : em lugar que outra qual- quer arêa, em cuja natural compo- fiçaô entra alguma porçaô -de ter- ra pura, naô deixa de fer fecun- da, e nella fe daô muitos vege- taes, e algumas vezes ainda me- lhor do que em outra qualquer terra. E De Archiretlura Civil. 153 E com effeito a arêa com cer- ta porçaô de terra fimples he don- de as vinhas fruéhficad mais, e donde o vinho he mais feleéto. A aquella arêa chamaôd os agriculto- res arêa com fubltancia ; e efla confifte na porçaô que tem de ter- ra vulgar. Hum chaô defta qualida- de (a que chamaô tambem terra delgada ) he mais fecundo; porque as raizes das plantas achaõ nella mais facilidade para fe eftenderem, tanto lateralmente ', como profun- damente ; e deíta facilidade depen- de muito a vegetaçaô; porque quan- do as raizes naô podem romper a terra , ou achaô nella refiftencia, a vegetaçaô Íuccede menos feliz- mente. Defte principio certo reful- tou oarado , e outros inftrumen- tos ideados para fazerem a terra mobil, e penetravel aos primeiros rudi- I54 Problema rudimentos das plantas, quando entraô a vegetar. Aflim o indicou o Poeta quando diffe : Multum adeo rafris glebas qui frangit inertes , Vaimineasque trabit crates , juvar arva; neque illum Flava Ceres alto nequicquam fpe- étar Olympo : Es qui profeo que fufcirat equo- re terga , Rurfus in obliquam verfo per- rumpit aratro, Exercetque frequens tellurem. Segue-fe pois que nenhuma ter- ra, ou barro, deve entrar na conf- trucçaô dos muros ; porque eftes fempre ficaô imperfeitos, à propor- çaô da terra, ou barro que contém; e nunca podem adquirir aquelle grao de De Architectura Civil. ass de fortaleza , que adquitem com ef- feito » quando na fua compofiçaô naô entra outra coufa mais do que acal, e a aréa. Eftes dous mate- riaes lapidificad-fe de algum mo- do, eltando fós , e fem outro in- grediente algum. Outro qualquer mixto junto perturba , e impede totalmente aquella petrificaçaô ar- tificial, Nas entranhas da terra., ou ainda na fuperficie della, fuccede o mefmo; porque nem toda a qua- lidade de terra fe converte em pe- dra, nem chega a ter a dureza del- la ; porque nem em toda a parte acha a natureza os ingredientes pro- prios para formar a pedra: em huns lugares faô os ingredientes menos, e em outros mais. Por ifloa natu- reza ou naô produz a pedra, ou, fe a produz, naô he toda da mefi ma 156 Problema ma qualidade ; huma he branda, outra he rija ; huma tem efta côr, outra tem côr diverfa: tudo mof- tra que os materiaes forad diveríos, ou que houve diverfidade no modo de compór. He fem duvida que tudo quan- to a natureza fórma, ou o artifice compoem , exige certos materiaes, e em porporçaô certa. Se os mate- riaes faô mais , ou menos; fe naô faô precifamente os que devem fer; ou fe a proporçaô delles he erra- da, fica a natureza errando , e o artífice tambem ; ifto he , naô fe fegue, ou naô fe faz o que hum, ou outro pretendia: fegue-fe hum monftruofo parto ; ou hum aborto. Ito fe verifica fem prova, e a no- çaô, e conhecimento vulgar, que todos temos, nos perfuade ; por- que ha muitas propofiçoens que nad necefli- De Archite&tura Civil. sm neceflitaô de demonftraçaô; e quan- do fe demonítraô , he mais para ex- ercitar a regra , do que para fazer patente a coufa demonitrada ; afim como quando a Geometria prova que dous , e dous faô quatro ; ou que dous, e dous naô faô finco. E com effeito da femente de certa planta , naô provém outra planta diferente. Cada raiz pro- duz o fruto que lhe he proprio, e naô outro ; fendo que a arte de inocular ( a que chamamos enxer- tar ) nos moftra as largas excep- çoens, que aquella regra tem, por mais univerfal que nos pareça. Ena verdade, quantos troncos , e raizes vemos obrigados a nutrir frutos alheios ; defconhecendo as fuas mef- mas producçoens , fupente natura ipfa? e para mais admiraçaô, fen- do taô facil, e taô breve o artifi- cio: 158 Problema cio : efte he o que metaphoricamen- te fe chamou: Mrborum adulterium. O Poeta o deu entender afim : Nec modus inferere , atque oculos imponere fimplex ; Nam qua fe medio trudunt de cortice gemma » Et tenues rumpunt tunicas, an- guftus in ipfo Fit nodo finus: buc aliena ex ara bore germen Includunt , udoque docent inolefce- re libro. “Aut rurfum enodes trunci refe cantur » & alte Finditur in folidum cuneis via : deinde feraces Plante immittuntur. Nec longum tempus, d ingens Exiit ad colum ramis felicibus arbos » Mira- De Archireétura Civil, 159 Miraturque novas frondes , de non Jua poma. Naô he porém, geral a excepçad de que hum tronco fe accommode a produzir frutos eftranhos , dege- nerando por aquelle modo para contentar o avaro agricultor; por- “que a maior parte das plantas, que conhecemos, he tenaz , e fe nega inteiramente ao artifício que lhe quer mudar a indole primeira. Ou- tras facilmente chegaô a vencer-fe; e deixando a fua verdadeira, e na- tural inclinaçaô , fujeitad-fe a fe- guir a intençaô que lhes prefcreve o que devem produzir. Quem dif- fera (fe o naô ville) que ha arte para mudar a natureza ; ou para fa- zer que hum tronco veja nos feus ramos flores, que naô conhece , e frutos que nunca vio? CA- 160 Problema COESO Ce eta e re met cerne e e ter term CAPITULO X. Di de verificado o quanto importa fer a arêa pura para fazer duraveis os edificios ; e de- pois de havermos viíto que a ter- ra, ou barro, de qualquer forte que fe tomem , fempre faô ingredientes oppoftos a aquelle intento ; fegue- fe outro requifito nad menos im- portante, e quafi fempre defpreza- do por todos aquelles que edificaõ; e com tanto deícuido neíta parte, que já mais lhes vem ao penfamen- to a circunftancia neceflaria de fer aarêa fina. E com effeito todos nos defcuidamos , e raramente fe en- contra algum de nós, que faça re- paro em fer a arêa fina, ou por as De drcbiteetura Civil. 161 fa; em fendo arêa, he o que baf- ta; e julgamos que o volume de ca- da huma das fuas partes he mate- ria indiferente , e de entidade pou- ca. Porém he engano manifefto ; porque a cal amaflada com arêa grofla em nenhum tempo póde fa- zer perfeita liga, como moftra a ex- periencia, e a razaô o diéta, com- provada por muitos experimentos certos. Os metaes ( exceptuando o ferro ) unem-fe perfeitamente , e intimamente com o azougue ; e nef. te liquido metallico fe diflolvem , ou derretem quafi da mefma forte, que 0 fal fe derrete na agoa. Po- rém para efla difloluçaô , ou amal. gamaçaô ( como fe explicad os ar- tiítas ) exige-fe que os metaes fejaô limados, e reduzidos primeiro em particulas menores. Daqui vem, que Part. IL L fe 162 Problema fe fe deitar huma barra de ouro, ou prata fobre qualquer quantidade de mercurio, as barras haô de conter- var a figura folida que tem, fican- do fómente quebradiças, e brancas nas fuas fuperficies; e ainda que o azougue as penetre interiormente, nunca as fuidifica, pela razaô cer- ta de as achar em maíla groíla, Ao eftanho , e chumbo fucce- de o mefmo : e fuppofto que eftes dous metaes fejaô facilmente com- binaveis com o azougue , e com elle fe incorporad , fempre exigem tenuidade para É amalgamarem bem, e fem iflo ficad em mafia fo- lida, (ainda que fragil) na fuper- ficie” » ou parte fuperior do azou- gue. O cobre refifte mais à intro- ducçaô daquelle femimetal ; por- que ainda limado requer trituraçaô violenta para fe unir com elle. O ferro De ArcbiteékuraCivil. 163 ferro naô admitte aquella focieda- de, e fempre fe conferva intaéto fobre o azougue , fem ficar fragil, nem mudar a cor exterior, e ain- da que limado, ou dividido efteja em pó ligeiro. Os outros metaes porém em tendo a aptidaô precifa, ifto he, em eftando limados, ou reduzidos em pó, logo fe incorporaô com o azougue , e fe unem taô eltreita- mente , que fó o fogo os póde fe- parar de todo. O mefmo fal, que de todos os corpos conhecidos he o que tem mais propenfad , e pro- pençaô inevitavel para derreter-fe na agoa, e para cahir em deliquio, como os artiftas dizem , cuja fa- culdade naturaliflima fe naô póde impedir, fem deftruir de alguma forte o fal, e fem fe lhe mudar a fua propria contextura ; com tudo Lii em 164 Problema em quanto eftá em maffa firme re- fifte algum tanto mais à acçaô da agoa, e à doar; e quando fe dif- Íolve nella, he lentamente: porém aflim que o fal feacha em pó, ou reduzido em porfoens menores, de improvifo fe derrete, e ainda fem indigencia de calor. Ito procede certamente pela razaô univerfal, de que toda a com- pofiçaô , em que de varios mixtos deve refultar hum corpo folido , exi- ge que cada hum dos feus ingredi- entes fe reduza primeiro em par- tes minutifimas por meio de hu- ma trituraçaô exacta. Elta prepa- raçaô antecedente he [empre ne- ceflaria naquelles cafos , e fem ella nunca fe confegue hum corpo, ou hum compofto bem unido, antes fica fempre defunivel, á propor- çaô que as partes componentes , faô. De Architeétura Civil. 165 fao mais; ou menos denfas. E aflim deve fer; porque a uniaô de diverfos corpos, de que deve refultar hum fó, fuppoem hum contaéto immediato, ou huma in- tima miftura entre todos elles ( fem a qual nenhum perde a Íua forma- tura antiga, e natural) para tomar outra moderna , e artificial. O vi- dro compoem-fe (como temos di- to) dearéa, e de fal alchalino fi- xo; porém eftes dous ingredientes primeiro fe pulverizaô , e mifturad o mais perfeitamente que he poffi- vel, e fem iflo naô póde relultar hum perfeito vidro; e efte fica mui- to mais fragil, do que coftuma fer ordinariamente ; além de naô po- der adquirir por nenhum modo hu- ma grande tranfparencia , ou cla- ridade. Em outras muitas compofi- Part. II. Lai çoens 165 Problema çoens vulgares fe obferva o mel mo. De todos os metaes fundidos entre fi refulta huma mala fó, à que alguns chamaô eleétrum mine- rale. Efta compofiçaôd , ou uniad metallica fuccede afim , porque ca- da metal no eftado de fundido fi- ca como fe eftivelle feito em pó, vifto que o fogo defune de tal for- te as fuas partes integraes, que as faz fluidas , correntes, e fepara- veis: daqui vem o ficar liquido o metal; porque o fogo, que entra , e occupa os feus interíticios todos , faz que cada huma das fas par- tes femova, por caufa de eftarem feparadas entre fi, e agitadas pelo movimento rapido do fogo. Efte he o eftado de maior divizaô, a que o metal póde chegar : e por iflo mef mo, fe o fogo fe modera , ou cel- fa, as particulas metallicas defuni- das; De ArchisecturaCrvil, 167 das, tornad a ajuntar-fe, e formad hum corpo Íolido , e compaéto. O mefmo fe vê nas fementes farinofas de que o paô fe faz, as quaes naô podem fervir para aquel- le minifterio, fem que primeiro fe reduzaô a pó fubtil : entad. ficad habeis, e difpoítas para fermenta- rem, depois de amafladas com agoa fufficientemente , e para formarem huma maffa cozida, alimentofa, e por confequencia digerivel. Se as fementes porém fó fe quebraõ, e naô fe moem, naô procede a fer- mentaçaô perfeitamente; porque as partes da maíla naô fe ligad entré fi, de que refulta o ficar infalutife- ra, afma, e de hum fabor ingrato: Se ifto aflim procede a reípeito do paô, que alias fe compoem de hu- ma Íó materia , ou ingrediente, qual he cada huma das fementes vege- Liv taes, 168 Problema taes, de que aquelle artifício util fe fabrica, com quanta mais razaô naô ferá o mefimo em outras com- pofiçoens, cujos ingredientes faô di- verfos, e naô hum Íó, e exigem ferem preparados , para poderem produzir hum efeito deftinado ? A Pharmacia contém grande numero de mifturas, de que os feus medicamentos fe compoem : porém as partes dos mefmos medicamen- tos, que fegundo a arte delles de- vem fer moidas , efte preceito fe ob- ferva fielmente ; porque , fe os mix- tos medicamentofos , e pulveriza- veis, naô faô moidos , efta circunf- tancia defprezada , faz que o reme- dio ou naô produz effeito algum, ou o que produz he contrario ao que fe efpera delle; e qualquer fal- ta no modo de preparar qualquer remedio , he o de que procede mui- tas De Arcbiteélura Civil. 169 tas vezes a Íua inefficacia ; porque naô fó relulta a falta de huma qua- lidade procurada , mas tambem lhe muda , ou perverte aquella que já tem naturalmente. Às pedras preciofas faô mui- tas vezes indicadas na pratica da Medicina ; porém devem fer moi- das exactamente;porque fendo pou- co, ou mal moidas, nefte cafo he nocivo o ufo dellas; porque os an- gulos, ou pontas agudas, e deli- cadas , com que ficaô, fervem para lacerar todas as partes, por onde paffaô. Foi abufo antigo o enten- der-fe que o pó do diamante era perniciofo , naô o fendo na verda- de. Efta pedra quando eftá moida em pó fubtil naô tem propridade alguma má; porém quando o pó he groffeiro, e mal moido , entaô as pontas imperceptíveis, que con- ferva, 170 Problema ferva, faô as que fazem todo o dano: e aflim o pó do diamante he nocivo fó pela figura, e acci- dentalmente , e naô pela fubltan- "Clãs O mefmo Íuccede a reípeito de todas as mais pedras preciofas ; e a refpeito de todo , e qualquer vidro : efte, que tambem paílou por fufpeitofo , he innocente na verda- de; e fe faz mal, he porque foi moido mal; porém depois de eftar moido exactamente, naô póde com effeito fazer mal, nem bem. E de faéto nem o vidro, nem as pedras preciofas tem qualidade activa , que introduzida nos folidos, ou fluidos de qualquer corpo , poíla fufpen- der-lhes, ou accelerar-lhes o mo- vimento ; e fe fazem prejuizo, he por razaô do pezo , ou impaítaçad, mas naô que fubltancialmente con- tenhaô De Arcbiteélura Civil. am tenhaô a mais leve porçaô de qua- lidade intrinfecamente má. Muitas coufas fe fuppoem nocivas, fem o ferem ; e outras tambem fe fup- poem innocentes com pouco funda- mento ; tanto em humas, como em outras feguimos a precccupaçad vulgar : a antiguidade as introdu- zio fem exame , e nós tambem fem exame as confervamos ainda. Temos outro exemplo na pol- vora. Efta ( como todos fabem ) compoem-fe de falitre, carvad, & enxofre. Eltes tres ingredientes pri- meiro fe pulverizaô ; depois miftu- raô-fe, depois granulad-fe, e ulti- mamente feccad-fe. Porém primei- ro que tudo, cada hum daquelles ingredientes fe reduz em pó lub- til; para cuja reducçaô tem inven- tado a experiencia varios modos ; e os que fe praticaôd por meio da agoa corren- 172 Problema corrente faô os mais promptos, e menos diífpendiofos. A melhor pol- vora he a que he mais fina; e efta circunítancia lhe provém da fubti- leza, ou pulverizaçao dos feus ma- teriaes, e tambem das proporçoens reciprocas entre os mefmos mate- riães. E com effeito a bondade, e actividade da polvora naô podem verificar-fe, fe ofalitre, o carvaô , e o enxofre naô fad moidos per- feitamente, e naô faô bem miltu- rados; porque naô ha miftura per- feita entre partes mal moidas. O falitre he o principal agente naquel- la compofiçaô , vifto que de fer o falitre mais, ou menos purificado , e de entrar em maior, ou menor porçaô ( fem exceflo porém na ra- zaô da quantidade ) depende a per- feiçaô , ou imperfeiçao da polvora. De Architeélura Civil. 173 A qualidade do enxofre, e do carvaô naô he materia indifferen- te ; porque o enxofre, para fazer perfeita a compofiçaô , deve fer re- duzido a flor por meio da fublima- çaô. Nefte eftado naô fó perdeo o enxofre alguma parte do feu fal acido, mas tambem fica pulveri- zado pela mefma operaçad. O fal acido attrahe avidamente a humi- dade do ar; poriflo a polvora fa- bricada fem aquella circunítancia he mais fujeita a humedecer; por- que o fal acido Íulphureo attrahe com effeito a humidade , ainda com mais força do que o mefmo fal ni- trofo. Naô fei fe os artífices obfer- vaô aquella pratica ; e fe a naô ob- fervad, experimentem, e veraô a differença que vai da polvora fabri- cada com enxofre fimples , ou fei- ta 174 Problema ta com enxofre florificado. Daqui vem que algumas polvoras em me- nos quantidade fazem mais effei- to, do que outras em maior. Tudo he polvora ; mas nem toda tem a mefma actividade; huma he debil, e outra he forte. Do enxofre vem a fulminaçaô ; e do falitre o impe- to, ou elafticidade. A qualidade do carvaô tam- bem he requifito neceflario, e im- portante; porque nem todo o car- vaô he proprio; e alguns ha que faô ineptos, e que naõ fó nad pro- movem a acçaô do falitre, e en- xofre, mas antes a impedem de al- gum modo. A habilidade do artifi- ce eftá em faber diftinguir, e co- nhecer os materiaes de que fe fer- ve ; porque de huma eleiçaô bem entendida depende a bondade da obra, ainda mais que da manipu- laçaô, De Architelura Civil. 1975 laçaô, ou formaçaô material, Se- gue-fe depois a miltura exacta da- quelles ingredientes , fem a qual naô fe póde efperar o effeito que coftuma fazer a polvora. À miftura exige, e Ífuppoem que os mefmos ingredientes fe fubtilizem primeiros e fe moaô; porque fe naô faô moi- dos, e ainda fe o faô grofleiramen- te, a polvora fica fendo pouco vi- gorofa, e fó capaz para fazer hu- ma detonaçad , ou deflagraçad ir- regular. Aflim fe faz aquelle eftupen- diflimo artefato , cujos efeitos, ou a razaô, porque fuccedem , ainda fe naô fabe , nem fe explicou bem, e talvez que feja hum dos que nunca fe haô de faber, nem explicar: tudo, o que a refpeito delle fe tem dito, fó fatisfaz a quem he bom de con- tentar; mas nad a quem nas mate- ras 176 Problema rias Phyficas naô fe fujeita facil- mente à incerteza dos fyítemas. Nefte cafo parece que he melhor fufpender a conclufaô , ifto he, nad determinar a caufa,de que hum phe- nómeno provém. Devemos conten- tar-nos com a coufa, fem entrar a decidir a razaô della ; bafta que faibamos que coufa he, ainda que naô faibamos o como , nem o por- que he. À intelligencia dos effeitos he- nos mais util, que a das caufas. Aflim como fabemos que o Iman, ou pedra de cevar, attrahe o fer- to, e que faz que a agulha nauti- ca, (e ainda outra qualquer ) mof- tre os polos do Norte, e Sul. Sa- bemos que c opio Oriental (e ain- da o de outras partes ) ferve para calmar, e moderar a agitaçaô dos efpiritos irritados , por huma quali- dade De Architeilura Civil. 177 dade que fe diz narcotica, ou fo- porifera. Sabemos que o extraéto do açafrad excita alegria , e rilo. Sabemos que o regulo de antimo- nio ; he hum vomitivo perigofo, Sabemos que a planta chamada fen- fitiva, por fi fe move todas as ve- zes que lhe tocaô. Ignoramos os principios de que refultaô aquelles, e outros effeitos admiraveis. Porém que importa que os ignoremos? o conhecimento dos effeitos he fem- pre proveitolo; o das caufas tal- vez que Íó feja curiofo. De tudo, o que fica expoíto , podemos inferir que a arêa, que houver de entrar na conftrucçaô dos muros, deve fer fina para fe incor- porar bem, e mifturar com a cal, e agoa com que fe amafla; porque fó de huma miftura igual, e per- feita, he que póde refultar a inti- Part. II. M ma 178 Problema ma adhefaô daquelas partes entre fi Só entaô he que provém aquella eípecie de petrificaçaô artificial, que ferve de unir as pedras divididas, e de as conter juntas, e ligadas; fa- zendo ( como temos dito ) de mui- tas pedras feparadas hum corpo continuado , e forte. Nelte eítado fica fendo o muro huma mafla fo- lida, capaz para refiflir á introduc- çaô da agoa, e á acçaô do ar. E com efeito a agoa naô fe póde in- troduzir em huma tal parede para defunir as fuas partes; e da mefma dorte o ar naô tem vigor para a penetrar, nem pulverizar as fuper- ficies exteriores que ficad mais ex- poftas ao movimento perpetuo da- quelle fubtililimo elemento. Naô he porém precifo que fe môa a arêa para a fazer exacta- mente fina; e iflo feria quafi im- pra- De Architetlura Civil. 179 praticavel; mas bafta que fe efco- lha aquella que he fina naturalmen- te. Defta qualidade coftumaõ fer todas as arêas que fe achao nos al- veos dos rios, e juntamente aquel- las que os meímos rios lançaô para as fuas margens : eftas naô Ífó tem o grao de fineza fufficiente , mas tambem faô izentas commumente dos principios heterogeneos , e con- trarios a toda a fabricaçad dos mu- ros; iftohe, aterra, o barro, eo fal. Todos eftes a mefma agoa cor- rente os leva: o fal vai derretido nella; e a terra, oubarro, ainda que fe naô derretaô , (empre a agoa os amollece , e divide em fórma, que os fufpende em fi, e os vai co- mo arraftando fuccellivamente; em lugar que a arêa, fendo mais peza- da, e por iflo naô podendo fuf- tentar-fe na agoa , ptrecipita-fe ao ti fundo 180 Problema fundo della , e vai ficando pelas margens, de donde depois fe tira, quando as agoas diminuem, ou fe tira tambem dos alveos nas partes ; em que os rios feccaô totalmente. Daqui vem que os edificios ruf-. ticos coftumaõ fer muito mais du- raveis do que os urbanos ; porque naquelles ordinariamente a arêa tira-fe dos rios, ou daquellas par- tes, por onde paíflaô de inverno muitas agoas, e depois fe feccaô. À cal tambem nelles he mais pura, porque fe naô fabrica junto ao mar, e he fempre desfeita , e amaflada com agoa doce, e naô falgada, nem falobra. Nãô he porém regra ge- ral que todos os edificios rufticos fejaô mais fortes, e duraveis; por- que ainda que Íejaô conftruidos com materiaes melhores, fuccede mui- tas vezs ferem inferiores os feus arti- De Aribiteeiura Civil, 18r artífices; de forte , que O que ga- nhaô na materia, perdem no arti» ficio. Verdade he, que fendo a arêa fina, e pura, exige maior porçaô de cal, e por efte modo vem a fer a obra mais difpendiofa. Aflim he fem duvida ; porém o noílo inten- to naô he de economizar a eltru- Etura do edificio , mas fim propor o meio de c fazer duravel: o cuf- tar pouco he materia diftinéta do prefente aflumpto. Muitos meios ha para que qualquer obra cuíte me- nos; porém para que dure mais ha hum meio fó, e efte confifte prin- cipalmente na bondade dos feus ma- teriaes. À vida dos edificios ( diga- mos afim ) depende daquella cir- cunftancia. A quem lhe naô impor- ta que a obra dure mais ou me- nos, tambem lhe naô deve impor- Part. II. M in tar 182 Problema tar nada do que fica dito: para ef- fes naô efcrevo, Todos, os que edificaô , tem hum certo fim, ou certo penfamen- to que os dirige; e quando o pen- famento naô vai longe , ifto he, quando quem edifica ; fó fabrica para fi, parece-lhe efculado o fer efcrupulofo no modo de fabricar : fendo que fuccede algumas vezes. crefcer a vida, e faltar a obra; en- taô he que parece mal o naô haver fido efcrupulofo ; e muitas vezes efle mais, que fe difpende, confif- te em taô limitado objeéto, que a penas tem deículpa quem edifica mal. Porém fó cada hum fabe o que póde; e quem naô póde mais, defculpa tem : a indigencia tem muitos privilegios , e aquelle he hum delles. E aflim feja como for a ref- peito De Architeélura Civil, 183 eito do edificio particular: aquel- A porém, em que o publico fe in< tereíla, naô deve fer feito eftreita- mente, porque vai muita differen- ça de hum cafo ds O outro, co- mo já diflemos. É verdadeiramente o edificio particular faz-fe para hum; o publico para todos : nefte parece que todos tem direito de inf- pecçaô ; naquelle a razaô de cen- for fó compete a hum: o primeiro ferve para ornar o mundo ; o fe- gundo para abrigar hum homem ; por iflo o edificio particular nad he mais do que domicilio ; e o edi- ficio publico he como patria com- mua ; aqueile coftuma ver o Ífeu principio, e fim; eíte he feito pa- ra ver o fim de tudo. Miv CA- 184 Problema meme mma et res rem ts er re mt CAPITULO XI. T Emos difcorrido fobre a preci- faô dos materiaes , e qualida- des que devem ter, para que del- les refulte a firmeza , e duraçaô dos edificios. Agora fegue-fe o dizer que naô he menos importante o faber mifturallos com arte; porque todo o compofto exige certa pro- porçaô entre as partes que o com- poem a fem a qual nunca corref- ponde o effeito à juíta intençaô do artífice. Se a aréa he muita, e à cal pouca, ou muita a cal, e pou- ca a arêa, naô póde haver uniad forte entre huma coufa, e outra; e nada havendo, fempre ficaô divi- fiveis, e mal ligadas; e tanto dano faz De Arcbitelura Civil. 