LIVRARIA ACADÉMICA g. (^juedeô da cJlfoa
R. Márrires da Liberdade, 10 Telefone, 25988 -PORTO
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Presented to the
UBRARYofthe
UNIVERSrrY OF TORONTO
by Professor
Ralph G. Stanton
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Voli
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N.» 2 — D. Carlos, c
N.» 3 — Madame Cl paírinas.
N.» 4 — Sapho, de I
N.« 5 — Negro e côi
N.« 6 — O senador ] 210 paginas.
N.» 7 — Jettatura, <^
N.» 8 — Casa com < pagiuas.
N.» 9 — O canteiro l paginas.
N.» 10 — Rosa e Ninette, de A. Daudet.
N.» 11 — Primeiro amor, de Ivan Tourgueneft^ 1 vol. de 160 pag.
N.» 12 — Peccado mortal, de André Tneuriet, 1 vol. de 170 pag.
N.» 13 — 0 Judeu, de Henry Murger, 1 vol. de 160 paginas.
N.» 14 — 0 tanoeiro Nuremberg, de Hoffmann, 1 vol, de 170 pag.
N." 15 — Dinheiro maldito (Polikouchka). costumes russos, pelo Conde Leon Toistoi.
N.» 16 — Vida phantastica, por Mèry, 1 volume de 170 php.
N.» 17-0 padre Daniel, de André Theuriet, 1 vol. de 160 pag.
N.» 18 — Um coração simples, de Gustave Flaubert, l vol. de 170 paginas.
N.» 19 — Yan, de Jean Rameau, 1 volume de 170 pai?.
N.« 20 — 0 tio Scipião, de André Theuriet, 1 vol. de 196 pag.
N.*^ 21 — Diário de uma mulher, de Octávio Feuillet, 1 vol. de 200 paginas.
N.* 22-0 crime do juiz de Paulo Féval, 1 vol. de 170 pHg.
N.» 23 - A Inundação, de Emílio Zola, 1 vol. de 187 pag.
N.» 24— Os Rantzau. de Erekman Chatrian, 1 vol. do 200 pag.
LISBOA Parceria ANTÓNIO MARIA PEREIRA
(LIVRARIA editora) 50, 52 — Rua Augusta — 52, 54
Collecçâo kmmú MaWa tEREIRA
VULGARISAÇAO DOS MELHORES LIVROS
DAS
LITTERATDRAS PORTDGUEZA E ESTRANGEIRAS
Romances, Contos, Viagens, Historia, etc, etc.
Volumes in-S.** de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente edição, em óptimo papel. Preço de cada volume 200 réis brochado, on 300 réis elegrantemente encadernado em percalina. Para as proTinoias accresce o porte do correio
Volumes publicados
S.» 1 — Triêtesaa á Beira-Mar. romance de Pinheiro Chagas, 1 Tol. M.o 2— Con<o« ao Luar, por JuIio César Machado, 1 vol. N." 3 — Cármen, romance de Merimée, traducçâo de Mariano Levei, 1 vol. N.» 4 — J Feira de Paris, por Iriel, 1 vol. (2.» ediçio). M." 5—0 direito dos filhos, George Obnet, 1 vol. N.o 6 —John BuU e a suaUha, traducçâo de Pinheiro Chagas, 1 vol. N.** 7 — O juramento da duqueza, romance histórico por P. Chagas, 1 vol. N.*> S —A lenda da metanoite, romance phantastico, por P. Chagas, 1 voL N.» d— A jóia do viee-rei, romance histórico, por Pinheiro Chagas, 1 vol. N.» 10— Vinte annos de vida lUteraria, por Alberto Pimentel, 1 vol. N." 11— Honra d'artista, romance de Octávio Feuillet, traducçâo de Pi- nheiro Chagas, 1 vol. N.» 12 — 0« meus amores, contos e bailadas, po Trindade Coelho, 1 vol. N."* 13 e là — A aventura d'wn polaco^ por Victor Cherbuliez, tradneçio
de Maria Âmalia Vaz de Carvalho, 2 vol. N." 15— Os contos do Ho Joaquim, por R. Faganino, 1 vol. N.* 16 — As hatalhaa da vida, contos por Guiomar Torressâo, 1 vol. N." 17 —Noites de Cintra, romance por Alberto Pimentel, 1 vol. N."« 18 e 19— Bm segredo, romance, trad. de Margarida de Sequeira, S Tol. N.*" 20 e 21 — i4 Irmã da Caridade, por Emilio Castellar, tradur«ão de L.
Q. Chaves 2 vol N.* 22 — Migalhas de historia portuguesa, por Pinheiro Chag«s,^l vol.
N." 23 — A Cruz de Brilhantes, por A. Campos, 1 vol.
N.» 24 —Contos, de AfFonso Botelho, 1 vol.
N." 25 — Contos phantasnecs, por Theophilo Braga, 1 vol.
N.» 26 —O mvsterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e fiamalho Ortigão, 1 vol.
S.' 27 —O naufrágio de Vicente Sodri rom. histórico de P. Chagas 1 vol.
N.» 28 — Vid'airada,j>OT Alfredo Mesquita . 1 vol.
N.» 29 — O Bacharel Ramires . por Cândido Figueiredo, 1 vol
iT.»» 80 e 31 —Amor à antiga romance de Caiei, 2 vol.
N.» 32 — ^ Netas do Padre Eterno, por Alberto Pimentel.
N.o 38 — Contos, de Pedro Ivo, 1 vol.
N." 34-0 correio de Lyão, por Pierre Zaccone.
N.* 35— Vida de lAsboa, por Alberto Pimentel.
N." 36 — Historias de Frades, por Lmo d'As8umpcão.
N." 87 — Opras primas, por Chateaubriand.
N.« 38 — O Exilado, romance histórico, por Manricia C. de Figueiredo.
N." 89 — Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.
N.« 40 e 41 — .á Vida em Lisboa, por Jnlio César Machado.
N.* 42 e á3 — Espelho de Portuguezes, por Alberto Pimentel.
N • 44 — A Fada d'Auteuil, por Ponson du Terrail, traducçâo de Pi- nheiro Chagas.
1^-" 45 - A Volta do Chiado, por Beldemonio (Eduardo d» Barros Lobol .
K." á6—Sica e Mica, por Lino d'As8umpçâo.
N." 47 — Ninho de guincho, por Alberto Pimentel.
Requisições á Parceria António Maria Pereira
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Volumes de in-i6.^ de 240 a 320
ROMANCES DOSEMELHORES AUCTORES A iOO réis o vohune (pelo correio 120 réis)
• N.* 1 — Âventiiras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, se- guidas de Tartarin nos Alpes; por A. Daudet,.
• N.« 2 -— Pedro e João, por Guy de Maupassant.
• N.» 3 — Sérgio Panine, por Jorge Ohnet. N.» 4 — O Sonho, por Emilio Zola.
N.* 5 — Soror Philomena, por Edmond e Jules Goncoart. N.* B — O medico assassino, por Octávio Féré. N.o 7 — Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot.
• N.« 8 — O amigo Fritz, por Erckmman Chatrian. N.* 9 — Vogando, por Guy de Maupassant.
•N.» 10— Um romance de mulher, por Pierre Mael.
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N • 17 — Os dois rivaes, por Armand Lapointe.
N.» 18 — O ultimo amor, por Jorge Ohnet
N.« 19 — Um Búlgaro, por Ivan TourgueneflF.
N.o 20 — Memorias d'nm suicida, por Maiime du Camp.
N.» 21 —Forte como a morte, por Guy de Maupassant.
• N.« 22 — A alma de Pedro, de J. Ohnet N.» 23 — Camilla, de Guérin-Ginisty
N.« 24 — Trahida, de Maxime Pat.
N.* 25 — Sua Magestade o Amor, por A. Belot.
N.* 26 — Magdalena Férat, por Emilio Zola.
N.» 27 — Os Reis no exilio, por A. Daudet
N.» 28 — Divida de ódio, por Jorge Ohnet
N.* 29 — Mentiras, por Paul Bourget.
N.» 30 — Marinheiro, por Pierre Loti.
N.« 31 —A montanha do Diabo, por Eugénio Sue.
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• N.* 33 — Aranha Vermelha, por R. de Pont Jeet. N.»« 34 e 35 — Ódio antigo, por Jorge Ohnet.
N.* 36 — Parisienses I • . • romance, por H. Davenel.
N.* 37 — Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband.
N.<> 38 — A confissão de Carolina, romance.
N.» 39 — Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland.
N.* 40 — Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins.
N.* 41 — 0 abbade de JFaviôres, romance, por J.* Ohnet.
N.* 42 — A agonia de uma alma, romance, por Ossip Fchubin.
N.« 43 — Memorias d'um burro, por Madame Ségur.
N.» 44 — A nihilista, por Catulle Mendes.
N.» 45 — 0 grande Industrial, por George Ohnet
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N.* 48— Viagem sentimental, por Sternè.
N.* 49—0 nulhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.
TodoB 08 vol. oom este signal * estio esgotados mas yio ser re- impressos.
OBRAS
DE
CAMILLO CASTELLO BRANCO
EDIÇÃO POPULAR
CORRESPONDÊNCIA EPISTOLAR
VOLUMES PUBLICADOS
I — Coisas espantosas. II— As três irmans. III — A engeitada. IV — Doze casamentos felizes. V — O esqueleto. VI— O bem e o mal. VII — O senhor do paço de Ninães. VIII — Anathema. IX — A mulher fataL X — Cavar em ruínas. XI e XII — Correspondência epistolar.
CORRESPONDÊNCIA
EPISTOLAR
ENTRE
mi num mu i mm
E
CAMILLO CASTELLO BRANCO
ESCRIPTA DURANTE OS DOUS ÚLTIMOS ANNOS DA VIDA DO ILLUSTRE ORADOR
^57'OLXJ3S/^E I
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA
Í^ARCERiA António Maria Pereira — Livraria Editora
Rua Augusta — 5o, 52 e 54
1903
LISBOA
Typographia da Parceria António Maria Pereira
Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.°
JOSÉ CARDOSO VIEilIA OE MO
«. . .Não me lastimes. A lastima é de chumbo para as consciências fortes, para os espíritos que amaram immen- samente o seu ideal, para os corações que se deixaram crivar por causa d'esse amor. . . A tua phrase passará no meu tumulo como a briza de Deus, e afu- gentará os corvos de me irem roubar com a sua sede os orvalhos mandados ás letras cavadas do meu epitaphio.»
j. c. VIEIRA DE CASTRO. — Conscienctã.
Illr' e F^.^^ Snr. António Manoel Lopes Vieira de Castro.
Se o espirito do nosso querido José viesse d^ou- tros mundos, attrahido pela invocação d' alguém que o chora; — se elle visse estes livros, como o sudário em que nos deixou as suas lagrimas de sangue — tomai- os-hia das minhas mãos, e iria depôl-os sobre o coração de V. Ex."^
Se eu podesse ajoelhar diante da sepultura do nosso infeli{, em Loanda, dir Ihe-hia: ^' Meu fi- lho, a parte, digna de benção, que eu tenho n^esta obra do teu martyrio, é o dedical-a ao teu maior amigo na vida e na morte— aquelle a quem tu chamavas o ^^ exemplo da tua honra e o teu braço colossal e inquebrantável contra a desgraça.,,
Permitta Deus que estas paginas não levem mais cerrada condensarão de tristeza aos eternos lutos da sua saudade, meu nobre amigo.
S. ^Líc^xvtí de. Scv9e.,
(^amt'm> (^ash^ ^/ora
anco.
(2^ (^(íaue/de 'ffeic/e O c/e maio f/e lé^y/-.
Faz hoje quatro annos que Vieira de Cas- tro abriu uma sepultura, fechou n'ella um ca- dáver purificado da deshonra pela compai- xão, e começou a sua agonia de dous annos e meio.
Aquella senhora^ se a sua funesta estrelia não se apagasse n'esse dia, estaria hoje na ge- hena onde ardem as repulsas da virtude. A sociedade das mulheres honestas dar-lhe-hia o absintho do desprezo quando ella já não tivesse lagrimas com que mitigar o ardor da sua ver- gonha. Se a precita exclamasse: «Eu de- linqui; mas o remorso rehabilitador fez-me digna de vós!», ellas bradar-lhe-hiam : «Não! se a cruz do opprobrio te averga, prostra-te, morre ! »
E ella, se reagisse á ignominia, iria acossada até ao prostíbulo; e, desde o limiar do inferno
10 Correspondência epistolar
das esposas réprobas, olhando para a socieda- de, cruel no ódio, crudelissima no desamparo, diria: «Se meu marido, convertendo em si uma parte da vossa ira e do vosso desprezo, me houvesse morto, que farias tu, ó mundo? Se te não fiz mal, porque me insultas? Se o coração, que apunhalei, me afogou com um hausto do seu próprio sangue, com que direito, ó sociedade, matarias o homem que me sacri- ficou a ti, opinião publica!»
Para as peccadoras vivas — a ignominia, os círculos todos do inferno social. Para as pec- cadoras, punidas pela mão que as acariciara — o espectáculo das carpideiras de landeau e break ás portas dos templos, a oração, a missa, a sacrílega alliança da piedade com o ódio, os resplendores eternos mediante a recommenda- ção de taes patronas — validas do céo.
Vieira de Castro, quando matou a esposa que idolatrava, não era o louco da honra^ co- mo ahi disse o seu insigne defensor. Se a tri- bulação o houvesse alienado, a lei devolvêl-o- hia á sociedade, dizendo-lhe: «Gomo mataste sem a consciência da tua deshonra; — como não matarias, se tivesses juizo; — vai-te em
Correspondência epistolar ii
paz; que nós, os jurados, só pedimos o de- gredo e a morte dos maridos que sacodem o jugo da deshonra com a luz da razão na cons- ciência. Se ousasses confessar que vias em ti a ignominia immerecida e em tua mulher o ultrage irreparável, quando a arrancaste de ti, como Laacoon desdaria os nós da serpe, en- tão, desgraçado, irias morrer em Africa. Nós cá absolvemos os doudos, e condemnamos os honrados.»
Montesquieu parecia assentar um paradoxo, quando dissera: Os três tribunaes da Lei, da Religião e da Honra não podem uniformisar-se. E não.
— Como defenderias o teu crime? — per- guntei a Vieira de Castro em uma das minhas cartas.
Respondeu :
«Eu defenderia o meu crime pelos dous motivos que o inspiraram. Defenderia, não. Explical-o-hia.
«Esses dous motivos foram : o amor despeda- çado em mim; o único respeito e o ultimo, e o único possível por mim prestado á mão homicida d'esse amor.
«Esta a base da defeza. A única. Em mim, se entende ; porque, em mim, esta é que foi a verdade !
12 Correspondência epistolar
«Eu defenderia o marido que matasse, se esse marido tivesse morto por ter amado, e por salvar o único respeito compativel, na memoria e no tem- po, com a lembrança da senhora que trouxera no mundo a amctade do seu nome.
«Provaria a sublimidade do marido que, tendo feito sempre da esposa a sua amante dilecta, quan- do a viu peccadora irredimivel, lhe provou ainda o infinito do seu extremo, fazendo-a martyr, sal- vando-a n'um relâmpago das diatribes humanas, impondo-a á piedade do mundo, e atirando com o seu espirito para o seio immenso de Deus.
«Esta a defeza.
«E qual a prova da d feza? A premeditação.
«A premeditação é a máxima eloquência, a má- xima dignidade, a máxima apotheose, o máximo tormento — a augusta, a divina santificação d'estes crimes.
oE' o máximo tormento; — porque premeditar é assistir um com o corpo frio e os olhos volvidos para dentro, e os ouvidos estupidamente attentos ao ruir infernal dos pedaços do coração uns con- tra os outros, e por cima desse lago de fogo a razão implacável como o Satanaz vingativo, cor- rendo atraz d'aquelles pedaços, e trovejando lhes em cima das quedas o epithaphio das alegrias se- pultadas, á mistura com a chamma vermelha dos impropérios que hão de ser os goivos d'essas mor- tes illustres ! Premeditar é experimcntarse um assim voluntariamente, entre fogos e gelos ; atirar corti o seu corpo, sem intervallos, para lagos e vulcões, retalhando-se por martyrios que não cou- beram nos infernos de Dante e Milton, inferiores por ventura aos que espalhou na região das trevas
Correspondência epistolar i3
a cólera suprema ; e ser martyr assim, é ser heroe a cada hora, luctador diíferente a cada instante, segurando a razão para ler nas paredes rubras do seu inferno, a sentença já em nenhuma instancia revogável da sua desgraça ! E' ser heroe d'este ta- manho, sem nenhum outro tablado senão os pavi- mentos alcatificados aonde muitas vezes expiraram os beijos do seu amor, quando a sua meiguissima ternura corria folgazã de rojo com elles, á procura dos seus pés adorados ; sem nenhum outro publico senão o cadáver inerte de si próprio ; sem nenhuns outros echos fora de si, senão o fragor tumultuado das catastrophes interiores, e o infernal alarido da gargalhada publica, ao fazerem-lhe á sua impia fome praça aberta d'essas ruinas sacrosantas, alu- miadas para a vista dos estúpidos e dos perversos, pelo coronal d'esse craneo sublime aonde todas as angustias se atropellaram ; mas aonde todas tiveram logar e momento para fallarem, sem que Deus per- mittisse que nenhuma d'ellas nem todas ellas jun- tas, lhe lascassem uma fenda por onde desappare- cesse o orgulho, o amor e a honra; — craneo su- blime aonde qualquer dos infames da ruidosa turba metteria despejadamente a sua vela de cebo nas clandestinas elaborações de suas deshonras e pro- tervias.
«Premeditar é ter a gente dentro da cabeça um conciliábulo de espíritos diabólicos, e com o nosso coração apertado nas tenazes esbrazeadas de cada um d'elles, avançar um e dizer-nos : «Não mates porque só Deus pôde matar !» E outro : «Na sepul- tura que tu abrires, cahirá também a tua razão que alli despenhará a infâmia estimulada pelo teu de- saggravo!» E outro: «Que importa a deshonra ?
14 Correspondência epistolar
quantos são mais ricos por amor d'ella?» E outro a final : «Quem ha de crer n'esse paradoxo que, de parceria com o teu inculcado talento, vivia esse coração delicado em cujas cinzas queres envolver as de todo o teu ser, na ultima e na mais estúpida labareda do teu amor? Espanca essa nuvem, des- graçado ! Poe no lugar d'esse teu melindre piegas a tolerância das deshonras dissolutas, e apaga esse rubor infantil da tua face na pallidez cynica da de- vassidão elegante ! Que monta isso ? Que sacrifício fazes ? correrás mais seguro a novos triumphos, terás menos disputada a coroa de novas glorias, e até, e sinceramente, crê, hão de mais verdadeira- mente estimar-te aquelles para quem já a honra do teu lar não possa ser uma inveja e um desespero ! Se, desvairado, obedeces á tua fúria homicida, a tua expiação será sem nome. Treme! Lamber-te- hão de toda a parte as línguas de fogo; e tu, Me- zencio de uma nova e mais cruel agonia, sem mo- vimento em meio d'cllas, atado no teu corpo como ao teu próprio cadáver, com toda a tua sensibili- dade para soífrer, sem átomo de força para reagir, assistirás assim, mudo, inerte, despedaçado, ao esphacellamento satânico de todas as tuas carnes, ao espicaçar de todas as tuas fibras, uma a uma, ao enxovalho brutal de tuas mais nobres dores, ao escarneo cruel das tuas melhores virtudes, ao prostituir, ao chacotear, ao apedrejar de tudo quan- to em tua vida e no teu amor, e nas tuas aspira- ções, e nos teus affectos, sentiste sempre em ti de bom e de grande, de virtuoso e de puro, de elevado e de nobre, de óptimo e de justo. Que im- porta e que vale um amor que se extingue ? Por cada ideal que se esvae, mais uma victoria contra
Correspondência epistolar i5
a matéria ! E tu, homem d'este século, não pode- rás fugir á_ philosophia d'elle, que n'outras luctas te recusará os applausos de que tem vivido e viverá a tua alma, se tu o affrontares, atirando-lhe á cara a condição escripta que elle põe aos teus novos triumphos — condição reconhecida e aceite por tantas eminências ante as quaes tu és publico apenas, e por tanto, publico^ cujo anonymo nenhum valor denuncia \ mas que se- contenta em ser eminente, no desassombro com que entra na partilha das tor- pezas communs.»