18g faz à falta de hum material, como a fuperabundancia delle: Tudo ne- ceffita porçaô determinada , para que naô haja exceílo nem no mais, nem no.menos. Ito mefmo fe obferva em to- dos quantos artefactos ha; e com- mumente aquelles, que naô operaô como fe pretende , ou como tem operado outras muitas vezes , he porque houve deícuido , ou erro nas proporçoens de cada huma das fuas partes. Por iflo hum mefino artifice humas vezes trabalha com Íucceflo, outras naô. Muitos experimentos fingulares fuccederad bem a pri- meira vez, e depois, fendo repeti- dos , faltaraô ; porque a primeira vez por acafo fe acertarad as pro- porçoens. E com effeito tem havi- do inventos admiraveis que fó fe viraô huma vez; e tornando ares petite 186 Problema petir-fe , já mais fe poderaô en- contrar ; como fe a fortuna tambem tiveíTe arbitrio nas experiencias phy- ficas, concedendo alguma vez aquil- Jo mefmo que outras denega. Porém a verdade he que a for- tuna em nenhum cafo influe, nem “tem poder algum. À razaô , porque hum experimento humas vezes fuc- cede , e outras naô, he provavel- mente porque huma longa opera- çaô diverte, ou confunde o artifta para naô ter lembrança certa nem do modo , com que trabalhou, nem das proporçoens de que fe fervio; e aflim quando encontra o que naô bufcava , fe quer retroceder para repetir, e ver o mefmo que já vio, raras vezes acha o caminho por on- de ahdou; até que de canfado de- fifte, e larga a empreza , impacien- te de naô defcobrir o que enten- deo De Árchivetlwra Civil. 187 deo ter deícoberto. Daqui vem que alguns artiftas menos inftruidos che» garaô a affirmar que haviaô du- endes invejofos, e malignos , que mudando , ou pervertendo os feus ingredientes, faziaô fallir qualquer operaçaô. Porém o verdadeiro du- ende fempre confiftio em fer mal di- rigido o experimento ; na falta das juítas proporçoens ; e no erro em o medo de operar. Ifto he como o que alguns Au- thores efereveraô quando dizem que nas cavernas mineraes , donde os metaes fe tiraô , ha efpiritos mal in+ tencionados , que perturbaô aos mis neiros , e efeondem os metaes pa- ra naô ferem extrahidos ; appare- cendo algumas vezes em fórma, ou figura de Religiofos Capuchinhos , trabalhando com os mefmos minei- ros; porém efcondendo fempre os metaes 188 Problema metaes mais preciofos , e fazendo com que fe naô achem Elta opiniaô fuftentou o famofo Agricola nas fuas obras, em que ex profefjo tratou da extracçaô de todos os metaes. ConfeiTo que efte Author he gra- ve, e foi o mais experiente na ma- teria, e efcreveo nella com pro- funda erudiçaô , como as fuas mel- mas obras manifeftaô ; porém quan- to dos Capuchinhos cfpirituaes , fides fit penes Authorem ; falvo fe eflas taes intelligencias exiltem Í1ó nas minas de Alemanha , que he donde o referido Author fez todas as fuas obfervaçoens ; porque nas minas da America nap coníta que hajaô vifoens algumas. Porém para conciliar-fe a ver- dade (ao menos apparente neíte ca- fo ) daquelle illuíftre Author , de- vemos confiderar que as minas de Ale- De Architeéturá Civil. 189 Alemanha , Polonia , Suecia , e ou- tras , todas faô commumente fub- terraneas, difcorrendo por baixo da terra efpaços grandes , nos quaes fe naô vê a luz do dia, mas o tra- balho fe faz com luzes artificiaes. Concorre maisa circunftancia de fe- rem aquellas minas ordinariamente fulphureas , e fempre inficionadas de hum halito, ou vapor de enxo- fre, que inunda todos aquelles ef- paços fubterraneos ,e mineraes, co- mo affirmaô todos os Efcritores que fazem mençaô dellas. Ifto fuppotto, fica fendo verofimil que as Ífom- bras das meímas luzes artificiaes , e os vapores denfos que os mineraes exhalaô, fazem illufad aos olhos, figurando reprefentaçoens phantaf- ticas, como fuccede aos febricitan- tes, a quem os vapores halituofos, que o fangue circulando defordena- damente 190 Problema damente fuggere ao cérebro,ou idéa mental, donde com efeito fe fór- maô configuraçoens diverfas, ou imagens efpanto(as. Nas minas da America naô fe encontraô taes vifoens, porque fe naô encontraô tambem as mef- mas circunítancias de que podem refultar aquellas illufoens ; e he cer- to que nas minas , de que fe extrahe a prata, ou ouro , naô fe daô va- pores fulphureos , e arfenicaes, co- mo fe verifica pelos mefmos metaes extrahidos ; porque regularmente fe acha a prata pura, e com a fua meíma cor, por onde fe diftingue; em lugar que donde ha vapor de enxofre , precifamentc a prata he denegrida , nem fe póde nunca unir ao azougue para por meio defte fe feparar da terra, ou pedra em que fe acha, fendo efte hum dos me- lhores De Architetlura Civil. 91 lhores argumentos contra os que en- tenderad que na formaçaô natu- ral daquelles dous metaes entrava o enxofre como parte efliciente, Ântes he provavel que aquelle mi- neral indigefto, e corrofivo, he contrario a toda a producçaô da prata, e ouro. E aflim naô ha nas minas Ame- ricanas as mefmas vifoens, ou illu+ foens que fe diz haver nas minas Septentrionaes; porque naquellas os vapores mineraes fad outros ; nem faô taô profundos , e caverno- zos os meatos fubterraneos , donde habrtad (por aflim dizer) o ferro, e o cobre, como fe vê principalmente nas dilatadas minas de Suecia , don- de fe achaô abundantemente o an- timonio, o Arfenico, o Bifmuth , o. Zync, e outros mineraes noci- vos, que com efeito perturbaô a facul- 192 Problema faculdade imaginativa, e tambem a vifivel dos mineiros que trabalhaô nellas. Ito naô he dizer (nem ainda imaginar ) que deixem de haver ef- piritos malignos, que de facto, e verdadeiramente infeftem os minei- ros, aílim como infeftaôd a todos os mais homens todas as vezes que podem, e tem permiflaô para o fa- zerem; mas fim he ponderar que aquellas illufoens podem fucceder naturalmente , e pelo modo referi- do ; e he certo que em quanto hum faéto póde ter lugar naturalmente, naô o devemos entender , como procedido de cauía fobrenatural : e pelo que parece, tanto he erro at- tribuir hum faéto a caufa fobrena- tural, naô o fendo ; como attribuir a caufa natural aquella, que verda- deiramente he fobrenatural. A natu- De Architeélura Civil. 193 natureza tem limites determinados; e tudo, o que os excede, naô he obra fua mas fim de hum agente ex- terno, immaterial, intelligente. Aquella digreflaô talvez foi ociofa , por naô ter competente connexad com o ponto principal, de que tratamos. Porém feja ociofa embora, com tanto que o conhe- cimento della poíla fer conveniente alguma vez. Qualquer livro , ainda que pequeno , he como hum erario publico, em que póde recolher-fe , ou depofitar-fe tudo ; quanto póde fer publicamente util. A noticia dos phenómenos mais raros em toda a parte tem lugar; e aquelle mefmo , de que alguns homens nad tem curiofidade , outros fe interef- faô muito, e querem ver tratada huma materia , ainda que feja alheia da materia, de que fe trata, Quanto Pact. II. N mais, 194 Problema mais, que no mundo ha poucas coufas, que deixem de conter al- guma connexaô humas com as ou- tras; e efta talvez he a catena aurea de que faz mençaô Homero. As artes, e Íciencias todas tem entre fi affinidade conhecida, e de tal forte, que huma Íciencia ou ar- te, mal póde eftabelecer-fe fó , fem a concurrencia, e afliftencia de outras ; todas faô igualmente de- pendentes. ES 1 ren e eee meme mega a CAPITULO XII Inhamos expendido, que a cal, e arêa deviaô miiturar- fe em proporçoens devidas, e naô fem regra , e como tumultuariamen- te. Lito comprovámos com alguns exem- De Árchisetlura Civil. 195 exemplos; e além de outros muitos, temos hum no regulo de antimonio marcial. Efte compoem-fe de ferro, de antimonio , e de falitre. Se o fer- ro he em porçaô maior , refulta hum regulo de Marte em lugar de regulo de antimonio. Se o falitre he em porçaô demaziada , confome o antimonio, e ferro, e naô fucce- de regulo de antimonio , nem de Marte, Tudo requer proporçaô con- veniente , fem a qual nenhuma ope- raçaô fuccede bem ; porque naô eftá fó em juntar os materiaes pre- cifos, mas devem fer juntos em pre- cifa quantidade. À diminuiçaô , ou o exceílo de cada hum desfaz a obra, ou a naô faz ; e detal Ífor- te, que de hum compofto medici- nal refulta muitas vezes hum com- poíto virulento. Ito fe vê claramente no an- N ii timo- 196 Problema timonio ; porque fe algumas das Ífuas partes faô feparadas delle por meio de porçaô mediocre de falitre, ou de qualquer fal alchalino fixo que as abforbe , refulta hum me- dicamento emetico de approvado ufo; porém fe as partes fulphureas fe feparaô com maior quantidade de cada hum daquelles faes, o eme- tico, que provém, he violento, e nefte eftado naô he medicamento, mas fim hum vomitivo formidavel, e reprovado. Quantas mil vezes te- rá tomado a morte o traje de reme- dio! E quantas mil vezes os reme- dios preparados com menos atten- çaô fervem mais para tirar a vi- da, que para a confervar ! Por if fo ao Medico perito cufta mais li- vrar ao infermo do remedio , que do mal ; fendo que a defordem , que procede do remedio , quafi fempre he De Architeélura Civil. 197 he incuravel; porque fe attribue á qualidade do mal o que fó foi qua- lidade do remedio. Difiite fcren- tiam moniti. He neceflario pois que haja certa proporçaô entre a arêa , e cal, para que eítes dous materiaes fe petrifiquem de algum modo, e adquiraô dureza lapidifica ; efta nunca adquirem, fe a obra fe faz ne- gligentemente , e fem regra nas porçoens dos mefmos materiaes. Hu- ma parede he como hum compof- to de varios ingredientes , da regu- laridade dos quaes depende a regu- laridade do compoíto. Naô eftá fó em fazer direito o muro , e bem perpendicular ao orizonte ; tam- bem deve imaginar-fe , que para confervar-fe naquella fituaçaô , he precifo que as fuas partes tenhaô difpofiçaô para fe endurecerem lo- Part. II. N ii go; 198 Problema go; porque, de outra forte, a pare- de, que no feu principio ficou di- seita, vem depois a inclinar-fe fa- cilmente, e bafta qualquer inclina- çaô e a para que naô pofla fuftentar o Ífeu proprio pezo; e ainda menos para refiftir a qual- quer movimento irregular da terra. E com efeito tudo depende de juftas proporçoens, fem as quaes naõ fe confegue o fim que fe procura; e quando naô ha certeza das pro- porçoens , que devem concorrer em qualquer experimento, efte, fe al- guma vez fuccede bem , outras muitas falta ; e de tal forte, que hum mefmo experimento feito , fe fe tor- na a repetir , Ífuccede mal, ou to- talmente naô fuccede. A famofa Palingenezia das plantas tem occu- pado infinitos curiolos ; porém faô raros os que a viraó , fó por naô haver De Árchiteétura Civil. 199 haver regra ainda fabida nas por: çoens que devem intervir em cada huma das partes de que fe com- poem : fim fe fabe quaes faô os Íeus materiaes, mas ainda fe igno- ra quaes devaô fer as Íuas pro- porçoens. Chamaô Palingenezia huma efpecie de relurreiçao de qualquer planta depois de queimada, e re- duzida em cinza; efta fe miftura com fal armoniaco , efpirito de vi- nho tartarizado,e outros mais ingre- dientes , cuja compofiçaô accom- modada em hum vidro efpherico, e tapado hermeticamente, e poíto em hum calor que imite aquelle que o Sol tem no mez de Março com pou-+ ca differença , depois de paílados alguns dias, entra a ver-fe no con- cavo do valo huma verdaderra re- prefentaçaô da planta , de que pro- Iv veio 200 Problema veio a cinza. Nifto confifte a tal Palingenezia , a qual chegou a moftrar no feu laboratorio o infig- ne Monfieur Groflée Academico da Real Academia de Íciencias de Pa- riz. Porém aquelle mefmo Author, ( cujo nome he conhecido no mun- do litterario ) afirmou tambem fin- ceramente que Íó huma vez pôde confeguir aquella rara curiofidade, por naô poder acertar nunca nas mefmas proporçoens , de que tinha ufado já fem fazer lembrança del- las. Naô fó nos materiaes ha , e devem haver certas , e determina- das proporçoens ; mas tambem as devem haver nos liquidos que fer- vem de os unir: porque ainda fup- pondo que as porçoens de arêa , e cal fejaô bem difpoíftas, com tu- do, fe for exorbitante a quantida- de De drcbiteélura Civil. 201 de de agoa com que aqueiles dovs materiaes fe amaflaoO, já fe naô pó- de efperar delles o effeito que de- vem produzir, ficando como iner- tes, e affogados em hum liquido exceflivo , e fem poder refultar del- les huma maíla Íolida , e compa- ca. H O mefmo fe obferva na fer- mentaçaô do paô ; porque, fe a fa- rinha he amaílada com agoa em demazia, as partes da farinha fi- caô taô oltas, e diluídas, que per- dem a acçaô , ou difpofiçaô que tem para fermentar; e a fermenta- çaô » que depois refulta, he quafi corruptiva, e putredinofa. Da mef- ma forte, fe a agoa he em menos quantidade que a que deve fer, a fermentaçaô, que provém,he imper- feita, e defigual; e nefte cafo a maíla da farinha conftitue hum corpo fer- mentan- 202 Problema mentante, e naô fermentado; con- trahindo fempre hum (abor de fer- mento, e naô de paô; azedo em todas as Íuas partes, e ferindo o olfato com hum cheiro ingrato, e defagradavel. A compofiçaô natural do fan- gue, exige tambem huma certa porçaô de liquidos diferentes, de que o mefmo fangue fe compoem. Efta porçaô , ou proporçaô fó a natureza o fabe; porque a fangui- ficaçaô he obra toda fua, nem ha arte alguma que a poíla imitar de alguma forte. He como hum cafo refervado, cuja Íciencia, ou co- nhecimento fó para fi refervou a natureza; nenhuma arte, por mais fublime que feja, ou pofla fer , po- derá fabricar nunca huma Íó gota de fangue verdadeiro. Bem fabe- mos que dos alimentos ordinarios fe fórma De Arckiteélura Civil. 203 fórma aquelle liguido vital; temos os materiaes fabidos; porém igno- raremos fempre a ordem de os dif- por, de os ajuntar, e proporcio- nar. À fuperabundancia, ou indi- gencia de algum dos liquidos, de que aquelle liquido principal fe faz, ou arruina o que eftá feito, ou naô faz o que eftá por fazer ainda; e aflim naó fe fórma hum liquido bal- famico , glutinolo , activo, mas fim hum que he languido, corru- ptivel, tumultuolo, e fem vigor. Que differença notavel ! e que dif- ferenças fe naô oblervad em todos os fangues que fe examinaõ ! fendo que os materiaes faô os mefmos commumente , e Ífaôd as mefmas as officinas em que fe fabrica aquelle licor efpirituofo: porém, faltando acontextura regular, e defordena- da a ordem dos inftrumentos , e vicia- 204 Problema viciado o movimento delles, nad faô as meímas as proporçoens ; ilto bafta para fazer fulpender , retar- dar, ou impedir aquella acçaõ fin- gular da natureza. O fogo tambem he hum ligui- do; mas em fummo grao de fe- quidaô , de lubtileza, e força : as compufiçoens, que neceffitaô delle , e que por meio delle fe fabricaô , exigem hum fogo proporcionado ; o que he violento, he deftruétivo, e improprio para certos ufos; o que he baftantemente moderado, ás ve- zes naô chega a dar a excitaçaô precifa nos materiaes de algum compoito ; e neíles cazos naô fer- ve abfolutamente nem o fogo bran- do, nem o forte; em hum fobra a força, e em outro falta; e afim vem a faltar as verdadeiras e juítas proporçoens. O artefacto do vidro pede De Arcbiteliura Civil. ox. pede hum fogo o mais intenfo : a deftillaçaô da rofa quer hum ca- lor remiflo, mas igual; e em che- gando a exceder, o corpo da rofa fica reduzido em cinza, e em lugar de hum liquido fragrante, o que provém he hum defagradavel , em- pireumatico , e nauzeozo. Naô hou- ve proporçaô no fogo; ficou per- dida a obra, e o trabalho ficou def- vanecido. Os metaes naô fe fundem por hum mefmo grao, ou proporçaô de fogo: huns em hum fogo fortifimo fe apuraô, ou purificad ; outros qualquer fogo-hum pouco aftivo os deftroe , e vitrifica: huns fuppor- taô todo o ardor fem perder nada do feu pezo; outros, em fendo o calor maior, entraô a exhalar huma grande parte da fua fubltancia, e a mudar inteiramente a figura de me- tal. 206 Problema tal. Para os mineraes tambem na fogo ha graos de proporçaô ; por- que em alguns, em o fogo fendo mais ardente, diflipaô-fe de todo em fumo ; outros reduzem-fe a huma efcoria, ou fedimento terreo. O enxofre (de que participaô quafi to- dos os mineraes) conferva-fe fundi- do em hum calor debil; e em efte fe augmentando , o enxofre fe in- flamma , e exhala totalmente, per- dida a proporçaô do calor a que po- dia refiftir. Até no tempo ha juífta propor- çaô a refpeito daquelle,em que hum compofto deve adquirir a (ua per- feiçaô; porque quando o fogo en- tra como parte que ferve a endure- cer a mafla, ou corpo do compo(- to, deve fer o fogo proporcionado a elle naô fó na actividade , mas tambem no tempo, ou efpaço E ua De Architeciura Civil. 207 fua duraçaô ; de forte que alguns mixtos podem foffrer mais tempo de calor; outros ficaô perdidos , fe o calor permanece mais. O cobre v. g. depois de eftar fundido, fe o mef- mo grao de calor fubíifte por ef- paço de tempo mais continuado , ul- timamente perde a fufaô em que fe achava, e fica como reduzido em terra. As materias oleofas o fogo as clarífica, e as poem em melhor eftado , diflipando a parte puramen- te aquola ; porém fe o calor he mais perfeverante do que deve fer, aquel- las materias ou fe inflammad, ou, ficando mais denfas , perdem a lim- peza , ou claridade que devem ter naturalmente, E aflim ha com effei- to proporçoens naô Íó no pezo, e quantidade ; mas tambem no tempo. CA- 208 Problema CEEE Ca TE smesam Tctorreimm e eee ema pe e meme eim CAPITULO XIV Proporçaô , que deve haver entre acal, eaarêa para o fim de fabricar huma parede, naô he facil de determinar , nem fe pó- de dar regra certa , por onde fe des va definir ; porque he materia de fi mefma variavel , e toda depen- dente da qualidade efpcifica daquel- les dous materiaes. À arêa quanto mais pura, e fina he, mais cal exi- ge; ea cal da melma forte pede mais arêa , quando he mais forte , e mais activa ; porque a cal, que de fa- éto he debil, e ifto porque ou o tempo a tem enfraquecido , diffi- pando-lhe os efpiritos igneos , que he donde confifte toda a fua for- taleza » De Árchiteétura Civil. 209 taleza, ou porque a pedra, de que foi feita era branda, e poriflo me- nos apta para receber , e concen- trar em fi huma grande porçaô da- queiles mefmos efpiritos de fogo; nefte cafo deve fer a arêa menos. Tudo quer huma combinaçaô bem entendida. A cal forte fupporta com effeito mais arêa ; e menos a que he fraca: a arêa fina pede mais cal; e a que he grofla menos. Neítas pro- porçoens , ou quantidades ; eftá to- da a dificuldade. O Poeta o deu a entender aflim : Alter onus quantum fubeas, quan- tumque laborem Impendas craffam circa molem ac rude pondus. E na verdade habilem reddere map» Jam, boc opus , bic labor ef. Por if- Parc. UI. O fo 210 Problema fo a arte da miftura , ou de pro- porcionar a quantidade relativa de cada hum dos materiaes, naô deve eftar, nem ficar no arbitrio do fer- vente inexperto , ou aprendiz ; an- tes deve fer a occafiad, em que o proprietario , o meftre, ou o archi- tecto, fe apure mais, como em hum dos objectos de confequencia gran- de, em que confifte a melhor, e mais bem dirigida fortificaçad , e fem a qual naô podemos efperar que a obra chegue a vencer huma grande antiguidade, antes, qual- quer tempo que vença, fempre ha de fer como obra moderna nos ef- feitos. Temos hum exemplo vulgar , e bem fabido na liga do ouro, e na liga tambem da prata. Eftes dous metaes, eftando no ultimo grao de fineza, a que podem chegar natu- ralmen- De Archite&tura Civil. 11 ralmente, e a que a arte os póde reduzir, faô totalmente ineptos pa- ra delles , ou com elles fe formar alguma obra; porque naquelle ef- tado de pureza faô taô brandos, e malleaveis, que com pouca for- ça fe dobraô; de forte que huma barra de ouro , ou prata , e de grof- fura confideravel , a maô a póde dobrar com facilidade. Para evitar aquelle inconveniente junta-fe por meio da fundiçaô huma certa por- çaô de cobre a cada hum dos dous metaes ; e fegundo a porçaô do co- bre, adquirem maior rijeza, e Íó entaô ficaô capazes para ferem tra- balhados, e para refiftirem a qual- quer força exterior ; e por aquelle modo fe concilia a dureza compe- tente a aquelles dous metaes, que por fi faô exceflivamente brandos, e dobradiços : a maior , ou me. H nor 212 Problema nor porçaô de cobre he juítamente o de que refulta mais ; ou menos fortaleza no metal, e o de que pro- vém o ferem mais, ou menos mal- leaveis. A fabricaçaô do bronze naô confifte em mais do que na confu- zaô, ou fundiçaô de metaes diver- fos, e unidos todos em hum corpo fó. Porém, fe a miftura fe faz fem regra, ou proporçaô de cada hum dos metaes fundidos, a maíla que refulta naô he bronze , mas fim hum compofto, ou corpo fragil ao menor impullo, e que com effeito quebra, e fe defpedaça em fendo tocado rudemente; e nefte eftado naô tem ufo, ou ferventia alguma ; porque os metaes foraô unidos em fórma , e irregularidade tal, que o feu meímo pezo baíta muitas ve- zes para os dividir, perdendo aílim qual- De Archiseélura Cívil. 213 ualquer configuraçad , ou figura. Porgje ainda que naô ha bronze que naô feja quebradiço , com tu- do a fragilidade fumma he total- mente oppofta á intençaô , para que o mefmo bronze fe fabrica. A compofiçaô metallica, de que fe fazem os finos , commumente tambem exige proporçaô , ou quan- tidade certa entre cada hum dos me- taes de que aquella compofiçaô fe fórma ; e fem efta circunítancia, ou os finos quebraô logo, ou ficaô fem difpofiçaô para fazerem no ar aquel- la vibraçaô de que o fom depende. Por io alguns finos fe quebrad fa- cilmente por haverem fido menos bem difpoítas as proporçoens dos feus metaes ; outros ficaô com hum fom groffeiro , e pouco harmoniofo. De forte,que aquella arte confifte na ordem da miftura, e nas juítas pro- Parc. II. O iii por- 214 “Problema porçoens-dos feus ingredientes ; if- to he, dos. metaes diverfos de que a mafla metallica fe fórma. Daqui vem que dous finos de iguál gran- deza, e de pezo igual ,-e tambem de huma figura femelhante ; nem por alo tem o mefmo fom.; .e ef- te indica pela differença de hum; e outro, a differença, proporcional entre os metaes: de-que; faô com- poftas. | Na compofiçaô das tintas fe obferva o memo vulgarmente; por- que das porçoens dos. mixtos, de que as mefmas tintas fe compoem, re- fulta eíta, ou aquella cor; o bran- co, e o preto ferve muitas vezes de bafe a outras muitas cores ,'' fegun- do a miftura, ou modulaçaô de alguns dos mixtos de que as mef- mas cores vem a proceder; e ifto por meio da paflagem , ou tranf; miflaô DeArchitectnra Civil. arg miffãô da luz, que he à fonte óri- ginal de todas quantas cores ha. A purpura, a que os ântigos chamarad de Cartago ( por: fe fabricar perfei- tamente naquela ififéliciflima Ci- dade) naô podia, fer outra coufa , fe naô 'o ouro diflolvido”, e preci- pitado” pelo eftariio ; 'de que com effeito provém huma cor de purpu- rá excellente ;'a qual he mais ou menos fobida , e forte; fegundo a proporçaô: do -diflolvente ; e:tam- bem' fégundo a quantidade de efta- nho que precipita o ouro. O admyravel: artifício dos ef- máltes he outro exemplo” conhe- cido; compoem-(e de huma verda- deita vitrifitação ; porgiie todo o verdadeiro: efmalte-he vidro; a cor; que felheimprime, ven: dos mixtos vitrificaveis , a que he própria efta; ou aquela. cor.. Do celebre bifi Oiy muth; 216 Problema muth, mineral nativo de Polonia, fe extrahe a cor azul, cujo ufo he taô commum; porém fempre de- pendente das proporçoens do fal que fe lhe junta para o fazer vitrifis car; deíta addiçaô refulta a fua cor , mais ou menos clara , ou mais, e menos agradavel; a arte eftá nas quantidades da miftura, e tambem na bem difpofta adminiftraçaô do fogo, que ferve fó para reduzir em vidro huma materia por fi mefma vitrificavel, mas naô vitrificada ain- da; com difpofiçaô para exaltar aquella cor, que eftava como fopita, ou efcondida no bifmuth. Efte mi- neral contém propriedades raras, mas pouco inveltigadas; a que fa- bemos com certeza , e de que ufa- mos commumente, he a cor azul conhecida em toda a parte; os do- tes ulteriores , que o mefmo mineral encer- De Architettura Cívil. 21% encerra, refervarad para fios Alchi- miftas, (fegundo o que elles que- rem dar a entender) porém receio que os que intentaô achar alli os mais reconditos fegredos , percaô o trabalho, e o fuor. No fabor temos outro exem- plo manifefto. A lingoa fente a impreífaô que nella faz tudo quanto he azedo; ou doce: mas de que procederá differença taô notoria ? Os fães faô a caula certa, ou prin- cipio verdadeiro, de donde fe deri- vaô os fabores diferentes; o azedo eftimula a lingoa, fazendo nella a fenfaçao que he propria a cada hum dos faes; eftes mefmos fe fe juntaô a huma materia volatil, e unétuola , já naô fazem a fenfa- çaô do azedo , mas fim de doce: nas proporíoens de huma materia volatil, e oleofa conflte o artifi- cio 218 Problema cio paturãl de hum corpo azedo, ou doce; deforte, que fegundo à quantidade , 'e qualidade de hum corpo acido , e outro oleofo , reful- taô aquellas duas fenfaçoens con- trarias; porque toda, e qualquer materia -oleofa , ou unétuofa retun- de vigorofamente os efpiculos fali- nos de hum fal acido, ou fimplef- mente azedo ; e confórme a pro- porçaô ,.ou porçaô de qualquer del- les, procede o mais ; ou menos aze- do ; e por confequencia o mais, ou menos doce. “À arte; que em muitas cou- fas imita a naturezá , .perfeitamen- te a imita na fabrica do fabor. O vinagre 'he hum licor acido, e efta qualidade fe exalta ás vezes tanto, que fica fendo o-vinagre "hum li- córacidiflimo , penetrante, e forte; porém fe lhe juntarmos huma por- çaõ De Architelwra Civil. 219 çaô de chumbo , efte metal vola- til, e unêtuolo diflolvido no vina- gre , retundindo-lhe os efpiculos, brevemente o muda, fazendo de hum licor picante, e auítero ou- tro totalmente doce, a que os ar- tiftas chamaô Sacharum Saturai , ou aflucar de chumbo , conhecido vul- garmente por aquelle mefmo titu- lo. O mais , ou menos doce provém do mais , ou menos chumbo diflol- vido; e quanto mais o vinagre he forte , tanto mais doce he o cha- mado aflucar de Saturno. Aquelle mefmo licor, que de acidifimo que era velo.a ficar doce, em fe evapo- rando delle a parte mais phlegma- tica, fica o alfucar tomando hum corpo folido , e perdendo o liqui- do que tinha ; e da melma forte, e pelo mefmo modo que o aflu- car natural fe fórma. Às 219 Problema Às proporçoens das partes o- leofas , e falinas, e reacçaô que fuccede entre ellas , foi o artífice da mudança. O mefmo aflucar na- tural , em fe feparando delle as par- tes oleofas de que refulta o fabor de doce , fica reduzido a hum licor fa- lino , e quafi corrofivo ; da mefma forte, que fe fepararmos o chumbo daquelle aflucar artificial , torna o vinagre ao feu primeiro eftado , perdendo totalmente a doçura ad- venticia a que eftava reduzido , e tornando a reaflumir o meímo fa- bor acido que tinha naturalmente. Affim fe fórmaô, etransfórmaõ al- guns corpos. Em fe fabendo a orga- nizaçao das partes que os compoem, e a fórma com que a natureza fe comporta , facilmente imitamos a mefma natureza , e ás vezes em menos tempo ; porque a arte he mais De 4rchiteélura Cívil. 221 mais precipitada, e ablolve os feus eriodos em mais breve eÍpaço. Tudo eftá na applicaçaõ de certos materiaes, e de certas, ou deter- minadas proporçoens ; fem eftas, nem a arte,'nem a natureza po- dem fazer nada; e o que fazem he como cegamente , e fem inftin- Eto; e por illo fazem erradamente , e imperfeitamente, Vemos que he azedo hum fru- to verde; e tambem vemos que he doce depois que madurece : huns fempre ficaô fendo azedos , e a madureza naô lhes muda o fabor ingrato: outros adquirem á doçura à medida que vaô fendo já madu- ros; e-outros depois de eftarem do- ces, e maduros , fem tornarem pa- ra o eftado da verdura , por hu- ma nova acçaô tornaô a fer aze- dos. Que mudanças exquifitas ! Que 222 Problema Que inverfoens de qualidades! que retrogradaçoens de naturezas, e que differenças totaes nos acciden- tes! Que diftancia naô vai do mol- to turvo, fem graça, e fem fabor conftante, ao vinho claro, faboro- fo, e agradavel | Se virmos em hum mefmo campo muitas flores diferentes, naô teremos razaô para admirar-nos; porém em hum mefmo liquido vermos taô dif- tinétas apparencias, naô deve dei- xar de fazer reparo; tem difculpa a nofla admiraçaô ; e as attençoens mais vivas devem occupar-fe al- guma vez, naô para difcorrer in- fallivelmente, mas provavelmente. Se quizermos perícrutar as ra- zoens phyficas daquelles phenóme- nos admiraveis, acharemos que o fruto verde he fempre azedo em quanto naô chega a huma perfei- ta De Architeétura Civil. 223 ta madureza ; porém efte funda- mento naô defcobre a razaô, que procuramos ; e fó he refponder á difficuldade , propondo o mefmo cafo della: a repoíta deve fer , que no fruto verde naô eftaô ainda bem unidos os principios de que hum tal fruto ha de compôr-fe ; aquel- la uniaô perfeita he a que faz a digeftad do mefmo fruto; na ma- dureza podemos confiderar digeri- das as fuas partes, e eftas nunca fe unem , ou digerem , fem que as fuas proporçoens fe encontrem de- vidamente. He precifo que o aci- do vegetal fe ache defvanecido , e abforbido pelas partes oleofas : fó entaô fe diz maduro ofruto, e en- taô he que o fabor acerbo recebe , ou adquire a doçura natural. CA- 224 Problema [E Emas mma mr cem me CAPITULO XV. Inda duraô hoje alguns dos amphitheatros, que a fober- ba Romana edificou para divertir hum povo foberbiílimo. Ainda fe moítrad os veltigios das eftradas fa- mozas , que fahindo da Cidade ca- pital daquelle Imperio , hiaô ter a outras capitaes da Íua vaíta domi- naçaô. Ainda exiftem as mageíto- zas piramides do Egypto. A vora- cidade dos feculos naô tem podi- do anihilar tantos illuftres monu- mentos ; antes guardaô nas ruinas hum authentico fignal da fua gran- deza ; como fe naquelles triftes ref- tos quizeflem competir com o tem- po em duraçaô ; ou como fe o tem- po De drcbiteélura Civil. as po naô tiveffe força para os deftruir, nem actividade para os acabar. Fe- lices edificios, cujos fragmentos deftroçados fervem para confervar inteira a memoria da fua pompa : e aílim, que importa que a vicifli- daô das coufas lhes tenha feito perder o efplendor primeiro, fe ainda fem ulo, e depois de extin- Eto o fim para que foraô levantados, tem no mefmo abatimento tudo o que baíta para infundir refpeito ; fendo maravilhas raras, ainda no eftado inutil em que fe achaô, e fendo admiraveis nefle pouco que agora faô, independentemente do muito que já forad? Porém porque fubfiftem hoje aquelles infignes monumentos, que a douta antiguidade nos deixou para modelos? Será , porque fo- raô fabricados fem regra, fem pro- Part. II. P por- 226 Problema porçaô, femarte? Naô, antes he certiflinio o contrario. Entaô flo- recerad architeétos excellentes; e a Architeétura naô conhifte fó na apparatoza figura do edificio, nem na regularidade vifivel de cada huma das fuas partes; mas tambem na juíta eleiçao dos feus materiaes , e na próporçaô reciproca que entre elles deve haver. Daqui vem a for- taleza de toda, e qualquer obra, eefte he o penhor feguro que ccr- tifica a fua duraçaõ. De que ferve a magnificencia em hum corpo debil', ou de que val a fumptuozidade em hum edifi- cio infermo? Ninguem fabrica para hum dia, nem para hum anno fó ; porque naturalmente nos parece que havemos de durar muito. Devemos pois edificar com fegurança , ainda “quando edificamos fó para a nofla vida, De Architeétura Civil. az vida. Naô digo que tenhamos no fentido o-fim univerfal, nem que prefumamos feriamente que os nof- fos edificios podem chegar a efle tempo ; mas ao menos edifiquemos para aquella pofteridade que fe ha de feguir logo depois de nós , à maneira de hum contrato feito-pa- ra fubfiftir em duas, ou- tres vidas. Naô tenhamos inveja aos-que had de vir; preparemos-lhes a habita- çaô , allim como elles prepararad efta em que nós eítamos: exerci- temos efta efpecie de Iiberalidade a refpeito dos vindouros ; e feja- mos defta forte liberaes, já que a efle tempo naô o-havemos poder fer por outro modo. Duremos na duraçaô da obra; já que em nós mefmos he taôd: pouco o que dura- mos. Façamos de conta que o edi- ficio he huma parte nofla ; e que Pi nefta 228 Problema nefta parte exterior , afaítada , e in- fenfivel, podemos permanecer fem fuftos , fem tribulaçoens, fem do- res. Em fim fupponhamos que tam- bem alli fe continua a nofla def. cendencia , e que efta ainda que feja immobil, e fem acçad, com tudo he, e ha de fer fempre in- nocente , por força da fua mefma inacçaô , e immobilidade, incapaz de merecimento , e de virtude, mas tambem incapaz de vicio, e culpa. Se bem confiderarmos, acha- remos que os Varoens illuftres da fabia Grecia feguirad aquelle pen- famento , e que ennobrecendo a terra de nobres edifícios, perpetua- raô nelles a gloria dos feus nomes, fem temer que a fama delles cadu- cafle involvida nas revoluçoens do mundo. Olhemos para a nofla Ma- fra, De Architeétura Civil. 2219 fra, em cujos obelifcos , porticos e colunas , ficou comos em hierogli- phico o fiel, e immortal retrato do Augufto Rey D. Joaô, que ainda choramos, quinto no nome, primeiro na grandeza : alli parece que o vemos refpirar ainda; e que o feu gloriofo efpirito recebe o tri- buto voluntatio das noflas lagrimas, o incenfo dos noflos votos, e as oblaçoens da noíla faudade : pe- queno obfequio para taô alto ob- jeéto. Ditofos bronzes, marmores venturo(os, em que as idades mais remotas , fem dependencia de ci- fras, e caraéteres , haô de ler co- mo em emblema a hiftoria memo- ravel daquelle Monarcha generoflo; cujas acçoens heroicas fó foraô dignas delle para as obrar ; e Íó feriaô dignas de hum Homero pa- ra as efcrever. Em outro fagrado, Part. HI, P in e mag- 230 Problema e magnifico lugar defcançaô as fuas Reaes cinzas: lá recoftada a Lufi- tania fobre a veneravel urna abra- ça religiofamente aquellas mefmas cinzas para as animar com o feu pranto; invoca como Nume tute- lar o feu efclarecido nome ; e fe- gura na fé do amor , eftá vendo em vaticinio que do tumulo fecun- do haô de renaícer os verdes lou- ros para coroar tropheos , felicida- des, e triumphos. mms entes eee amem ee rea ee meme CAPITULO XVL E precifo pois huma certa proporçaõ entre cada hum dos materiaes de que os muros fe com- poem. O architeéto experiente nunca ignora aquella regra, antes nella De Architetura Civil. 231 nella poem o Ífeu primeiro, e prin- cipal cuidado. Fortificando princi- pia, e ornando acaba. O ornato póde vir em qualquer tempo , a fortificaçad ha de fer logo ; por- que aquele faz-fe para o agrado da vita , e efta para fubfiftencia da coula. O edificio póde fubfiftir fem ornato algum , mas naô fem toda a fortificaçaô ; póde fer tofco na apparencia fuperficial, mas naô na fua fubftancia interior. Aquella porçaô porém (co. mo já diflemos ) naô admitte re- gra invariavel, nem póde regular- fe de huma fó maneira ; porque hu- ma cal neceflita mais arêa do que outra ; e da mefma forte huma arêa requer mais , ou menos cal. Com tudo algum meio deve haver para fazer-fe aquella diftinçaô , e para explorar-fe exactamente quaes Piv devad asa Problema devaô fer as verdadeiras propor- çoens; porque, de outra Íorte , edi- ficariamos cegamente , e fem mais certeza que a de hum arbitrio in- certo , e vago. Aquelle meio, ou aquelle conhecimento baíta que fe tire, e faiba 4 pofteriori, como os Philofophos fe explicaô ; e que pro- venha de experiencia certa, como logo havemos de moftrar em be- neficio dos que querem fabricar com arte, e que defejaô a duraçaô da obra, He muito de reparar, que fen- do a fortaleza do edifício o primei- ro objeéto a que devemosattender, raras vezes nos occupamos em or- denar as porçoens juítas de que ha de compôr-fe a mafla que ferve de ligar as pedras humas com a ou- tras. No que confideramos mais, he, que a obra efteja bem delinea- da De Architeélura Cívil. 233 da no papel, e que nefte efteja bem difpoíta a ordem da profpe- étiva , a correfpondencia das en- tradas , a diftribuiçao das ferven- tias, a divifad das Ífuas partes , a introducçaô da luz em cada huma dellas , e finalmente a fymmetria em todo o corpo do edifício. À fegu- rança das paredes entra como cou- fa menos importante. A qualida- de dos materiaes, e as proporçoens , em que devem concorrer, tambem he como materia fuppofta , para que fe olha pouco ; e como tal, commumente fe entrega aos primei- ros ferventes que a noticia da obra convocou. Naô fe inquire quaes faô os materiaes melhores , e mais proprios, mas fim quaes faô os que eftaô mais perto, e donde fe haô de haver com menos defpeza. Nef- ta economia confifte o maior def velo 234 Problema velo de quem dirige a obra. Naô fe examina como foi feita, e des- feita a cal; e da melma forte naô fe experimenta a arêa, para fe fa- ber fe contém barro, ou terra; fe he falgada , ou fem fabor ; fe he grofla, ou fina. Aflim vai logo crefcendo a obra mas imperfeita, e defeituofa defde o feu principio. Naô fe paf- faô muitos dias que fe naô veja hir cahindo a cal juntamente com a arêa, defamparando as partes fu- perficiaes, e lateraes do muro. Os artifices que o vem , nunca lhes im- porta o indagarem a razaô porque aflim fuccede; e fe forem pergun- tados , raramente acertaráô com a caufa de que procede ; bufcan- do fundamentos menos verdadei- ros, a que erradamente attribuad aquelle facto. Os que edificad por aquel- De Architectura Civil. 23% aquelle modo , talvez entenderãõ que o mundo tem já pouco que du- rar; e que por ponco que a obra dure , fempre chegará até o tem- po, em que haô de acabar todas as coufas, Hum Philofopho aflim o entendeo tambem , quando diffe, fallando do mundo : Yam jam fe- pulcrum premiz. Porém efta porten- tofa machina , parece que naô foi feita fó para Ífeis mil annos.Al- guns dos que quizerad computar as femanas de Daniel, fizerad calcu- los menos acertados ; porque fe fof- fem certos , já teria acabado o mundo. O Divino Architefto do Univerfo , relervou fó para fio tempo em que a fua obra ha de ter fim: fó elle podia dizer Fiat, e fó elle fabe quando ha de dizer Intereat. Para conhecer-fe pois quaes fad 236 Problema faô as proporçoens, em que devem concorrer aquelles dous materiaes, he neceffario , antes que a obra prin- cipie , fazer alguns experimentos em porçoens pequenas: em humas v. g. em que fe juntem iguaes par- tes, ifto he, tanto de cal, co- mo de aréa: em outra em que fe junte parte e meia de arêa con- tra huma de cal: em outra em que fe juntem duas partes de arêa con- tra huma de cal: em outra em que fe juntem duas partes e meia de arêa contra huma de cal ; e em outra em que fe juntem tres partes de arêa contra huma de cal. Feitas eftas mifturas feparada- mente, e poítas ao ar cada huma de per fi, ( depois de amafladas bem com a agoa neceflaria, e da meíma com que fe ha de fabricar a obra) entaô fe verá como fica cada De Arcbiteétura Civil, 237 cada huma daquellas compofiçoens: a que feccar com effeito em menos tempo, e que endurecendo mais de preíla , fuítentar a agoa que por fima fe deitar , fem a extravazar, nem amolecer a fua fubftancia , he a melhor , e em que as proporçoens dos materiaes forad acertadas. En- taô fe fará o amafladouro em gran- de; obfervando as mefmas propor- çoens fabidas pela experiencia an- tecedente. O que fica dito, he fuppondo fempre ferem bons os materiaes que ferviraô para a experiencia; por- que fe a arêa tinha terra, oubarro; fe era grofla damaziadamente ; fe continha fal de qualquer genero que fofle: e da mefma forte, fe acal foi feita com pedra branda ; fe foi desfeita ao ar, oucom agoa falga- da, e ainda falobra ; de femelhan- tes 238 Problema tes materiaes, nunca podemos ef- perar que refulte hum corpo folido; tanto em grande, como em peque- no; e por mais bem ordenadas que as proporçoens fe encontrem entre aatéa,e a cal, Talvez que aquelle fofle o fimplicifimo, e faciliífimo fegredo de que ufavaô os antigos, quando edificavad , fegurando-fe por aquel- Je modo das jutas proporçoens que deviaô praticar; e por cujo meio confeguiad o fazer tad fortes as pa- redes, que quando queriaô demo- Hr-fe para alguma nova obra , era menos cultofo que ebrar as pedras pe- lo meio dellas , do que dividillas pe- las fuas juntas; como vemos ainda hoje. em todas as paredes de edi- ficios antigos. Sendo tambem para notar, que aquelles edificios tinhad as paredes comumente menos grof- fas; De Arcbitectura Civil. 239 fas; e ainda aflim fuftentavaõ pe- zos exorbitantes, fem ceder a elles; e aflim mefmo duravad muitos fe- culos fem o menor defeito; em lu- gar, que as grofluras das paredes nos edificios modernos fendo mui- tas vezes exceilivas , nem por if- fo faô mais fortes , nem promet- tem duraçaô maior: de forte que nos primeiros a arte;com que os mu- ros fe formavaôd , e a bondade, e Juítas proporçoens nos feus mate- riaes, Íuppria a falta das grofTuras; e nos fegundos as groíluras ex- ceflivas naô podem fupprir a irre- gularidade de cada hum dos mate- riaes'; e Íuas devidas proporçoens. CA- 240 Problema “E CT O ra rr —me ma CAPITULO XVI | TE seg a fortaleza dos edi- ficios depende da miftura regu- lar daquelles materiaes, de que as paredes fe compoem ; porque da cal, e da arêa mal juntas, ou amaí- fadas mal, nunca póde refultar hu- ma liga forte. Do contaéto imme- diato provém a uniaô perfeita; e fem efta naô póde haver indura- çaô; de forte, que os ingredientes, depois de mifturados mal , ainda confervad alguma parte da divifad que tem naturalmente. Quantas ve- zes vemos que no inftante em que a obra principia, nefle mefmo inf. tante fe prepara a cal, e fe junta com aarêa? E tudo taô precipita- damen- De Architeliura Civil. 24x damente que o intento do artifice parece encaminhar fe fó a fazer de preíla , e nad a fazer bem. A natureza naô faz, nem fabe fazer milagres ; por iflo nada faz fem tempo. O prudente agricultor pri- meiro prepara a terra, e neíta pre- paraçaô impende o maior traba- lho: efpera a fezaô propria ; obfer- va algumas vezes as phafes da lua nova, ou chea ; efcolhe o dia fe- reno, e claro, eentaô femêa. Neí- te ponto começa a natureza a Íua obra , e a vai continuando lenta- mente até que em efpaços certos à conclue. Tudo , o que fe faz de repen- te, tambem de repente acaba. Às coufas que fe fazem de vagar , e com premeditaçad, faô as que du- raô mais. Aflim faô os edificios ; para eítes he primeiro nec eflario Part. II. Q que 242 Problema que a materia fe difponha , ifto he, que os materiaes recebaô aquella elaboraçaô primeira, por meio da qual fe fazem habeis para produ- zirem huma acçaô determinada. Ne- nhum artefaéto ha, que naô necef- fite preparaçoens antecedentes. Só o que he feito de huma fó coufa neceflita menos, (fe he que póde haver alguma coufa que provenha de huma coufa 16.) Aquillo po- rém , em que entraô muitas , e diverfas entidades , cada huma dellas exige hum modo de prepa- rar diverío; porque a perfeiçaô de hum compofto Ífuppoem necefla- riamente a perfeiçaô das partes que o compoem. Quem fouber que o vidro fe faz comarêa, e fal, nem por iflo o ha de faber bet, fe igualmen- te naô fouber o como fe preparaô para De Architettura Civil. 