Martyrios que não couberam no inferno de Dante — disse elle. «Dante não pintou os sup- plicios todos dos condemnados da morte: ha ahi condemnados da vida que percorrem cír- culos de maior inferno que os da Divina Co- mediayy — disse Lamennais.
Como são tristes estas flores do talento or- valhadas de sangue!
Não bafejara Deus ao espirito do homem imagens tão coloridas para esclarecimento de tamanhas desgraças. A estupefacção, a atro- phia da alma, o terror tácito deveram ser a expressão única d'aquelle homem, se, por de
j6 Correspondência epistolar
sobre todas as voragens abertas, elle não sen- tisse a robustez da dignidade, sopesando os pavores do degredo e da morte.
A loucura da honra ?!
Não. Era o profundo e lucidissimo senti- mento do seu ultrage e do seu desforço. Os dementes não escrevem assim; não descem até ao fundo do seu abysmò, com a lâmpada da razão, encadeando as primicias do seu infor- túnio, e concluindo por se offerecerem ás pre- sas da justiça, salvando a sua victima de peor cadafalso — o dos insultadores, e, peor ainda, o das insultadoras.
Eu não sei se a opinião publica, em sacrifí- cio ás suas aras immaculadas, quer que se lhe inculque a loucura de Vieira de Castro, quando obrigou a mulher a transpor primeiro que elle as portas da eternidade.
Mentir-lhe ! — para quê?
Pois a opinião publica não o matou, justa- mente porque elle não estava doudo?
E, se estava, se assim vos praz insinual-o a vossos maridos, senhoras, porque lhe an- dastes cavando a sepultura com a hypocrisia nos templos, e a injuria no cárcere, e as de- clamações nas salas, e o estylete hervado no soalheiro dos jornaes !
Vieira de Castro é morto; e toda essa jolda de infames sem caridade nem remorso está vi-
Correspondeficta epistolar 77
va, medrada, com o seu arnez de hypocrisia, com o seu despejo invulnerado.
Louco . . . aquelle! seria, como todos os ho- mens de génio que não lograram nunca inocu- lar no cérebro o regimen, o methodo das ca- beças atiladas, des bonnes caboches ordinaires, dizia Victor Cousin.
Louco, sim — disse Henri Blaze — como as profundas naturezas em que certas faculdades particulares, certas forças, se desenvolvem a expensas da harmonia geral.
Recordemos. Busquemol-o na mocidade, na alegria, nas chimeras, nas bizarrias, nas isen- ções, no denodo das suas sympathias, na co- ragem das suas opiniões, nas luctas com o senso- vulgar, nas reacções contra as trivialida- des, em fim, na porfia com que procurava a felicidade e ao mesmo tempo a repellia.
Recordemos.
Ainda não contava dezeseis annos Vieira de Castro, quando traduziu a Solidão^ de Zimmer- mann. Que havia commum entre aquella crian- ça e as meditações hypocondriacas do medico allemão ? Que consonância inexplicável de sen- timentos entre a juventude alegre e rica do
VOL. I
i8 Correspondência epistolar
collegial de Nosssa Senhora da Lapa e as con- centrações lúgubres do philosopho sombrio que morrera doudo, quando procurava a razão das suas trevas ? Nunca elle m'o explicou. Disse- me que o livro lhe dera as primeiras lagrimas do espirito, que se anteciparam n^elle as lagri- mas do coração ; que, terminada a leitura, de- sejara a soledade absoluta, como se houvesse vivido muito, e sentisse no peito as cinzas quentes das suas esperanças, e a convicção de uma irremediável desgraça.
Eu não o conhecia, n'aquelle tempo, em 1 8 ^4. Via-o nas janellas da sua casa, que abriam so- bre a quinta do Pinheiro, onde eu morava. Observei que elle não desfitava de mim a lu- neta com uma fixidez que me lisongeava. E, ás vezes, ouvia-lhe as gargalhadas de jovial applauso, quando eu cavalgava um mau ca- vallo em pêllo; e, remettendo em desenfreado galope por baixo do esgalho de uma arvore, me pendurava no ramo, e deixava em vertigi- nosa liberdade o cavallo.
Eu tinha 27 annos mais pueris que os deze- seis d'aquelle menino que vertia intelligente- mente as mysanthropias de Zimmermann.
No Nacional^ onde eu escrevia, sahiram ano- nymos os folhetins do incógnito traductor da Solidão, Figurou-se-me que alguns dos derran- cados leões de i83o, espreitando o céo pela
Correspondência epistolar ig
floresta do seu tédio da vida, nos queria guiar a nós, os rapazes de 1854, aos invernos algi- dos do coração, ao desengano das cousas boas e más que ora enfloram, ora ensilveiram as ve- redas da mocidade. Quando, porém, me asse- veraram que o interprete do solitário germâ- nico era o rapazinho louro que se ria do meu selvagismo de gineta e estardiota, desejei estu- dar aquelle espirito que emmurchecia envolto em grinaldas de rosas.
Volvidos dois annos, vi-o n'um theatro. Ain- da o não conhecia pessoalmente. Mostraram- m*o, exagerando-lhe as verduras amorosas com uma actriz, não sei se dançarina, se dramá- tica. O que quer que fosse alvorejava hyper- bolesde enthusiasmo no moço imberbe, — ex- plosões não aconselhadas por Zimmermann, mas frizantes com os dezoito annos, embora, trovejadas de cima das cadeiras daplatêa. Mui- ta palma, muito tó, muita flor com fitas bara- tas, louvores e satyras já eloquentes, muita me- taphora, muita moeda falsa de sentimentalismo, brindes á franceza em cêas menos nocivas aos bons costumes que aos estômagos portugue- zes, e mais nada. Vieira de Castro alegrava-me, dava-me inveja da sua jovialissima estouva- nice, radiava juventude em redor de si.
O tribunal da opinião publica chamou-ologo á barra. Todos os membros do dito tribunal,
20 Correspondência epistolar
maiores de quarenta annos, reprovaram que José Cardoso Vieira de Castro tivessse dezoito primaveras, aggravadas pelo delicto de balbur- diar nos theatros, de expor o seu coração en- tre gargalhadas nos camarins, de incommodar ás três horas da manhã a digestão eosopôrle- thargico dos hospedes da Estrella do Norte.
Foi na Estrella do Norte que eu failei com Vieira de Castro, em iSSy, quando elle reco- lhia riscado da Universidade porque, a impul- sos de generosa indignação e com a omnipo- tência da palavra, obrigara o corpo docente a reparar a injustiça — injustiça, ao parecer de Vieira de Castro — feita ao snr. doutor Augusto César Barjona de Freitas. Barjona entrou re- habilitado no magistério; o académico que elu- cidara a razão obcecada dos cathedraticos foi riscado. Este contrasenso — a admissão de um e a expulsão do outro — não foi explicado: é um paradoxo exclusivo da vida de Vieira de Castro, tecida de brilhantes fios, mas com lou- vores excepcionaes, somente seus.
Elle não se deplorava do seu infortúnio, re- iatando-me, sem se envaidecer, o arrojo de reprovar uma decisão que prejudicava a car-
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reira de um homem, nem sequer seu conheci- do ! Que alma tão descabida n'estes tempos em que apenas temos o snr. Viale a fallar-nos em falsete de almas gregas, e o snr. João Félix a dar-nos ingrammaticalmente varias noticias das almas romanas !
O livro intitulado Uma pagina da Univer- sidade foi o desafogo e a consolação do brio, injuriado pela suspensão biennal da sua carrei- ra e mais ainda pelo silencio cobarde de tantos que o incitavam e applaudiam nas suas ousa- dias imprudentes. Se Vieira de Castro, em vez de grande e recto animo, fosse dotado dejuizo são, e egoismo discreto, incommodára-se tanto do snr. Barjona preterido no magistério como de Coriolano expulso de Roma. Dous annos sacrificados a um rapto de generosidade, e de respeito á justiça; e cá por fora o mundo a re- muneral-o com a reputação de estúrdio... Al- gum raro amigo, sem lhe applaudiro feito, não podia reprovar-lh'o. Seria isso atirar-lhe para dentro do coração febril de impulsos nobres este chumbo derretido que nós cá dizemos á franceza, saber-viver^ e á portugueza, o arran- J0'de-cada-um. Aqui está uma phrase bem es- parramada que parece ter sido arranjada para nós na torre de Babel, quando se formaram os idiomas.
O arranjo-de-cada-um: cousa que nem Viei-
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ra de Castro nem eu percebíamos. Quem tinha parafusado bem no miolo da phrase era o snr. doutor e secretario doestado Barjona de Frei- tas, quando Vieira de Castro estava no Limoei- ro. Dir-se-hia que nunca setinham visto nem na estrada plana dos que se encontram honrados, nem nas encruzilhadas escusas onde se topam os aventureiros que arpejam noite alta, as suas loas ás Julietas de bric-à-brac. As senhoras que não entenderem isto, pois que são do tempo em quearainhaBerthaíiava..., Deus as conservelá.
Eu já devia ter declarado que não vou es- crevendo gradualmente a biographia de José Cardoso Vieira de Castro. Estou a bosquejar reminiscências. São flores murchas que vou en- feixando á tôa, conforme as encontro á volta da lousa tumular do rapaz que fui. A biogra- phia do meu perdido amigo ou está brilhante- mente escripta por seu irmão António — mo- delo de irmãos extremosos e homens honrados — ou nunca se escreverá. António Manoel Lo- pes Vieira de Castro concluiu a historia d^ seu irmão no dia em que o condemnaram — em que o mataram. (Veja nota i .^). O que elle não disse é o inexprimivel. As ascensões e os ba-
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quês, os extasis e os abatimentos, o que houve de céo e inferno na vida dç José Cardoso, é um pego de amarguras insondável, segredo como o das reacções travadas entre Deus e as legiões réprobas que lhe disputam a prêa humana.
Não sei se Vieira de Castro conseguiu de- linear o esboço da sua vida interior. Entre os papeis subtrahidos ao vendaval que lhe disper- sou o espolio, quando o cadáver transpunha os umbraes do cemitério de Loanda, ha um fra- gmento indicativo de trabalho premeditado ou perdido.
Diz assim:
Estas paginas são o escorço biographico de José Caridoso Vieira de Castro Menos ainda que isso. São apenas o arcabouço dos lances mais notáveis na vida de um homem sepultado dentro de si próprio aos trinta e um ânuos. São escriptas para serem lidas mais tarde, quando chegarem d idade adulta umas criancinhas que jd hoje tra\em no mundo o nome doeste morto. A ellas pertencem os enthusias- mos., as rllusôes, os sonhos, as realidades^ os trium- phos, as agonias, os sobresaltos, as dores, os júbi- los, as gloriaSy o go^ar e o padecer d'essa existên- cia, ao mesmo tempo tão longa e tão curta ! Algu- ma d'ellas poderá refazer um dia a biographia de seu tio 7i'esses apontamentos soltos, dispersos e mal combinados, como foram, na existência de Vieira de Castro, incongruentes, pouco lógicas e contradicto- rias as suas grandes amarguras e as suas grandes alegrias.
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• E mais nada
Se foi a morte que se lhe atravessou, quan- do elle queria dilacerar-se nas garras da recor- dação, houve-se generosamente a morte. O apagar-se aquella vida é a prova divina da existência de outra. O homem não se fez a si, nem este mundo, por si só, justifica a perfei- ção de Deus.
Não lhe escrevo, pois, a serie de successos quer lógicos, quer inconsequentes. Revivo-o nos seus vestígios; resurge no meu coração; vejo-lhe as tristezas recônditas e as explosões de alegria; ouço-o, tenho na audição interior o timbre da sua voz tão nitida, como nos dias de 1866, quando elle se sentava a esta mesma banca, n^esta mesma cadeira, e me sor- ria, nas manhãs de agosto, d^aquelle leito que alli está.
Aqui tenho o livro que foi parte na sua flagellação, quando o retalhavam alli no tri- bunal, amarrado ao banco. Intitula-se: Ca- MiLLO Castello Branco (noticiã de sua vida e obras),
A historia mais obvia doeste livro é a ami- zade indulgente, o valor desassombrado de uma opinião, o aífecto vehemente descaptivo
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de respeitos, e todo embebecido no infortúnio de um amigo.
Mas o livro tem origem que Vieira de Cas- tro não contou, receando que lh'a tomassem como desculpa.
Estas palavras de uma pagina do livro a ninguém transluzem a dor occulta: É-me defeco o fa{er publica^ ainda mesmo tiveste lugar ^ a confidencia ... O leitor cale os insultos da curio- sidade^ levando-me em bem o generoso intuito de aforrar á partilha de uma angustia que eu sei lhe havia de magoar a sua extrema sensibilida- de. Bella ironia! A extrema sensibilidade do publico! E doesse publico me levara, n^aquella hora, o meu amigo uma proterva calumnia, e tal que eu nem na fronte dos meus inimigos queria que a justiça de Deus ou dos homens a gravasse.
Referiu-me com intercadencias de hesitação que nas praças, nos botequins e nas salas se contava o seguinte:
Que eu, confidente e depositário das cartas que uma senhora casada escrevera a um ho- mem ausente, ameaçara essa senhora de reve- lar ao marido a culpa indicada nas cartas, se ella continuasse a repellir-me; e que a senhora ameaçada, aceitando metade da minha infâ- mia, transigira com a proposta. Eis ahi des- carnadamente a ignominia com que tentavam
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suffocar-me uns homens que hoje me apertam a mão. E certo que as lagrimas me sufFoca- ram. Vieira de Castro viu-as; mas a minha grande angustia era por ella, e não por mim; por ella tão incapaz da cobardia de succum- bir ao biltre que a, envilecesse com taes amea- ças, como valorosa para aífrontar o descrédito e a pobreza. K tudo ella tinha affrontado n'aquelle dia. Estava sem património, sem familia, sem ninguém: tinha apenas de seu e por si o co- ração e o trabalho do homem que fizera de seu peito, culpado mas leal, a ladeira do abys- mo d'ella.
Não me lembra o que respondi a Vieira de Castro. Abri a minha gaveta, desatei dous pa- cotes de cartas datadas e numeradas nos so- bre-escriptos, e disse-lhe:
— Aqui tens a minha correspondência com essa senhora — as suas e as minhas cartas. Lê-as tu, desde a primeira que escrevi e a pri- meira que recebi. Não posso dar-te outro tes- temunho contra essa calumnia, que eu, por amor á minha espécie, seria incapaz de inven- tar em uma novella. Eu não posso metter na cabeça de cada homem que me ultraja o raio da luz da justiça mediante uma bala. Antes quero recapitular na tua razão e na tua cons- ciência, a consciência e a razão dos meus ami- gos e inimigos.
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Vieira de Castro leu as primeiras cartas, e exclamou com vehemencia da alma indi- gnada:
— Deixa-me esmagar esta injuria que é atroz !
— Não! nem uma palavra! Bem vês que eu não devo permittir que essas cartas sejam li- das. E não tenho outra justificação. O homem, que recebeu cartas d^essa senhora, vive e sabe que em meu poder não está nenhuma. Elle me defenderá quando a curiosidade dos meus de- trahidores o interrogar. Não escrevas nem fal- les a tal respeito.
Desde este lance, conheci que Vieira de Castro acrisolara por mim o sentimento da es- tima alliado ao da compaixão. Teve dó do ho- mem que a sociedade aviltava diífamando-o, ferindo-o no seu ultimo baluarte — o amor próprio, o orgulho até de haver amado com quanta honra um amor reprehensivel pôde ser indultado na consciência — honra, que tem hoje a prova de dezesseis annos.
— Hei de escrever o livro da tua vida — voltou Vieira de Castro — Não fallarei doeste ponto negro; mas ha de vir um inimigo que ponha o ferro em braza no meu escripto, a calumnia queimar-nos-ha a ambos, e tu en- tão...
— Me defenderei, se poder dizer á minha
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cúmplice: «Consente que eu me arranque este punhal das costas, porque a ferida tanto dila- cera na tua dignidade como na minha. Mu- lher que succumbisse a ameaças de tal vi- leza, seria tão sem brio, tão sem pudor, e tão execravel como o homem que a subju- gasse.»
São volvidos dezeseis annos. A infamação nunca foi impressa; mas ha almas negras que ainda a escorrem na lingua farpada como a peçonha da vibora.
Meus amigos e meus inimigos! se, por vio- lências de uma paixão brutal, exacerbada pela embriaguez, eu resvalasse á infâmia de forçar a resistência da derradeira mulher na escala das perdidas — Deus sabe quem são as perdi- das! — ; ao despertar d'esse infernal aturdi- mento com a consciência do meu crime, liia- tar-me-hia com asco de mim próprio. No re- gaço d'essa senhora, tão cruelmente aviltada, tenho dous filhos. É para meus filhos que eu escrevo esta pagina que me pareceu até hoje impossível. Receio que elles ainda tenham de ver a serpente da calumnia a rojar-se na se- pultura de seu pai. Sinto-me no cabo da vida; e tenho maior pejo da posteridade que dos meus contemporâneos. Quero que estas crian- ças saibam d'este livro que o pregão afFrontoso aos calumniadores foi escripto quando ainda
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viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o. No punhado das minhas cinzas hão de estar as de sua mãi — esta levantada alma que ainda não verteu uma lagrima na voragem que lhe devorou os respeitos do mundo, e a pérfida riqueza com que seus perdoáveis pães a vio- lentaram sem dó de sua innocencia e formo- sura dos dezoito annos.
O talento de Vieira de Castro era porten- toso.
Aos vinte e três annos cobria de pérolas as paginas dos seus livros, sem as haver colhido nos livros alheios. Só com a phantasia, com o milagre do génio, estrellava de esplendores, de locuções titânicas as cousas mais triviaes do pensamento.
Os livros do seu estudo eram poucos e fú- teis n'aquelle tempo. Francisco Manoel do Nas- cimento dava-lhe arrobos de admiração de en- volta com frouxos de riso, quando o reliamos na quinta do Ermo. — Sabes tu! — dizia-me elle — isto de bem escrever é um lavor mecha- nico sem o talento de bem imaginar. Ha phra- des de bronze, e phrases de flores : umas pe- sam as outras perfumam. Eu quizera antes ser
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florista que fundidor. Acho mais artistica uma grinalda de boninas que uma Flora em busto de ferro.
E, não obstante, os moldes, de seus escri- ptos e discursos eram clássicos, e ás vezes su- perabundantemente enfronhados de purismo. Mas a phrase, o torneio da dicção resaltava gentil, luxuriante, com uns requebros origi- naes de tanta graça que a mim me fazia pena a certeza de que, mais tarde, os atavios todos d'aquella rnusa loura e pueril se haviam de fe- necer, assim que a politica — devassa que tos- quia todos os Sansões da poesia — lhe cortas- se os voadouros.
Não foi assim. Vieira de Castro, quando en- trou ao parlamento, contava vinte e seis annos. Florescia em toda a pujança de seiva. Era ins- truído nas sciencias politicas, sem as profun- dar. Lia a pagina primeira, a pagina cem, e a trezentas de um livro. Sabia-o todo. Percebera a lógica, a travação, as primícias e os corolla- rios do author Se lhe pedisseis um juizo de Barrot, de Mezières, de Guizot, dar-vos-hia a substancia, o ouro acendrado do livro, da theoria, do systema que adivinhara folheando os titulos dos capitulos.
Aqui tenho a collecção dos seus Discursos parlamentares.
Deixem-me dizer assim : este livro contém
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os embryões da catastrophe de Vieira de Cas- tro. Esta aurora allumiou o seu ultimo dia fe- liz. Foi ella, a estrella maldita que o levou ao Brazil no encalço da gloria. A gloria recebeu-o nos braços, e cobriu-lhe a fronte de ouro e bri- lhantes. Era já muito, eram extraordinárias as blandicias da sorte com um talento de Portu- gal. Parece que a Fatalidade adormecera. Eis que se avisinha o Destino com o ramo das flo- res pulveviseidas do seu veneno. Eile inhalou-as ; concebeu a paixão, deu sua alma ás deli- cias e torturas do amor. Cantou a sua felicida- de em hymnos de graças a Deus que lhe dera uma esposa, e com ella uns júbilos tão des- medidos que receava morrer da congestão da felicidade *.