243 para, aquelle effeito o fal, e mais a arêa. Quem fouber que o ver- melhaô fe faz com enxofre, e azou- gue , nem por iflo o ha de fazer nunca , fe ignorar a preparaçaô de cada hum daquelles dous ingredi- entes; porque naô baíta o conhe cimento abítraéto ; mas he necef- fario arte na execuçaô. Todos vem que a folha, chamada de Flandres , he fabricada com eftanho ,; erla- minas de ferro; mas nem aflim fa- zem todos aquela folha, por naô eftar vulgarizada a preparaçaô an- tecedente de hum e outro metal para aquelle util minifterio. Muitos fegredos fe perderads fem que a noticia fe. perdefle dos feus materiaes; mas porque fe per- deo o modo de os preparar. Raros faô os que naô conhecem quaes faô as partes, ou ingredientes, de Qii que 244 Problema que fe faz a compofiçad metallica, chamada Electro Mineral ; porém efte faô rariflimos os que o fabem fazer , porque o ufo de difpôr aquellas partes naô he commum. A arte tem Íeus materiaes, e tam- bem a natureza ; defta os mate- riaes faô os quatro vifiveis ele- mentos. Só a natureza fabe obrar com elles; porque fó ella os fabe preparar. À arte prefupppoem aquellas preparaçoens anteriores , que fó a natureza Ífabe dar. E com effeito o que a arte faz he tudo por meio dos corpos já feitos, ou formados pela natureza; e eíta o que produz he por meio de elementos ainda nad corporiza- dos ; porém fem miftura , nem a natureza, nem a arte podem pro» duzir. Huma miítura defigual, ou negligente, o que faz he hum monf- tros De Architetlura Civil, 245 tro, ou hum aborto. Ha fortes cor- rofivos , a que huma miltura di- ligente-dulcifica ; e a leve, ou pou- co cuidadofa , naô tira a qualida- de cauítica. O Mercurio , a que cha- maô doce , póde fervir de exem- plo. Commumente provém de hu- ma trituraçaô conftante ; fem a qual naô perde o fublimado Mer- curial, a corrofaô , ou cauíticidade que lhe he propria. A Pharmacia toda fe reduz a trituraçoens , ou mifturas differen- tes; da exactidaS deftas depende abfolutamente a fingularidade dos remedios. O artifice impaciente ra- ras vezes foi util ao infermo; an- tes quafi (empre lhe caula prejuizo irreparavel; porque a precipitaçaô, com que a receita fe prepara , ou faz o remedio inutil, ou faz o uío delle perigofo. Tudo aquillo, em Part. II. Q in que 246 Problema que entraô partes diverfas , para de todas refultar hum (ó compof- to , he fempre neceffario ( como já diflemos tantas vezes) que ef- fas mefmas partes fe mifturem bem; e nenhuma miftura fe faz perfeita- mente fem paciencia, e tempo. E aílim, que importa que o artifice co- nheça a ley, ou proporçaô das quantidades , fe ao tempo da mif- tura ou fe efquece della, ou a trata comb ponto menos importan= te, e pouco eflencial ? Naô he porém aíflim ; por- que fe a cal, ea arêa fe naô in- corporaô bem por meio de huma miltura diligente, e rigorofa, nuns ca daquelles dous ingredientes ha de refultar hum corpo Íó ; antes cada hum confervando tenazmen- te afua natural propriedade ha de ficar habil fempre para feparar-fe - € para De Architeétura Civil, 247 e para tornar ao eftado de divifaõ, que de antes tinha ; e com efeito de huma tal compofiçad , ou de hu- ma miftura fuperficial, e negligente, nunca póde refultar huma concre- çaô laprdifica , forte, e perduravel. Sendo pois certa, e bem fabi- da aquella propofiçaô ; e proce- dendo geralmente em todas quan- tas compofiçoens fe fazem ; ainda he mais conftante, e invariavel na quel- taô de que tratamos ; porque as paredes nad fe fazem para Ífuften- tarem fó o feu proprio pezo; mas tambem , e mais principalmente pa- ra fuftentarem todo o pezo de to- das as partes do edificio ; e ifto nad para hum dia, ou para hum anno fó , mas para muitos. Por io quan- to menos obfervancia ha na exa- étidaô das regras, tanto menos he duravel o edifício. Qiv Ne- 248 Problema Neceílitamos de huma efpe- cie de liga , ou cola preparada de tal forte, e com arte tal, que en- dureça logo , e depois de endure- cida fe petrifique com o tempo ; pa- ra que nelfte eftado poíla refiftir à agoa , e aoar: á agoa, para que a naô penetre; eao ar, para que a naô faça em pó. Nos edificios an- tigos obfervamos muitas vezes que corroendo o ar o corpo Íolido das pedras, naô póde fazer a mefma corrofaô na cal e arêa com que foraô fabricadas as paredes. Iíto procede aflim pela razaô de have- rem fido aquelles dous materiaes efcolhidos prudentemente, e amaf- fados bem, de forte que nem a agoa, nem o ar os poderaô deftruir ; e foi naquella parte mais douta a ar» te, que preparou os materiaes, do que a natureza que fez as pedras; a lo De ArcbiteéluraCivil. 249 io eftas refiftirad menos á impreflaô diuturna daquelles elementos; em lu- gar que os materiaes depois de uni- dos, ficara totalmente impenetra- veis, e daqui procedeo a duraçaô. E aflim he neceffario que os materiaes fe mifturem bem , e que neíta preparaçaô fe occupe o tem- po que for precifo : porém como em tudo póde haver exceflo , e efte em tudo he ruinofo, commumente tambem o póde haver no vagar de- maziado, com que fe proceda-na mif- tura; porque diílo refultaria o mef- mo, ou maior erro. À força da cal depende inteiramente dos efpiritos igneos que contém ; e fem os quaes nenhuma preparaçad , ou tritura- çaô póde fer fufficiente para fup- prir , e emendar aquella falta. Tf- to Íuppofto , já fe vê que huma preparaçaô efpaçofa ou prolongada, lenta- 250 Problema lentamente faz diflipar huma grande parte daquelles memos efpiritos que devemos confervar; e que faô os primeiros » e verdadeiros agentes da pemificaçaô artificial que procura- mos, e que he com effeito o fim a que a obra da parede fe encaminha. A expofiçaô da cal ao ar por muito tempo, faz perder-lhe a for- ça; porque no mefmo ar fe diffi- paô os efpiritos, em que toda a for- ça eftá. Iíto fuccede à cal, naô ló quando eftá folitariamente ; mas tambem depois de mifturada com à aréa, e no intempeftivo tempo da miftura; porque nefle meímo fe perdem tambem os feus efpiritos mais fortes, e aétivos. Temos o ex- emplo em todos os licores inflam- maveis ; os quaes eftando algum tempo expoftos ao ar livre, perdem infenfivelmente o força , a qual confif- De Árcbitebtwra Civil. asa confiftindo nos efpiritos mais pu» ros, eítes fe diflipaô; eo que fica do licor, he a parte-mais:aquofa , e menos inflammavel. “O ;mefmo fuccede a todos os efpiritos volas teis dos animaes, e vegetaes; por illo os valos, em que:feguardad ; devem elftar'tapados fempre ,'co- mo enfina a pratica vulgar ; e quan» to mais fubtis ; e efprrituofos faô, tanto mais neceflitaô. aquelle: ref- guardo , £ providencia; : A mefma agoa fimples»conti- nuamente fe evapora, e vai per- dendo alguma parte da fua melhor fubftancia , como a diminuiçao mof tra; e fe evapora totalmente em tempo-campetente; e a parte; que vai ficando, (empre he a mais den- fa, emenos pura; tornando por ef- te modo a entrar na vaíta regiad do ar, que he de donde as ig as as Problema das vem. Entre os efpiritos vola- teis alguns ha com tanta força , que com difficuldade fe confervad, por mais que vedadamente eftejaô refguardados ; porque, franqueando os vafos mais feguros;, recobraô a perdida liberdade, illudindo a pou- ca vigilancia do artifta inexperto , e defcuidado. Deve pois a preparaçaô, ou miftura dos noflos materiaes , fer regularmente praticada , impenden- do-fe o tempo neceflario , mas naô com tal exceílo , que a força da cal, que devemos confervar, fe ve- nha a perder por efle meio. Fefti- sa lente , como diz o proverbio conhecido. À prudencia deve pref- crever as regras neceflarias , ifto he, o tempo que ha de gaftar-fe na mil- tura, para que efta naó fe faça pre- cipitadamente , nem tambem com mais De Architeliura Civil. 253 mais vagar do que aquelle que he precifo. Affim teremos os dous ma- teriaes taô juftamente preparados , que venhaô a fervir de huma liga forte, que contenhaô os muros dos noílos edificios ; e aflim veremos que os edificios antigos nunca fo= raô mais duraveis , doque os noflos haô de fer. Que os elementos fe conjurem, e que a terra trema, ve- remos as noflas habitaçoens refife tirem mais , naô cedendo ao pri- meiro impulfo , mas aos impulíos repetidos de hum tremor mais vio- lento , e extraordinario ; porque defte naô ha arte humana que pof- fa defender. Aquella he a refoluçao do nof. fo Problema. Os edificios antigos duravad mais , e refiftiaô algum tempo mais aos movimentos Íub- terraneos ; porque foraô fabricados com 254 Problema com mais regularidade. Alguns dos noílos, e modernos edificios refif- tem menos, e tem menos duraçaô; porque fe fabricaô com menos at- tençaô , e fem intençaô de dura- rem muito : de que fe fegue que naô he para admirar que os vejamos durar pouco. Nifto naô digo eu nada de novo; lembro aquillo mel- mo que todos fabem. O mais, que fiz , foi verificar aquella verdade conhecida , com experimentos phy- ficos igualmente conhecidos. Para os architeétos naô era precifo di- zer nada; porque fabem melhor do que eu todos os preceitos de huma profiflaô , que naô he minha. Naô affirmo porém que to- dos os noílos edificios fejaô fabri- cados com menos fegurança ; por- que alguns eftamos vendo que com effeito fe fabricaô com a mais fe- véra De Arcbite&lura Civil. ass véra exactidad. “Temos huma pro- va memoravel: no Arfenal famofo, donde a arte mais efcrupulofa ex- ercita as regras mais fublimes pa- ra formar hum edifício fumptuofo, que ha de ficar fervindo de indicar, como Padraô Real, o auguito nos me do Monarcha Inviéto que o pro- tege; do fabio Minifterio que o pro- move; e do nobre Magiftrado que o dirige. Alli veraô os feculos vin- douros o quanto póde em hum Prin- cipe o cuidado Paternal; em hum Miniftro ozelo ardente; eemhum Corpo refpeitavel a prompta exe- cuçaô. Que duraçaô naô devemos eíperar de hum admiravel edificio, cujos fundamentos faô eftabelecidos naquelles generofiflimos motivos ? As pofteridades o haô de ver du- rar, e perfflir na mefma pompa contra todo o rigor dos elementos; nelle 256 Problema nelle haô de achar como em livro vivo e permanente, os melhores do- cumentos para edificar com forta- leza: enós obfervando o methodo, com que aquelle edificio fe levanta felizmente , nelle acharemos tam- bem os preceitos regulares para pra- ticar em pouco efpaço , a mefma fe- gurança que alli vemos praticada em grande. FIM. pis PROTESTATIO. I aliquid in hoc Civilis Architefturz Problemate, me início , elapfum fit, quod Catholic Fidei, aut bonis moribus aliquatenus adverfetur, id omne non di- étum nec feriptum volo; & facrofanttx Romanz Ecclefiz cenfurz , aut alicujus in Phyficis melius fentientis correétioni fubjicio ; ex debito voveo , ex animo li- benter amplector. IN TA INDEX, OU EXPLICACGAO de alguns termos proprios , de que no Problema de Archite- Cura Civil fe faz mençaô. Cido alcalico:fal alcalino fixo. A Todos eftes termos fe appli- cad a aquelles faes que fer- mentaô entre fi;naô porque haja en- tre elles huma verdadeira fermenta- çaô; mas huma efpecie de combate, ou ebulliçaô em que o acido perde a natureza de acido ; e da mefma forte o alcalino perde a natureza alcalica. O acido porém fempre fe manifeíta em hum fabor pungente, ou amaricante, como fe nota no fal commum, no nitro, no vitriolo, e em outros muitos faes , aflim mi- Part. II. R nêraes, 258 Index do Problema neraes, como vegetaes; em lugar que os alcalinos tambem fubliftem fem fabor algum; em cuja ordem entra a terra vulgar, todas as for- tes de cal, e outros muitos corpos; os quaes faô alcalinos, fem conte- rem aliás fabor algum. E por ef- te principio o fal acido he fempre difloluvel na agoa ; porque ainda aquelle, que eíta junto intimamen- te a hum corpo indifloluvel, em fe feparando delle logo fe diffolve ; em lugar que osalcalinos , nem to- dos fe diflolvem na agoa ; porque a terra, acal, as cônchas do mar, e outros muitos corpos , naô obitan- te o ferem alcalinos, nunca fe dife folvem. Os faes alcalinos fixos, ef- fes todos fe diflolvem na agoa promptamente , e a humidade do ar bafta para os diflolver perfeita- mente, Todo o fal, que fe acha nas De drchiteélura Civil. 259 nas cinzas dos vegetaes queimados, he hum verdadeiro fal alcalino fixo; e da mefma forte ofal, que exifte no farro do vinho queimado, he hum falalcalino fixo, e o mais for- te de todos os daquella natureza. O conhecimento dos acidos, e alcalicos , he o mais precifo no ufo da Medicina , e fem aquelle conhecimento exaéto nad póde ha- ver perfeito Medico ; porque ape- nas ha doença, ou mal algum que fe pola explicar diftinétamente , nem conhecer o feu principio, fem recorrer a hum acido predominan- te, ou a hum degenerado alcalico: os remedios commumente tendeim oua moderar, e extirpar hum aci- do abundante , ou a moderar , e extirpar tambem hum alcali efcor- butico , e corrofivo. À razad he; porque a fabrica vivente em todos Ri os 260 Index do Problema os animaes toda fe compoem de liquidos diverfos que circulaô , e de cuja circulaçad depende a contex- tura, e ordem natural: viciada, ou embaraçada de algum modo a cir- culaçaô, logo eftá prefente o mal que ha de vir precifamente. Iíto fuppofto , he certo que dos aci- dos; e alcalicos provém ordinaria- mente as concreçoens , coagula- çoens , e indigeítoens que perver- tem a economia circular no corpo dos animaes; e pervertida a circu- laçaô, diflo vem a refultar a eftag- naçaô de hum liquido , e deite a de todos os mais progreflivamente Janguis tibi figna dabis. E com effeito os acidos, e al- calicos faô os promotores das def- ordens principaes que o corpo fen- fitivo experimenta ; porque a al- guns dos liquidos attenuaô exceffi- vamen- De Architectura Civil. 261 vamente, ea outros engroflaô, fa- zendo a huns mais fluidos do que devem fer, e a outros mais denfos; e por eíte modo ou fe fuípende a circulaçao , ou fe defordenaô as funçoens vitaes. Naô fe fegue da- qui que todos os acidos e alcalicos fejad morbofos fempre ; antes a to- tal exterminaçaô delles he nociva: huma jufta porçaô , e proporçaô deve intervir; o mal eítá no excef- fo , e efte confifte ou na quanti- dade , ou na qualidade. O acido exceílivo , predominante nas pri- meiras vias, he commumente o fa- bricador , e confervador das varias eípecies de lumbricos inteftinaes. Daqui vem que, azedando o leite no debil eftomago das crianças, alli fe converte em eftirpe vermino(fa ; e defta refultad os funeftos acci- dentes, de que a maior parte das Part. II. Ri crian- 262 Index do Problema crianças morre. Os lumbricos , (ou lumbrigas ) caufaô convulfoens horriveis; e nefte calo , fe a cura fe dirige a outro motivo, a morte he infallivel. Effa verdade prati- ca conhecem perfeitamente os Me- dicos ; mas naô fei fe todos co- nhecem o remedio mais perfeito. A tintura azul he remedio efficaciffi- mo. Quis potef? capere capiat. Alchool , ou efpirito de vinho recbificado, ou tartarizado. Álchool fe chama o efpirito do vinho fum- mamente deflegmado , e pofto no ultimo grao da pureza que póde ter. Aquella depuraçao fe faz por meio de qualquer fal alcalino fixo, ou por meio do tartaro queimado ; porque todo o fal alcalino fixo attra- he a fia humidade aquofa , e dei- xa intacta a oleofa, O efpirito do vinho, privado inteiramente de hu- mida- De Architeétura Civil. 263 midade , he o diffolvente proprio de todas as gomas , e rezinas , e geralmente de todos os corpos re- zinofos. Por meio daquelle mefmo efpirito fe extrahem as tinturas de todos os vegetaes; e os remedios mais exquifitos commumente exi- gem o alchool; porque o efpirito do vinho em quanto contém hu- midade aquofa, e em quanto naô eftá reduzido ao que chamamos al- chool, naô tem a força neceflaria para diflolver alguns corpos , ou extrahir algumas tinturas , que Íó cedem ao alchool , e refiftem ao efpirito do vinho. Efpirito reétifi- cado he aquelle que, deftillando-fe varias vezes, vai deixando no fun- do do vafo deftillador a parte aquo- fa que continha , recebendo-fe fó a que primeiro fahe , e entra no valo recipiente ; porque os primei- iv ros 264 Index do Problema ros efpiritos que fobem faô os mais puros, e os que contém menos aquo- zidade ; porque efta, como mais pe- zada, e menos efpirituola , naô fo- be fe naô no fim da operaçaô, e quando o fogo adminiftrado a inci- ta com mais força; por iflo repc- tindo-fe muitas vezes a operaçaõ, e tomando Íó os primeiros vapores que fe levantaô, vem a adquirir-fe hum efpirito oleofo em todas as fuas partes, e proprio para os ufos deftinados. O mefmo efpirito tarta- rizado he hum puriflimo alchool ; porque o fal fixo do tartaro quei- mado embebe em fi a humidade fuperfua, e fó deixa livre a parte oleofa , e efpirituofa ; e ifto pelo principio commum , de que os ef- prritos fermentados, fó embebem a aquofidade , e naõ penetraô, nem diflolvem fal algum, O al De Árchitetlura Cioil. 265 O alchool tem ufos excellen- tes nos experimentos phyficos ; e da mefma forte na Pharmacia, Medi- cina, na Cirurgia, e na Anatomia. A manufactura dos vernizes ; a ex- tracçaô de tinturas mineraes , ve- getaes ; e medicinaes; e fabrica dos termómetros, ou conhecimento exa- éto dos graos do frio, e do calor em todas as eltaçoens do anno; a confervaçao de algumas figuras monftruofas animaes ; a cura de muitos males; a reprefentaçaô vi- fivel dos liquidos que circulaô nas arterias, e nas vêas; tudo depen- de do alchool; e fe efte he depu- rado menos bem, fuccedem mal os experimentos que com elle fe pra- tica. E com effeito o alchool, que contém ainda humidade aquofa, diflolve fó groffeiramente as go- mas , € rezinas de que os vernizes fe 266 Index do Problema fe compoem” naô moftraô exacta- mente os differentes graos de frio, e de calor; por iffo ha poucos termó- metros que fejaô bem exaétos em moftrar aquellas differenças ; por- que faô rariflimos os que tem o al- chool perfeito: da meíma caufa vem o naô fe confervarem fempre as partes animaes que fe devem pre- fervar de corrupçaô : a tintura do coral naô fe extrahe como deve fer, quando o alchool he menos defleg- mado ; e a outras muitas tinturas fuccede o mefmo por hum funda- mento igual. Na Cirurgia deve fer muito circunípeito o ufo do alchool; por- que efte efpirito concentrado , he menos proprio naquella arte; a Íua meíma pureza , e fortaleza faz mui- tas vezes paralytico o membro a que fe applica, tirando-lhe o fentimen- De drchbiteélura Civil. 267 to, ou fazendo-o infenfivel, e fem acçaô vital ; principalmente nas partes nervofas, as quaes de algum modo eftupifica. Naô fei fe os pra- ticos conhecem bem efta verdade, e a importancia della: fe bem que efte cafo he menos perigofo , por- que raramente fe encontra hum al- chool verdadeiro, e puro: porém ainda o mefmo efpirito de vinho he fufpeitofo; porque coagúla o fan- gue: a agoa ardente commua he mais proveitofa , e mais fegura no tratamento das feridas; porque cu- ra fem mortificar, ou fopitar os ef- pititos animaes. Os remedios for- tes faô infiéis as mais das vezes; com os brandos fe confórma a nã- tureza; com os outros fe exafpera, e perde o alento curativo que em fi tem naturalmente, O alchool naô fó provém do efpi- 168 Index do Problema efpirto vinofo, mas tambem de todos os licores fermentados , co- mo faô os que produz otrigo , a cevada, o milho, e outros muitos vegetaes que fermentaô da meíma forte: de todos elles fe tira hum ef- pirito em tudo femelhante , e fem differença alguma ; porque todos fad inflammaveis igualmente ; e fe- guindo o mefmo methodo , de to- dos fe confegue hum puriffimo al- chool, e proprio para os meímos ufos, e experimentos. “Amalgamar. Amalgamar fe diz da miftura que fe faz do azou- gue como ouro, ou prata, e com os mais metaes , exceptuando o fer- ro, porque fó elte naô admitte o mifturar-fe com o azougue. Aqguel- la acçaô , por onde o azougue inti- mamente fe miftura com o ouro, ou prata, tem ulos fingulares em varias De Architeiura Civil. 269 varias artes. Os chimicos novatos, quando vem que o corpo compa- étiflimo do ouro recebe avidifh- mamente em fi o azougue, e nelle de algum modo fe derrete , logo entendem que aquelle femimetal he o diflolvente natural do ouro, e que he o de que falla o Conde Ber- nardo Treviflano ; e julgaô fer aquella a fonte parabolica do mef- mo Conde : fundados nefta idéa entraô a intentar experimentos ra- ros com a miftura do azougue ; e ouro ; e entre elles faô rariílimos os que depois de muitos annos de trabalho conhecem a illufaô , e fe affaftaô della. Porém naô tem fido inuteis aquelles inutilifimos trabalhos ;'e indagaçoens infruétuofas ; porque dellas provierad inventos admira- veis, de que as artes fe eftaõ fer- vindo 270 Index do Problema vindo hoje. Os melhores praticos tem efcrito largamente experien- cias feitas por meio do amalgama do ouro com o azougue ; nelles fe haô de achar experimentos exqui- fitos, e curiolos, O que eu obfer- vei naquella metallica miftura , foi , que os metaes naô recebem igual- mente a meíma porçaô de azou- gue; porque huns recebem nos Íeus póros maior porçaô , outros menor: o ouro v. g. amalgama-fe com deza- feis partes de azougue ; a prata com oito , e a efta proporçaô os mais metaes Ífendo de advertir ; que quando o ouro fe amalgama com o azougue , exhala no tempo da miítura hum fétido urinofo. Efte phenómeno » por mais Ífimples que pareça , naô deixa de fer muito ob- fervavel; porque da uniaô daquel- les corpos naô devia provir fe- melhan- De Architeétura Civil. 291 melhante fenfafaô : outros mais ex- perientes delcobrirãô a caufa. Athanor he huma efpecie de fornalha , fabricada de tal forte, que ocarvaô, que contém na parte chamada torre, vai cahindo de vagar , e fuccellivamente no lugar da fornalha em que o fogo eftá. Serve efte inftrumento para con- fervar hum fogo moderado ; e igual; fem fer precifo deitar-lhe carvad todos os dias; "por illo lhe chama- raô tambem P;ger Henricus. E com effeito o athanor he hum dos inftru- mentos neceflarios , de que hum bom laboratorio deve eftar provi- do: por meio delle fe fazem as ob- fervaçoens mais fingulares ; os lt- cores que devem circular baftante tempo; as digeftoens que fe fazem lentamente , e outras muitas ope- raçoens de experimentos naô vul- gares ; 272 Index do Problema gares ; tudo neceffita hum = igual, fucceflivo, e moderado : o' athanor fatisfaz a todas eftas in- tençoens. Butyrum. Aflim fe diz de a ma materia unétuola que os artif- tas extrahem de alguns corpos que tem aptidad para a produzir , fen- do dirigidos de hum certo modo ; a materia unétuola he da meíma forte congelada por fórma de man- teiga, e porillo lhe chamaô buty- rum. Do antimonio , do eftanho, do vitriolo fe extrahe hum buty- rum criftallino ; os quaes ainda que faô famigerados no ufo da Me- dicina , e fejaô tidos por reme- dio heroico, com tudo, fe eu fo- ra Medico, nunca o applicara in- teriormente , por mais correãto , e cicurado que aquelle remedio fof- fe ; por fer hum indomavel cor- rofivo. De drchitectura Civil. 273 rofivo. , À Medicina chimica he fufpeitola ; e quem fe ferve della, eu he Medico inexperto , ou chi- mico menos inítruido. O corpo humano naô he feito para fe fa- zer nelle experiencias , e anatomias, fe naô depois de morto. Os chimi- cos jaétaô muito os feus remedios, e confiaô delles muito; porém os veteranos chimicos , de todos os feus remedios defconfiaô. A Chimi- ca deve fer confiderada como fcien- cia phyfica, mas naô medicinal, De alguns corpos vegetaes fe extrahe hum butyrum feguro, como he o da cera v. g. aquelles que provém dos mineraes , e que delle fe ex- trahem com maisarte, e mais tra- balho, faô infiéis, e perigolos fem- pre. Os Medicos peritos conhecem bem efta verdade. À verdadeira man- teiga , que provém do leite , he hum Part. II. Ss vers 274 Index do Problema verdadeiro butyrum natural : efte he nutritivo , e anodino ; porém naquelles, que tem por bafe os faes mineraes, Jatet auguis in berba. Calcinaçaô. Todo o corpo fo- lido , que eftando expofto ao fo- go, perde inteiramente a parte hu- mida que tem, fica calcinado , if- to he , reduzido em pó, ou em hum eftado de divifaô, que facil- mente fe reduz em pó, Hto he ao que fe chama calcinar, e calcina- çaô. Porém nem todos os corpos fe podem calcinar ; porque muitos ha em que de nenhuma forte pó- de ter lugar a calcinaçaõ. O vidro v.g. nunca fe calcina, porque nel- le o que o fogo faz, he reduzillo em vidro corrente , mas naô por fi meímo reduzivel em pó. O ouro, « a prata tambem naô admittem aquella acçaô; porque o fogo os funde, De Árchiteélura Croil. 