Quando aqui me resoaram n'estas monta- nhas as estrophes de Vieira de Castro, eu en- carei no seu retrato e disse-lhe : Desgraçado, ou tu has de fa\er de tua mulher um génio .^ hom- breando-a comtigo^ ou ella te ha de descer do teu génio até ás proporções de um marido vulgar !
Vem aqui ao propósito dizer que Vieira de Castro, antes de sahir para o Brazil, esteve commigo alguns dias. Nunca proferiu palavra
* Vejam-se as cartas escriptas a seu irmão António, e im- pressas no Processo e/u/^ame/j/o. Veja-se também, adiante, a carta escripta desde New- York a Victorino da Motta.
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que revelasse intento de procurar mulher no Rio de Janeiro;
Dominava-o uma chimera mais intangivel, mais inexequivel que topar esposa no Brasil. Premeditava vender dez mil exemplares dos seus Discursos^ e resgatar as suas terras one- radas de dividas. Eu rira-me dos cálculos do talento, que está sempre ás avessas do talento dos cálculos. Se elle me tivesse dito que ia á conquista do vello deouro, euresponder-lhe-hia: «Vai, novo Jasão, mas não leves os livros que representam as riquezas do talento pobre.»
O que bem me lembra, e uma carta d'elle me recorda é que chorei ao dar-lhe o abraço de despedida: «...Estou atravessado de sauda- des — me escrevia elle do Porto. — Os teus so- luços e as tuas lagrimas commoveram-me pro- fundamente, e por vezes me ennevoaram os olhos pelo caminho. Quando se merecem d'es- sas provas a homens que tem soffrido como tu, é que algum bocadinho de coração puro tem a gente... Ai! o meu quartosinho de Sei- de!... Nunca tive saudades assim, senão quan- do me mandavam criancinha de ferias para o collegio...« Dias, depois, ao embarcar para o Rio: Adeus, meu excellente amigo; se eu conhecer um dia de que ponto do céo brilha o raio da felicidade, correrei a Seide a apon- tar-t'o.))
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Não voltou a Seide... É que não vira no céo o ponto refulgente da felicidade.
Ainda em 7 de novembro de 1866 lhe lem- bra no Rio o quarto da sua cama vestido de roseiras «...Agora, um grito do coração: Choro por Seide! Quando nos abraçaremos nós ahi? O que eu tinha a contar-te!... Aqui ha gran- des almas!...
Confrontemos os estylos de duas cartas. A de solteiro, quando entrava no parlamento, e a de casado quando chegava ao Porto. «Vou morar na casa mais linda que tem Lisboa para um rapaz 1 E' no Monte de Santa Catharina ao portão de ferro. Que surprehendente mara- vilha ! Era casa soberbissima para nós, no coração da cidade, a lavar os pés no Tejo, e a enxugar a cabeça nas nuvens do céo ! Não imaginas que linda casa vou ter ! Como alli me ha de alumiar as noites a alegria do estudo, e o anjo louro da gloria que me negacêa desde a infância com as glorias do parlamento ! Vem para a minha companhia !» Agora, a carta do Vieira de Castro, casado, millionario^ com o co- ração duplicado no seio da esposa adorada : «Eu continuo a ser para essa casa o mesmo, quero dizer : que quando bato á tua porta levo sempre uma tristeza commigo. A tristeza é o meu capital precioso, que ninguém me quer e que eu não dou a ninguém senão a ti. Os
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únicos dias felizes que recordam as minhas re- miniscências de solteiro são teus, devo-t'os...»
A proeminente physionomla do discorrer de José Cardoso Vieira de Castro era o colorido da palavra, a área larga do pensamento, o pe- ríodo enérgico e cadente, a apostrophe impe- tuosa, o rapto da imagem, o rythmo lusitano da forma, a boa erudição em referencias e ci- tações, o ardor civico nas crises do patriotis- mo, a destimidez no alvoroço das tempestades que levantou no parlamento. Coração, poesia, paixão, orgulho, sarcasmo, ironia, violência, to- dos estes heterogéneos raios de luz estavam fermentando o primeiro orador portuguez, sem assombro de Garrett, de Rodrigo da Fonseca, de Rebello. Nenhum fora tão espontâneo, tão repentista e tão eloquente.
É notabilissimo o seu discurso acerca da li- berdade de imprensa. Grande subtileza de ra- ciocínio, clareza, rigor deductivo, primorosa arte em redarguir e concluir.
Um intelligente admirador de Vieira de Cas- tro, apreciando o homem illustre que se apa- gara a um sopro de desgraça trivialissima, di- zia-me em uma carta escripia no dia da con-
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demnação : «Foram uma tempestade politica os dous annos parlamentares de Vieira de Cas- tro. O orador só pôde ser cabalmente visto a uma cambiante luminosa. Ahi, porém, foi elle, a um tempo, o todo e a parte. Os seus Discur- sos são a chronica e a synthese esplendida das commoçóes da tribuna portugueza n^aquella época de paixões. As 2 5o paginas d'este livro Scão amenissimas, posto que, a espaços, relam- pagueadas de fulminações. Ha ahi Murillo e Miguel Angelo. Os fogos do Synai, e as candi- díssimas frontes dos anjos. Nem a tribuna an- tiga nem a tribuna moderna nos dão melhores modelos de eloquência^ escreveu António Ro- drigues Sampaio. Quando o orador tiver pas- sado para o lugar aonde a justiça humana exige que se escondam de uma vez os grandes talentos que ella ha de celebrar em duradoura apotheose, o livro de Vieira de Castro será francamente proclamado o primeiro monu- mento da eloquência politica portugueza.»
É uma dor que punge e consola reler este livro, ouvil-o, vêr-lhe o movimento dos lábios, dos olhos, o gesto, todo elle redivivo, porque o tempo lhe não deliu em minha alma o mi-
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nimo traço das suas feições. N'esta casa de S. Miguel de Seide ha ainda um pailido crepúsculo da sua alegria de ha seis annos.
Quarenta e quatro dias antes da sua moFte^ me escrevia elle: Seide! a pedra e os cyprestes! Ah! não volto ahi mais. Não cabe essa felicidade no meu destino! Fujamos doestas memorias que me despedaçam!
A pedra é uma lapide tosca em que está o seu nome. Os cyprestes plantára-os alli mão fatidica, em dias tão felizes! O nome do bem- vindo do meu coração festejado em uma py- ramide de granito do feitio de um sepulchro, assombrada de araucárias que tem o lúgubre aspecto dos cyprestes ! Um paradoxo a receber uma restea de luz fúnebre vinda da Africa, do cemitério dos degredados!
Os seus últimos dias da juventude foram os que elle aqui viveu. Eu, pelo menos, nunca mais o vi alegre d'aquella sua ridentissima ex- , pansibilidade que tinha condão de incutir ale- gria nos tristes.
Nunca mais aquelle gracioso espirito do pa- radoxo na conversação; as imagens hyperboli- cas do phantasista radioso; os resaltos inespe- rados dos epithetos picarescos, realçados pelo tregeitar que, na móbil physionomia de Vieira de Castro, era o mais percuciente gume das suas satyras, sempre elegantes.
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A primeira vez que o vi, de volta das suas viagens, e com fama de rico, imaginei que o ouro o revestira da gravidade mal encarada que é a liga d'este metal nos carões de chum- bo. Creio que lh'o disse no nosso usual estylo. Sorriu Vieira de Castro com a melancolia dos que não querem carpir-se, por amor próprio e pejo de não serem tão felizes quanto os incul- cam e lh'o imaginam. E uma das feições do orgulho. É uma valentia ostensiva, e uma pro- funda miséria humana.
— Eu sou pobre — disse Vieira de Castro.
— Pobre!
— Pergunta-o aos meus credores e a meus irmãos — insistiu o meu amigo, como quem segreda uma confidencia. — Casei com uma criança adorável, embalada no luxo, nas indo- lencias do Brazil, e nos caprichos da abun- dância. Quero educal-a, como se educa uma filha; mas não posso desfazer com preceitos de economia os hábitos adquiridos, ou as es- peranças prefiguradas. Tenho carruagem, por- que é ainda cedo para eu insinuar a Claudina que não a podemos ter, e não sei quando te- rei valor nem arte para lh'o dizer.
Sei que elle lh'o disse, um dia, na quinta de Moreira, dissimulando a insufíiciencia dos meios com outras considerações em que predominava a impertinência de criados.
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— Pois sim, Jucá — accedeu com uns me- neios infantis e mórbidos — vende o trem, se queres, mas compra-me vestidos com o di- nheiro.
Esta cousa fútil não é meramente uma criancice. Aos vinte annos não ha crianças.
O reviramento da indole folgazã de Vieira de Castro fez-se súbito na intuspecção de que não era amado. Se o cegasse o orgulho, basta- ria o amor a descondensar-lhe as névoas. No espirito inculto d'aquella senhora não havia gomos que íiorejassem aquecidos pelo talento do marido. Era uma creatura mais ignorante que o vulgar das portuguezas medianamente educadas. Os dous intellectuaes, os triumphos, a fama gloriosa de Vieira de Castro eram-lhe cousas de todo o ponto descuriosas, vãs e sem préstimo na sua felicidade. As cartas amoro- sas que ella lhe escrevera em solteira, com uns requebros de dengosa meiguice, denota- vam alma precocemente afistulada de perfídia porque mentiam a um homem que na inge- nuidade dos seus amores era d'uma candura pueril.
Disseram ahi que o casamento de Vieira de
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Castro já da sua origem vinha empeçonhado pela coacção da esposa. Entre as mais dilace- rantes frechas que lhe desembestou a villana- gem estava essa cravada no seio do meu ami- go. Devia de ser violentada a mulher que lhe escrevia, em solteira, as cartas impressas a pag. 44 e 45 do Processo e julgamento, Procurem-as lá, que eu acho-as irrisórias para serem reedi- tadas.
Ó grandes espíritos, quanto é triste vêr-vos apoucados, rasteiros e postos ahi de supeda- neo á primeira mulher que vos enliça com umas trivialidades amoriscadas, como que fei- tas para estudantes de lyceu!
Os instinctos desleaes d'esta senhora trans- pareciam. Houve pessoas da convivência in- tima de Vieira de Castro que vaticinaram o desastre, e outras que viram com espanto a realisação do vaticínio, tão cedo. O assombro não era já do delicto : era da pressa. Ninguém o preveniu contra a infâmia que vinha, nem o avisou quando a infâmia lhe cuspiu o estigma. A amizade deplorava-o ; mas o decoro impu- nha silencio aos que o consideravam a ellq marido vulgar, e a ellauma peccadora na via dolorosa das Magdalenas.
Elle abriu os olhos sobre o seu golfão, quan- do o coração o levou alli de rojo. Suspeitava da perfídia. Tinha sentido nos braços a mulher
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regelada para o amor honrado. O que algum dia lhe parecera desamor, era já a expressão do tédio, sem ao menos dissimular-se nas ca- ricias artiíiciaes da culpada tranzida do re- morso ou ameigada pela compaixão.
E, como voragem daignonimialhe devia ser sepulchro, não se despenhou sósinho.
O desgraçado não consultou ninguém, não chorou em braços de algum amigo. Amorda- çára-o o honesto pejo da sua desventura. An- tes quiz incutir terror que compaixão. Não po- dia confidenciar a sua dôr a alguém, pois que a sua ignonimia havia de ser notória e lançada ao dragão que ceva a sua fome no escândalo e a sua sede nas lagrimas. Tudo lhe serve, ti- rante o desforço em que ha sangue. Afora o sangue que lhe faz pavores, para tudo tem as suas gargalhadas, tanto mais estridulas quanto de mais alto lhe baquêam as victimas nas garras. Elle conhecia a sociedade. E, cuidando que immolava a esposa á sua honra, — é triste dizer-se! — foi, em grande parte, á sociedade que elle a sacrificou, pensando que um cadá- ver, embora manchado, era sacratíssimo ; e um homicida, embora repulsivo, respeitável e nunca escarnecivel. Não se illudira. Foi assim. Ella coberta de bênçãos, elle de maldições; ella suífragada nas igrejas, elle insultado na im- prensa e no cárcere.
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D'esse holocausto á sociedade estão ahi três paginas perduráveis de Ramalho Ortigão. Era já morto o desterrado, quando este grito de justiça, trovejou nas cavernas da opinião :
«Assim acabou pois na indiíferença ou no des- dém da publicidade o homem publico que mais ruído teve em voha do seu nome, aquelle dos nos- sos companheiros de trabalho e de lucta intelle- ctual que mais viveu nos applausos da celebridade e nas commoçóes da gloria !
«A amizade não deixará de vir amanhã trazer a esta desafortunada sepultura o doce tributo das suas lagrimas. A opinião porém essa ahi a estamos vendo já na sua definitiva attitude, de olhos enxu- tos e de coração calado, perfeitamente indifferen- te, diante do cadáver d'aquelle, cujo maior defei- to, e talvez o único, foi ter amado a opinião — de mais !
«Eu, que estou na amizade pessoal, direi aos que estão na opinião publica : sois cruéis na vossa indif- ferença, porque sois cúmplices na desgraça que ar- rancou esse homem tão novo, tão exhuberante de mocidade, de talento e de vida, ao seu amor, á sua familia e á sua pátria. Porque elle rendeu-se intei- ramente, inexperiente e desarmado, desde os pri- meiros passos que deu no mundo, á consciência da opinião e ao julgamento do publico. Foi, mais que ninguém, do seu tempo e da sua sociedade. Em quanto outros luctavam tenazmente contra a cor- rente das idéas, dos princípios e dos sentimentos consagrados, elle arrojava-se ao largo, entregando o seu baixel á providencia da onda. O seu cami-
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nho foi sempre para aquelle ponto onde os vossos applausos pareciam denotar que se achava o trium- pho. Guiado pelas vossas acclamações suppunha que a verdade estava no foco ruidoso e ardente onde a gloria apparccia.
«Devotou-se-vos integralmente essa alma infantil e cândida. Acreditou na vossa politica, na vossa arte e na vossa honra. Ora a vossa politica era uma intriga de partidos degradante e baixa. A vossa arte era uma velha convenção doutrinaria e emphatica. A vossa honra era uma versão da cavallaria feita com as accommodações necessárias para uso de burguezes bondosos e pacíficos, — um mixto de alta barbárie e'de estreita civilisação — os cavallci- ros da tavola redonda interpretados pelos irmãos terceiros de S. Francisco.
«Um dia este homem, que fora tantas vezes o vosso Ídolo, achou-se repentinamente repellido por vós como um monstro. E todavia elle estava ainda, então como sempre, na lógica fatal do seu destino. A sua intelligencia tinha-se-vos sacrificado. Sacrifi- cou-sc-vos também o seu coração. Nos arrebata- mentos vertiginosos da sua eloquência, nos denodos da sua palavra e dos seus escriptos, nos ostentosos requintes da independência e da isenção, nos re- pentes mais altivos e mais ruidosos das opiniões e dos actos, nos mais frequentes e extraordinários sacrifícios que pôde fazer a abnegação e o desin- teresse, elle mostrou sempre, nos seus triumphos, nas suas derrotas, e até na sua derradeira catastro- phc, que considerava a sociedade uma cousa digna, austera, inilludivel e sagrada. E eis aqui, resumida- mente, como no meio das influencias de uma opi- nião profundamente desorganisada se eleva ou;se
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despenha no conceito publico o mais coherente e o mais honrado caracter !
«Quando é que nos applaudis, e quando é que nos condemnaes ? K mesma linha de conducta le- va-nos á victoria e leva-nos igualmente ao abysmo. O successo é uma charada.
«O tribunal chamado da opinião publica não tem por tanto razão de ser ; não se pode aceitar, nem admittir. Uma sociedade que tão claramente pa- tentêa pelas suas caprichosas incoherencias carecer dos princípios em que se basêa a fiel, a perma- nente, a immutavel interpretação do dever, não tem opinião. A consagração da collectividade das incompetências, das inepcias ou das maldades é um opprobrio. Quando quizerdes convencer-nos de que vos assiste o direito de nos julgar no mal, pro- vai-nos primeiro que tendes e que exerceis a facul- dade de nos guiar para o bem. . .»
As deliberações de Vieira de Castro, pro- fundas e decisivas, eram-lhe suggeridas por um só oráculo: a consciência d'elle, e só essa. Não sei se lh*a formara a sociedade, se o ins- tincto insopesavel. Na craveira da sua honra não punha mão a prudência nem a razão alheia. Consuhava-se e arrojava-se para o alto ou para os abysmos. Em dous dos Discursos parlamentares transluzem, ou, mais pontual- mente, formulam-se as suas máximas em actos
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aífectos á dignidade: ...Acima de tudo^ o foro da minha consciência., para cujas sentenças só reconheço uma instancia superior, que é Deus... — Porque a crença é puramente o foro intimo, e a minha consciência respeitável como a consciên- cia de todos^ e respeitável.^ porque é ella no ho- mem o sacrário único onde Deus reside., e por tanto inviolável como todos os sacrários...
Aqui é mais solemne a condição da sua Ín- dole isenta : Quando tenho de dar um passo na minha vida publica ou particular^ em questões de honra e de dignidade, não conheço ninguém acima, nem abaixo de mim; é a minha consciên- cia que consulto, e inspiro-me d^ella *.
Quando Vieira de Castro chamava telegra- phicamente iseu irmão António — a luz, a un- ção, o amor immaculado de sua alma — a pre- sença d'este austero caracter não valeria a des- persuadil-o do desforço resolvido. Sei que An- tónio Vieira de Castro exacerbando as angus- tias do infeliz com phrase ou gesto de assom- bro e reprovação, recuou diante de um impeto vertiginoso.
Que infinito inferno mandou Deus na se- guinte noite áquella casa da rua das Flores !
O representante do ministério publico, no
* Discursos parlamentares. Sessão de lo de fevereiro de i865, pag. 14 e i5. Sessão de 10 de março de i863, pag. 71.
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supplicio do julgamento, despojando- se da ca- ridade, da rectidão e da sinceridade, fallou assim : José Cardoso Vieira de Castro^ depois de consultar os amigos a quem relatou o seu horrivel crime resolveu entregar-se aos tribunaes e não fugir ; assim ofei depois de dormir mais uma noite perto do cadáver da esposa.
Dormir ! Que a justiça divina dê uma hora d^aquelles somnos aos que vestem a toga como saião de verdugo, e lançam o dardo da calum- nia a um rosto em que ha lagrimas.
Quem dissera ao delegado que Vieira de Castro «dormira mais uma noite perto do ca- dáver da esposa ?»
Ninguém. Inspirou-lh'o assim a musa da Eloquência. A terribilidade da imagem soc- correu-o na penúria da argumentação honesta. Na tela grosseira do entendimento do jury qua- drou-lhe pintar a esposa morta, e ali perto o homicida a dormir.
Trapacisses d'esta ignóbil estofa, cá fora dos tribunaes, chamam-se calumnias, e responsa- bilisam. Lá dentro, gozam foros de recursos oratórios ; chamam-se argumentos, e cobrem o impudor do seu rosto com o capuz da rheto- rica.
Ah! a noite seguinte á morte de D. Clau- dina, um só homem nos poderia dizer, mi- nuto por minuto, como ella correu para Vieira
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de Castro, se esse, que lhe assistiu e o acom- panhou até ao arraiar da manhã, salvasse a memoria doesse trance, d'essa vertigem des- cendente n'uma espiral de dilacerações horren- tissimas que se elevava até Deus e baqueava até ao abysmo ora em gemidos abafados, ora em convulsões de pavor!... Aquella noite, An- tónio Vieira de Castro, meu excruciado ami- go!... se a vissem como eu a entrevi, ao tra- vés das suas lagrimas e da pallidez da sua face!...
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A phantasia dos noticiaristas divulgou um quadro mavioso em que Vieira de Castro ap- parecia no fundo da tela, e toda a primeira luz batia na cara de um padre. Contou-se que um sacerdote minhoto, amigo do illustre preso desde a infância, quando soubera da desgraça do seu companheiro de annos em flíôr, se po- zera a caminho de Lisboa, desamparando os parochianos que pastoreava, e fora levar ao Limoeiro lábios consoladores, olhos trémulos de lagrimas, cousas divinas da religião de Je- sus, bálsamos cicatrizantes para feridas de re- morso, emoUientes mysticos para corações ri- jos e incontritos : em fim, pintaram o padre de tal feitio que por pouco me não fui depôs elle.
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a fim de furtar ao meu pobre José uma par- cellla do amor d'aquelle certo Pollux na hora incerta.
N'este entretanto o meu amigo, que lera a noticia, escreveu-me duas linhas risonhas, ga- lhofando da invenção dos diaristas. Havia com eífeito um padre que nunca em sua vida co- nhecera Vieira de Castro. Estava em Lisboa requerendo uma vigairaria, quando Vieira de Castro entrou no cárcere. Apresentou-se-lhe pedindo-lhe o seu valimento no bom despacho. Fora ao Limoeiro como quem ia seguro de en- contrar em casa o protector. Depois, como o despacho se demorasse, e os recursos se ex- haurissem, ia jantar com o preso; e, por ulti- mo, quando a sua inactividade intellectual Ih© pegava de enferrujar as molas da eloquência, pediu a Vieira de Castro que lhe fizesse ser- mões.
E, com certeza, o admirável talento e be- nigno coração do meu amigo fez sermões ao padre. Escreveu cinco se bem me recordo. E de todos apenas encontrei, nos papeis vin- dos de Loanda, um fragmento do sermão da Soledade. Dizia assim :
«A oração é o elo invisivel que prende o espi- rito do homem á immensidade de Deus ! é o raio luminoso que ata invisivelmente a commoçao, a
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supplica, o terror, a gratidão humana, á augusta complacência, á piedade, á misericórdia divina!
«Rebenta na amplidão dos mares a fúria dos va- galhões contra a nau, desmastreada já e a pique de perder-se ; é negro o céo, torvo o abysmo, de fogo a atmosphera ! Ajoelha, chrisião, e ora, e o mar ficará de leite, e o céo sorrir-te-ha, e os tro- vões fugirão á tua prece como o Satanaz das im- precações ao aspecto das cruzes, e ao echo dos cânticos sagrados !
«Rasgam-se de repente os seios da terra despe- . daçada n'uma das suas revoluções geológicas, racham a pino as montanhas, e sobem das fauces temero- sos os volcões, e as chammas pavorosas ! O ter- ror humano ajoelha, e ora. O volcão parou e Deus pôl-o assim, immovel, esplendido, atado ao seu li- mite, temeroso ainda, mas inoffensivo, incruento ! «A peste assola as cidades, a guerra extermina os homens, o ódio aniquila as raças, a natureza lucta pavorosamente com as artes, os perigos e as ruinas amontoam-se, a razão desfallece, os braços pendem sem esperança e sem força ; e tu, homem, que pedias tudo ao génio, á sciencia, á tua ambição investigadora, ao teu único explorar; tu ajoelhas alfim, oras, supplícas, mas com a fé ardentíssima que transpõe as cumiadas dos montes, e os milagres resurgem, e as forças voltam, e a esperança rea- lisa-se, e os prodígios assombram, e assombram-te ! «Orar, orar, christãos, é vincular Deus á nossa vontade, prendel-o na nossa alma, e ancorar no seu infinito a barquinha do nosso futuro !
«Mas, se é impura a tua alma e o teu lábio, chris- tão, quem ha de interceder por ti, com melhor es- perança de que Deus te escute ?
Correspondência epistolar 4g
«Ah ! no seio onde todos os vicios se purificam, onde todos os ódios se fazem amor, e a impiedade se converte em devoção, e a soberba em humil- dade, e a injuria em blandicias, e a raiva em lagri- mas ; na que foi sempre virgem, sempre pura, a encarnação do amor infinito, e da infinita dor !
(Virgem santissima, perdoa, se a minha pallida eloquência ousa definir-te !)
«No seio d'j&7/a, a Santa das santas ! Ella, amor infinito, que por isso tem um perdão para cada cul- pa ! Ella, infinita dor, que por isso já nem outro bálsamo conhece ás angustias próprias senão a con- solação das angustias alheias !
«Oh ! a mais sublime de todas as martyres ! Põe o seu seio á humanidade peccadora e aíílicta, e diz- lhe : se tens uma supplica para meu Filho, e teu redemptor, pousa-a em cima das minhas dores ; e Elle ha de aceitar a tua supplica para não aggrava» as dores da mãi !
«Dores de Maria ! Oração christã que pões n'es- sas dores a tua esperança, que maior apotheose do que explicar-vos assim, poderá fazer-vos a palavra humana ?
«A oração, senhores, é toda essa immensidade de confortos, de glorias e de sentimentos puros, cuja virtude eu profundamente sinto, e pessima- mente explico !»
As cartas de Vieira de Castro são a voz que vem de além-mundo chorar ainda á beira da sepultura de sua mulher.
VOL. 1 A,
5o Correspotidencia epistolar
Se elle vos não disse nunca o entranhado amor que lhe tinha, vêde-o n^essas confissões a um homem, um dos mais Íntimos seus, o mais valido nas suas magoas, e ainda o mais secreto confidente nas excellencias e nos de- feitos da sua compleição.
Como as cartas, a cada pagina, descrevem o que havia communicavel e exprimivel na sua desgraça, estou dispensado de tentativas mal- logradas. Se Othelo escrevesse quatro linhas, depois da catastrophe, essas diriam mais que a tragedia do seu immortalisador.
Das oitenta e seis cartas, que possuo, parte d'ellas foi queimada quando escolhia as im- j^ressas n'este livro. Eram umas em que elle antepunha a palavra confidencial^ porque ha dores que um desgraçado revela a outro, quan- do se entra da desconfiança que Deus o não vê nem ouve. Mas as restantes são muitíssi- mas, porque os dias do martyrio foram muitos e o martyr a miúdo encostava a cabeça no meu peito.
Não posso publical-as chronologicamente como foram escriptas, e em perfeita ordem, porque as do anno de 1871 não tem data. Dir-se-hia que as horas, os mezes, a luz e a noite, o tempo, em fim, parara para o homem empedrado entre duas voragens.
As que eu lhe escrevi numerou-as elle até
Correspondência epistolar 5i
cento e quarenta e quatro; mas, os espoliado- res dos haveres de Vieira de Castro, em Loan- da, guardaram quatorze. Eram provavelmente pessoas amantissimas do dinheiro dos mortos e dos autographos dos vivos.
Uma das omittidas e mais plangentes cartas que elle me enviou do Limoeiro está datada no dia em que uma bem composta matrona acaudilhando outras menos gafas alli entrou para o insultar.
Decorridos poucos dias, o fogo, que lhe vul- canisára o cérebro, esfriara. O penitente sorria para o fundo do cálix, que offerecia aos ma- nes da esposa vingada pelas Eumenides. Elle mesmo vos conta a sua ternura, e descreve se- renamente esse lance, que nos mette em riste a ferocia dos tempos de bronze com a pregoa- da caridade de hoje em dia. Eis as palavras do grande infeliz, no ultimo anno de sua vida, as ultimas que escreveu e imprimiu na sua pá- tria:
«Succedêra isso n'um cárcere, no dia em que en- trava Deus ás cellas dos encarcerados. Era o dia da communhão, o dia em que as portas das prisões recuam de par em par a dar passagem á hóstia consagrada, o symbolo da reconciliação entre a culpa do homem e o perdão de Deus.
«Contra os ferrolhos de um d'esses cubículos tu- multuavam as mulheres e tumultuava nos lábios d'el-
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las o riso, o ultraje, a curiosidade insultadora, o despeito mal reprimido. Dentro d'esse cubiculo mo- rava um desgraçado immensamente respeitável.
«Era um homem de 32 annos, e que ao tempo da sua idade acrescentava já outros dez annos de degredo, que elle aceitara com a mesma tranquilli- dade com que esperava ainda mais cinco que, an- tes de nova sentença, o consenso unanime lhe pro- phetisava e promettia. A curta historia de sua vida, c a immensa catastrophe da sua ultima data, esta- vam amplamente publicas. N'uns melancólicos tra- ços se pôde contrahir essa historia. Propiciára-o Deus para que desde os 19 annos, por uns movi- mentos apaixonados de sua alma, assignalasse sym- pathicamente a sua carreira entre os moços da sua pátria. Por vezes a fortuna lhe sorrira. Também por vezes brincara com elle a gloria. A final um dia uma labareda estúpida se atêa com todos os materiaes do seu auspiciado destino, e ao sumir-se nos ares a derradeira chispa do pavoroso incêndio, veio a saber-se que com as cinzas evoladas para as nuvens do Senhor subira também a esposa estre- mecidissima d'elle, d'elle que ficara alli de pé, cal- cinado, com tudo queimado dentro de si, e podendo ver com os olhos do rosto n'aquellas carbonisadas ruinas todo o interior de sua alma, do mesmo modo com que horas antes contemplava na vida palpitante d'esses lemures o céo todo inteiro da sua felicidade sem balizas ! Sabia-se que esse homem, desgraçado, ou louco, se atirara de cabeça para o fundo n'uma voragem sem redempção ! Soubera-se também que amara immensamente, e que para salvar a immen- sidade do seu amor n'uma memoria e n'um perdão, bem ou mal, crera que lhe cumpria abrir uma se-
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pultura d'onde, como n'uma taça, Deus recebesse para o seu seio uma existência que já não tinha thalamo na terra, e que depois, com essa sepultura defendida pelo seu peito, assim se quedara sempre, firme, tranquillo e mudo, deixando que repetidas vezes contra si se esgotasse o montão de pedras ás mãos da calumnia e do ódio. Tudo isto era sabido, e muito mais.
«Quando esse homem appareceu diante da jus- tiça, e da lei, deram-lhe a palavra para defcnder- se, e elle pediu, instou, supplicou que lhe não infli- gissem o mais acerbo dos tormentos, na palavra, que tantas vezes lhe fora contentamento e jubilo bom ou mau orgulho. Só mais tarde quando lhe leram o veredictum que importava a pena do seu desterro, então sim, resurgiu serena a sua physio- nomia, e a sua voz, sem affectação nem ironia, na- tural e firme, pôde agradecer ao jury as delibera- ções que o condemnavam. Por uma mutação pro- fundamente commovedora, e de enternecimento singularissimo parecia que o magistrado presidente do tribunal lhe tomara conta das lagrimas, em quanto fallava. Era certo que em vez do réo era o juiz que chorava. Tudo isto fora sabido.
«No dia immediato o assombroso causidico d'esse homem, tomando forças da mesma angustia que o seu cliente lhe inspirava, consolava-o dizendo-lhe a propósito de uma resposta a um quesito: «Fizeram a maior justiça ao teu caracter: aquella resposta foi uma veneração para ti e para as tuas memorias!» E o cliente redarguia: «Meu querido amigo, crê pela salvação da minha alma, eu senti em mim o virtuoso desejo de beijar a mão a cada um d'aqucl- les jurados cuja pena lavrou o meu direito de jul-
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gar quem eu matei.» E Jayme Moniz, tremulo, ex citadissimo, cresceu com a sua luminosa fronte aci- ma dos hombros, nos do seu cliente, apoiou e es- tendeu em duas parallelas os seus braços longos e nervosos, e fitando bem nos olhos d'elle os seus olhos inundados de dor e de enthusiasmo, disse- Ihe n'uma apostrophe cortada por um gemido: ^Do que eu tenho profunda pena é de te vêr perdido para a palavra do meu paii /» Tudo isto era também sa- bido.
«Quando esse homem se levantava pela ultima vez ao cabo de três dias do seu julgamento, todo o mundo ouviu silvarem-lhe aos pés, esganadas no seu derradeiro estertor, as cabeças das viboras com que por mais de meio anno o enfaixou a calumnia impunemente, e sem nenhum desforço d'elle ; e an- tes d'isso ouvira pela sua honra jurar o seu defen- sor que aquelle réo lhe pedira de joelhos que só n'esse triumpho pozesse a mira, que por parte d'el- les dous de mais nada se curava n'aquelle tribunal, e que abandonasse o seu delicto vivo, inteiro e pal- pitante nas garras famélicas dos seus delatores. Era tudo isto sabido.
«Findo esse julgamento, o silencio que o prece- dera nos prelos destemperou n'uma trovoada inces- sante. Os protestos conglobaram-se de toda a par- te. Havia um homem condemnado, mas ninguém queria que o julgassem capaz de igual severidade. A's portas do tribunal confessavam todos que uma votação de todos seria favorável ao condemnado. Pelas senhoras das galerias affirmou uma que alli teria unanimidade a absolvição. Ao cárcere corre- ram no dia immediato caracteres dos mais puros, pares do reino entre elles e dos mais considerados
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na honra publica, a confessar que iam alli em pe- nitencia de se haverem deixado illudir pela infâmia. De toda a parte as adhesóes e as lagrimas. Das ilhas portuguezas, de todas, os manifestos mais vehementes, mais apaixonados, mais affectuosos e estremecidos.
«Ainda na véspera, de uma d'essas ilhas, de An- gra do Heroismo, um diploma popular, no qual se alardeava que era a desgraça a que aquelle povo escolhia com amor para se acercar do vulto d'ella. Da America ouro e brilhantes postos sobre a for- mosa cabeça aonde se gerara a apotheose para o caracter illibado e redimido! — Tudo isto era sa- bido também.
«O dia da pavorosa scena do cárcere fora o dia 8 de maio, do mez primeiro que tu amarraste á tua chronica. Mas esse dia, sabes tu, fora o mesmo que doze mezes antes afogueara o quadrante a chamma d'aquelle grande incêndio do desventura- do. Era o primeiro anniversario do seu trespasse d'elle, a que o destino, por umas cruezas sem me- moria, quiz que o próprio morto ficasse assistindo em vida pelo tempo adiante.
«Que dia! que horas as d'esse dia! que momen- tos os d'essas horas ! que instantes n'esses momen- tos! A pancada dos relógios das torres coava-lhe aos ouvidos as betas candentes d'aquelles mesmos sons no mesmo dia do anno extincto. O ar revolu- teava, e redemoinhava em derredor d'elle, como alguma cousa espavorida, e enleava-o, abraçava-o, enroscava-o, para lhe triturar lentamente, e fio a fio, as fibras da alma e as do corpo. Era o anniversa- rio de sua própria morte, alguma cousa de mons- truosamente internai na escaleira dos nefandos mar-
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tyrios. Por isso, e só por isso, eu te diria que era immensamente respeitável esse infortúnio. E não era ?
«Mas mais, a cclla d'aquelle preso é que era sa- cratíssima ! Porque dentro d'ella guardava um de- posito seu a justiça humana, e fora velava por esse deposito a providencia dos sentenciados. Vá. Diga- me a tua alma se ha arca no mundo para resj)eitos mais altos. Pois bem. Umas mulheres houve que apodreceram todas essas memorias e tradições ao tábido hálito de suas almas obduradas, esbofeteando a Providencia á porta d'aquella cella, e assobiando lá para dentro, no seu escarneo, em horas mais longas que a eternidade, a gargalhada e o ultraje. Grupos de mulheres, entendes ? Não havia, não houve nunca um homem no meio d'ellas !
«Pensarás que estou atraiçoando a verdade em favor da minha refutação. Bem. Dou-te uma tes- temunha insuspeita. E' do funccionalismo, e das letras como tu; ha quatorze annos escriptor. Chama-se o dr. Ferreira da Gosta. D'elle ouvi- ram uns, que m'a recontaram a mim, a seguinte scena.
«O teu collega teve de abrir passagem contra a onda, e não sei se ao pôr a mão nos ferrolhos da porta involuntariamente prendeu as mechas sol- tas da ultima cabeça que a curiosidade revezava na clareira da chave. Entrou. O amigo d'elle, e o teu, estava só, de pé, com o punho esquerdo a am- parar-lhe o corpo, fincado sobre a carta interrom- pida em que o preso estava enthesourando para su^ mãi as lagrimas d'aquelle dia. Vêl-o foi o mesmo que lançar-se-lhe nos braços, e exclamar-lhe quasi desabridamente : «Obrigado, meu velho amigo, sal-
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vaste-me de enlouquecer, quem sabe ?» E o dr. Ferreira da Costa disfarçou por longo tempo a im- pressão estranha das respostas incongruentes que lhe dava o desgraçado. Pergunta-lhe como elle o viu, como por 6o minutos o teve diante de si, e quantas vezes o outro lhe repetia, mesmo diante de quem mais chegou depois : «Tu não sabes, nem eu talvez, o bem que me fizeste. Foi Deus que te guiou aqui.»
«Já ahi estava o homem que eu te oífereço, quando se passou o caso que vou referir-te.
«Os i5 degraus da escada que defronta com a cella do teu amigo estavam tomados por um ran- cho gracioso e alegre de meninas louras, que do alto do patamar dominava uma mulher enorme, a qual d'alli lhes atirou para cima da alegria d'ellas, e do seu chilrear despreoccupado dos pensamentos da outra, as seguintes palavras, textuaes : Então ! tem lá dentro umas tahoinhas, e um tapete ? Quem lh'as substituirá por um chicote !
«Ha apostrophes que são como os tremores de terra, fazem o terror e o silencio. As donzellas fi- taram-se melancolicamente, e uns dous infelizes, companheiros do preso, que sem perceberem a ma- levolencia de uma pergunta tinham confirmado o que a mulher asseverara, sahiram d'alli com os ou- vidos queimados pelo simoun da asquerosa contu- melia bufado dos lábios da Tesyphoné !
«E as meninas desceram a escada, por onde pa- teou atraz d'ellas a mulher do tal dito. E mais adiante, consternadas, e rodeando-a, perguntaram- Ihe ellas, que historia tão má era a d'esse preso que tamanhas severidades aífrontava. E a velha, porque era velha essa mulher, lá foi contando, ao
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que parece, a historia pedida, áquella innocente e indefeza colmêa de noivas futuras J»
Não se olvide uma pagina também pere- grina d'aquelle talento, inflexível ás torturas. O Club Angrense enviára-lhe n'aquelle mesmo dia o diploma de sócio honorário. Vieira de Castro, retrahindo as lagrimas sob a mão de bronze da sua honra, escrave a seguinte carta de agradecimento, assombrosa de magoa, de paixão e conformidade:
Snr, presidente da assembléa geral do Club Po- pular Angrense, — No dia 7 do corrente mez de maio recebi das mãos do ili.'"" snr. Joaquim Coe- lho de Andrade e Santos a carta com que v. exc.^ se dignou remetter-me o diploma de sócio honorá- rio do Club Popular Angrense, encarregado pela assembléa geral do mesmo club.
Quantos motivos, exc.'"*^ snr., se accumulam para que esta honra tenha o melhor lugar do meu coração! Entrou ella a alumiar as minhas trevas no dia em que as dores do meu infortúnio renasciam na sua máxima intensidade pela commemoração do seu primeiro anniversario. Vinha enviada d'uma cidade por ventura a mais fidalgamente brazonada entre as relíquias históricas d'esta nossa pátria, e
Consciência, por Samuel.
Correspondência epistolar 5g
a mais estremecida nas tradições da minha familia desde que meu querido e chorado pai, o snr. Luiz Lopes Vieira de Castro, ahi deixou nas saudades de todos os corações, e d'ahi trouxe com as suas, o nome abençoado e estimadissimo de magistrado integerrimo. Procedia, não d'um individuo, d'uma d'essas raras almas que pousam por milagre nas grades dos encarcerados a apontar-lhes o pequeno ponto do céo retalhado por ellas, mas de muitos individuos, da alma coUectiva composta de muitas almas, que eu sinceramente penso e creio que deve de ser enxame de espíritos de eleição, para virem assim tão condolentemente, até á ante-camara da sepultura d'um homem quasi morto, a pousar-lhe com a maior dignidade, e com o máximo carinho, o bálsamo de suas confortativas honras no vivo das suas chagas !
Depois, exc.™*^ snr., succedeu ainda que, no dia immediato áquelle em que eu recolhia nas minhas mãos e no meu aífecto o vosso alto testemunho, por occasião de se celebrar n'esta cadêa a exposi- ção ostentosa das physionomias e dos nomes, das naturaUdades e dos crimes dos desgraçados irreme- diáveis, se atropellaram afora do meu estreito cár- cere não sei quantos grupos de mulheres sem cari- dade, as quaes sibilavam pela fechadura da minha porta os ditas da sua curiosidade insultadora, rematados pela apostrophe impudente de uma, cujos cabellos brancos tornavam mais negra a sua cólera, e que eu aqui não ponho em escripta por honra de todas as mulheres nascidas que não são aquella, e por interesse da minha desgraça que re- serva para as suas contas íinaes com Deus o preço d'esse nefando insulto desacompanhado dos casti-
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gos com que certamente o infamariam todas as al- mas piedosas, se por ventura o conhecessem, mas attenuando assim, o que não quero, as dores com que eu o devorei na minha solidão e no meu silen- cio.