275 funde, mas naô os pulveriza. Al gumas vezes fe diz impropriamen- te que hum corpo eftá calcinado., fó porque efteve algum tempo ao fogo ; porém naô he iflo verdadei- ra calcinaçaO; porque o ouro; ou prata , ainda que efteja a hum fo- go violento, nunca fe calcinaô, e ficaô taô fufiveis como eraô, fem perder porçaô alguma da fua fubf- tancia. À propria calcinaçaô fup- poem deperdiçaô , e mudança de fubftancia, c Concentrado. Todos os efpirt- tos, € licores reduzidos por qual- qualquer modo a hum eftado de mais força, e mais pureza, fe di» zem concentrados. O modo mais or» dinario por onde os efpiritos , e li cores fe concentraô, he a diftilla- çaô; porque por meio della fe fes para a parte menos forte, e pura- S ii mente 276 Index do Problema mente phlegmatica , ou aquofa , da- quella que Íó fe compoem das par- tes mais aftivas, e efpirituofas. O efpirito do fal v.g. na fua primei- ra extracçaô, he compofto de tu- do quanto tem o fal commum de mais volatil, e que com mais faci- lidade póde fer extrahido daquel- le fal. Porém repetindo-fe depois a mefma operaçaô ( fegundo a in- tençaô do artifta, e fegundo o grao de força , e de pureza que fe procu- ra) entado licor, que fica no vafo deftillatorio, he juftamente o licor, a que fe chama concentrado, e nef- te eftado tem propriedades, e vir- tudes mais efpeciaes, provindas uni- camente da força maior que tem. À agoa ardente he o liquido que fe extrahe na primeira diftillaçaô do vinho; porém fe a melma opera- çaô he mais vezes repetida , rece- bendo- De Árchiteclura Cívil. 277 bendo-fe fó os primeiros vapores, ou os primeiros efpiritos que fe le- vantaô, e entraô no valo recipien- te, já entaô fe nad diz agoa arden- te, mas efpirito de vinho ; e fe com efte fe torna , ou continiia a repetir a mefma operaçaô receben- do-fe fó os primeiros efpiritos que fe volatilizad em fentindo o calor do fogo, já fe naô chama efpirito de vinho , mas efpirito concentra- do. O mefmo Íuccede a todos os efpiritos corrofivos , como faô os do fal commum, o do nitro, o do vitriolo , e o do enxofre; porém com a differença , de que nos lico- res inflammaveis ( como faô os da agoa ardente , do efpirito do vi- nho , do efpirito concentrado, e “outros ) a parte mais forte , e vi- gorola , he (empre a mais volatil, 'e a que primeiro fahe ; em lugar Parte II. S iu que 278 Tudex do Problema que nos efpiritos corrofivos a par- te, que primeiro fe volatiliza , he a menos forte; ea que cede em ulti- mo lugar á acçaô do fogo, e que exige mais actividade de calor, he fempre a mais vigorofa , eforte, e por io fe diftingue com a qualida- de, e denominaçaõ de concentrada. Criftallizar. Criftallizaçao. Só os faes, ou materias falinas fe crif- tallizaô; porém criftallizaçaô per- feita fó fe obferva nos faes puros. A agoa do mar evaporada lenta- mente ao fogo , ou ainda pelo ca- lor do Sol intenfo , depois de fe exhalar a maior parte da agoa, em que o fal eftá , e depois que a agoa reftante tem unicamente aquelle fal que póde conter diflolvido em fi, logo na fuperficie della entra a for- mar-fe huma pellicula , ou côdea criftallina , a qual ferve de final de De Architebiura Civil. 279 de que a agoa tem mais porçaô de fal, do que aquelle que póde em fi conter: entaô fe retira do fogo o valo, em que a evaporaçaõ fe faz; mas (empre com a cautela de o ti- rar em fórma que a agoa fe naõ mexa , eifto para que o fal fe naô perturbe, e tome a fua mefma , e natural figura: o valo retirado af- fim logo fe poem em parte fubter- ranea , ou em outra qualquer que feja fria , ou ao menos frefca : à agoa aílim que começa a esfriar , logo começa tambem a expellir de fi o fal demaziado que em fi tinha; e depois que esfria totalmente, vai acelerando a expulfaô do fal, até que, fendo paífado o tempo necef- fario, todo fal que naô póde fub- fiftir diffolvido na agoa , entra a to- mara Íua fórma , ou figura propria. Io he ao que chimicamente fe cha- S iv ma 280 Ludex do Problema ma criltallizar , ou criftallizaçao. Só os faes, como fica dito, fe criftallizaô. E o que tem de nota- vel efta acçaô da natureza (que a arte fabe promover perfeitamente ) he que por meio della cada hum dos faes toma infallivelmente huma certa fórma, ou figura determina- da que affeéta fempre ; porque huns tomaô a figura cúbica, pyramidal, outros a octogona , &c, de forte que fó pela figura podemos laber diftintamente o genero de fal cril- tallizado : e aílim que virmos hum fal com perfeita figura cúbica, lo- go fabemos com certeza que he o fal do mar, ou ontro qualquer fal, que tenha a fua mefma natureza, como he o falgema. Nenhum ou- tro fal toma aquella figura regu- lar; e da mefma forte os outros faes, que tambem affectad fempre as De Architetura Civil. 281 as figuras , ou aquelles delineamen- tos que lhes faô proprios. Que or- dem conflante em tudo quanto a natureza cria, e que uniforme re- gularidade fujeita a huma mefma , e invariavel difpofiçaô ! Para evitar a confufaô difpoz o divino Archi- teéto do univerlo que todos os corpos fe diftinguiflem entre fi, naô fó pelas qualidades , ou pro- priedades interiores , e fubltanciaes, mas tambem por huma fórma exte- rior, e vifivelmente conhecida; e nad fó pela parte eflencial, e invifivel ; mas por huma fimple fmente configu- rada, material, e perceptivel. Aquella fórma , ou configu- raçaô conftante , a natureza ob- ferva exaétamente em todos os tres Reinos da fua vafta Monarchia. Os animaes vegetaes, e mineraes, to- dos tem figuras difiintivas ; e quan- do 182 Index do Problema do algum dos individuos fe aparta confufamente da regra configurati- va, entao relulta o monítro; e ain- da neítes a natureza he admiravel. A criftallizaçaô he a que moftra ; e poem patente a figura indicativa do fal criftallizado ; e parece que tambem no fal dos animaes , e ve- getaes , he donde refide o efpirito informante , ou formador. E com effeito em todos os corpos conhe- cidos a parte aétiva eftá nos faes ; -deftes mais , ou menos exaltados , em mais, ou menos acçaô depen- de a efpecifica virtude dos corpos mineraes , animaes , e vegetaes; todas as mais partes, de que aquel- les corpos fe compoem , ou faô phlegmaticas inertes, ou terreftres inactivas; o fal he a parte que con- figura. Daqui vem que, fe extra- hirmos de algum dos mixtos o fal chama- De 4rchiteluraCivil. 283 chamado juftamente effencial, o mixto fica fem virtude , e como fem alma , e eftupefaíto. Da qualidade do fal refulta a qualidade do mix- to que o contém; porque na com- pofiçaô natural dos corpos, a ter= ra naô ferve mais que de recepta- culo ; o movimento naô póde vir fe naô do elemento igneo , e efte fó nos faes tem aflento firme , e corporizado ; a acrimonia delles, moftra a prefença actual de hum ele- mento efpirituofo, fubtiliílimo , e rapidiflimo. Os mefmos faes dulci- fórmes Ífaô originariamente acri- moniofos , e picantes ; a miftura, ou temperança de partes oleofas, lhes muda o fabor auítero para outro, em que o paladar encontra mais agrado. E verdadeiramente parece que a configuraçaô dos corpos procede dos 284 Index do Problema dos feus faes particulares ; porque fó nos faes fe achaô configuraçoens certas , e conftantes; tudo o mais he materia indigeíta, e rude; dif- poíto fó para fer formado , e naô para formar ; para receber figuras diferentes, e naô para as fazer , nem dar. Hum fal puro quando fe crif- talliza, toma unicamente a figura que lhe he propria; porém fe ao mefmo fal fe aggregaô outras par- tes de hum diferente fal, ou de algum corpo terreítre oleofo ; me- tallico, ou vegetal , já entaô naô provém na criftallizaçaô a figura propria de hum fal determinado , mas outra diverfificada , e differen- te. O fal domar, v.g. fendo pu- ro, fe fe criltalliza , fempre toma a fórma cubica; porém fe aquelle meímo fal tiver unido a fi outro genero de fal, ou algum corpo metal- De Architetlura Civil. 285 merallico , animal, ou vegetal, já entaô naô fe criftalliza em fórma cubica , mas em outra diferente, fegundo a indole da materia aggre- gada a elle. Da mefma forte o ni- tro fe fe criftalliza eftando puro af- feQta a fórma pyramidal ; mas fe ef- tiver aflociado a outros corpos fa- linos ; ou terreftres, já naô torna aquella fórma, mas outra mui di- verfa. De quantas combinaçoens naô faô fuíceptiveis os faes feme- lhantes, e variaveis diverfamente! Decrepitar. De todos os faes, que conhecemos ,. Íó o fal do mar decrepita; porque deitado fobre o fogo , entra a eftalar fucceflivamen- te, eaefta acçaô fe chama decre- pitar: de forte que todo o fal, que deitado fobre o fogo decrepita por aquelle modo , he fal do mar in- fallivelmente , ou tem a fua mef- ma 2186 Index do Problema ma natureza , como he o fal que chamamos gema. Tambem de al- gumas plantas fe extrahe hum fal commum; da mefma forte que de algumas fe extrahe hum verdadeiro nitro. Duétilidade. Só nos metaes fe acha verdadeira duétilidade , por- que fó elles fe eftendem ao martel- lo fem quebrar ; a eita proprieda- de, que nos metaes fe encontra , fe chama duétilidade. Porém nem to- dos os metaes faô duétiveis igual- mente; alguns foffrem huma fum- ma attenuaçao , porque faô fum- mamente duétiveis. O ouro recebe huma attenuaçaô , ou eftupenda de- licadeza fem quebrar ; depois fe fe- gue a prata, e ultimamente o fer- ro: mas ifto fe entende fó dos me- taes puros ; porque os que tem miltura de algum fal, ou mineral, facil- De Árchiteilura Civil. 287 facilmente fe quebrad ao primeiro impulío do martello.O azougue nad tem duétilidade alguma ; porque naô he metal, mas hum principio, ou rudimento de metal. Eolípilo. He hum inftrumen- to de cobre, feito em fórma oblon- ga, tendo fó hum collo algum tan- to retorcido, e eftreito, de tres, ou quatro linhas na:abertura, ou bo- ca delle. Para introduzir-fe neíte inftrumento a agoa , primeiro fe poem fobre hum fogo moderado ; eíte expelle o ar incluido dentro ; depois pegando-fe o inftrumento com huma tenaz , (ou por outro qualquer modo ) expondo-fe a aber- tura do colio em agoa fria , efta fe introduz na cavidade à proporçaô que o inftrumento esfria. Por meio do Eolipilo vifivelmente fe explicaô, e demonftrad varios phenómenos natu- 188 Index do Problema naturaes , que de outra forte fad mais difficeis de explicar, e menos faceis de entender. O que o enten- dimento alcança por fi mefmo, e fem algum foccorro exterior, he mais confulo , e pouco intelligivel; porém o que alcança auxiliado pe- los olhos , he claramente percebi- do , e mais de prefla , fegundo o metrico proverbio : Segnius irritant animos dxc. Efpiculos falinos. Os chimicos confideraô os faes todos configu- rados em pontas agudifimas nas Ífuas extremidades ; a eftas taes pon- tas agudas chamaô efpiculos. Po- rém naô he bem conftante, ainda que com effeito os faes fejaô con- figurados por aquella fórma; nem que della refulte o fabor pungen- te, ou acrimonia propria a cada hum dos faes. Naô tem havido mi- crolcos De drchitectura Civil. 189 crolcopio , por onde fe obfervaffem aquellas extremidades , ou pontas agudiflimas que nos faes fe confi- deraô: o fyítema daquella tal con- figuraçaô . ainda fe naô acha de- monitrado ; porém fempre o fegui- mos, e fuppomos fer aflim para me- lhor nos explicarmos ; de forte, que os efpiculos falinos , ainda que ver- dadeiramente naô exiftaô por aquel- la fórma, com tudo fempre nos fer- vem de termo explicativo , como outros muitos que introduzio a phy- fica moderna para mais bem fe enunciar.: Espíritos inflammaveis. Alim fe chamaô alguns efpiritos , e lico- res em que o fogo péga , como em outra qualquer materia combufti- vel. A agoa ardente he hum -da- quelles taes licores ; e da mefma forte o efpirito. do vinho. “Todos os Part. II. T lico= 290 Tadex do Problema licores que fe inflammaô faô oleo- fos; porque os que faô puramen- te aquofos ; em lugar de admitti- rem qualquer inflammaçaô , aex- tinguem facilmente. O fogo com- munica-fe de prefla a tudo quanto he oleo , ou feja liquido, ou em fubftancia illiquida, e corporal; e da mefma forte a todas as rezinas, gomas , ou materias gomofas , e rezinofas; porque as gomas , e re- zinas faô partes oleofas vegetaes em que o fogo tem natural appre- henfaô. O enxofre he hum oleo mi- neral, condenfado , ou corporizado pelo acido vitriolico que contém ; e por razaô do mefmo acido faô os vapores fulphureos, nocivos , e Ífuffocantes , como experimentaõ os que trabalhaô em minas femelhan- tes; os quaes padecem muitas ve- zes os efeitos mortaes de hum va- por De Architeétura Civil. 291 por arfenical fulphureo. O petro- leo he tambem hum oleo fubterraneo mineral , porém em fórma liquida, e fem eftar aflociado ao acido vi= triolico, por iflo naô produz cor= rofivas fuffocaçoens. É Todos os oleos de guie genero , ou feja vegetal, animal, ou mineral, tem a natureza de en+ xofre; fó com a diferença de fes rem. líquidos, e naô concretos. O acido «vitriolico junto a qualquer oleo , faz hum enxofre verdadeiro; porém que oleo tem o ar, para que nelle fe fórme o enxofre de queo raio fe compoem? No ar naô dei- xa de haver humainfinidade de va+ pores oleofos , aos quaes juntan> do-fe;'o acido vitriolico, de'que o mefmo ar he abundante, faz hum enxofre aftivifimo , o qual tem em grao fuperior ás mefmas Pre a H es 194 Index do Problema des do enxofre mineral. Daqui vem que nas partes em que cahe oraio, eíte deixa fempre hum infupporta- vel fétido de enxofre. A mefma at- mofphera contém hum verdadeiro enxofre, e deíte he de que reful- taô todos os meteóros inflammados. E com efleito nenhuma inflamma- çaô fe fórma fem a prefença actual de huma materia fulphurea , oleo- fa, unétuofa , rezinofa , ou bitu- minofa. O que arde em tudo aquil- lo que fe queima , he a materia oleofa que contém ; porque tudo quanto he puramente aquo(fo fe dif- fipa em fumo, e o que he terreítre, ou de natureza terrea, fica reduzi- do em cinza. Alguns fazem mençaô de hum oleo incombuítivel , ao qual attri- buem effeitos fingulares ; porém naô fe: que oleo efte pofla fer; e a po- der De Architeélura Cívil. 293 der exiltir huma tal materia, tam- bem exiftiria a agoa fecca , de que os alchimiítas fallaô ambiguamen- te. Naô duvido que dealgum modo fe pofla extrahir do oleo a qualida- de combuftivel, mas entaô já nad he oleo ; tirada a infammabilida- de de hum corpo combuftivel, já naô he o mefmo corpo , mas outro mui diverfo. Tambem de qualquer fal fe póde tirar a qualidade pun- gente , ou acrimoniofa que em fi tem naturalmente; porém naóô fica fendo fal. E da mefma forte quem tirar de hum corpo Íalino a pro- priedade que tem de diflolver-fe na agoa , já naô he fal , mas outro corpo differente ; porque, deftruida a qualidade eflencial , ou caracter proprio, já naô fica a mefma cou- fa. Daqui provém que quem privar o ouro da côr efpecifica que tem, Part. II. Tau e do 294 Index do Problema e do pezo , e duélilidade que deve ter no eftado natural, já o que fica naô he ouro. Todos os corpos fe diftinguem pelas fuas qualidades primitivas; e quando algumas def- tas fe deftroe (ou porarte, ou por fi mefmas) logo fica deftruida to- da a natureza de hum tal corpo. A materia da luz, Ífó nos cor- pos oleofos, e inflammaveis he vi- fivel , em todos os outros efta co- mo fopita, e fem acçaô ; por HTo em toda a parte da atmofphera, donde ha vapores oleofos , eltes por fi memos fe inflammaô muitas ve- zes , ainda fem haver fogo actual. Sobre os cemiterios fe tem viíto humas luzes volantes que a efcu- ridade da noite faz vifiveis: a igno- tancia da caufa , de que procedem, fez que muitos entendeílem que aquellas luzes erad os efpectros dos cada- De ArchiteéturaCivil. 295 cadaveres enterrados ; naô fendo aliás outra coufa mais do que os va- pores oleofos exhalados dos mefmos cadaveres putrefactos, cujos tenuif- fimos, e mobiliflimos vapores por fi mefmos fe inflammaõd , moven- do-fe de huma parte para a outra, fegundo a direcçaô, ou movimen- to doar em que fubfiftem. Aquil- lo mefmo fuccede em alguns luga- res em que naô ha, nem houverad cemiterios ; e baíta que a qualidade da terra feja unctuofa , ou bitumi- nofa fummamente , para que aquel- las luzes volateis fe percebaô , e naô fem fuíto, e medo de quem as vê fem faber o principio de que re- Íultaô, Aflim fe tem introduzido no mundo varios erros, e pavores populares, fó porque fe ignoraô as caufas naturaes. A phyfica efpecu- lativa nunca bafta para diftinguir Tiv alguns 296 Index do Problema alguns phenómenos , por mais com- muns que fejaô , e elia mefma fe allucina algumas vezes ; porque a fua jurifdicçaô naô he praticamen- te demonftrativa, mas argumenta- tiva. À phyfica chimica he a quem compete o refolver huns tantos ca- fos , que fó chimicamente fe fa- zem demonftraveis. Hum eclipfe do Sol fazia antigamente horror , e infundia nos animos hum horrorofo eípanto; porém depois que a Af- tronomia começou a vulgarizar-fe, Já todos vem fem medo efcurecer- fe o difco total do Sol, e perder a Lua toda a fua claridade; haven- do para iflo hum motivo , ou ra- zao intelleétiva, e naô apparente. Na mefma phyfica chimica ha mui- tos calos refervados, de que nem todos os artiftas fabem delcobrir a origem. Às licenças naô fe conce- dem De Architetura Civil. 297 dem a todos igualmente : os que ef- tudaô mais, faô os que mais fabem: aquelle he o preço, porque fe com- praô as artes, e as Íciencias. Nos corpos inflammaveis, he donde refide a materia luminofa ; efta neceflita hum fogo actual pa- ra acender-fe , e depois de aceza fe propága facilmente até que fe extingue pela extinçad do corpo combuítivel. Porém fuccede algu- mas vezes inflammar-fe huma ma- teria , fem preexiftencia de outra materia inflammada já. Os meteó- ros ardentes por fi mefmos fe in- flammaô , fem dependencia de in- flammaçaô anterior; o como aílim fuccede , naô eftá bem entendido ainda. O movimento rapidiflimo , e contaéto immediato entre dous corpos, dos quaes ambos , ou al- gum delles feja combuftivel, baíta para 298 Index do Problema para produzir o fogo, fem haver outro fogo antecedente;de (orte,que fem aquelle movimento nenhum fo- go fe produz; porque o fogo em fi meímo parece que naô he outra coufa mais, do que a materia da luz excitada , ou movida rapidiffi- mamente. À materia porém da luz naô he ardente , nem tem ardor fenfivel, fe naô quando muitos raios fe unem em hum ponto; nefte fica fendo abrazavel a luz ; porém os raios (difperíos naô abrazao , illu- minad , e aquecem , mas naô fe inflammaô ; a eíte eftado chega, quando trabalha por confumir hum corpo combuftivel: huma certa re- nitencia, ou oppofiçaô no mefmo corpo combuítivel, he o que excita a luz para augmentar-fe , e tomar hum grao de ardencia a que cha- mamos fogo. A” ma- De Adrchisetlura Cruil, 299 A” materia lucida todos cha- maô propriamente etherea ; mas naô Íei fe todos advertiraô que aquella mefma materia naô eftá no mefmo movimento em toda a parte: daqui deve provir o maior, ou menor calor ; porque donde he remiflo o movimento ha luz, mas naô ha calor. Daqui procede o phofphoro artificial, e tambem o na- tural. Alguns peixes na efcuridade luzem, e alguns paos apodrecidos tambem tem huma luz tibia ; efte he o phofphoro natural: outros mui- tos phenómenos, que vemos, fem arder tem hum certo luzimento. He muito de notar que a materia da luz he globulofa ; porque o feu mo- vimento rapido gira efphericamen- te, e naô por outro modo : a fi- gura efpherica do Sol (que he de donde a luz provém ) he prova ma- nifefta; 300 Iadex do Problema nifefta : nifto confie a differença grande , ou excepçaô do movimen- to ; porque fegundo a regra Ma- thematica , todo o corpo que fe move, ou he poífto em movimen- to, tende a defcrever huma linha re- éta; porém na materia da luz, naô he aflim; porque efla naturalmen- te tende a formar raios, ou linhas circulares; e a luz começa a enfra- quecer, quando as Íuas partes vaô deixando aquella direcçaô. Os corpos, em que a materia da luz he abundante, todos fe com- poem de corpuículos ligados , ou como encadeados entre fi; mas fempre perfeitamente efphericos , ainda que em fumma tenuidade de materia : na agoa temos hum ex- emplo conftante ; poréi: ainda mais obfervavel no Mercurio ; o qual com effeito fe compoem de boli- nhas De Architettura Civil. 301 nhas infinitamente pequenas ; mas cada huma dellas em perfeita re- dondeza. Porém fe a luz he glo- bofa , e efpherica, como vemos que huma luz aceza fórma hu- ma figura oblonga que acaba em ponta? À efta objecçaô naô fei o que os outros dizem; o que eu digo he que a materia da luz he compofta infallivelmente de corpuículos re- dondos, porém efla mefma mate- ria he amais fubtil; e menos pe- zada do que o ar da atmofphera que a circunda , por iflo tende a Jubir , e nefta tendencia affefta a figura oblonga. Por efte mefmo , e identico principio, todo o fumo Ífobe , porque tem menos pezo, e he mais fubril do que o ar em que fe acha: pela meíma razaô as materias oleofas bufcaô a fuper- ficie do liquidos aquofos , porque tem 302 Index do Problema tem menos pezo do que a coluna do liquido que as fuftenta. Na luz aceza a fórma piramidal com- poem-fe de huma infinidade de cor- puículos redondos; da mefma for- te que o Mercurio fendo compof- to de particulas globulofas toma a figura oblonga ( ou outra qual- quer) do vafo que o contém. To- dos os metaes no eftado de fundi- dos, fe fe deitaô fobre aterra pla- na, moftraô vifivelmente que todas as fuas partes faô efphericas , e glo- bulofas , e fó depois que esfriad, e endurecem tomaô a figura do lu- gar em que fe achaô; mas na fum- ma exiguidade das melmas partes fempre moftraô a figura efpherica que tem naturalmente, Daqui fe infere que a formaçaô dos metaes provém de hum liquido, e efte oleo- fo ; porque Íó defte principio re- fulta De drchiteitura Civil. 