Nas superstições da minha desgraça chego ás vezes a suppôr, ex.*"'^ snr., que as honras que eu de vós recebia no dia 7 eram já providencial ante- paro contra os convicios do dia 8.
Por todos estes motivos eu peço ao exc.'"" snr. presidente da assembléa geral do Club Popular Angrense faça bem scientes os seus consócios do muito em que a minha alma transborda de gratidão pelo alto favor com que me distinguiram, e que terá sempre dos primeiros lugares ao lado de ou- tros favores em que Deus tem permittido que se ampare o meu infortúnio.
Permitta porém v. exc.*^ que eu agradeça, mas não aceite, as palavras finaes da carta de v. exc.^ com que em seu nome, e no da assembléa geral do Club Popular Angrense, se digna exaltar o que fui, no meu passado, entre os littcratos e os politi- cos do meu paiz.
Gomo escriptor, o mais medíocre de todos, eu pude apenas deixar consignado nas ultimas paginas escriptas na minha felicidade, o voto espontâneo, sincero e crente pela futura republica. Gomo poli- tico, e orador favorecido pela attenção dos seus auditórios, apenas me coube a alta honra de defen- der sempre, quanto em mim cabia, a causa da de- mocracia e do povo portuguez, e a coragem so- menos de accusar por vezes, violentamente no par- lamento e nos comicios populares, a causa das monarchias e dos reis.
Correspondência epistolar 61
Creia v. exc.% e a assembléa geral do Club Po- pular de Angra do Heroísmo, que eu os tenho a todos na minha mais intima consideração e estima*
Deus guarde a v. exc.^ — Cadêa de Lisboa, 10 de maio de 1871. — José Cardoso Vieira de Castro.
Exc.^^*^ snr. Matheus Augusto, presidente da assembléa geral do Club Popular Angrense.
Hoje recebo de Victorino da Motta, dilecto amigo de Vieira de Castro, uns threnos que choram sobre a immorredoura memoria do martyr. Eu não tenho, além do coração, lugar de maior honra que lhe dê a estas paginas que vem ungidas de lagrimas, senão este livro.
Victorino da Motta privou com Vieira de Castro como de coração para coração, como dous. talentos desabrochados á um tempo, flo- rescidos no mesmo abril, amantes dos mesmos livros, sonhadores da mesma felicidade.
Que entranhados e tantissimos amigos teve aquelle adorável desgraçado!
Dobar-se-hão os annos. Aquelles, que hoje lhe dão vida nas suas recordações dolorosas, terão passado, e Vieira de Castro será ainda pranteado na historia da tribuna pátria, na harpa do poeta e nas formidáveis cóleras da tragedia.
02 Correspondência epistolar
Nas dores d'aquelles que o amaram, a pos- teridade, desempeçada dos rancores que ainda hoje se assanham nas trevas, comprehenderá quanto Vieira de Castro foi honrado e querido.
«Swr. Camillo Castello Branco.
«E' o nome que vai escripto no topo.d'estas pa- ginas, e não o signatário d'ellas, que pede a v. ac- ceite este modestissimo trabalho.
f A memoria do* nossa amigo, e a minha saudade infinda, serão bastante garantia para que v. acolha, sob a égide do seu talento, estas singelas recorda- ções dos seus humildes camaradas de ha i5 annos, na redacção do Atheneo,
«A V. como o mais prestimoso amigo do desgra- çado que choramos, e como mais estrénuo defen- sor das suas altas virtudes, serão consoladoras to- das as reminiscências d'aquelle martyr.
tSou, etc.
<iA, Victor ino da Moita,
JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO
tLevantemos uma lapide tumular, escondida nas arêas ardentes do solo africano.
«Jaz ahi a ossada de um vulto enorme, que nas- cera para ser uma das mais brilhantes glorias da sua pátria, e a quem a fatalidade arrastou á infini- dade do infortúnio.
«Talento vigoroso e esplendido acareára a admi- ração enthusiastica do povo pela sua eloquência
Correspondência epistolar 63
tribunicia: grangeára o respeito publico pela sua probidade immaculada ; merecera a sympathica de- dicação de todos pela cultura esmerada do seu ele- vado espirito.
«Entre os braços da familia que elle amava e os carinhos da mai que o estremecia, acordava sempre na ante-manhã de venturas ridentes.
lAfastado das lides insanas da politica militante, acercava-se da feliz atmosphera que o rodeava, e inspirava ahi o oxygeneo da sua felicidade.
«Julgava-se venturoso.
cMal diria elle que as flores viçosas da sua pri- mavera se enlaçariam em breve a um ramo fúnebre de cypreste.
«Mal pensaria o desventurado que ao mavioso canto do rouxinol se succederia um furacão tremen- do, espantoso, medonho.
«Nos limpidos horisontes do seu futuro não se divisava um floco de nuvem, que lhe prenunciasse um desprazer.
«A opulência da ventura tornava cada vez mais espesso o véo que encobria o sudário da sua des- graça.
«Aquelle coração abrazava-se em sede de gloria.
«Não saciado ainda com os triumphos alcançados no parlamento do seu paiz, foi procurar á America novas ovações.
«O tracto da peninsula era curto para fartar as aspirações vastas d'aquelle grande espirito.
«Ura dia, quando a capital do império brazileiro pasmava diante do verbo eloquente de Vieira de Castro, illuminaram os esplendores do seu génio o rosto d'uma mulher formosa.
«Amaram-se.
64 Correspondência epistolar
«As procellas do espirito cambiaram-se em tem- pestades do coração.
cBafejavam-lhe as auras tépidas d'aquelles paizes um porvir de fortunosa bonança.
«A aureola de gloria permutou-se em coroa de noivado.
«Entre-abriam-se as rosas para lhe oífertarem os seus aromas rescendentes^ aplacaram-se os mares para navegar sereno o barco que os conduzia ; pra- teára-se a lua d'um brilho ineífavel para levantar os relevos d'uma physionomia angélica.
«A noiva feliz e orgulhosa pisava na sua passa- gem tapetes de Suza, e repousava languidamente a cabeça sobre ottomanas d'ouro.
«A America do norte abrira os seus portos aos viajantes felizes, e offertava-lhes a vastidão de suas florestas virgens para theatro dos seus idyllios de amor.
«Raiava-lhes nos horisontes de todas as latitudes o sol da felicidade.
«No Novo-mundo ou na Europa, nas cidades ou nos desertos, nas florestas ou nos mares, apparecia sempre a esteira da mais prospera ventura.
<De Nev^-York escrevia elle a um amigo seu :
uMeu querido V.
«Sinto-me extremamente feliz.
«Tenho uma mulher que me estremece e a quem eu beijo até á fímbria dos seus vestidos e até nos vestigios dos seus passos.
«Receio que venha alguma nuvem negra toldar este éden de supremas felicidades.
«Não me esqueço nunca de ti.
Correspondência epistolar 65
«Entre as caricias da mulher e a dedicação de um amigo, como tu, ha uma distancia cheia de sau- dades pelo teu coração.
«Mando-te o nosso retrato.
«Parto brevemente para Portugal.
«Junto do meu berço, quero aberta a minha se- pultura.
«Adeus.
«Abraça por mim as tuas formosas criancinhas, e lembra-lhes todos os dias o nome do teu hospede impertinente de ha 4 annos.
«Vou residir na quinta de minha mãi, em Morei- ra, perto do Porto. Quero vêr-te alli e abraçar-te.
«Escrever-te-hei logo que chegue a Lisboa.
«Teu velho amigo (íJosé.T>
«Singrava rápido, pelas aguas do Atlântico, o navio que embalava durante a viagem, em ondas de meiga ternura, os cônjuges afortunados.
«A quinta de Moreira estava esplendidamente preparada para os receber.
«Desprendido das ambições da gloria e afastado das vicissitudes da politica, sequestrára-se do buli- cio do mundo, alimentando-se do amor da esposa.
«Ao mesmo amigo, que lhe noticiava a morte do pai, respondia elle de Moreira :
a Meu querido M.
«A's tuas desgraças respondem as minhas. Cho- ro a morte de meu sogro, a mais bella alma que conheci no mundo, e o melhor amigo que eu tive.
VOL. I 5
66 Correspondência epistolar
«Foi para mim uma grande perda !
«Nunca te esqueci, meu querido. Muitas vezes recordo o teu nome.
«Doia-me até a lembrança de que te não hou- vesse chegado ás mãos o retrato que te mandei de New- York.
«Tenho immensas lagrimas para o óptimo velho de teu pai.
«Estou a ver aquella santa physionomia, que nunca teve uma levissima ruga para o hospede im- pertinente do filho.
«Como vossês se pareciam!
«N'isso éreis ambos árabes !
«Eu não apago nunca do meu coração os dias bons da tua casa.
«Também choro a tua santa mãi.
«E talvez façamos mal.
«Quem sabe se, elles por sua vez, chorarão lá em cima esta nossa estúpida peregrinação ?
«Não tenho aqui os meus livros.
« Mandar- te-hei — Discursos parla meutares, — Dis- curso da caridade, — Republica, e o Discurso do meeting do Porto.
«Eu parto para Lisboa por todo este mez, e ten- ciono fixar alli a minha residência por alguns mezes.
«Se tens de vir ao Porto e queres dar-me uma grande consolação, vem a tempo de passar commi- go alguns dias.
«Para ti, para tua esposa, para as tuas filhinhas e antigas amiguinhas minhas, muitos affectos nos- sos, meus e de minha mulher.
«Adeus. «Teu amigo
{<José,9
Correspondência epistolar òy
«N'estes tempos, ainda as lagrimas do infortúnio se não vertiam no cálix das flores murchas da sua primavera !
«A ambrósia e o néctar distillavam-se dos lábios da esposa em dulcissimos beijos e em sorrisos ca- rinhosos.
«Gastava-se depressa a vida n'aquella febre de
affeicÕes vehementes.
>
«A formosa Lisboa encampava, com ares de rainha do mundo, ás velleidades da indigena da America.
«Assentiu desgostoso ás exigências da esposa o marido imprevidente.
«O Tejo desdobrava-se em fitas de prata. Lisboa sorria-lhe ao longe com os seus theatros e as suas soirées esplendidas.
«O brilho da corte apparecia-lhe em sonhos, como fascinação deslumbrante ; e depois. . . partiram.
«Os grandes crimes é força que sejam perpetra- dos nos grandes centros.
«A'quella alma impudica era mister um vasto theatro, onde fizesse plena exhibição da sua immo- ralidade.
«O desgraçado seguia imprecavido a estrada da sua desventura.
«Confiado no amor da mulher, que todos os dias lhe mentia a fé d'um amor jurado, caminhava im- perterrito atraz da sua desgraça.
«Semelhava um sahimento fúnebre, precedido por um demónio, que arrastasse na sua cauda a ossada de um cadáver.
«Um dia, varou-lhe o craneo uma suspeita negra.
«A monstruosidade d'um nefando crime depa- rára-se-lhe vultuoso, agigantado e informe.
68 Correspondência epistolar
«Amedrontava-o a terrível realidade, e o hor- rível despertar d'um sonho feliz. . .
«O cérebro queimava-se em torrentes de lava destruidora, e o coração refrigcrava-se, ainda, nos frescores da esperança.
«A duvida era um supplicio atroz ; e, do cume d^essa montanha enorme, era forçoso descer para os jardins de suprema felicidade, ou precipitar-se nos abysmos d'uma terrível verdade.
«Era certo o opprobrio : o precipício abría-se-lhe temeroso, mas, para aquelle génio de fogo, não havia a hypothese de uma vacillação, sequer.
«A voragem d'uma cratera começava a sorrir- Ihe seductora, e a fascinação do abysmo attrahía-o irresistivelmente.
«N'aquella organisação violenta cada impressão era um abalo, e cada sensação uma paixão.
«Sentia pulsar as artérias e correr o sangue nas vêas, e assemelhava as suas funcções physicas a uma perpetua tempestade interior.
«Começou então uma lucta tremenda entre a di- gnidade e o amor.
«A cabeça refervia-lhe n'um remoinho de pensa- mentos ínfernaes, em quanto o coração transbor- dava de misericórdia e de perdão.
«A tempestade bramia por sobre aquella cabe- ça desvairada, e fulminou uma existência serena e feliz.
«O raio estalou, abrindo no rastro de fogo duas sepulturas.
«Foram poucos, os que poderam apalpar as ago- nias excruciantes d'aquella alma dilacerada.
«Poucos dias depois do succedimenio nefasto, que lhe toldara para sempre as manhãs da vida.
Correspondência epistolar 6g
escrevia elle a um amigo, orvalhados com lagrimas, os periodos que seguem :
«Ai, meu filho, tu que foste, e que de certo és marido, como eu sei, adivinha qual será a consola- ção derradeira de uma existência, que mostra para um ponto do céo os seus braços presos pelas gra- des d'um calabouço, a um espirito que se amou immensamente, e que deixou de si, para memoria eterna, um céo e um inferno ; o céo de umas ale- grias phantasiadas, immorredouras, o inferno, onde tudo isso foi lambido por uma labareda estúpida !
«Deixa-me correr estas lagrimas. Perdôa-me, se desvairo.
«No teu peito ponho eu todos os meus gritos, como elles se me alevantam da alma despedaçada.
«O que eu queria dizer-te, é que tenho sido eu que tenho confortado os meus amigos contristados.
«Não te atormentes, pois, meu irmão de ha 5 annos!»
«Ninguém ha ahi que desconheça as ingentes agonias, que estrangulavam aquella grande alma nos cárceres do Limoeiro.
«Era o dia 8 de maio.
«Essa data recordava ao desventurado um terrí- vel anniversario.
«Um anno antes contara elle, n'esse dia, as ho- ras por séculos infindos e os momentos por com- pridas eternidades.
«Foi n'esse dia que se incendiou um thalamo nupcial, devorando, na sua chamma esverdeada, duas opulentas existências.
«Foi n'esse dia que se cavaram duas sepulturas.
70 Correspondência epistolar
immensas como sorvedouros, que enguliram, pelas suas largas gargantas, duas formosas creaturas.
«N'esse dia, depositava o desditoso as lagrimas de seus olhos nos seios de sua extremosa mai, quando lhe pareceu ouvir os sons de estridulas gargalhadas a repercutirem se nos corredores do cárcere.
«Era feminino o timbre das vozes que chasquea- vani e que riam!
»E' que esse dia era de festa na prisão.
«Abriam-se escancaradas as portas do Limoeiro para dar passagem á hóstia consagrada, symbolo de redempção e amor para as almas atribuladas.
«Accorreu de tropel, e em chusma, a turba das mulheres honestas da capital, ás portas d'aquelle medonho antro.
«Arreceavam-se de transpor os áditos da mas- morra as virtuosas matronas.
«Segredava-lhes a consciência que, nas suas cos- tas, se correriam os pesados ferrolhos da prisão.
«O appetite do insulto despertou-lhes a coragem tibia, decretando vilipendiar o desgraçado.
«Entraram. . .
«A' porta da cella estreita, que fechava a liber- dade a um dos maiores desgraçados d'esta década, redemoinhavam e contorciam-se como serpentes essas hordas de mulheres famintas de curiosidade desbragada, que se arremettiam, agglomeravam, aggrediam, acotovelavam e arrojovam para se subs- tituírem á clareira da fechadura.
«Este bando de megeras ia levar ao calabouço do condemnado a maldição do insultuoso escar- neo.
«Nos lábios d'essas pesiaes, resequidos já pela
Correspondência epistolar 7/
hediondez do vicio, pairava a negrura da zombaria e da mofa.
«O desventurado aspirou até ao cabo essa atmos- phera d'impropcrios, de mistura com os gazes pesti- lentos d'aquellas boccas podres e corrompidas.
Publicou-se mais adiante, em Lisboa, um opús- culo que o author, penna vigorosa e enérgica, ap- pelidára Consciência.
«Vem escriptas aili com absyntho, as dores que acicataram n'esse dia aquelle pobre coração.
«Ouçamos por momentos os gritos angustiosos d'aquella alma esphacellada *. . .
«Ahi estão os lamentos do martyr agonisante nas paginas da Consciência.
«Era ignóbil aquclla cruz para se arrastar ao cume do Calvário! .
«Era aquclla sccna própria d'um canibalismo es- túpido e vergonhoso.
«As pantheras espreitavam as viagens da victi- ma, que se contorcia em dolorosas angustias, e escutavam os gemidos estertorosos do martyrio, que lhe infligiam as suas aduncas garras !
«E' mister uma heroicidade santa para curtir em si aquellas dores terebrantes.
«Caracter brioso e altivo, nunca pensara domar- se ás bofetadas ignominiosas da plebe latrinaria.
«Era muito outro então o tribuno vehemente.
«Alquebrára-lhe a desventura a valentia do gé- nio, e passara uma lima grossa por sobre os picos alcantilados da sua vaidade.
«A audácia do homem que affrontára afouto as
* Eliminamos os períodos que eram parte das pungentes paginas que já deixamos trasladadas da Consciência.
7^ Correspondência epistolar
tempestades do parlamento, e que se alevantára enthusiastico nas salas da universidade, succumbia débil, e curvada, aos apodos das mulheres devas- sas.
«E' que a chamma da desgraça havia lambido as azas á altaneira águia.
«No mesmo dia em que foi julgado, dirigia elle a um amigo velho a carta que segue :
«Lisboa. — Sabbado.
<íMeu querido filho,
«Sahi do tribunal condemnado e honrado.
«Estou bem com Deus, com a minha consciên- cia, e com os homens, a quem não tenho ódio.
«Desejo partir quanto antes.
«Não poderei abraçar-te, meu querido amigo !
«Deus nos dê vida e saúde, e poderemos ainda consolar as nossas velhices com tantas recordações, que me estão afogando o coração.
«Recebi o teu telegramma.
«Beijo-te c abraço-te.
«Adeus, meu filho.
«O céo não desampara todos os anjos d'essa casa, que se me está toda repetindo na memoria com pungentíssima pena.
«Adeus, meu querido.
«Teu do coração
(kVieira de Castro*
«Aquella alma recebeu contente no pescoço a corda do suppliciado, mas repelhra para longe de si, as nojentas calumnias, e as injurias contumelio- sas d'uma raça infame de detractores.
Correspondência epistolar i3
«O jury quebrara os dentes ás víboras que que- riam mordel-o na sua reputação immaculada.
«Jayme Moniz, o talentoso académico, disse ao condemnado no dia do seu julgamento : «Fizeram a maior justiça ao teu caracter •, a resposta do jury foi uma veneração para ti e para as tuas memo- rias ; mas do que eu tenho immensa pena, é de te ver perdido para a palavra do meu paiz !»
«Mais tarde enviava elle ao seu inconsolado amigo os tristes períodos que se seguem :
^Meu querido amigo,
«Só hoje te respondo, mas todos os dias tenho contemplado a Providencia na tua carta.
«Grande alma a tua, nobre e grande coração o teu, meu velho !
«Não sou de todo infeliz.
«Não o é aquelle a quem Deus concede vêr, á luz do máximo infortúnio, a mais apaixonada das dedicações.
«Abraço-te e beijo-te, minha adorável fronte, aonde se pousaram as derradeiras vistas da minha vida de rapaz !
«Mas não, meu filho, não digas mal d'esta socie- dade, que me condemnou.
«Podia talvez ser menos deshumana, podia, mas não digas que foi injusta.
«Castigaram o meu delicto, mas salvaram-me das injurias, com que me crucificava a maldade e a mentira.
«Sei^ que me deviam a reparação, mas podiam convencer- se da minha justiça e escondei a.
«O mundo dá sempre tão pouco, que é preciso agradecer-lhe isto, que é muitíssimo !
']4 Correspondência epistolar
«Ha de consolar-te saber uma cousa.
«A desgraça fez-me bom.
aSinto melhor a minha alma pela dor; vejo mais claro na eternidade, com as pálpebras cerradas ao peso da escuridão do meu destino.
«Não tenho ódios ; fazem-me chorar, quando me dizem que é unanime o sentimento inspirado pelo meu infortúnio.