303 fulta hum corpo lucido, e perfeita- mente e(pherico. Os corpos oleofos (como fica dito ) faô os que fe inflammaô ; mas he neceflario que contenhaõ huma certa parte de humidade aquofa ; porque fem efta nenhum corpo he combuftivel. A mais inflammavel das rezinas he o alcanfor ; porém efte em fe inflammando exhala hum fumo aquofo , abundantillimo , e nigerrmo : o mefmo enxofre com fer taó unêluofo » € taô contrario á humidade toda , contém radical- mente huma grande porçaô de hu- midade verdadeira, na qual refide o (eu acido fulphureo. De forte que hum corpo oleofo , e privado ab- folutamente da humidade, já nad he capaz de fe inflammar : ifto ve- mos no ouro, e mais na prata; ef- tes faô os dous unicos metaes, de que 304 Index do Problema que a humidade aquofa foi abítra- hida totalmente; efta feparaçaô , he arte refervada á natureza; nós naô fabemos , e talvez nunca fabere- mos, porque modo fe poíla abítra- hir, ou feparar inteiramente a hu- midade aquofa de hum liquido oleofo. À agoa do mar he oleola , mas igualmente aquofa ; por iflo naô fe póde com ella extinguir o incendio ; antes aquella agoa o promove mui- to em certas circunítancias, Se dei- tarmos Ífobre qualquer fogo o fal commum , logo veremos accender- fe o fogo mais, e ficar muito mais activo; porque o ar elaítico do fal ferve de afloprar o fogo com vele- mencia mais intenfa do que hum ver- dadeiro folle. Além difto o fal do mar contém em fi hum enxofre pu- ro » como fe obferva na injecçad da- De Árchiteitura Civil. 308 daquelle fal fobre o fogo ardente, em que logo exhala hum fétido Íul- phureo infopportavel. Naô fe fe- gue porém que a agoa do mar naô poíla apagar o fogo; porque de fa- &o o apaga fendo deitada em gran- de quantidade , e repetidamente ; quando naô he aflim , em lugar de o apagar , o acende mais , viíto que a agoa do mar naô he inflam- mavel por fi melma , ainda que em fi contenha huma certa parte que promove a inflammaçaô. Alguns experimentos ha, com que fe moftra que póde haver in- flammaçaô fem a prefença aétual do fogo. Efta propofiçaô feria util conhecer-fe bem, para acautelar al- guns incendios , que ásvezes póde fucceder por negligencia, ou falta «daquelle tal conhecimento. E com efeito a miftura, que provém do Part. II. V ferro 306 Index do Problema ferro com outros ingredientes, em pouco tempo fe inflamma , e faz arder as materias combuftiveis. O efpirito puriflimo do vinho , ou ou- tro qualquer oleo effencial , em certas conjunturas , e por certo mo- do faz o meífmo; e da melma for- te o oleo da canela, e tambem do cravo. Do Phofphoro , chamado de Inglaterra » refulta o meímo. Na regiad fuperior do ar naô ha fo- go algum de que pofla dizer-fe que exite em aétual acçaô ; mas com tudo nella vemos que fe fórma o fogo aétual mais violento : huma forte compreflaô de corpos com- buítiveis bafta muitas vezes para excitar hum fogo aétivo. Hum mo- “vimento circularmente rapido tam- bem caufa o mefmo efeito. Expanfível. Todos os licores fao expaníiveis ; porque o calor lhes faz De Architeélura Civil. 307 faz occupar maior efpaço, do que aquelle que occupaô naturalmente, Para hum corpo fer expaníivel he neceffario que feja volatil ; porque os que faô fixos naô podem ter ex= panfibilidade alguma. O ar he ex- panfivel; porque tambem fe dila- ta pelo calor , e occupa mais lu- gar; o frio o comprime, e o reduz a eípaço mais pequeno. Parece que o principio da volatilidade, ou ex panfibilidade dos corpos liquidos , e ainda de muitos folidos, he uni- camente o ar; e à proporçaô defte faô mais , ou menos volateis ; e por confequencia mais, ou menos expaníiveis. Fermentar. Fermentaçao. Fer- mentado. A doutrina da fermenta- çaô he valta, e contém obferva- çoens notaveis , das quaes fe po- dem fazer volumes grandes. Para Vi o nof- 308 Tudex do Problema o noílo intento bafta que diga- mos que a fermentaçaô propria- mente he aquella acçaô em que a natureza por hum aéto continuado trabalha em mudar a indole de hum liquido fermentavel. O mofto quan- do ferve he hum exemplo bem fa- bido. De forte que todos os liqui- dos , de qualquer vegetal que fejaôd extrahidos , em fazendo aquella ebulliçaô , ou effervecencia entre as fuas partes todas, fermentaô, e eftaô na acçaô de fermentar. Entaô fe produzem os efpiritos inflamma- veis vegetaes, os quaes por arte al- guma fe podem produzir ; fe naô por meio da fermentaçaõ ; efta he a que reduz o mofto em vinho, e deíta refulta ao mefmo tempo o ef- pirito inflammavel do meímo vinho. Naô fó nos liquidos fe dá fermen- taçad; porque tambem muitos ve- getaes De Architelura Civil. 309 getaes farinofos fermentad , como fuccede ao trigo , ao milho , e a outras mais fementes , as quaes, quando faó promovidas por certo modo, tambem dellas provém hum licor vinofo , e deíte tambem fe extrahem efpiritos inflammaveis, e com iguaes propriedades , que as que fe achaô nos que fe tiraô do verdadeiro vinho. E aflim fem fer- mentaça6 naô ha, nem póde ha- ver efpirito inflammavel vegetal. Filtrar. He termo chimico que vale o mefmo que cogr. Efte modo de coar naô he por pano , mas por hum papel a que chamaô empore- tico ; o qual, pornaô tercola, he muito mais pacento do que o outro: por elle fe coaô, ou filtraô todos os licores que naô faô corrofivos ; porque em o fendo , roendo toda a forte de papel, logo o desfazem, Part. II. Vau e rom- 310 Index do Problema e rompem toda a Íua contextura ; e em lugar de ficarem os taes lico- res mais purificados , ficaô muito mais coinquinados, e mais turbos, porque tomaô em fi huma grande parte, ou fubltancia do papel; e entaô os meímos licores degeneraô, e perdem algum tanto a fua for- ga » ficando menos proprios para os ufos deftinados ; porque a ma- teria oleofa, de que fe compoem o corpo do papel , faz que o licor corrofivo fique de alguma forte iner- te, e fem o vigor que tinha ; e if- to pela regra geral, e fem limita- çaô, de que todos os corpos oleo- fos, ou que encerraô no feu inte- rior alguma unétuofidade , retun- dem, e enfraquecem tudo quanto he corrofivo. À filtraçao pelo pa- pel emporetico ferve infinitas ve- zes para aclarar , e purificar as agoas ; De Arcbiteétura Crol, qr agoas, € licores ordinarios , das partículas terreítres que fe encon- traô nelles commumente. Digo das particulas terreítres, porque fó ef. tas (ad as que por aquelle meio fe feparaô do licor, ficando fobre o papel por onde o licor paflou. 'To- dos os corpos porém , que fe achaô exactamente diflolvidos na agoa, ou no licor, efles naô fe feparaõ pelo filtro do liquido que os con- tém , e com elle paflaô fempre, por mais que a filtraçaô fe repita hum milhaô de vezes. O fal v.g. diflolvido na agoa, ou em qual- quer licor, com elle pafla fem nun- ca fe feparar. Ifto naô fó fuccede a refpeito defte , ou daquelle fal, mas tambem a reípeito de todos quantos faes o mnndo tem ; por- que em eftando diflolvidos perfeita- mente na quantidade de agoa, ou Viv de 312 Index do Problema de licor fufficiente, com elle fe fil- traô, e vaô paflando inteiramente fem admittirem feparaçaô alguma. Naóô fó os faes fe negaõ á filtraçaõ; mas tambem aquelles corpos todos que exactamente fe diflolvem nos licores corrofivos. Supponhamos a prata diflolvida em agoa forte, ou no efpirito do nitro; fe efta dilo- luçaô fe diluir com agoa commua, para que naô poíla corroer o pa- pel emporetico , em fe filtrando fe ha de ver que a prata naô fe fe- para do liquido diflolvente , mas com elle pafla totalmente. Iíto mef- mo Ífuccede a todos os metaes quan- do eftaô diflolvidos nos menftros que lhes faô proprios. Daqui fe fegue que a filtraçaõ fó tem lugar, e fe pratica para feparar dos liqui- dos aquelles corpos , que naô po- dem diflolver-fe nelles. He De Architelura Civil. 313 He porém de ponderar que o papel emporetico , por onde a fil- traçaô fe faz , em eftando embe- bido , ou molhado por algum li- quido oleofo, já por elle naô po- dem pallar, fe naô outros liquidos femelhantes; e da meíma forte quan- do eftá molhado , ou embebido por algum licor aquolo, já por elle naô pailaõ os oleofos. V g. o papel, por onde fe filtrou a agoa , já naô póde fervir para filtrar o azeite; e aquel- le, por onde primeiro fe filtrou o azeite, já naô póde fervir para fil- trar a agoa ; porque os póros do papel tomaraô a configuraçao do primeiro liquido filtrado, e depois de configurados ficaô-fe negando , e como impenetraveis a outro li- quido qualquer, fe he de differen- re natureza. Defta mechanica, ou principio certo, refulta huma gran-: de, 314 Index do Problema de, e necellaria parte da economia, ou fabrica vivente de todos os ant- maes , fem exceptuar nenhum. E com effeito a organizaçaó do cor- po fenfitivo todo [e compoem de huma immenfidade de filtraçoens, e eltas taô naturaes, e regulares, que em ceflando alguma dellas, ou eftando impedida a filtraçaô dos l- cores animaes , logo vem a enfer- midade mortal, de que o animal acaba. A meíma cutis externa, e fuperficial, he hum filtro vapo- rofo , por onde a infenfivel tranfpi- raçaô fe faz ; a qual fe chega a fufpender-fe, ou a ceflar inteira- mente por algum accidente exter- no, ou interior, o animal naô pó- de permanecer ; porque os humo- res que deviaô exhalar-fe, ou dil- fipar-fe por aquelle modo , retro- cedendo , ou ficando eftagnados em varias De Árchiteétura Civil. 315 varias partes , neítas fe pervertem, e corrompem , de que reíulta infal. Jivelmente huma multidaô de pro- greflos morbofos, e mortaes. No interior dos animaes fad immenfas as filtraçoens , das quaes ha muitas conhecidas , e outras muitas que ainda fe naô conhecem. Os vafos nao deixaô filtrar , fe naô alguns , e determinados liquidos. As vêas v.g. Íó daô paflagem ao hu- mor forofo, mas naô ao fangue; para efte naô faô as vêas permea- veis ; o fangue fe depura circu- lando, ena mefma circulaçaô dei- xa paflar pelo filtro natural das vêas tudo o que naô he proprio pa- sa reduzir-fe em fangue, Ifto he. no eftado natural: mas fe o fangue fe diffolve , perdendo a fua verda- deira confiftencia , já entaô póde paflar por aquelles filtros , ou po- rofida- 316 Index do Problema rofidades por onde naô cabia: efte mal raramente he medicavel; por- que, em os liquidos perdendo o grao de elpeflidad, ou delicadeza que devem ter, ou fe trafcolaô indevi- damente, ou deixaô de trafcolar-fe como deviaô. E aflim fe confundem os humores, ou eftagnad em par- tes donde he nociva a perfiftencia. A eftruítura dos animaes requer que os liquidos fe contenhaô nos feus lugares proprios , e que delles fe diftribuaõ fem defordem , nem con- fufaô , até que fe difipem pelos filtros , ou conduétos ordinarios , para que outros femelhantes lhes fuccedaô. Delta ordem, e econo- mia regular depende a vida. Fixo. Fixo fe diz todo aquel- le corpo que expofto a hum fogo violento; naô fe exhala, nem per- de nada da Ífua fubftancia ; aílim como DeAtohiteélra Civil, 317 como a terra pura, o ouro, a pra+ ta, as pedras preciofas, e todas as mais que refiftem a hum fogo ar- dente, fem que nenhuma das fuas partes fe diflipe. Fulmen Sovis. A cada hum dos metaes impozerad os antigos o nome de hum planeta : ao eftanho chamaraô Jupiter; por ilo a acçaõ, em que o eltanho arde com eitre- pito , e repentinamente, chamarad Fulmen Sfovis , alludindo á fabula de Jupiter que fulmina o raio, A operaçaô fe faz fundindo-fe o efta- nho, e fobre efte fazendo-fe a in- Jecçaô do nitro: no meímo inftan- te fe fórma a deflagraçad do mef- mo nitro,que confumindo o eftanho, com elle fe diflipa inteiramente á maneira de hum raio que apparece de repente , e da mefma forte aca- ba. De todos os metaes Íó do E nho 318 Index do Problema nho refulta hum tal phenómeno: os outros, exceptuando o ouro , e 4 prata, fim fe perdem pela addiçad do nitro, mas naô por aquelle mo- do, nem fulminantemente. Na arte metallica tem o Fulmen Sovis va- rios ufos ; e por meio delle fe fa- zem experimentos admiraveis. Fufivel. Chamaô-fe fufiveis to- dos aquelles corpos; que expoítos á acçaô do fogo fe derretem : e in- fufiveis aquelles todos que por ne- ahum modo permittem o derreter- fe ; fegundo a contextura , e na- tural compofiçaô de cada hum. A cera v. g. he de todos os corpos conhecidos o que mais de prefla fe derrete ; porque bafta o calor do Sol intenfo para a derreter. De- pois da cera feguem-fe as materias pinguedinofas, ou cebaceas , as quaes facilmente cedem ao calor mais De drcbiteeturaCivil. 319 ais moderado. As gomas tambem faô corpos que fe fundem , mas naô em calor taô debil. O gelo por fi meímo fe derrete fem calor artifi- cial, e fó por aquelle que em fi tem qualquer clima temperado; e fe o clima he fummamente frio na eftaçaô do Inverno, em quanto o vento feptentrional fubfite, e em quanto a temperatura do ar naô muda , permanece o gelo em mafla Íolida, e naô chega a derreter-fe fem outro algum calor. Os faes to= dos faô fufiveis ; mas naô pelo mef- mo grao , e igualdade de calor ; porque o nitro bafta-lhe hum calor pouco activo; o fal commum naô fe funde fem calor forte; o vitrio= lo funde-fe facilmente , e da mef- ma forte o enxofre: os faes alcha- linos fixos tambem requerem calor forte. A cal com nenhum calor fe funde » 320 Index do Problema funde , porque he corpo infufivel totalmente ; e todo o genero de cin- za, naô admitte fufao alguma , pe- la mefma razaô que a cal a naô ad- mitte. Ás terras Ífendo puras tam- bem fe naô fundem, e fó faô fu- fiveis pela miftura de alguns faes alchalinos fixos. A arêa funde-fe em calor forte, e fucceílivo; e os faes al- chalinos fixos a fazem fundir mais brevemente, como fe obferva em todas as fabricas do vidro. Os me- taes faô os que propriamente faô fifiveis ; e efta qualidade he de tal forte propria do metal , que fem ella naô póde haver, nem fubfiftir metal algum ; por io , em qualquer metal perdendo a qualidade fufivel, tambem ficou perdendo o fer me- tal: como Ífuccede ao chumbo , e ao eftanho , os quaes depois que a acçaô do fogo lhes diffipa a par- te De drchitetura Covil. 321 te, a que chamaô phlogiftica , ficaô reduzidos em pó , e já nefte eftado naô fe fundem, fem que fe lhes tor- ne a introduzir aquella parte phlo- giftica de donde lhes provém a qua- lidade fufivel; e fe fe fundem pela miftura de algum (fal alchalino fixo, he tomando a Ífubftancia do vidro , mas naô a do metal. De todos os métaes o que exige mais calor pa- ra fundir-fe he o ferro; depois o cobre; a efte fe fegue. o ouro, € logo depois”a prata, e depois o ef- tanho , e ultimamente o chumbo ; efte he o que fe funde promptamen- te em hum grao moderado de calor. He porém para notar que quando os metaes faô puros, fundem-fe com mais difficuldade , e querem hum fogo mais aétivo ; e quando eftaõ aflociados huns com os outros, en- taô fe fundem facilmente. Defte Part. TI. x princi- 322 Iudex do Problema principio vem que o ouro puro ne- celta hum fogo mais aétivo para fundir-fe, e o que tem liga, mais de prefla cede á acçaô do fogo; e fe tem grande porçaô de outro qual- quer metal, naô refifte muito a aquella acçaô: na prata Íuccede o mefmo : e defta regra refulta a com- pofiçaô , ou material com que os metaes fe foldad; porque a folda fempre he mais fufivel, do que o me- tal foldado. Hermeticamente. Hum vafo de vidro de longo collo, fe fe derrete ao fogo o Ífeuorifício, torcendo-o para ficar tapado com o mefino vi- dro derretido, he ao que fe chama tapar hermeticamente. Dizem que o inventor defte modo de tapar hum vidro, fora o famofo Rey Hermes Trifmegifo ; por io fe chama tam- bem a aquelle artifício , /g1//um ber- meti- DeArchitetturaCrvil. 343 meticum. Duvido que o Rey Her- mes fofle o ;inventor do fello her- metico ; porque, me .parece que o artifício he mais moderno : 'nem fei fe no tempo de Hermes eftava já fa+ bida a invençaô do vidro; nem fe havia vidro artificial naquelle tem- po. He certo porém que naô ha modo de tapar taô exaíto como aquelle; porque os vidros tapados de outra qualquer forte, fempre daô paflagem a alguns licores for- tes; em lugar que o.fello herme- tico refifte a todos os licores, por mais fortes, e fubtis que fejaô, .. Hleterogencidade:) Vid. Hómo- geneidade. | Homogencidade. O corpo, em que fe naô defcobrem diverfas pár> tes componentes, ou que. he com- pofto de huma fó materia (ao pa- recer ) fe diz fer homogeneo. O Xu ouro 324 Index do Problema ouro, epratav. g. faôchimicamen- te corpos hombgeneos:; porque nel- les (fendo puros) fenaô defcobre parte alguma , nem algum ingre- diente, que naô feja prata, ou ou- ro: os mais metaes Íaô corpos he- terogeneos , porque nelles fe ob- fervaô partes fulphureas,e terreítres, de que a natureza os fabricou. Os animaes todos faô corpos hetero. geneos, porque faô muitas, e di- verfillimas as partes de que :fe com- poem. À terra pura he hum corpo homogeneo ; porque nella: naô ha parte alguma que naô feja terra verdadeira: ifto fó fe entende da ter- ra exactamente pura. | Indiffoluvel. Indifloluveis fe dizem todos aquelles corpos que fe naô diflolvem, ou derretem. Aflim como v.g.-o fal he diffoluvel na agoa, e indifloluvel no azeite: o enxo- De Architeéhira Cróil. 325 enxofre he difloluvel no azeite, e indifloluvel na agoa : a prata dif- folve-fe na agoa forte, mas naô na agoa regia ; e nefta diflolve-fe o ouro, ea prata naô. O azougue fe- gue a natureza da prata , porque na agoa forte he difloluvel , e in- difoluvel na agoa regia. O eftanho fegue a natureza doouro, porque fe diflolve na agoa regia , e naô admitte perfeita difloluçaô nã agoa forte. O ferro diflolve-fe em quafi todos os corrofivos; porém mais promptamente nos que faô mais brandos ,. e algum tanto refifte aos que: faô mais fortes; por iflo para bem fe diflolver na agoa forte, ou efpirito de nitro, he precifo que ef- te feja diluído , ou enfraquecido com agoa commua. O cobre na agoa forte fe diflolve facilmente, e na agoa regia com mais difficul- Part. 1 X ui dade 316 Iudex do Problema dade he diffoluvel. O chumbo tam- bem fe diffolve no efpirito do nitro, e difficiimente na agoa regia. As gomas , e rezinas diflolvem-fe no efpirito do vinho, porém o fal naô admitte o diffolver-fe naquelle ef- pirito : o fal de tartaro Íó fe dif- folve na agoa fervendo, e na fria fica indiffoluvel: as materias oleo- fas , e unêtuolas diflolvem-fe nos liquidos alchalinos, e naô nos liqui- dos puramente aquofos. Todos os corpos tem hum dif- folvente proprio, em que fe diffol- vem promptamente ; e naquelles , que lhes faô improprios, ou refif- tem totalmente a elles, ou Ífó fe diflolvem muito imperfeitamente : alguns diflolvem-fe em diflolven- tes frios, outros fem calor naô fe diflolvem. De todas asgomas , ou rezinas, Íó o alcanfor le diflolve na De ArchitetturaCivil. 3x7 na agoa forte ; e dos mixtos ani- maes , e vegetaes , nem todos fe diflolvem igualmente nos menftruos corrofivos, e a eftes refiftem alguns corpos, que naô refiftem , e logo cedem á agoa pura, No eftomago, ou ventrículo de todos os animaes, ha hum diflolvente natural , que diflolve a materia alimentola , o qual fendo benigno, e infenfivel, he forte na fua acçaõ. A perfeita diffoluçad he aquel- la, em que o corpo diflolvido fica invifivel no liquido diflolvente , e taô intimamente unido a elle, e com igualdade tal, que em fe fa- bendo a quantidade do corpo dif- folvido que contém huma parte , los go fe fabe a porçaô total de huma mafla grande, diflolvida em huma grande quantidade do licor que o diflolveo. Supponhamos v. g. hum X iv quin- 328 Tudex do Problema quintal de prata diflolvida em dous quintaes de efpirito de nitro: fe do total defta difloluçaô examinarmos, e foubermos o quanto contém de prata huma oitava da mefma dif- Ífoluçaô, fazendo a conta ás oitas vas que ha no pezo de dous quin- taes , logo faberemos certamente o quanto tem de prata toda a dif- foluçaô inteira. Da mefma forte, e pelo mefmo principio , fe exami- narmos , e Ífoubermos quanto tem de fal huma parte cúbica de.agoa do mar , fazendo a conta a quan- tas femelhantes partes cubicas con» tém hum grande efpaço do mel- mo mar, logo faberemos o que tem “de fal. Ifto fó procede nas dif- Ífoluçoens perfeitas , como faô as do fal na agoa do mar, as da prata no efpirito de nitro , as do Mercu- rio na agoa forte , e outras muitas feme- De drchitebtura Cívil. 329 femelhantes ; porém nas diflolu- çoens, que naô faô perfeitas, naô tem lugar aquella regra , e póde fer fallivel alguma vez. A razaô phyfica de todas as diffoluçoens , naô eftá demonftra- da ainda , e parece que nunca o ha de eftar. O faber-fe a natural mecanica porque a agoa forte dif- folve a prata, e deixa intaéto o ou- ro; e O porque a agoa regia dif- folve o ouro, e deixa a prata in- taéta, e outras femelhantes diflo- luçoens, he hum dos Problemas que ainda eítaô por refolver. À con- figuraçaô dos corpos , a analogia que entre elles ha , e os liquidos que os diffolvem, a impulfaô dos liqui- dos nos interíticios dos corpos fo- lidos, tudo faô fuppofiçoens , ou conjecturas improvaveis , e que por nenhum experimento fe verifica a reali 330 Index do Problema realidade dellas. Vemos que huma maíla de ouro pezadiflima , fóli- da, e compalta , na agoa regia fe desfaz, e defapparece do meímo modo que a maíla de algum fal, na agoa tambem defapparece , e fe derrete, tomando na agoa a figu- ra invifivel que naô tinha, e eftan- do incorporada nella perpetuamen- te, fe o calor diflipando a agoa a naô retira, e a naô torna a mofi trar na fua verdadeira, e natural figura : he mais para admirar que; contendo o diflolvente em fi todo o corpo diflolvido , nem por iflo crefce de volume, fendo que algu- mas vezes recebe em fi outro tan- to , ou maior pezo que o que ti- nha; de forte que, crefcendo mui- to no pezo , naô fe augmenta nada no volume. E com effeito hum arratel de efpi- De Architettura Civil. 331 efpirito de nitro póde diflolver ou: tro atratel de prata pura; e da melma forte hum atratel de agoa commua póde diflolver dous arra- tes de fal do mar; mas nem por ifi fo a agoa commua; nem o efpiri- to de nitro occupaôd mais efpaço, antes ficaô no melo efpaço que occupavaô, fem fazer, nem mof- trar maior volume. Em nada difto fe repata, Ífendo aliás de reparar; mas he porque nada do que ves mos commumente nos admita , fen- do que os phenómenos ordinarios, e communs, faô os que contém ás vezes muitas circunítancias admi- raveis. Para alguma coufa fer no- tavel para nós, he precifo que a ve- jamos raramente , ou que a naô vejamos nunca ; tudo o que facil- mente podemos obfervar, parece- nos que naô merece a noíla obfer- vaçaõ. 332 Tudex do Problema vaçaô. À difficuldade de ver, he a que excita as noílas attençoens; a facilidade de preíla nos fatisfaz: cuidamos que o memo he ver que comprehender ; e julgamos que hu- ma coufa vifta, eftá tambem com- prehendida : mas grofleiramente nos enganamos, porque das coufas que vemos fempre, e que a cada paílo eftamos encontrando , fad muito poucas as de que podemos dar ra- zaô , nem dizer pofitivamente o como faõ , nem o como provém os feus effeitos. Dizem graviflimos Authores que ha hum diflolvente univerfal, de cuja compofiçaô fazem hum my f- terio occulto , ou hum arcaniflimo fegredo ; defcrevendo-o fó debai- xo de intricadilimos enigmas , e em metaphoricas parabolas. Porém he neceílario fé para crer que bum melmo DeArchirestiraCivil. 333 mefmo diflolvente pola diffolver o ouro , a prata , o diamante , as pedras preciofas , e todos Os cor- pos vegetaes, e mineraes. Segun- do os principios conhecidos naô pó- de haver, nem exiftir hum diflol- vente tal: os que o buícaô parece que menos inftruidos naô fabem o que bufcaô , e naô advertem a im- plicancia que ha. para que. poífa achar-fe hum diflolvente verdadei- ramente univerfal. Efte, fe o ha, de= ve fer entendido: por outro modo, e naô materialmente como alguns artiftas fazem :-vejaô bem o que dizem os authores em que fe fun- daõ;' naô.figaô as palavras literal- mente; e entaô veraô ao que de- vem chamar diflolvente univerfal; tomem o que as palavras fignifi- cad , e nado que Íoad : naô re- montem tanto os voos: nem for» mem 334 Index do Problema mem efperanças vãas: Medio tu- tiflimus sbis. Lapidificaçao. Alim fe chama aquella acçaô por onde a natureza fabrica a pedra; e por onde a ar- te, com alguma imitaçaô da mefma natureza, fórma huma materia du- ra, e bem compaéta , que parece pedra de algum modo. Lapidifico. Alim fe dizem os liquidos fubterraneos , que tem pro- priedade certa para reduzir em pe- dra, ou petrificar. Os natulaliftas, ou philofophos chimicos, todos fal- laô de hum Íucco /apidifico, de don- de dizem proceder todas as pedras que ha no mundo ; da mefma for- te que dizem haver na terra hum fucco metallizante de que procedem os metaes todos. Porém femelhan- tes fuccos ninguem os vio, nem obfervou ainda. Alguns authores tem De drchiteéiura Civil. 335 tem difpofiçaô para crerem facil. mente o que naô viraô , nem ob- fervarad, fiados fómente na fé gra- tuita dos que efcreverad antes ; e tudo fem mais prova , que a de hu- ma antiguidade veneravel. Conve- nhamos que ha na terra alguma materia propria de que as pedras, e metaes fe formaô ; porém naô de- vemos aflentar fem duvida que aquella materia propria feja hum Ífucco mettallizante , ou Japidifico. E com effeito fe houvefTe hum fuc- co tal, alguma vez feria achado, e vifto; e quem o achaffe, com el- le formaria huma pedra , ou hum metal; e Íó afim haveria huma prova certa de huma exiftencia fe- melhante ; mas ninguem encontrou ainda aquelle fucco : e aílim pare- ce que devemos entender que naô ha na terra hum determinado li- quido 336 Index do Problema quido que tenha aquella proprieda» de, mas fim que as pedras fe for- maô aílim como fe formaô os ve- getaes , e mineraes, fem que nós fabamos nem o como , nem de que. O haver nas entranhas da ter- ra hum fucco lapidifico he o mef. mo que fuppôr a exiftencia de hum corpo phyfico, que fó he confide- rado mentalmente; porque na ver- dade nunca foi vifto, nem achado. Além de que, fe ha com effeito hum Ífucco Japidifico, quem levou, ou como foi ao cume de altos montes donde vemos os rochedos ? Dirfe- ha que aquelle fucco foi, e efté nos lugares eminentes da mefma forte, que nos mefmos lugares fe encon- traô tantas agoas: porém efte ar- gumento naô conclue ; porque, as agoas faô corpos obfervaveis , e vil- tos a cada paílo, e tem origem ma- nifeíta; De drchiteiura Civil. 337 nifefta ; e o Íucco Japidifico , nad fei que foffe vifto , ou achado al- guma vez. He certo haverem pe- dras, e por confequencia deve ha- ver huma materia petrificante, ou petrificavel; porém que efla talma- teria feja hum Íucco Japidifico , he Juftamente o que eu ignoro; por- que a exiftencia de hum corpo ma- terial , fó prova a fua exiftencia phyfica, mas naô prova que exif- te por efte, ou aquelle modo , ou fe fórme de hum Íucco determina- do. Nas pedreiras fe obferva quafi fempre que os bancos de pedra todos faô parallelos ao orizonte : efta circunftancia naõ tem fido bem examinada ainda, e talvez que def- te exame dependa unicamente oco- nhecimento de toda a petrificaçaõ. Maleavel. Maleabilidade. Vid. Ductilidade. Parc, IL, Y Mer- 338 Index do Problema Mercurio. He ao que chama- mos azougue : os antigos lhe im- pozeraô aquelle nome ; porque en- tenderaôd que naquelle femimetal in- fluia o planeta de Mercurio. De- pois que a Phyfica fe inítruio me- lhor , ficarad todos conhecendo que nenhum dos planetas influe nos metaes, e que eftes faô corpos in- crpazes de influencia alguma : def- te principio veio a refultar o conhe- cimento certo de que algumas fi- guras que antigamente fe diziaô conffelladas , naô tem virtude algu- ma; a fuperítiçao da Gentilidade as introduzio ; a Phyfica inftruida as abolio. Microfcopio. Aflim fe chamaôd os inftrumentos feitos com tal arte, e com vidros figurados em fórma , que por meio delles fe defcobrem os objeétos ; parecendo eftes muitas vezes De Architeétura Civil. 339 vezes maiores do que faô na reali- dade , e que fendo invifiveis pela fua fumma tenuidade , fó fe po- dem ver por hum artifício feme- lhante. E com effeito por meio do microícopio fe tem feito oblerva- çoens notaveis, deícobrindo-fe vi- fivelmente entidades invifiveis , e de que era impoflivel que os olhos deílem fé, fe naô foflem auxilia- dos por aquelle artifício facil ; e com tal certeza , que naô pode- mos duvidar da exiftencia phyfica de todos os objectos que o microf- copio nos faz ver. Os licores mais claros, e tranfparentes fuccede te- rem quantidade immenfa de ani- malculos viventes que nos meímos licores fubfiftem [empre em perpe- tua agitaçaô ; e he para admirar que em alguns licores corrofivos ; e que por efta qualidade pareciad 7 inca- 340 Index do Problema incapazes de conterem animaes vi- ventes , nelles fe encontraô infin:- tos , e taô indivifiveis, que para os olhos os diftinguirem he precifo que o microfcopio augmente mais de mil vezes o tamanho verdadei- ro de cada hum. No ar mais diá- phano, e mais puro, naô deixaô de haver femelhantes habitadores ; e deítes fe quer dizer que procede a pefte, quando Íuccede ferem de maligna natureza; poriflo toda a vifinhança de agoas corruptas faô infalubres commumente; porque o ar, em que circulaô humidades pu- tredinofas , precifamente ha de pro- duzir verminofas infecçoens: e de faito a fequidad total he incapaz de produzir ente algum; que te- nha vida ; porque fó a humidade póde circular, e fem circulaçaõ ne- nhum genero de animal naíce , nem fe De Architeflura Civil. 341 fe cria: a organizaçaô de todos os viventes depende fempre da humi- dade ; porque eíta he converfivel em tudo quanto ha; em lugar que a fe- quidaõ total tem eftado permanen- te, e naô fe muda , nem conver- te em coufa alguma ; e he como o ultimo termo, a que hum corpo chega, do qual nunca faz mudan- ça, fem o concurfo de alguma hu- midade que fobrevenha. E já que o microfcopio nos conduzio a fallar da caufa de que-vem a pefte, tam- bem diremos , que os que opina- raô que aquelle mal terrrivel opro- cedia de bichos invifiveis de que na- quellas occafioens o ar eftá conta- minado , todos entenderad , e pror pozeraô varias provas : para fazer certa aquella opiniad ; porém.ne- nhum ( que eu faiba) fe fervio de huma prova natural, e bem conf. Part. TI, Yu tante, 342 Index do Problema tante, com a qual fe verifica, ou ao menos fe faz muito provavel, que aquelle grande fyftema , ou conjectura he verdadeiro, e vem a fer ; que hum dos remedios mais promptos , e eflicazes para mode- rar a pefte , confifte commumente nos perfumes , ou nos fumos difte- rentes que fe mandaô exhalar nos lugares inficionados , por meio dos quaes o ar fe purifica de algum modo , e fica livre da infecçaô ma- ior. Porém ,-porque razaô fe puri= fica o: ar por aquelle modo , ou co- mo póde hum fumo paflageiro, e leve mudar o temperamento noci- vo da atmofphera, ou de hum ef paço de ar determinado? À folu- çaô da duvida confilte na mefma caufa de que procede a pelte ver- minofa ; porque quando aquelle mal provém de animalculos invifi- veis, De ÁrchitecturaCivil. 343 veis, efpalhados no ambito defte, ou daquelle ar, entaô he certo que o fumo deve fer o remedio prin- cipal; porque todos fabem que o fumo bafta para fuffocar inteira- mente certos animaes ; e eftes quan- to mais pequenos, e invifiveis faô, tanto mais eftaô expoftos , e fentem mortalmente a fuffocaçaô do fumo; porque a mefma tenuidade das par- tes por onde a.refpiraçaô fe fórma, conduz para ferem pervertidas, fi- cando fem acçaôs e he certo, que ficando fufpendida , e retardada a refpiraçaô , morre,o animal infal- livelmente, e duraô mais, ou me- nos, fegundo a força que tem pa- rasrefifir a falta de refpirar. Ifto mefmo fe obferva em animaes vi- fiveis, e manifeftos, como fad os mofquitos v.'g. aos quaes he mortal todo o genero de fumo ; e da mef- Yiv ma 344 Index do Problema ma forte a alguns infectos , aos quaes o fumo do enxofre derretido caufa o mefmo dano. Sabido elte principio, já fe moftra a precizad que ha, de que em doenças con- tagiofas , ou peftilenciaes , fe ufe abundantemente do remedio do fu- mo, praticado por muitas , e re- petidas vezes, fem que feja necef. fario que o fumo provenha de al- guma planta, ou herva efpecial; por- ue o fumo nad'extermina os ani- malculos do ar pela qualidade da herva de que refulta, mas untcamen- te por fer fumo. Daqui fe infere que ha muitas coufas que fe fabem, de que fe naô faz todo o cafo. que merecem; porque fe ignora o prin- cipio verdadeiro de que refultaô os feus effeitos. Efta digreflaõ foi a fa- vor do publico ; e o Medico pe- rito nao ha de deixar de fazer nella De Arcbitetiura Civil. 345 nella alguma mais extenfa refle- xao. No ar naô tem podido o mi- crofcopio defcobrir vifivelmente a- quella feminal , ou verminofa ori- gem de contagio ; porque he de crer que ha muitas coufas de taô exquifita tenuidade , que nem por meio do microícopio as podemos ver. À natureza naô fó fe compoem de entidades immenfas no tamanho da grandeza , mas tambem na im- menfidade de huma monftruofa de- licadeza: em algumas póde o mi- crofcopio , accrefcentando muitas mil vezes o tamanho, e a figura, fazer com que poílaô fer viftas, e obfervadas ; em outras porém, por mais que o microfcopio faça agi- gantar os corpos, eftes nunca ficaô proporcionados aos noflos olhos para os podermos ver : a fumma exi- guida- 346 Index do Problema guidade naô fe deixa vencer por algum engenho , ou arte. Todos fabem que ha efpiritos animaes, de que refulta a acçaô do movimento; porém eftes taes efpiritos , quem he que os chegou a ver, por mais que fe faba com certeza que tem a fua refidencia, e exitem corpo- ralmente nos liquidos dos mefmos animaes? Os efpiritos fabricadores da memoria , do entendimento , e penfamento , do vigor , ou força mufcular , e de outras muitas, e innumeraveis acçoens viventes, Íó fe manifeftaô pelos feus effeitos, e nunca por fi mefmos: os melhores microfcopios naô tem podido fazer efle milagre. O que tem feito he fazer ver nos orbes celeítes os fa- tellites de Jupiter, e Saturno mas naô as entidades corporaes que faô infinitamente pequenas , por mais que De Architettura Civil. 347 que eftejaô chegadas aos noflos olhos; porque o corpo de todos os efprritos confifte em huma eftu- pendiílima , e como milagrofa exi- guidade. Nitro. He o mefmo que fali- tre, afim chamado vulgarmente Oleo de tartaro por deliquio. Tartaro val o mefmo que farro; efte provém fempre de todos os li- quidos que fermentad; e he huma concreçaô falina, e oleofa, que fi- ca encoltada na parte concava do vafo em que a fermentaçaõ fe fez, De todos os liquidos, depois que fermentaraô , provém aquelle farro, ou em mais, ou em menos abun- dancia, fegundo a qualidade do li- quido fermentado : porém quando fe dizo farro,ou tartaro fimplefmen- te, entende-fe o do vinho depois de fermentar o mofto na vafilha : def- ta; 348 Index do Problema ta, ou da fua cavidade interior fe tira o farro chamado tartaro , O qual fe expoem fobre hum fogo ardente em que fe queima , exha- lando hum copiofo, e negro fumo, que he a parte oleofa que o mefmo fogo aparta da falina , ficando efta purificada por aquelle modo , e li- vre totalmente da parte oleofa com- buftivel: entaô expofto o tal farro queimado em hum vafo aberto, a humidade do ar penetrando o mef- mo farro, o humedece tanto , que o faz diflolver-fe todo, ficando li- quido, como qualquer fal diffolvi- do naagoa. Ifto he ao que fe cha- ma oleo de tartaro por deliquio ; porém do oleo verdadeiro naô tem nada , porque naô he inflammavel Já 5 mas chamafe-lhe oleo , porque he menos liquido do que a agoa, e tocado com a maô faz fenfaçaô de De Architeelura Civil. 349 de hum liquido unêtuolo , naô contendo alias unétuofidade algu- ma. Efte memo chamado oleo , fe depois de filtrado fe expoem fobre hum fogo moderado para expellir delle a humidade toda, o que fica he hum verdadeiro fal, a que fe chama fal alcalino fixo; o qual pa- ra confervar-fe fecco, neceílita ef- tar tapado exactamente em vafo de vidro, ou bem vidrado ; porque , naô fendo afim, torna a humede- cer, ea deliquar-fe. O fal de todas as cinzas de vegetaes queimados contém hum fal da mefma nature- za, e com todas as melmas quali- dades, e daô igualmente hum fal alcalino fixo; porém o mais forte , e o mais recommendado no ufo de varias artes, he o que provém do farro do vinho , fabricado na fór- ma mencionada. Orbi- 350 Tudex do Problema Orbita. He hum termo aftro- nomico : fignifica o caminho que os planetas defcrevem no feu giro. A orbita do Sol he o Zodiaco , por- que deíte naô fe aparta , e he o caminho que fe diz, que o Sol del- creve no feu giro annual. Pbhlogiftico. Aflim fe chama aquella parte que induz duétilidade nos metaes; porque extrahida del- les a parte Phlogiftica, já o metal nem fe funde fobre o fogo , nem tem ductilidade alguma , porque fi- ca reduzido em pó. Do ouro , nem da prata , naô fe póde extrahir a parte phlogiftica ; porque nem o fogo mais violento , nem os efpi- ritos fortes, e corrofivos podem fa- zer aquella tal feparaçaô. O efta- nho, e o chumbo, facilmente per- dem a fua parte phlogiftica, por- que poftos em fundiçaô continua- da De Árchiteétura Civil. 351 da exhalaô hum fumo branco, em que a phlogiftica parte fe diflipa ; porém fe nefte eftado fe lhes jun- ta alguma materia oleofa , unétuo- fa, oucebacea, tornad a recobrar aquella parte perdida , e tornaô a ferem fuziveis , e duétiveis. Efta fin- gularidade tem fido obfervada pou- co; talvez que os que vierem fa- çaô nella mais profunda obferva- çaô; e deita , ao que eu entendo, haô vir a refultar utiliflimos effei- tos, e inventos admiraveis. Precipitar. He hum termo chi- mico , que val o meífmo que fa- zer cahir ao fundo do vafo o corpo diflolvido em algum liquido dif folvente. Iíto fe obferva na diflo- luçaô da prata em efpirito de ni- tro, ou agoa forte : fe nefta com effeito fe acha diflolvida a prata, enfraquecendo-fe com agoa com- mua 352 Index do Problema mua a diffoluçaõ, e deitando- fe nel- la huma certa porçaô de cobre , eí- te novamente fe diflolve naquelle liquido , e faz cahir ao fundo do vafo a prata corporizada já , e li- vre da difloluçaô em que fe acha- va: entaô fica diflolvido o cobre no mefmo diflolvente ; e defte fe fe quer retirar o cobre diflolvido , Junte-fe á difloluçao huma certa porçaô de ferro, o qual fe diffol- ve, e faz cahir ao fundo o cobre, ficando fó diflolvido o ferro; e fe entaô fe junta á difloluçaô huma certa porçaô de pedra calaminar , efta da mefma forte fe diflolve, e faz cahir ao fundo o ferro; e fe fe Junta á mefma difoluçaô huma cer- ta porçaô de fal alchalino fixo, ef- te deftruindo o acido nitrofo , faz cahir ao fundo a pedra calaminar ; e o que entaô ultimamente fica, he De drchiteciura Civil. 353 he hum fal neutro. Aquella acçaô de fazer cahir ao fundo do valo con- tinente o corpo diflolvido he ao que fe chama precipitar. À razaô,porque hum corpo dife folvido fe precipita quando vem ou- tro que fe diflolve, parece que pro- cede de huma efpecie de fympathia, ou analogia entre o corpo diflolvi- do, e o diflolvente; porque o ef. pirito do nitro , que fympathiza mais com o cobre do que com a prata, efta fe precipita por aquelle; por- que o efpirito de nitro, que tinha unido , e incorporado intimamente afia prata, logo a larga para to- mar o cobre , e a efte tambem lar- ga para tomar o ferro; e a efte faz o mefmo para fe unir com a pe- dra calaminar : efta he a que fica ultimamente diffolvida, e unida per- feitamente ao efpirito do nitro; até Part. II. Z que 354 Index do Problema que hum fal alchalino fixo, deilru- indo o acido nitrofo , tira-lhe q vigor , “e força com que eltava para diflolver aqueltes corpos to- dos. Se no mundo ha fympathias, aquella he huma dellas ; e taô conf- tante entre o efpirito do nitro, e aquelles metaes todos , que feni que o efprrito fe deítrua , naô per- de aquella propriedade , ou incli- naçaô; amando a huns mais do que a outros ; e deixando huns por amor dos outros. Na difloluçaô do ouro na agoa régia fuccede o mef- mo, porque o ouro fe precipita por meio do eftanho , fazendo no liqui- do diflolvente raios purpurinos com viftofas apparencias ; e o eftanho diflolvido tambem fe precipita por meio de hum fal alchalino fixo. E aílim fe vê que aquelles diflolven- tes Dedrchitetura Civil. 35% tes repellem alguns corpos para in- corporarem a fi outros. Que outra coufa mais he a (ympathia fe naô aquillo mefmo? No Iman he mais vifivel huma femelhante propenfaô, e muito mais conftante , porque at- trahe oferro, enada mais; enaô fó fe manifefta quando fe dá a pre- fença immedita de hum , e outro; mas ainda eftando feparados em diftancia proporcionada aa vigos da pedra. Que admiraveis experis mentos ; e que effeitos utilifimos tem refultado felizmente daquelle amor reciproco, econftante! q Naô podemos pois negar a exiftencia perpetua de huma efpe- cie de fympathia entre aquelles cor- pos , fe he que naô he fympathia verdadeira, e rigorofa; e fe a ha entre os licores, e metaes ; e em: tre eftes, € os mineraes ; como a Zu naõ 356 Index do Problema naô ha de haver entre os coraçoens dos animaes ? eftes fendo fenfiveis naturalmente, e fendo por fi mef- mos propenfos, e inclinados , co- mo póde deixar de haver entre el- les fympathia ? Todos fabem que o Mercurio fe incorpora intimamen- te ao ouro, e fe une como com af- feito irreprimivel ? em fegundo lu- gar faz o mefmo à prata, depois ao eltanho , ao chumbo , ao co- bre; mas em primeiro lugar ; e com mais vigor ao ouro, do qual fe naô fepara, fe o fogo o naô obriga a feparar. Porém naô fabem todos a juíta proporçaô em que O Mercurio póde unir-fe á aquelles metaes todos : eu a communiquei na palavra amalgamar. Alguns explicad as precipita- çoens, admittindo fyítemas , que ainda eftaô por demonítrar, e que faô DeArchiteltura Civil. 357 faô mais difficeis de entender, do que a mefma queítad que fe quer explicar com elles. À razaó da fym- pathia , ou antypathia , he razaô reprovada hoje ; talvez que feja defprezada , fó por fer antiga; por- que aflim como em algumas cou- fas a antiguidade tem caracter ve- neravel , em outras a mefma an- tiguidade he fundamento defprezi- vel. A impulfaõ , e repul(aõ dos cor- pos , com que os Phyficos modernos pretendem explicar os phenómenos naturaes , naô daô explicaçaô al- guma ; porque a duvida fica fem- pre fubfiftindo , vifto que por aquel- le modo naô fe diz de que procede effa mefma impulfaô , e repulfaõ; e val o meímo naô explicar a cou- fa, que explicalla de buma forte, que a explicaçaô necelite fer ex- plicada. O dar à fympathia o.no- Part. II. Zn me 358 Index do Probleina me de impulfaô, he dizer o mefmo por outra fórma ; e a differença nos vocabulos naô induz differença nas fubftancias. E aílim de que havemos de dizer que procede a precipitaçaõ de hum corpo diflolvido em hum liquido diffolvente? Digamos, fun- dados em hum principio certo, o qual he , que todos os diflolven- tes quantos ha, naô diflolvem igualmente os corpos difloluveis nelles; mas a huns diflolvem com mais facilidade do que a outros Iíto fe demonftra com a agoa com- mua , na qual muitos corpos fe diflolvem, mas nenhum com tan- ta facilidade como O nitro, ou o fal commum: e pelo mefmo fun- damento os diflolventes , a alguns corpos retém , e guardaô em (fi com mais innata propriedade , e perfif- De Architeciura Civil. 359 perfiftencia do que a outros. Ifto fe demonftra tambem com a diflo- luçaô confufa de varios , e differen- tes faes na agoa commua. Diflol- vamos v. g. naquella agoa o fal do mar, onitro, e o fal extrahido de quaefquer cinzas. Nefta difloluçad confufa daquelles faes havemos de achar infallivelmente que en- trando a evaporar a agoa que os diflolveo até apparecer a pellicula falina que vem à fuperficie do dife folvente , pondo a eíte em lugar frio, depois de paflarem algumas horas, o primeiro fal que fe crif- talliza ; tomando fua propria, e na- tural figura , he o nitro ; o qual extrahido do diflolvente, fe a efte tornamos a evaporar até á forma- çaô da pellicula falina, e pondo-o da meíma forte em parte fria, de- pois de paflarem algumas horas, Z iv vere- 360 Index do Problema veremos criftallizado o fal do mar; até que ultimamente fica no diílol- vente o fal das cinzas incriftalliza- vel, e fó feparavel por meio da evaporaçaô total da agoa, que ti= nha diflolvido aquelles faes. Por aquelle modo fe demonf- tra evidentemente que a agoa com- mua (que aliãs he como hum dif- folvente univerfal) nad diflolve os faes com a melma, e igual facili- dade; porque huns mais de prefla fe diflolvem nella, e em maior por- çad; e outros em porçaô menor , e com mais vagar : tambem fe vê, que a agoa commua naô larga de fi confufamente aquelles faes con- fufos, mas fim gradualmente; por- que o primeiro que larga , e fe crif- talliza, he o nitro; depois logo fe fegue o faldo mar; e ultimamente fica com tenacidade unido à agoa o fal De drchiseeinra Cívil, 361 fal das cinzas, da qual fe naô fepa- ra fem que violentamente o fogo o faça feparar. E aflim fica mani- fefto que a agoa commua, o fal para que propende mais, e a que mais fe une he o das cinzas vege- taes; depois defteo fal, que retém mais, he o do mar; e depois def- te, o com que menos fe entranha, e incorpora , he o fal nitro. Pofto pois; e demonftrado efte principio, vamos ao que fe fegue. No exemplo de que fazemos mençaô aílima , vimos que , eftan- do a prata diffolvida na agoa forte, fe fe junta à difloluçaô o cobre, eíte faz precipitar a prata ; fican- do diffolvido o cobre ; efte preci- ta-fe pelo ferro; e eíte tambem pe- la pedra calaminar fe precipita; e á pedra calaminar fuccede o mef. mo pela juncçaô de hum (fal de no 362 Index do Problema lino fixo. Se perguntarmos de que vem, oude que procedem aquellas regulares precipitaçoens ; diremos (fundados no principio pofto affi- ma) quea agoa forte diflolve com mais facilidade o cobre do que a prata, por iflo o acido nitrofo (que he em que refide a força dif- folvente) delampara a prata, pa- ra diflolver o cobre ; e neíta ac- çaô a prata livre já daquelle aci- do , a que eftava unida, cahe, ou precipita-fe ao fundo do vafo que a contém; e da melma forte aquel- le acido, que diflolve com mais fa- cilidade o ferro do que o cobre, na acçaô de diflolver o ferro, larga o cobre para fe unir, e diflolver o fer- ro; e por hum igual principio, aquelle acido , que mais facilmente diflolve a pedra calaminar do que o ferro , deixa a eíte para diflol- ver, De Architeilura Civil. 