«Eu devo á minha condemnação a força, a paz, a tranquillidade, que talvez a liberdade não podesse dar-me.
«Não venhas aqui, meu filho ; não venhas, que eu tenho medo de diluir essas três cousas nas la- grimas irreprimíveis do teu peito.
«Sou eu que irei ahi. Eu sim.
«Diz-me a crença em Deus, que d'aqui a lo an- nos te visitará na tua casa, que é tanto tua, como da minha memoria, e que poderei beijar a mão d'es- sas meninas, então senhoras, protestando-lhes pelo meus cabellos brancos, e pelas dores da minha desgraça, altas virtudes da santa que ellas não co- nheceram bem, e que eu vi fazer a felicidade de um dos mais inspirados amigos da minha mocidade.
«Deus não pôde mentir-me n'estas doces vi<jÕes da minha modesta esperança.
«Deus sorri-me ; se assim não fora, porque não houvera eu enlouquecido ou expirado ?
«A minha consciência está cheia do seu direito ; a minha alma cheia das suas dores ; e meu cora- ção esmagado debaixo de ambas.
«Aqui tens o teu hospede de ha 5 annos.
«Dize ás tuas filhas que peçam a Deus, que eu d'aqui a lo annos possa bater á vossa porta, não levando nem mais nem menos do que isto.
Correspondência epistolar jS
«Adeus. Beijo-te, meu filho. Beijo essas crian- cinhas, cujas imagens se cingem aos derradeiros contentamentos da minha vida.
«Falla-lhes alguma vez do desgraçado
d Vieira de Castro,-»
«Haverá coração que resista a derramar uma la- grima perante a immensidade d'esta suprema dor ?
((Haverá granito que resista aos raios d'esta fa- talissima desgraça ?
«O fel da desventura a verter-se, todo inteiro, no coração angustiado da victima, e haverá punhal a que se aguce a ponta para se lhe cravar no peito ?
«Clemência e piedade implorava o desventurado, que ha pouco ainda, no zenith da sua gloria, arrastava as multidões compactas, acorrentadas á eloquên- cia da palavra, e fazia acuar a maiorias facciosas com a sua presença na tribuna do parlamento.
«O Creso de glorias tribunicias, vem pedir de rastos a esmola d'uma phrase que o console.
((O orador temido e respeitado pelos represen- tantes do seu paiz estiola se nas trevas d'uma ca- verna, e exora a Deu^ termo da sua peregrina- ção na terra.
«Corta-se-nos o cérebro, em talhadas de sauda- de, ao relembrarmos as gloriosas phases da vida de Vieira de Castro.
«Um dia a faculdade de direito, inconsciente ou vingativa, havia, constituida em jury, votado con- tra a admissão no seu grémio, d'ella, de um dos mais conspícuos talentos da nossa pátria. Era Au-
^6 Correspondência epistolar
gusto Barjona, essa formosíssima intelligencia, que desagradou á esquálida ignorância dos bachás scien- tificos.
«A mais vasta sala da universidade fora o thea- tro escolhido para este supremo escândalo !
«A mocidade estudiosa pejava todos os ângu- los do amplo espaço e ouviu contristada o veredi- cium solemne d'aquelles juizes.
«Vieira de Castro estava também alli.
«Áquella Índole de fogo, não lhe sofFreu o animo esta afifronta á intelligencia.
«Levantou-se inspirado, ardente c altivo, e esma- gou, debaixo do peso de apostrophes violentas, este desamor ao talento.
«A* audácia d'aquelle nobre caracter respondera a tibieza dos professores.
«A faculdade reconsiderou na vergonha da sua sentença, e levantou da cabeça do cpncorrente o estigma indelével de reprovação.
«Conhecem todos as funestas consequências que trouxe ao dedicado moço esta acção desinteressada.
«O conselho dos decanos, reunido em sessão se- creta, decretara inquisitorialmente a exclusão da universidade, do orador apaixonado !
«Isto não passa de ser espantosamente ignóbil !
«Como depressa se apagou aquella brilhante es- trella, deixando um rastro luminoso na curva da sua orbita !
«Como depressa se extinguiu aquella existência amoravel, legando no seu occaso uma saudade im- morredoura !
«Nas compridas noites de insomnia, abafado pe- las pesadas abobadas do cárcere, ainda pôde al- guém recolher as lagrimas d'aquelle martyrio lento,
Correspondência epistolar 77
no cálix da amizade, e tragal-as depois, como con- solação á dor que lhe lacerava o espirito.
«Houve ainda alguém que sentiu ao longe as pul- sações desordenadas d'aquellas artérias volumosas.
«Alguém houve ainda, a quem os ventos rijos do sul arrojaram os soluços do seu passamento ; e a quem as auras tépidas do outono trouxeram as sau- dades da sua affcição.
«Era o dia i.° de novembro, e escrevera elle a carta que vai seguir se.
<LMeu querido V,
«Não te esqueceste de mim, não?
«Nem eu de ti.
«Só hoje volto a escrever-te, porque tenho quasi medo de ir empanar as claridades serenas dos meus amigos felizes, com as trevas negras da minha se- pultura.
«Estão quasi seis mezes completos do meu en- carceramento, e já apenas sinto, e mal, a vida phy- sica.
«O meu passado dá me um amigo, em quem eu creio, como n'um irmão. E's tu.
«Tu, cujo coração eu estou ouvindo bater ao meu lado esquerdo, á tua mesa d'essa casa, aonde eu me senti acarinhado por santos e por anjos.
«Com quantas dores me pungem estas memorias, meu querido amigo !
«Pois bem: tenho de te confiar a ti uma pequena cousa, e pedir te uma grande honra.
«Se eu um dia tivesse de pedir á tua amizade, que sahisses por pouco tempo de Villa-Real e que viesses encontrar-me, ser-te-hia isto extremamente penoso ?
j8 Correspondência epistolar
«Escreve-me e dize-me como passa tua mulher e os novos filhinhos d'ella.
«Põe á roda de ti essas minhas formosas ami- guinhas de ha quatro annos, e dize-lhes que ás 1 1 horas da noite do i.^ de novembro, me lembrei d'ellas com lagrimas nos olhos.
«A mim disseram-me que és ahi muito estimado e que Deus te abençoa o talento com muitas recom- pensas.
«Fiz d'isto para mim uma santa alegria.
«Adeus, meu filho.
«Abraça-te o teu velho amigo
1 Vieira de Castreis
«Vai n'esta carta a lutuosa imagem que reflectia o espelho limpido da sua alma.
Rastreára-lhe talvez pelo ccrebro a idéa do sui- cídio ?
«Que pequena cousa iria elle confiar ao amigo, e que grande honra desejaria receber?
«Escripta com lagrimas, a resposta do amigo promettia-lhe uma dedicação sem limites.
«Se foi a idéa da morte que pairou sobre a fronte escalvada d'aquelle desgraçado, ninguém o pôde nunca adivinhar.
«Nunca poderá perscrutar-se este mysterio.
«E' certo, porém, que o infeliz aconchegava cada vez mais á sua epiderme o áspero sudário que de- via amortalhal-o.
«N'uma carta datada de Loanda, em 24 de maio, dizia o desgraçado :
«Tenho soíFrido bastante. Tenho uma tosse que me arranca lascas do cérebro.
Correspondência epistolar yg
«Devoro quinina.
«Ainda não tenho coragem para me demorar a escrever-te.
«Começa a passar-me pelos olhos, cada dia e cada hora, dos meus tempos d'essa casa, as pes- soas, que morreram, as que vivem, a nossa alegria e tudo !
«Se eu ahi te abraçarei ainda!
«Rogo a Deus pelas tuas filhinhas, pela tua com- panheira, e por ti.
«O degredado é sempre para ti o mesmo amigo
<i Vieira de Castro,^
«Esgotava-se a tempestade d'aquella existência tumultuosa n'uma chuva de lagrimas !
«A bonança sonhara-a o desventurado em sete palmos de terra africana, onde um coveiro negro lhe cavasse uma estreita sepultura.
«E assim foi.
«O denique é o epithaphio modesto da sua cova.
«Mas voltemos a aífrontar os mares revoltos do seu infortúnio.
«O encarcerado digeria lentamente o veneno que a maledicenica lhe propinava nos seus parcos ali- mentos.
«O ar doentio das costas africanas parecia-lhe salutar remédio para combater o gaz insalubre da calumnia, que lhe assassinava o corpo enfraqueci- do e débil.
«A anciã do desterro desenhava-lhe por um pris- ma negro as cores do cárcere.
«Reçumavam humidade as paredes da prisão; coava se a luz do sol pelas grades apertadas das
8o Correspondência epistolar
janellas *, despertava-lhe o ranger dos ferrolhos um somno transitório ; acordava-lhe a voz das senti- nellas o sentimento da liberdade.
«Quem lhe poderia roubar a posse das terras do seu destino?
«Em 27 de maio de 1871, já cançado de esperar pela decisão do tribunal de 2.^ instancia, soltava mais um grito de desesperação.
«iMeu querido V,
«Agradeço-te a tua solicitude.
«Ainda não ha dia marcado para o meu julga- mento, com quanto eu espere que seja breve.
«Os nossos desembargadores são pouco escor- reitos, e precisam de mais de meio anno para po- rem 10 annos de degredo em i5, ou toda a vida.
«Eu só lhes não perdoo a infâmia de me esta- rem roubando a posse da Africa, que me deu a primeira instancia.
«Pensei que o degredo pertencia ao degredado. Pois parece que não.
«Respondo pelo correio ao teu telegramma.
«Recebeste uma carta minha que te mandei na paschoa ?
«Adeus, meu filho.
Os meus respeitos e os meus aífectos ao teu santo
lar.
«Sempre teu
a José. »
«A carta que fora escripta na paschoa é ainda um protesto contra a indolência dos juizes da re- lação.
Correspondência epistolar 8i
«Lisboa 9 — 4 — 71.
<íMeu querido amigo.
«Ha dous dias que recebi uma cana tua, deli- ciosissima do aííecto que tanto te mereço. Não te esqueço nunca. O teu vulto e os meus dias d'essa casa, são das memorias que mais lagrimas vertem na minha alegria morta.
aA's vezes faço um esforço supremo para es- quecer, e peço a Deus por piedade o que o Man- tredo pedia aos espiritos.
«Ai, meu amigo !
«Tudo isso era para dizer-te que o meu silencio SC alguma cousa te provasse, seria a intensidade das minhas atormentadoras saudades ao recordar- me de ti,
«E teu pai?
((Como me lembro d'aquella boa alma !
«E' domingo de paschoa hoje.
«Se Deus resuscita para os desgraçados, nos meus lábios encontra elle o pedido da tua felici- dade.
«Para mim nada peço.
«O que eu quero é que me deixem ir para o meu degredo e quanto antes.
«Espero a decisão da Relação, que confirmará ou aggravará a sentença segundo me consta. Se a parte não recorrer para o supremo tribunal, por lhe não convir, eu também não recorro e parto.
«E' este o meu desejo".
«Adeus, meu filho.
«Os meus respeitos aos pés de tua santa mulher
VOL. I Ó
82 Correspondência epistolar
e os meus carinhos todos ás tuas filhinhas, e ami- guinhas minhas do tempo feliz.
«Teu amigo d Vieira de Castro, -a
«O espectro da morte acenava-lhe de longe com os ramos fataes da mancenilha.
«O corpo macerado na humidade d'uma prisão infecta, já mal sentia, como elle confessava, a vida physica.
«Gonsolavam-no tenuemente as dedicações dos amigos e as publicações pela imprensa, que mira- vam apenas á sua justificação, e que elle reputava como os epitaphios da sua sepultura. Eram sim os complementos da sua justificação \ não da justifica- ção do seu delicto, do qual só Deus tinha a pedir- Ihe contas, mas a justificação de todas as negras perversidades, com que a maldade quiz infamar o seu infortúnio immenso.
cEra o derradeiro serviço que prestavam á honra da sua memoria os que de perto poderam auscul- tar a generosidade d'aquelíe coração.
tAfóra estes allivios transitivos, ia sempre o des- graçado arrastando uma agonia estúpida, em quanto Deus julgasse que era cedo para lhe restituir no céo a felicidade que lhe deixou incendiar na terra.
cNos últimos dias de cárcere, atormentava-o a demora em Lisboa, e pungia-lhe viver no meio d'aquelle antro immundo.
tNo dia 28 de agosto, escrevia a um amigo in- consolável, os seguintes periodos :
Correspondência epistolar 83
(íMeu querido amigo,
a Parto para a Africa no dia 5.
«Levo commigo uma saudade immensa.
«Se um dia aqui voltar, correrei á tua porta, em procura d'uma das raras reminiscências da minha alma.
«Deus o queria, filho.
«Se morrer, pede ás li inhas amiguinhas de ha 6 annos, que lembrem a Deus o meu nome.
«A mim diz-me um fúnebre presentimento, que um presidio d' Africa será a minha sepultura.
<Quero reagir contra o phantasma, que me es- maga a minha consciência, e apparece-me em so- nhos a alva branca dos condemnados.
«Olha, meu amigo, quando a mão descarnada da morte me constringir as fauces, irradiarão três idéas pelo meu cérebro, próximo a extinguir-se. São três saúdes.
«Uma para minha mãi e meus irmãos, e outra para seis amigos, que conheci no caminho do meu Calvário \ a outra é para as tuas formosas filhinhas, que fazem, como eu creio, a tua felicidade. A Je- sus-Christo abriram um sepulchro junto da cruz, onde tinha os braços cravados; a mim servirá de epitaphio uma palmeira gigante, que estenda os braços para o céo, exorando por a alma acabrunha- da do maior desgraçado que pisou a crusta da terra.
«Adeus. Vêr-nos-hemos na eternidade, se a minha individualidade se não perder nos abysmos do nada.
«Envia-me nas monções da primavera uma das fiôres da tua existência feliz, para que eu a leve commigo ás trevas da minha sepultura.
84 Correspondência epistolar
«Estou cançado de viver e de pensar em ti.
«Nas tuas recordações levo eu na minha viagem a ultima consolação.
«A saudade punge, mas também consola.
«Correm-me as lagrimas ao ter que despedir-me de ti.
«Não sei se terei coragem para fechar esta carta.
«Pela ultima vez, adeus.
«Teu do coração
«José.»
«Partira o condemnado na galera dos desterra- dos, caminho das praias africanas.
«A vastidão do mar e a immensidade do espaço, saciavam de ar os seus pulmões sedentos de oxy- geneo puro.
«A febre gerada por uma saudade infinita tinha consumido aquella robusta compleição.
«O roble frondoso tombou alquebrado pelo tufão da desventura.
«Diante da traição negra da mulher que amara, não vacillou o seu génio impetuoso e ardente entre os apupos das multidões e a suprema condemnação dos homens.
«No sacrário da sua consciência immaculada es- talara um pensamento infernal.
«O phantasma do ridiculo estorcia-se diante d'elle em esgares zombeteiros, e apontava-lhe com o dedo para um futuro de ignominiosas irrisões.
«Os fluidos venenosos começavam de encher-lhe o craneo, e alli comprimidos, apertados, constran- gidos, produziram a explosão medonha que ater- rou Portugal inteiro.
Correspondência epistolar Sb
«A válvula de segurança, a razão, essa havia-se fechado ao primeiro refluxo da onda dos vapores.
«Quem poderia medir a dor d'aquelle desespe- ro, quando a sua mão nervosa suffocou na garganta da esposa o ultimo grito das aífeiçÕes adulteras ?
«Ninguém.
uMais tarde conheceram-se, pelo rastro d'ella, os vestígios insacaveis do martyrio que lancinou aquella alma.
«Tem-se visto o ódio levar a mão estranguladora ás fauces da mulher que se abomina.
«Tem-se visto o punhal afiado rasgar o peito da mulher que se detesta.
«O assassino tripudia então sobre os cadáveres das suas victimas, e traga com anciã o delicioso néctar da sua feroz vingança.
«D'esta vez é o esposo que ama, a esmagar com mão de ferro os vestigios materiaes da sua vergo- nha.
E' o juiz que enlaça, ao collo de uma victima for- mosa, a corda do carrasco.
«E' a justiça a castigar o crime ; a lealdade es- trangulando a traição.
«E como elle amava aquella feia alma !
«Como elle bebia sôfrego dos seus lábios femen- tidos, o absyntho da mentira !
«Como elle, temperamento ardente, estreitava nos braços aquelle corpo de gelo !
«Misérias incomprehensiveis da ingenuidade hu- mana.
«Ahi vae uma prova irrespondivel do culto inter- no, que elle, o desventurado dedicava á esposa.
«Tumultuava o paiz em anciãs eleitoraes.
«A candidatura de Vieira de Castro, repercutida
86 Correspondência epistolar
em todos os ângulos de Portugal, impunha-se como severa ameaça á situação governativa.
«Acontecia isto ainda nos seus tempos de felici- dade.
«Interrogára-o um amigo acerca da veracidade da noticia.
«Eis a resposta :
9.Meu querido M.
«Quinta de Moreira.
«Com grandes delicias da minha alma, recebi eu a tua carta !
«Que inveja eu tenho á tua immerecida obscuri- dade I
« Perguntas-me n'ella se quero ser deputado.
«Eu tenho uma esposa que me ama estremeci- damente, familia que me estima, e terei talvez al- gum filho, se Deus me quizer fazer essa mercê.
«Eu adoro a minha esposa e considero-me feli- císsimo.
«Ir á camará é sacrificar a familia á pátria ^ e quando a pátria é Portugal, equivale o nosso ca- pricho, em sacrificar a familia a uma imperdoável velleidade.
«Não chega a ser um crime, por ser uma cousa principalmente insignificante.
«Se ventos adversos me não colherem os voos audaciosos, aguardarei mais prosperas monções.
«Crê, meu feliz amigo, a familia e a independên- cia constituem o meu único argumento para resi- gnar a todos os encargos públicos.
«Estou agrilhoado ao amor d'uma esposa que me ama, e diante da qual eu me ajoelho para lhe pe- dir perdão da minha vida de rapaz.
«Adeus, meu filho, serás tu tão feliz como eu ?
Correspondência epistolar 8j
((Aqui tens o teu camarada na redacção do Athe- neo !
«Transformou-se a coragem em fraqueza, a au- dácia em imbecilidade.
«Não sei se foi castigo, se premio da Providencia.
«E' certo, entretanto, que eu não posso invejar a sorte de ninguém.
«Adeus. Um beijo ás tuas filhinhas, e um abra- ço para a sympathia do teu vulto.
«Teu do coração
Uoséy>
«O avarento de glorias e triumphos depunha aos pés da mulher que amava, os sonhos dos seus the- souros, e prendia á orla dos seus vestidos coroas immarcessiveis.
((Mucio Scoevola, queimara a mão n'um brazeiro ardente, immolando-se aos amores d*uma mulher romana, que se chamava Glelia.
((Vieira de Castro, deixara incendiar a vida, o fu- turo, a gloria e tudo peio amor da esposa que ado- rava.
«Chenier e Ghatterton suicidaram-se. procurando, na mortalha, o socego d'uma tranquiliclade eterna.
(T Vieira de Castro envergara o sudário d'uma pe- nitencia estertorosa, macerando a alma com os ci- lícios d'uma saudade immensa.
«A peçonha que lhe envenenara a alma, inocu- lára-se-lhe no sangue e percorria, n'um grau rápido e fatal, a torrente circulatória.
«O mundo, sempre, rígido e austero, constituira- se em verdugo despiedado do homem, cuja culpa única era ter esgotado até ás fezes a sórdida es-
88 Correspondência epistolar
sencia do mais asqueroso fel, e cujo único pecca- do era ter pisado com os pés sangrentos e descal- ços, os espinhos entalhados no rastro da esperança que se lhe esvaecera no occaso.
«A critica do soalheiro, virulenta e podre como ulcera sarnosa, saciava o estômago faminto nas vís- ceras de uma victima, que trilhara sempre uma es- trada lisa e coimbrã.
«O homem que santificara no sacrário da sua alma uma aífeição estreme e pura, e resistira ás seducções da gloria, que lhe estendia os braços, é d'um desprendimento que espanta os tibios e de- sarma a maledicência da canalha.
«Não succedeu porém assim ao meu desditoso amigo.
«A opinião publica que desvairava em louca ebrie- dade, á entrada de Jesus em Jerusalém, impu- nha-lhe, poucos dias depois, ás costas um pesado madeiro, em que iam gravadas letras de ignominia.