363 ver, e fe unir á pedra calaminar ; eao mefmo tempo, para a diflol- ver, larga o ferro que entaô fe pre- cipita. Ultimamente fe fe ajunta a aquelle diflolvente qualquer fal al- chalino fixo, efte deftruindo o aci+ do, fa-lo incapaz de diflolver ou= tro corpo algum, porque a todos expelle, e precipita para fó elle fi- car unido ao acido , com o qual copoem hum novo genero de fala que chamaô neutro , porque nem he acido, nem alchalino, mas compofto de hum , e outro , por iflo alguns fallando daquelles dous faes unidos difleraôd: Erstis duo in carne una , fi- gurando em hum a qualidade maf- culina , e em outro a feminina, Se fe perguntar ainda porque razaô o acido nitrofo diffolve com mais facilidade huns corpos do que outros , diremos que dos primei ros 364 Index do Problema ros principios naô fe faz queftad, nem fe pergunta a caufa; porque fe afim fofle , entrar-fe-hia em hum progreflo em infinito , inquirindo fempre qual he a caufa da caufa. Naô fe admite o queltionar-fe a razaô v.g porque a terra he com- paíta, e folida; nem a agoa por- que he fluida; nem o ar, porque he diáphano; nem o porque o fo- go tem calor. Podemos difputar fo- bre a natureza das coufas elemen- tadas; e naô fobre a natureza oria ginal dos elementos: bafta que dif- corramos Ífobre os effeitos fecunda- rios; porque o conhecer os effeitos primarios , ou caufas primordiaes , naô he para nós. E aflim quando dizemos que hum corpo diflolvido em hum licor fe precipita, porque o licor diffolve outro com mais fa- cilidade , demonitrando efte prin- cipio ; De Architeelwra Civil. 365 cipio, temos fatisfeito. À humana indagaçaô tem limites certos, dos quaes fe naô póde paflar humana- mente. Sal commum. He o mefmo que fal do mar. Sal gema. Efte he o nome que em Latim , e em todas as lingoas Europeas,fe dá a hum genero de fal, ue he da mefma natureza que o fal commum , e que ferve para os ufos todos a que ferve aquelle fal, A figura do criftal brilhante lhe fez dar a denominaçaô de gema , ou pedra preciofa ; porque com ef- feito reprefenta huma pedra cubi- ca, eluítrofa. Defte fal querem di- zer que procede o fal do mar; por- que hum , e outro tem a meíma qualidade , e com elles fe fazem igualmente os meímos experimen- tos; Íó com a diferença , e a 366 Index do Problema fal gema he mais puro do que o ou- tro, enas fuas operaçoens moftra fer mais forte, Se defte procede o fal do mar, he queítaô naô decidi- da ainda; porém o fer hum, e ou- tro da melma natureza em tudo, faz conjecturat provavelmente que do fal gema refulta o fal commum. Mas como havemos de entender, e perfuadirnos que as minas de fal gema que ha na terra fejaô baftan- tes para dar ás agoas do mar todo o fal que ellas contém ? Parece; que fe toda a terra fe convertefle em fal gema, nem aílim poderia fazer o mar falgado; porque fendo o ef- paço do mar muitas vezes maior do que o ambito da terra, fica fendo incrivel que o fal da terra diffolvi- do naqueilas agoas as fizeflem taô falgadas. Alguns quizerad que o mar foffe-falgada defde a fua crea- çaó: De drchireeturaCivil. 367 gaô: efta opiniaô parece bem fun- dada , ainda: que feja improvavel por fi mefma. Os que differaô que a operaçaôd do Sol fobre as meímas agoas he de donde lhes procedeo, o fal, conjeéturaraõ fem fundamen- to racionavel ; porque naô fe via ainda que os raios do Sol fizeffem femelhante producçad em outras agoas nem ainda naquellas que fe naô movem , cuja circunftancia , ou falta de movimento deveria contri- buir eficazmente para a formaçaô do fal,fe ella em fi fofle poflivel;por- que todo o corpo, que fe naô mor ve, conferva mais aptidaô para receber impreíloens eftranhas. As palavras do fagrado Texto: Spiri- tus Domini ferebarur fuper aquas » parece que fe podem applicar ao fal: efte na verdade he hum corpo confervativo , e fempre foi fingu- lariza- 368 Index do Problema larizado, ou efpecializado entre os outros corpos todos ; e o mefmo Salvador do mundo fallando delle , diffe aos feus Apoftolos: Vos eftis Jal terre. E com effeito o fal com- mum he o que conferva , e faz as agoas do mar incorruptiveis, ain- da mais do que o movimento del- las; por iflo póde chamar-fe ao fal Espirito do mar, porque a confer- vaçaô de todos quantos corpos ha depende da materia efpirituofa que elle tem , fem a qual tendem na- turalmente para huma infallivel cor- rupçaô. Lito fe comprova com infi- nitos experimentos ; e hum delles he o vinho, do qual fe fe lhe tira o efpirito inflammavel , logo dege- nera, e fe corrompe; e quando fe lhe introduz maior porçaô daquel- le meímo efpirito, fica o vinho in- corruptivel de algum modo ; por- que De drchitectura Civil. 369 que fe o efpirito fó por fi naô ad- mitte corrupçaô , e-he totalmente incapaz della, antes ferve para pre- fervar de corrupçaõ , todos quan- tos corpos ha, e que faô corruptis veis de ft mefmos. Com tudo eu naô Julgo a queftaô , nem refolvo fir- mente fe o fal do mar provém do fal gema diflolvido nelle, ou fe as fuas agoas foraô falgadas deíde a fua creaçaô ; porque he melhor fique duvidofa , e irrefoluta , do que aflentir em hum fyftema igualmen- te duvidofo : na Phyfica , a prova conjeétural tem pouca , ou nenhu- ma authoridade ; porque em tudo o que he improvavel , ou em que naô ha nem podem haver provas evidentes, devemos refpeitar mais a indecifaô, do que a foluçaô; e efta quando eftá deftituida de evi- dencia , naô fó he defprezavel, mas Part. II. Aa tam- 370 Index do Problema tambem influe delprezo na mate- ria decidida : a efcuridade total tem mais valor, do que huma cla- ridade fombria, e mal fegura, Ito deve proceder aflim em todas as queítoens da Phyfica; porque nel- tas naô ha obrigaçaõ » nem ne- cellidade de julgar ; naquillo po- rém, em que he precifo o decidir, Rad contentar-nos com as pro- vas que feachaõ, fem exigir maior clareza do que aquella que fe acha, e naô toda a que póde achar-fe : daqui naíce muitas vezes huma in- Juftiça neceflaria. Sal neutro. Alim fe chama o fal, que nem he acido , nem al- calico ; mas he formado de hum, e outro; por io fe chama neutro. Se faciarmos o efpirito do nitro com o'eo detartaro por deliquio; depois de feita a faturaçaô, reful- ta De drchitectira Civil. 371 ta hum fal, que nem he acido, nem alcalino , mas compoíto de hum, eoutro. Na juncçaô daquel- les dous liquidos contrarios, o aci- do do nitro , penetrando logo o al- calico do tartaro, o deftroe; e da meíma forte o alcalico tartarofo pe- netrando o acido nitrofo tambem lhe tira, ou desfaz a corrofaôd , mu- dando-lhe inteiramente a indole. No corpo dos animaes Íuccede aquillo meímo; porque o que a ar- te fabrica aprefladamente , a natu- reza lentamente faz , e com mais feliz fucceílo quando a arte a foc- corre, e patrocina. Sal nitrofo. He o mefmo que falitre. Sublimaçao. Alim fe denomi= na toda aquella operaçaô, em que por meio do calor, hum corpo fu- blimavel fe levanta ao alto do vafo Aa nt fubli- 372 Index do Problema fublimatorio , e aquillo mefmo que chamamos diftillaçao nos corpos liquidos , chamamos fublimaçaõ a reípeito dos corpos feccos ; os li- quidos fe diftillao, os feccos fe fu- blimaô eftes como naô faô taô ex- panfiveis como aqueles, naô paf- faô ao valo chamado recipiente, e fó ficaô juntos, ou pegados na ca- vidade fuperior, e interna do valo fublimatorio. Por efte modo fe fa- bríca o fublimado mercurial, e da mefma forte fe fabrica afim a flor do enxofre, o fal volatil armonia- co, e outras muitas compofiçoens. Porém nem todos os corpos feccos faô fublimaveis , porque fó o faô aquelles que faô volateis: os que faô fixos nunca por fi mefmos fe fublimaô, por mais que o fogo feja activo , e continuado ; e quando com efeito fe fublimaõô , he pela intima Dedrcbitetlura Covil, 373 intima juncçaô de outro corpo vo- latil por fi mefmo. Nenhum me- tal ( exceptuando o azougue , que he fó femimetal) fe fublima; porém a conjuncçaô de hum corpo volatl faz que os metaes facil- mente fe fublimem. O fal armonia- co faz fublimar os metaes todos, unindo-fe eftreitamente a cada hum, e levando-os comigo ; por io à aquelle excellente fal chamaô os chimicos Áquila alba. O azougue, naô fó fe fublima eftando Íó, más tambem promptamente fe diftilla como qualquer liquido vegetal. Tartaro Vid. Oleo de tartaro. Vidro circulatorio. Todos os vidros, a que fe tapa o orificio, ou feja hermeticamente , ou por ou- tro modo algum , fe chamaô Circa- latorios. Nelles Circulaô com ef- feito os licores volateis, aos quaes Part. II. Aa mi fe 374 Index do Problema fe quer conciliar mais eficacia, ou mais vigor; porque o calor do fo- go fazendo os fubir infinitas vezes ao alto do valo, de donde defcem para a bafe concava , aflim fe pu- rificaôd, e adquirem mais virtude, e propriedades differentes daquellas que tinhaô antes. Da czrculaçao con- tinuada muito tempo ; e com pa- ciencia refultaô effeitos fingulares , e muitas vezes inefperados ; o ar- tifta apenas póde perceber a razaô phyfica, porque fem additamento de materia, hum licor fimples, ou compofto ; produz mudanças ad- miraveis , fem intervir na opera- çaô mais circunítancia alguma do que a circulaçaô conftante, e repe- tida. Os licores que fe circulaô faô volateis, porque fó no que he vo- latil tem lugar a circulação; vitto que o licor deve Íubir ao alto do valo De Árchitettura Civil. 375 vafo circulatorio, reduzido em va- por ; donde tornando a tomar a ua fórma liquida defce ao fundo, e daqui torna a Íubir, e a delcer infinitas vezes. Ifto he ao que Íe chama Circular. Hum dos fins, para que os licores fe fazem circular , he para os fazer menos volateis ; porque aquella acçaô continnada lhes ti ra a propenfaô de fe exaltarem , ou fubirem; e nefte eftado neceffitad mais calor para poderem circular ; até que com effeito difficultofamen- te fobem, perfiftindo immoveis na parte inferior do vidro circulato- rio: entaô fe fe adminiftra hum ca- lor mais forte do que aquelle que o licor póde fopportar, fubitamen- te arrebenta o vidro ; e fe he no tempo, em que o artifta o obferva, os fragmentos do mefmo vidro o Aa iv ferem, 276 Index do Problema ferem, e muitas vezes o deixad fem poder obfervar mais nada ; por iÍ- fo dizia o Meftre: Cave oculis , au- ribus , maribus. E na verdade he perigofa a adminiftraçao de hum calor forte; porque naô Ífó fe cor- te o rifco de que o vidro repenti- namente defpedaçado offenda os olhos do artíta obfervador , mas tambem de que o vapor quente do licor que fe circula fuffoque ao mef- mo artiífta em hum inftante ; e quan- do o licor he corrofivo , o vapor delle defordena infallivelmente a fabrica vital da refpiraçaô , e efta depois de defordenada , e corroida, nem Efculapio poderia dar reme- dio. O oleo do vitriolo , que he volatil em hum vidro aberto , fe efte fe fecha, para que circule o oleo dentro, moíftra, e tem refif- tencia De drcbitetura Civil. 377 tencia para Íubir; porque o feo pe- zo efpecifico , e maior que o de todos os mais licores, o faz refif- tir a hum calor commum ; e fe ef- te fe augmenta para fazer circular o oleo, o fogo intenfo , dando a aquelle oleo huma forçada volati- lidade, entaô o vapor ardente rom- pendo o clauftro do vidro circula- torio, em hum inftante o defpeda- ça; e enchendo hum grande efpa- ço do ar vifinho de hum halito cor- rodente , e cauítico, faz ulcerar to- das as membranas por onde a inf- piraçaô , e refpiraçaô fe fórma. O Mercurio que tambem coftuma cir- cular-fe para o reduzir em hum pó medicinal , exige igual cautela; porque o feu vapor naô deixa de fer nocivo, ainda que o mal que pro- cede delle, he menos prompto, e procede lentamente; mas por iílo meímo 378 Index do Problema meímo he fummamente perigofo ; porque nunca fe attribue ao vapor mercurial o dano protrahido , e que quando fe manifeíta já naô lembra o vapor de que veio a refultar; en- taô naô fe conhece a enfermidade, e injuftamente fe bufca outro mo- tivo, fendo a caula do mal mui dif ferente , do que aquella de que fe entende proceder. A razaô da volatilidade dos li- cores, que circulaô, ainda naó ef- tá bem conhecida ; as conjecturas que temos nefte ponto faô pouco ponderaveis; porque as provas em que fe fundaô fatisfazem pouco. Ha porém alguns experimentos, em que fe naô tem feito o reparo neceflario ; nem fer fe os meímos experimentos faô vulgares , ou fe faô fó meos ; porque naô vi que ninguem os obfervafle , nem fizeí- fe, De Architectura Civil. 3:79 fe, ou os efcreveíle. O chumbo, e o eftanho fabem todos, que em eftando fundidos em qualquer vi= dro aberto , e em hum grao de ca- lor determinado, logo entraôd a ex- halar hum fumo branco ; porém he menos obfervada a circunftancia de que o mefmo eftanho , ou chumbo que eítando fundidos em vafo deí- coberto , exhalaô aquelle vapor denfo ; e branco; fe fe poem em vidro circulatorio; em que o orifi- cio fe tapa exactamente, já entaô nenhum vapor exhala , nem Íobe ao alto do valo que o contém ; e de tal forte, que refiftem ao fogo mais activo , fem que o vidro fe defpedace , ou arrebente. O mef- mo fuccede ao Bifmuth que he hu- ma elpecie de eltanho artificial, e quebradiço. O enxofre fendo hum mineral muito volatil, e inflamma- vel, 330 Index do Problema vel , eftando derretido em vidro aberto, fe o poem no vidro circu= latorio, nem fe exhala, nem fe in- flamma, nem quebra o vidro que o encerra, por mais que feja forte o fogo que o derrete, e por mais que a operaçaô fe continue. À cau- fa defte phenómeno indagaraô ou- tros; e eu por hora bafta que pro- ponha o experimento , e defte co- nheceráô os operarios de varias at- tes, a importancia de que he o ef- tarem tapados, ou defcobertos os vidros, ou os vafos de que fe fer- vem, fegundo as intençoens dos que dirigem alguma operaçaô. Naô he menos admiravel o fe- guinte experimento. Ponha-fe em hum vidro circulatorio qualquer porçaô de agoa commua; com tan- to que naô occupe mais do que a terceira parte, pouco mais, ou me- nos ; De Architetura Civil. 381 nos, do efpaço efpherico do vidro; efte fe tape hermeticamente , e de- pois fe ponha ao calor moderado de huma luz, a cujo artifício cha- maô os Latinos : [gais lampadis ; e os Francezes tambem lhe cha- maô : Feu de lampe. Verfe-ha logo nos primeiros dias da operaçaô, entrar a agoa a circular, fubindo ao collo do vidro, e defcendo pa- ra a parte concava em figura de lagrimas criftallinas, fazendo hum apparato viltofo de globulos deca- dentes. Dura aquella Ícena alguns dias fucceílivos , confórme a por- çaô de agoa empregada nella: de- pois fó fe diftinguem algumas pin- gas da mefma agoa , porém já me- nos volateis : em fe augmentando a mefma qualidade de calor, torna a manifeftar-fe a circulação abun- dantemente , até que de todo fe fufpen- 382 Index do Problema fufpende, e a agoa fica como im- mobil na parte inferior da efphera, Netfte eftado fe o calor fe augmen- ta mais, arrebenta o vidro , redu= zido em particulas infinitas : e quan- to mais o vidro he groflo , tanto mais he violenta a explofaô da agoa que continha. Algum incauto artifta fe vif- fe a agoa immobil no fundo do vi- dro circulatorio , e fem fubir ao al- to delle, naô obftante o calor ad- miniftrado , logo havia de enten- der que a agoa por meio da circu- laçaô eftava fixa, porém enganar- fe-hia, como muitos fe enganaraô em outros experimentos femelhan- tes. À razaô phyfica, porque aquel- la agoa fica immobil , provém de caufa fufficiente, e naô de fixaçaô; e vem a fer; que oar que a agoa tinha em fi, fahindo della por meio do De Arcbitellura Civil, 383 do calor, occupou o efpaço inte- rior do valo circulatorio, de cuja occupaçaô veio a refultar que a agoa naô podeíle fubir , porque já naô tinha efpaço livre, por eltar todo cheio com o ar que o occupava ; da melma forte que hum cilindro cheio de ar com- prelo naô póde admittir outro corpo algum , em quanto a com- preflaô lubfifte; porque he faéto ciemonitrado vifivelmente , que pa- ra hum corpo entrar em algum. ef- paço determinado , ha de fer ex- pellindo o ar que contiver o corpo que houver de occupar aquelle ef- paço. E aflim o phenómeno que á primeira vifta admira , em fe fa- bendo o principio de que refulta , perde a notabilidade toda , e naô admira mais. Outro experimento bem fim- ples » 384 Index do Problema ples, e naô advertido ainda, e que encontra hum dos principios certos em que a Phyfica fe funda muitas vezes, he hum com que fe póde demonftrar que a regra da dilataçaô, ou expanfibilidade do ar, naô fe verifica lempre, e tem ca- fo em que fe limita : o experimen. to he efte. Tome-fe hum vidro cir- culatorio, e feito por aquellla fór- ma a que os artiftas Francezes cha- maô Matraz ; deíte fe tape o ori- ficio hermeticamente fem que den- tro tenha licor , nem materia al- guma. Se oar, que elte vafo con- tém dentro , he expanfivel, e di. latavel pelo calor, em fe pondo o valo fobre hum calor forte, o ar que tiver dentro entrando a dila- tar-fe , ea occupar maior efpaço, precifamente ha de o valo reben- tar. Ito he o que devia fucceder, fegun- De.drchitehuira Civil. 384 feguhdo a regra da dilataçaô ; ce expanfibilidade do ar. Porém naô fuccede aflim ; porque, ainda que o calor feja adminiftrado muito for- te , nem por iflo o valo fe deípe- daça , antes fica fempre illefo, e fem mudança. A razaô, porque aflim fuccede, depende de mais lar- ga difcuílao : eu indiquei o fa£to, outros difcorreráô Ífobreva canfa delle. .; - Naô fó provém Penis fingulares «das circulaçoens artifi- ciaes , mas parece que o mundo todo he huma circulaçad perpetua, e natural. No corpo dos animaes faô infinitas as circulaçoens ; por- que naô fó he o fangue o que cir- cula , mas todos os mais humores circulaô de algum modo , ainda que naô tanto fenfivelmente , nem com tanta regularidade, O repoulo Part. II Bb total 386 Index do Problema total de qualquer liquido induz a corrupçaô , ou mais , ou menos prompta ; porque o liquido que naô f2 move perde os:feus efpiri- tos moventes , e progreflivamente degenera em humor inerte , con- creto , e muitas vezes purulento, Na meíma fubftancia interna, e fo- lida dos oflos, fe dá huma verda- deira , e regular circulaçaô , por meio da qual a unétuofidade pro- pria difcorre pela cavidade oflofa, e vat communicando aos mefmos oílos huma efpecie de alimento ef- pirituofo , de que depende a dure- za, e confiftencia delles; e quan- do lhes falta , ou fe acha perturba- da aquella nutriçaô ; logo fe fegue a debilidade, ou fragilidade aquele les folidos principaes. E com efeito fe por meio do fogo privarmos totalmente hum of« “ “Jo De drcbiteturaCivil. 387 fo da unétuofidade , que tem co- mo ligadas, e juntas as Íuas partes, o oflo fica brevemente reduzido em pó. Da meíma forte fica fraétivel á maneira de hum corpo cafeofo ; todo , e qualquer oflo na machina Papiniana (aflim chamada do nome do feu Author) naõ obitante o nad ter o oflo naquelia machina hum fo- go immediato, mas feparado del- le, porque a fua acçaô he dirigi- da contra o bronzeide que a mef- ma machina fe fórma. Até nas plan- tas fe dá circulaçaõ ; porque em cada huma dellas, por mais minima que feja , circula o liquido vegetal; e tanto, que nas partes em que ef- tá retardada » ou embaraçada a cir- culaçaô , logo as mefmas partes feccaô , ficando fem vigor » € CO- mo mortas. Porque. razaô no'fim do Outono commumente as folhas Bbi de 388 Index do Problema de quafi todas as arvores fe feccaô, ficando ellas como'em pafmo , ou lethargo? A caufa he, porque en- taô.o frio entorpece o liquido ve- getante, e faz que fique como dor- mente, e fem acçaô; porém aílim que a Atmofphera entra a recobrar algum calor, os efpiritos vegetaes fe animaô , e começaô novamen- te a circular. Algumas plantas, ou arvores refiftem ao rigor do Inver- no ; porque fendo rezinofas , e oleofas, efta-circunítancia as defen- de mais, e faz com que na efta- çaô do frio fe confervem frondo(as, mas naó frutuofas. E finalmente o mundo he hum valo circulatório; e elle mefmo cir- cula incellantemente. Os planetas giraô circulando; e o Firmamento, que fe move , infunde hum movi- mento perpetuo a todos os orbes celef- De Architebtura Civil. 389 celeftes.: A vida eftá na agitaçaô dos corpos , e a morte no defcan- ço. He hum corpo morto todo aquelle, em cuja fabrica interior naô ha trabalho ; efte naô o fente, nem ainda quem o tem : a circulaçaõ' do fangue , e dos humores animaes ; fó fe percebem quando elles fe naô movem ; porque entaô a dor, que fe fegue logo , fenfivelmente nos ad- verte de.que o fangue naô circu- la, ou circula mal. “= Vitriolo. He ao que chama- mos commumente caparro(fa ; a qual naô he mais do que huma diflolu- çaô fubterranea do ferro, ou co- bre, feita no acido Íulphureo : aquella natural compofiçaô , ou dif- foluçaô , a arte a faz perfeitamen- te, emais brevemente a natureza a faz na terra; porém mais de pref- fa a arte, He hum corpo; de que re- fultad 390 Index do Problêma fultaô effeitos admiraveis ; e bafta que mereceíle que o illuftre Ca- valleiro de Bethune trabalhaffe nelle fincoenta annos Íucçellivos: naô fei fe publicou as fuas obfer- vaçoens ; eítas continhaô phenó- menos rarifimos fobre aquelle mi- neral. Volatil. Volatil fe diz daquel- le corpo, que expofto ao fogo fe exhala ou inteiramente , ou par- cialmente , fegundo o grao de vo- latilidade , que he propria a cada hum ; porque os corpos naô faô volateis igualmente ; e huns para ferem volatilizados neceflitad maior calor; e outros menor ; e alguns ha que fe volatilizaô pelo ca- lor remiffo de huma atmofphera temperada ; e outros ha, que ain- da na eftaçaô fria fe diipaõ , ef- tando em vaíos deícobertos. O no- bre De Arcbiteélura Civil. 391 4 bre Roberto Boile tratou efta materia admiravelmente; e o que elle naô defcobrio , ninguem tem deícoberto ainda, FIM.