«Ao tribuno eloquente, que arrastava as multi- dões na cauda da sua palavra, ao talento festejado, que prendia as turbas pela magia da sua voz, tam- bém a opinião publica lhe apparelhou a cruz do aleive, e forjou os cilicios d'um immerecido ultraje.
«Aspirando ainda o suavissimo perfume das flo- ridas rosas que entreteciam a sua coroa de noivado, não pôde consolar-se da dôr suprema que lhe con- frangia o espirito, morrendo-lhe a única afFeição que o prendia á vida.
«Soltando dous suspiros de saudade que reparte por Deus e pela memoria da única mulher que ama- ra sobre a terra, espera que o estertor do agoni- sante lhe suffoque nas fauces o derradeiro gemido d'um eternal amor.
Correspondência epistolar 8g
«Houve alguém que comprou, á custa de lagri- mas ardentes, a photographia d'essa dor vehemente. «Ahi vão alguns períodos do desafortunado:
«Mez/ amigo,
«Pisei hontem o solo africano.
«Rescaldavam-me as arêas as plantas dos pés, e a ardência do sol incendiava-me o cérebro.
«Quando de longe avistei o meu paradeiro, afi- gurou-se-me logo um cemitério.
<As casas offereciam-me o aspecto de dolmens druidicos e as palmeiras uma floresta de cyprestes.
«Se fosse alli um outro mundo, onde emancipa- do de sarcasmos ignominiosos, a podesse encontrar a ella^ formosa, como o meu pensamento a dese- nha, e como a minha memoria a reflecte, acredito que lhe perdoava !
«Admiras-te, meu filho?
«Espantas-te da minha fraqueza, ou pasmas deante da immensidade do meu amor !
«Mataram-me, meu amigo ; e eu na anciã cruel d'esta intima agonia, nem ao menos posso soltar uma queixa contra os meus algozes.
«Que me perdoem elles, se me perpassa ás ve- zes pela mente, alguma idéa de resentimento.
«Porque não aggravariam os meus juizes a mi- nha pena, condemnando-me irremissivelmente á morte ?
«Que mal fiz á sociedade para me deixar viver?
«Não ha nada mais do que arrojar com uma exis- tência para os presídios da Africa, algemal-a aos pulsos dos selvagens, incendial-a em torrões can- dentes, suífocando á mingoa dos ares da pátria, res- pirando os miasmas paludosos do desterro, sorven-
go Correspondência epistolar
do a longos tragos das fontes infectas um veneno lento ?
«Ai, meu amigo e meu filho !
«Sahe amanhã o vapor D. Pedro! Que amargu- ras soffrerá este pobre coração, ao vêr levantar ferro a um barco que vai com a proa em direcção á pá- tria ! Adeus.
«Se algum dia as minhas memorias te levarem a visital-o, pede lhe para ti e para as tuas criancinhas, uma saudade que te enviou um desterrado, que se chamou um dia
<í Vieira de Castro.-»
aTumultua o coração do amigo em pulsações de- sordenadas, inspirando o pulmão nas brizas do Atlântico estes gemidos longinquos.
a Gemidos de suprema angustia, que com cedo se permutaram em arrancos de moribundo.
«A pátria, que lhe fora madrasta, enviára-lhe, pela bocca dos seus juizes, uma condemnação suprema; a familia da mulher que elle amara no mundo, so- prava aos ouvidos dos seus arautos calumnias des- preziveis e infamantes.
«Lá mesmo, na posse do seu degredo, foram pro- cural-o os libellos mais affrontosos.
«O projecto de rebellião contra a pátria fora o ultimo insulto que affrontou aquellc martyrio im- menso.
«O desventurado, a quem não sobravam alentos para combater contra phantasmas impalpáveis, tor- nava-se na bocca dos calumniadores ignóbeis, um valente caudilho a propugnar pela independência das nossas possessões ultramarinas !
Correspondência epistolar gi
«Era a suprema irrrisão da canalha vil e desbra- gada.
«O sceptro de canna verde, cabia mal nas mãos que se alevantaram, para fazer engulir a mentira aos seus contumazes detractores.
«José Horta, então governador d' Angola, consti- tuira-se eloquente advogado do desterrado, fazen- do ver á luz da evidencia, a falsa monstruosidade de taes protervias.
«Não bastara isto.
«A maledicência nas suas ferocíssimas invenções engendrou nas trevas um outro aleive ainda mais miserável.
«Começara de propalar-se de bocca em bocca, a noticia de um novo casamento ao marido, que atra- vés do espaço se prendia ainda ao espirito da esposa morta. Era rica e opulenta a promettida noiva.
(íA torpe especulação da victima desafortunada, era o poste ignominioso onde os phariseus preten- diam amarrar o filho da desventura.
«As narinas dos diffamadores da honra alheia fa- rejavam no rasto do condemnado as mais peregri- nas contumelias.
«Vergava o corpo ao tremendo peso das inju- rias; mas o espirito quedava-se sereno, como que arredado das tempestades d'este mundo sublu- nar.
«A morte batia nas azas negras, por sobre aquelle craneo escalvado, pronunciando-lhe o noivado do sepulchro.»
«Sorriam-lhe lá de cima as caricias da esposa que elle tanto amara, e a alma obtemperava tibia ao chamamento fatal.
«Na data de 25 de julho de 1872, vertia elle em
g2 Correspondência epistolar
Loanda, n'uma folha de papel vellino, as lagrimas que vão seguir-se :
a Meu filho !
«Tu não sabes as dores da minha vida.
aPerdôa o meu silencio, porque eu amo-te sempre.
j Penso em ti frequentemente.
«Tenho soífrido muito.
«Avoejam-me pelo cérebro funestos presentimen- tos.
«Vae-se apagando, pouco a pouco, a luz da mi- nha vida.
«Com os olhos fitos na eternidade, vejo através das trevas que me cercam, uma imagem querida, que uma incomprehensivel fatalidade arremessou ao regaço de Deus.
aConsome-me uma febre devoradora.
«A tosse dilacera-me o peito.
«Os médicos d'aqui receitam-me quinina, que é quasi o meu único alimento.
aEu tomo-o já como um veneno, que acabe mais depressa com esta existência triste e inútil.
«N'este equuleo de tormentos vem ainda perse- guir-me o ódio infernal dos meus carrascos.
«O desvergonhamento não havia ainda tocado o seu marco milliario.
«Era preciso caminhar um pouco mais avante.
*Não ha fel que a mentira não derrame sobre as ulceras esbrazeadas do meu infortúnio.
«Julguei que as cinzas dos mortos tinham um sa- cratíssimo direito ao respeito dos vivos, e que a frialdade do meu cadáver repellira para longe de si essa cáfila de nojentos vermes.
«Enganei-me, meu filho.
Correspondência epistolar g3
«As hyenas revigoram os seus alentos nas mi- nhas carnes cadaverosas.
«Queres saber o que esses infames inventaram?
«Queres adivinhar qual o fecho que apparelha- ram á abobada da minha desdita ?
«Queres apalpar as formas vultuosas d'este novo ultrage?
«Pois bem; nas suas lucubraçôes infernaes for- jaram a ignominia que mais podia mortiíicar-me ! Arrojaram aos quatro ventos do céo a noticia de que eu estava próximo a contrahir um novo casa- mento!
«A gentalha não se pejou de vomitar, pela bocca asquerosa e fétida, este lixo immundo ! !
«Ao martyr de tantas dores era mister mais esta prova terrível.
«Curti calado este novíssimo tormento e pedi á minha consciência coragem para uma estúpida re- signação.
«Os leprosos careciam do bálsamo das minha* lagrimas para lhes fazer sanar as postemas nausea- bundas das suas faces torpes.
«Cortou fundo o golpe no meu coração, já mor- to, sem verter gota de sangue.
a Começo a crer na hora próxima da minha liber- dade.
«O meu corpo está gasto, e a alma cançada de tanto soffrimento.
«Morreu me de todo a esperança de que as tuas filhinhas podessem ver ainda um dia os meus ca- bellos brancos.
«Do teu amigo de Coimbra não restará em breve mais que a triste historia da sua vida e o esqueleto da sua memoria.
g4 Correspondência epistolar
«Ao escrever-te sinto a consolação das lagrimas.
«Eu devia luctar contra a morte, á espera de que ambos nos encontrássemos no caminho da eter- nidade.
«Lá nos encontraremos um dia, se as auras ce- lestes reunirem os átomos dispersos das minhas agonias com suspiros Íntimos da tua extremosa sau- dade...
«Interrompi a minha carta para te dizer adeus sem lagrimas.
«Fui suspirar nas praias africanas um alento de suavidade.
«Os raios da lua d' Africa, queimam, como no nosso saudosissimo paiz, abrazam os ardores do sol.
«As brizas do mar parecem-se com o simoun do deserto.
«O solo rescalda os pés, como vasta lamina de ferro candente.
«A atmosphera é uma labareda afogueada.
«O firmamento esbrazeado assemelha-se á ima- gem do inferno.
«Não se respira aqui, abafa-se.
«As sombras das nuvens são tempestades me- donhas.
«Cada relâmpago é um raio, cada trovão uma convulsão da crusta terrestre.
«Aqui é cada momento um anno, cada anno um século, c cada século o infinito.
«E' preciso conhecer-se o degredo para se aben- çoarem os cárceres da inquisição.
«O pão é negro como um ethiope, a agua das fontes envenena as entranhas da nossa raça.
«Em vez do trinar mavioso do rouxinol da nossa pátria, ouve-se apenas o descante dos selvagens.
Correspondência epistolar g5
«Ahi o dia, aqui as trevas^ ahi a serenidade, aqui a tormenta.
«Aqui é todo o pensamento uma reminiscência, toda a recordação uma saudade.
«Ai, meu filho da minha alma !
«Deixa-me chamar-te assim para consolar a mi- nha velhice prematura. Morre, mas não mates.
«Aprende na minha ultima lição e estuda n'ella como n'uma Biblia santa.
«Esmaga dentro do craneo os relevos mais sa- lientes da tua dignidade; suíFoca na garganta os gritos da tua justa indignação \ parte a lamina do ferro que pôde ser a garantia da tua honra envi- lecida *, afivela no rosto a mascara do cynismo ; e quando o mundo verter um escarneò no cálix do teu infortúnio immenso, esgota até ás fezes com um sorriso nos lábios a triaga das tuas amarguras.
«Esta carta é o testamento do teu velho amigo, meu filho ! .
«Não sei se voltarei a escrever-te porque me sinto já debruçado á beira da sepultura.
«Quando nas compridas noites de inverno reu- nires, em volta do teu santo lar, a familia, que faz a tua felicidade, lembra-lhe, sempre que possas, as dores do meu Calvário.
«Adeus; aceita um abraço do teu
«Sempre amigo <i Vieira de Castro.y
<Fôra este um dos últimos cantos, que alçara o moribundo cysne nas margens do Zaire.
«Aquella alma estava prestes a alar-se para os paramos celestes, e a embalar-se ahi n'um thalamo
gõ Correspondência epistolar
de venturas, que um destino fatal lhe roubou na terra.
«Mentiram-lhe as suas esperanças, quando de New-York dizia ao seu amigo:
«Quero junto do meu braço aberta a minha se- pultura.»
«O coração alongava-se-lhe para o céo.
«A estrella que lá demorava em cima atraves- sava, a todos os momentos, o vácuo da sua alma.
«Não ia em meio a flor de sua vida, e já o vento outoniço começava de desfolhar-lhe as pétalas.
«Temperamento violento, índole apaixonada, alma nobre, esplendido talento, coração aífectuoso, sem- pre aberta a mão da caridade, fechado sempre o peito a ruins instinctos, sempre o espirito a sonhar na gloria, sempre a bocca a expirar fragrâncias, lá fora íinar-se nos torrões africanos aquella existên- cia luminosa.
«Perdôe-lhe Deus, já que os homens não po- dcram perdoar-lhe, o delicto que commettera na terra, pelas torturas que soffrera aquelle pobre co- ração.
€ Houve um erro? Que maior expiação, do que o degredo?
«Houve crime? Que maior pena do que os vaga- res de uma agonia lenta ?
a Os sacrificadores antigos, cingiam nas frontes, radiantes de fé, ramos de verbena, para immola- rcm as victimas nos altares dos deuses.
«Os verdugos d'aquelle grande desventurado en- feitavam de diamantes as cabeças esquálidas, para tripudiarem em volta do seu patíbulo !
«Felizmente, que na esteira de sangue e lagri- mas que deixou, após elle. Vieira de Castro, ger-
Correspondência epistolar gj
mina um formosíssimo prado de saudades, que a sua memoria legou a todos que contrastaram o qui- late das suas virtudes, ás quaes, um dia, a posteri- dade fará justiça.
Vieira de Castro estava na Africa.
E os diífamadores, d^aqui mesmo, lhe des- empolgavam ao coração de homem e á pro- bidade de portuguez os dardos hervados da aleivosia.
Uns davam-o casado ou de amores com uma viuva rica.
Outros malsinavam-o de fomentar o des^ membramento d'aquella colónia.
Permitte-lhe Deus que se salve dos homens no seio da eternidade; e então, como se o des- graçado previsse a morte, enviando a António Vieira de Castro o documento de sua defeza, apparece uma carta do governador geral, pu- rificando a memoria do degredado, que acu- dira por sua honra, quando já não tinha ou- tro património que herdar aos seus. Antepuz então algumas linhas ao desaggravo instante- mente reclamado por António Vieira de Cas- tro. Fiquem aqui esses pregões como atalaias das suas cinzas, e vergonha surda, intima e dilacerante dos perversos que o calumniavam:
VOL. 1 7
g8 Correspondência epistolar
REPARAÇÃO
tDa Ga\eta do Povo de 26 do corrente, trasla- damos um artigo que tem ligação com outro de reparação, que o Primeiro de Janeiro publicou, a uma calumnia oífensiva da probidade do snr. José Cardoso Vieira de Castro. N'aquelle jornal lisbo- nense apparecêra o boato, procedente de inexactos informadores. Folgamos de ver que esse mesmo jornal vem tão generosa quanto obrigatoriamente desviar de si a responsabilidade da calumnia. Se- ria indiscrição esperar outro proceder dos cava- lheiros que redigem aquelle diário. Não é a com- miseração que se levanta á beira da sepultura do illustre condemnado pedindo á piedade publica que dê por saldadas as contas do infeliz com a socie- dade, tão pouco authorisada para lh'as pedir. É a justiça e a honra que se postam ao lado da sepul- tura de Vieira de Castro, obrigando a calumnia a retroceder humilhada, e a ir cevar-se* no coração dos vivos, visto que n'aquellas cinzas já não ha fibras sensiveis onde cravar as presas. Aos que o arremessaram ao degredo e á morte, povoem os an- jos o seu dormir de alegres sonhos. Aos que rece- beram dadivas generosas para o insultarem na im- prensa, converta-se-lhes o ouro em regalias domes- ticas e respeitos da rua. Ás damas descaroadas que insultaram na cadêa Vieira de Castro, no dia da communhão aos presos, doure-se-lhes a velhice de honradas cãs, veneradas pelas honradas filhas. A todos aquelles, finalmente, que arrancaram uma pe- dra ao edifício que se desmoronou e esmagou aquelle brioso homem, abra-lhes a sociedade os braços, e chovam-lhes as delicias, as posições sociaes, os aca-
Coj^respondencia epistolar gg
taraentos, o ouropel com que se cobrem as ulceras da infâmia.
«Lamentof.a celebridade irá seguindo de geração em geração o nome do mais febril talento e scintil- bnte orador que nasceu no Porto, desde que esta terra pôde citar nomes distinctos na phalange dos propagadores de idéas. O Porto fez-lhe ovações, quando o ouviu ; e, se o não deplorou na morte com testemunhos de publico sentimento, mais tarde, as gerações por vir irão meditar nos trances d'este desgraçado, cheio de esplendores, ao pé da urna das suas cinzas.
«Levou-nos o coração depôs a saudade do amigo. E' tempo de deixar que outros se acerquem da sua sepultura com o voto de respeitosa reparação á me- moria de Vieira de Castro.»
«Publicámos em tempo algumas noticias de An- gola, das quaes fazia parte uma que se referia a planos de independência attribuidos a um notável degredado.
«Deu lugar esta noticia a reclamações por parte do snr. António Vieira de Castro, que suspeitou que era de seu irmão, o snr. José Cardoso Vieira de Castro, que se tratava.
«Nôs respondemos sincera e lealmente áquelle cavalheiro, dizendo que não era invenção nossa o que se dizia com respeito aos projectos da separa- ção da provincia de Angola do continente.
«Temos razões para crer que s. exc.^ não ficou satisfeito com o que lhe respondemos, e hontem foi-nos apresentada por um amigo commum uma
100 Correspondência epistolar
carta do snr. José Cardoso Vieira de Castro sobre este assumpto dirigida ao snr. José Horta, e a res- posta d'este cavalheiro. Estes documentos provam plenamente, que, se com effeito havia quem pen- sasse em desmembrar da coroa portugueza aquella rica porção do nosso território, não era o infeliz Vieira de Castro.
«Como pôde haver quem ao ler aquella noticia tivesse apprehensões iguaes ás que teve o snr. An- tónio Vieira de Castro, aqui declaramos que ella foi fundada em informações menos exactas que havía- mos recebido directamente de Loanda.
cE' explicita a linguagem do snr. José Cardoso Vieira de Castro, e não menos a do snr. governa- dor geral de Angola.
«Nós vimos as duas cartas, e podemos responder pela authenticidade de ambas.
«Se estimamos sempre fazer justiça a todos, por- que nos apraz cumprir um dever de honra, muito mais grato nos é esse dever quando se trata de um homem que já não existe, de quem fomos amigos, a quem saudámos nos seus dias de maior gloria e a quem abraçámos com as" lagrimas nos olhos, quando elle, esmagado pelo peso de uma enorme desgraça, nos prophetisava o seu próximo fim res- pondendo-nos também com lagrimas ás nossas pa- lavras de consolação, e dizendo :
«Depois d'isto ou a loucura ou a morte.»
«Por mais severo que seja o juizo que se faça do acto praticado por Vieira de Castro, no que não pôde haver discordância é de que poucos homens tem havido mais infelizes do que elle !
«Mocidade e talento, vida e futuro tudo desap- pareceu em menos de três annos !
Correspondência epistolar loi
fQue Deus na sua infinita misericórdia se amer- ceie de quem tanto soffreu na terra, é o que do fundo d'alma lhe pedimos.» '
Vieira de Castro escrevia em um pequeno Album^ adquirido pouco antes de sahir para o degredo, as impressões do momento, os traços de projectados escriptos, as primeiras opera- ções e facturas do seu commercio na Africa, as suas despezas diárias, as verbas de dinheiro recebidas de seu irmão António durante a pri- são, os volumes da sua bagagem, o inventario da sua roupa e dos seus livros, as visitas do seu medico em Loanda. Está em meu poder essa carteira.
Uma das paginas é assim escripta a lápis:
Viagem para Africa. De Lisboa a 5 de setembro de iSji. Chegamos á Madeira a 7, d meia noite. A S. Vicente a 1 3 ás 4 da tarde. Ahi ficamos. Pun- gente approximação de duas datas l * Que amenis- simo clima ! Sahimos a 14, ds 3 horas,
6^1%. S. Thiago, no dia j5.
* Presumo que a data cuja aproximação o punge, é a da sua partida para o Brazil, em setembro de 1866.
102 Correspondência epistolar
A 27 chegamos ao l^rincipe. No dia 23, desar- ranjo na ma china ao cahir da tarde. Andamos á pela até ás 10 horas da noite do dia 26. Formosís- sima a ilha do Principe! Jardim admirável! Vege- tação esplendida, lembrando o Minho ; mas mais for- mosa pela raridade das arvores e das cores, — Antes da ilha está o celebre rochedo com a forma exacta de um bonet de jockey.
Em outras paginas:
Le droit de tout homme d dire qiiand même sa pensée. (Vide o prologo de Droits de r homme de Pelletan).
Visitas do doutor Oliveira:
Primeira doença 3
Segunda »^ 2
24 e 25 de maio (1872) 2
Julho B S
Agosto I. 3
Agosto .) 4
5 de Mato de i8j2,
Despe:{as. Balanças para café,, Sj^ooo.
Seguem outras verbas miúdas de preparati- vos para o seu negocio. Aperta-se-me â alma, quando confronto as glorias, o esplendor, o estrondo d'aquelle nome que reboava desde a sala do parlamento por todo o paiz em i865, e ia echoar nos prelos da America do sul, e me
Correspondência epistolar io3
figuro Vieira de Castro, sorrindo á desgraça, n'aquelle humilde tráfego de mercadejar café !
Em outra lauda do Álbum:
Viagem a Capengo, Queimadas^ deserto, carava- nas, cantilenas dos carregadores. Rios, precipícios, luctas dos pretos^ roubos, A vile:{a do negro. Patru- lhas. Cêa, Almoço. As comidas enxovalhadas pelos dedos dos pretos. . .
Em Cazengo comprara Vieira de Castro por 1.200^000 réis uma casa térrea, em nome de seu irmão António, com o intuito de alii se fornecer de café, em transacções immediatas com o gentio.
N'este crepúsculo da noite intellectual ain- da fulguram uns lampejos do espirito que se dá alôr para as regiões divinas :
Era uma collina alta, immensa, Íngreme, esguia, a pino pelos ares fora, topetando com o seu coronal de florestas nas nuvens do céo, cavando e mergu- lhando com as rai:{es nos abjsmos do mar. E, no cimo d'ella, alli. entre Deus e o homem, entre o in- finito e o verme, tu^ arvore querida das minhas sau- dades, meu cajueiro amigo, docel das minhas medi- tacões.^ arca dos meus naufrágios^ lua das minhas noites l O meu cajueiro! Tenho nas meninas dos meus olhos a photographia da minha arvore. Rompia do solo vermelho o seu tronco secular, e logo se desa- pertava em duas vergonteas colleadas, como se para
104 Correspondência epistolar
dous amores o plantara alli a providencia do Se- nhor! Erguia-se á altura dos meus cabellos, e logo se recurvava por todas as partes ao derredor de mim, beijando e marcando na terra a circumferen- cia do meu mundo. Era denso ^ era espesso y era bas- to: dir-se-hia a cabelleira enorme de um gigante. . . Ai! meu cajueiro querido! Também eu te apago muitas ve:{es a sede das rai\es com as minhas lagri- mas; e, quando eu t'as via aljofaradas no peciolo dos teus ramos, eu punha sobre a tua enfeitada ale- gria a lu^ do meu sorriso.
Ai! minha saudade qne aqui vinhas conversar commtgo ! Chora pelo desterrado que chamaste á im- mensidade da tua dor! Ha céo e ha inferno! Entre o céo e o inferno, entre ti e mim, ó visão tristissi- ma^ estão as insondáveis trevas. Ai! meu cajueiro querido!
Loanda, g de dezembro de i8ji.
A residência de Vieira de Castro era a mais insalubre de Loanda. A casa é batida pelo mar; e, ao fim da tarde, ennubla-se em ne- voeiros. Elle mesmo em uma das cartas me diz que o brazileiro que a construirá alli mor- rera logo de febre perniciosa.
Não obstante, os primeiros mezes passou-os saudavelmente, posto que nem o minimo cui- dado tivesse comsigo, nem desse peso aos con- selhos dos amigos. Duas e três vezes por dia
Correspondência epistolar io5
se banhava no mar que lhe espumejava de- baixo da janella do seu quarto. Mandava abrir todas as janellas a fim de que as correntes do vento do mar se recruzassem. O melhor é mor- rer^ dizia-me elle.
As febres appareceram-lhe em junho de 1872 e nunca mais remittiram.
Em fim de setembro d'aquelle anno fez uma viagem rio acima até o Ambriz, aconselhada pelos médicos. Melhorou sensivelmente. Um portuguez, que então convivera com elle três dias em Benguela, me disse que o semblante de Vieira de Castro era característico de insa- nável doença ; mas que o vira jantar com in- sólito appetite. As noites, porém, eram veladas, sem intermittencia de repouso. Uma pessoa, que pernoitava em quarto contíguo, dissera ao snr. Mendes de Vasconcellos, meu informador, que Vieira de Castro, durante a noite, passeava no seu quarto, e a espaços fallava alto.
No principio de outubro recolheu a Loanda. No Mercantil do dia 3, lê-se esta local:
Chegada. — Chegou dos portos do Norte • a bor- do do Cambridge o exc.""^ snr. dr. José Cardoso Vieira de Castro.
Como o paquete que vinha para o reino es- tava a levar ancora, Vieira de Castro perdera duas noites a escrever a sua correspondência;
ro6 Correspondência epistolar
e, se bem me recordo, na ultima carta que es- creveu a seu mano António, lhe dizia que ás (5 da manhã tivera de ir á alfandega.
No dia 5 levantou-se, e, diz o Mercantil^ sentou-se á carteira a trabalhar. Acabava, por volta das onze da manhã, de sobrescriptar ao seu agente commercial em Cazengo., António Pereira Coutinho, o numero do Mercantil de 3 de outubro, quando pediu uma garrafa de agua de Seltz.
Passados instantes, chamou afílictivamente uma criada e queixou-se, apertando a cabeça entre as mãos, que sentia uma grande agonia. A criada correu em busca d'um negro, que fosse chamar medico, em quanto elle se desa- pertava com anelados gestos. Quando voltou ao quarto da cama, para onde Vieira de Cas- tro passara, encontrou-o pro- trado sobre o ta- pete contíguo do leito, d'onde havia resvalado no escabujar da angustia.
Os criados repozeram-o na cama.
Nunca mais teve luz nos olhos, nem cons- ciência da vida. A divina misericórdia cobriu o desgraçado desde aquelle instante. A lingua oscillava em contracções convulsas ; mas não articulava sons. O peito arquejava nos grandes arrancos que deviam em poucas dores desfazer uma compleição robustíssima. Depois, sobre- veio a modorra, rebelde ás violentas emborca-
Correspondência epistolar loj
çóes da quina. A's 9 horas da noite, José Car- doso Vieira de Castro expirou.
Quando o esquife conduzido pelos primeiros magistrados de Loanda, desceu á beira da co- va, Urbano de Castro, mancebo de elevado espirito e amantissimo d'aquella quebrada urna de lagrimas onde se afogara o maior talento da palavra em Portugal, apontando para o ca- dáver, fallou assim :
«Senhores! A' hora em que baixa e se some o astro do dia, extingue-se e cahe n'uma sepultura^ o meteoro, cuja luz admiramos : luz esplendida, luz amiga, sobre cuja peripheria não sei se alguma vez um disco de sombra perpassou ; porque me não applico a observar manchas, pontos opacos nas espheras, que alumiam o universo ; o que detém os meus olhos é a luz ; só a luz os attrahe.
aA'manhã reapparecerá brilhante no oriente o lu- minar divino : Vieira de Castro, vivacissima luz dos mundos do pensamento, essa está para sempre ex- tincta ! . . .
«Resplendeu na Europa, scintillou na America, appareceu na Africa. . . e apagou-se aqui!
«Arvore frondosa do Sinay da palavra democráti- ca, que levantou, possante, gigantesca, os seus ra- mos sobre as mais altas da prophetica montanha — cahiu !
lo8 Correspondência epistolar
«Do solo em que nascera, a tempestade arran- cou-a pelas raizes; — aqui a trouxe o vento ; está aqui \ — jaz morta !
aTeve a sua estação de flores; perfumaram-na todas as ovações, todas as victorias da arena das letras, todos os calorosos e phreneticos applausos; floriram nos seus braços as alegrias da vida.
«Depois. . . horrorosas decepções, desgraças tre- mendas foram os fructos amargos que pesaram nos seus ramos e a vergaram toda !
«Longe da pátria colnera o peregrino talento n'um mesmo dia a coroa, que o votava á gloria, e a coroa que o sagrava ao martyrio.
«E a arvore que sobre tantos estendera protecto- ra sombra, não encontrou quem a amparasse, quan- do o vendaval da adversidade veio açoutal-a e fe- ril-a; a quebrou e despedaçou.
«Abraçaram-se, senhores, n'aquelle cadáver, quando animado e com elle á sepultura descem abraçados, a gloria e o infortúnio.
aE' aquillo a riqueza, a sciencia, o talento, o po- derio, a gloria! — E' aquillo: é Vieira de Castro!
«São aquelles lábios, — leito, por onde corriam, fervendo, tumultuando, arrebatando, caudalosas as ondas da eloquência, — frios e cerrados agora, e para sempre emmudecidos : são aquelles braços, que o hálito do anjo da morte gelou, cruzados, hir- tos sobre o peito, apertando immoveis um coração parado: são aquellas mãos, brandindo hontem na tribuna e no comicio o gesto dominador, na guarda de todos os direitos, na resistência de todas as ty- rannias, na protecção a todos os fracos, na defesa de todos os opprimidos : — aquellas mãos traçando no livro, no pamphleto, no periódico, a derrota do
Correspondência epistolar log
futuro, — postas agora supplicantes para o céo, onde a sua alma pela porta por onde todos entram, pela porta dos perdoes entrou.
«Pois, senhores, áquelle — a quem sorriam todas as seducçóes da vida, a quem também todas as ex- cruciaçôes torturaram, demos-lhe n'esta hora todas as commiseraçõcs.
«Abre a terra o seu seio para receber o invólu- cro terreno de Vieira de Castro : é a pá do covei- ro, só ella — a final, — quem dá com uma camada de arêa, que para cima d'elle atira, tecto tranquillo áquelle corpo !
«Vieira de Castro !
«Livro de grandes lições, vae o armário da mor- te guardar-te ! Vieira de Castro !
«Descança — que era tempo — da tua incompor- tável lucta!
«No nosso espirito viverá o teu pela memoria e pela admiração ! O teu coração palpitará no nosso pela consternação e pela saudade !
«Os teus amigos, que aqui estão, dizem-te sollu- çantes o extremo — adeus ! Vieira de Castro !
«Recebe-lh'o no seio da gloria pura, da eterna fe- licidade, no seio de Deus.»
Sublime !
O apaixonado coração, que assim orvalhara de lagrimas o cadáver de Vieira de Castro, havia-lhe dado, em dia de seus annos, duas preciosas jarras do Japão.
Ijo Correspondência epistolar
Estas jarras, cheias de flores, estiveram três dias sobre a sepultura do seu dono, que as ha- via presado com amor de agradecido e amor da immensa belleza d'ellas.
Depois, retiradas de sobre a campa, vieram para Portugal, compradas no espolio do morto pelo snr. Pereira Coutinho, que m^as deu. Ainda traziam no bojo flores seccas, e entre estas dous formosos insectos, que lá haviam entrado por entre as rosas e lá morreram e hoje se con- servam com o lustro e frescor da vida.
Quando os colhi d'entre as flores murchas, com a mão tremente de supersticiosa commo- ção, vi que alguém que muito devia ao gene- roso espirito de Vieira de Castro, uma senhora a quem o consolador de infelizes dera lagrimas nos dias em que ella tinha a virtuosa coragem de as não pedir a alguém — se recordava d'uma promessa^ cujo cumprimento se lhe afigurava enviado de além-tumulo. Debaixo d^essa im- pressão, sahiram da alma, retranzida de sau- dades e de gratidão immorredoura, estas linhas :
A PROMESSA
Era por noite de agosto, ardente e balsâmica. O astro luminoso pompeava no occidente todo o seu explendido manto, e o rosmaninho e as plantas agrestes exhalavam o aroma acre das campinas em flor. Estávamos em pleno Minho: alli onde as rique-
Correspondência epistolar iil
zas da vegetação crescem e se reproduzem como que espontâneas, bafejadas pelo sopro bemdito do Senhor.
Era noite de festa. Na pequena aldeia de*** ou- viam-se os cantos festivos ; e a voz das aldeãs com- petia com as rabecas e os clarinetes.
Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria jorravam luz, e a porta da en- trada por onde se subia por larga escadaria de pe- dra, estava afestoada de rosas e hortênsias.
Confundido com o grupo dos cantores e festeiros que enchiam o largo terreiro da casa hospedeira que me agasalhava, assisti invisível á scena que vou descrever.
Seriam dez horas. Ao umbral da porta, vindo das salas, apontou uma dama e um cavalheiro. Pa- raram um pouco, e depois de relancearem a vista melancólica sobre aquelle ruidoso tumultuar, ella sentou-se n'uma cadeirinha baixa de encosto que es- tava no patim, elle recostou-se ao lado, no rebordo do ferro da varanda.
— Que formosa noite! — murmurou elle.
— Formosura que faz vibrar os nervos, e con- tristar as almas magoadas.
— E' verdade : mas como isto é bello ! Que sau- dades hei de ter d'estes momentos !
— Saudades ? ai ! —volveu a senhora — quem sa- be se as alegrias que o esperam não riscarão até da sua memoria a lembrança de dous corações que aqui ficam a choral-o... Mas — continuou depois d*um momento — choral-o, porque? Lamenta-se acaso a águia quando, fendendo os espaços, se li- bra a outros hemispherios, audaz e poderosa pela sua força? Não: seguimol-a até a perder de vista e
JI2 Correspondência epistolar
ficam-nos gravados na memoria os rasgos admirá- veis das suas azas. Assim, aqui ficaremos esperan- do o echo das suas glorias !
— Esquecêl-os, meus queridos amigos ! Oh ! fe- lizmente sahimos dos salões. Cobre nos a abobada celeste. Creia-me — exclamou alteando a voz — só levo saudades d'estc cantinho de Portugal.
— Hoje, pôde ser. . . As suas impressões são vi- vas, mas pouco duradouras. De mais, sabe muito bem que sou visionaria. Visionaria como todas as creaturas a quem a geada do infortúnio queimou os rebentões da esperança. Imaginei que não o torna- va a ver aqui.
— O que ? ! Prevê a minha morte ?
— Ao contrario: o seu caminho não me negreja ; a estrada que segue é a dos triumphadores. E' por isso mesmo que a descrença me trabalha o animo.
— Que injustiça ! Poderei eu, vivendo d'aqui a cem annos, olvidal-a, minha santa amiga? Deixar de pensar em si e no homem por quem sinto uma espécie de culto que chega á adoração?
— Obrigada : por elle, e por mim. Obrigada. Es- pero então que estas flores já murchas — e apon- tou para as grinaldas que enramavam a escada — refloresçam um dia, festejando a sua vinda.
— Não espere ; conte commigo. Será esta a pri- meira casa onde hei de descançar na minha volta á pátria ; a menos que por lá não deixe o corpo, á sombra dos cajueiros e das mangavas. . . E, se fi- car, através do oceano, mesmo depois de morto, hei de dar o ultimo adeus ás duas creaturas que mais amo e respeito no mundo. Juro lhe isto, por aquella estrella que me ha de alumiar as insomnias, e as horas meditativas de bordo.
Correspondência epistolar ii3
— Oxalá que sejam todas risonhas como o ama- nhecer d'um bello dia. . . Também eu hei de pedir áquella estrella noticias suas. Fallar-lhe-hei de si, meu querido irmão ; contar-lhe-hei os meus dissa- bores, procurando nos echos longinquos das flores- tas, o murmúrio da sua voz.
A chegada de varias pessoas interrompeu-os.
D'ahi a momentos este homem beijava a mão da senhora com quem tivera o colloquio precedente, e abraçava soluçante aquelle a quem no seu enthu- siastico aífecto dava o nome de irmão.
Partiu. Volvidos poucos mezes voltou a Portu- gal; mas, como ella bem prophetisára, as brizas da terra de Santa Cruz abafaram as reminiscências do passado. Na aldeia de . . . as florinhas não mais flo- resceram para festejar a vinda do ingrato, mas as almas que alli viviam regosijavam-se, sentiam o doce prazer de o crer venturoso. Um dia em que se encontraram, e elle parecia constrangido, ella, que o prezava sempre como um companheiro e consola- dor nos dias afflictivos, estendeu-lhe serenamente a mão, dizendo: Fez bem; o infortúnio repelle.
De caminho já para as nossas praias, escrevia elle aos solitários do Minho: «Sou feliz, meus ami- gos ! Sou feliz, meus queridos irmãos ! Tão feliz que não acho expressões que possa pintar-vos o cumulo da minha felicidade. A ventura chega a embrutecer ! Achei um anjo ! . . . »
Este anjo devia mais tarde abeiral-o do abysmo e mergulhal-o no sepulchro... E morreu: lá ao longe, sósinho, triste, desalentado, e sem mão pie- dosa que lhe cerrasse as pálpebras doridas das la- grimas. Lá jaz o corpo, debaixo dos cajueiros e das mangavas ! . . .
VOL. I 8
114 Correspondência epistolar
Um anno depois, alguém que sabia quanto as memorias do infeliz eram apreciadas pelas duas al- mas que, vencendo o antagonismo publico, se po- zeram ao seu lado nos dias da prova e tribulação, trouxe-lhes d'além-mar umas jarras grandes do Ja- pão que tinham pertencido ao desditoso, e ador- nado a sua sepultura em dia de finados.
Depois de desencaixotadas, receberam-nas os dous com o pranto pungitivo d'uma sincera angus- tia. De repente soltaram um grito olhando-se com religioso terror. Dentro d'uma das jarras estavam juntos dous insectos grandes : um todo bronzeado e formosissimo ; o outro verde esmeralda, e que tem o nome de Louva-a-Deus.
Então, ella, cahiu de joelhos, pôz as mãos, e bradou com a voz tremula de commoção: Cum- priste a promessa ! Não nos esqueceste nem mesmo das portas da eternidade. Aqui está o adeus pro- mettido ás duas almas que mais te quizeram e amaram na terra.
Este homem que morreu moço, e era fadado a altos destinos, chamou-se no mundo José Cardoso Vieira de Castro.
Os dous amigos, que elle deixou ligados á sua memoria, fieis áquellas cinzas adoradas, continuam a amal-o pelo espirito, commungando com a sua alma.
CARTAS
DE
JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO
ESCRIPTAS
NO CÁRCERE E NO DEGREDO
CARTAS
Meu querido Camillo,
Eu tenho querido todos os dias beijar-te a mão que tem espremido bálsamos celestiaes sobre as minhas dores. Leio sempre as tuas cartas. Quem te disse o que eu não disse a ninguém ? Como adi- vinhou o teu coração que eu não tive nunca uma hora de felicidade ? A tua ultima carta é um enor- me thesouro que tu me deste. Adivinhas-me intei- ro, e julgas bem os homens, de que eu não posso queixar-me desde que me esmagou o pé que eu trou- xe trez annos nos lábios.
Esta desgraça trouxe-me grandes males. Sinto-me a cahir de todo em crenças de religião para o que ha de mais estúpido : o fatalismo. Vou-te dizendo isto, porque eu espero ouvir- te para tomar uma de- cisão. Pensei em ordenar-me. Comecei a pensar n'isto para me defender contra a loucura que ás ve- zes queria saltar por sobre as tuas cartas.
Hoje penso que Deus, se Elle assiste a isto, se- gurou na minha consciência a força do meu direito.
jj8 Correspondência epistolar
Mas eu queria ter a fé immensa para amparado n'ella poder servir ainda a almas infelizes a gran- de desventura da minha. Meu querido amigo, pen- sa um conselho para este meu pobre coração que se te abre em tamanha angustia, e que deu as suas primeiras lagrimas nobres aos abalos profundos do destino.
Adeus. Eu beijo as mãos da snr.^ D. Anna, mi- nha santa e generosa amiga.
Abraço-te do coração.
Teu
Vieira de Castro,
Meu mui querido Camillo.
Li com intervallos a tua carta. Não me cabia nos pulmões a angustia suavíssima que ella me trazia. Li-a respirando alto. E interrompi-mc uma vez com medo de uma vertigem. Ai, meu querido amigo, se podesse ter-te aqui ao meu lado n'este momento, abraçava-me febrilmente ao teu peito, e punha no teu hombro estas lagrimas que me obrigam também a interromper esta escripta. Sem o saber, começo esta por satisfazer a tua ultima vontade. Aqui me tens a chorar.
Beijo o primeiro periodo da tua carta. Completa- mente me avalias.
A ti só digo uma cousa que ninguém sabe, e de qne ninguém me desvia. No tribunal direi só : «Ma- tei aquella senhora. Matei-a n'uma grande catastro- phe, quando era preciso atravessar uma onda com o cadáver d'ella, ou com o meu. Amava-a, e por
Correspondência epistolar iig
isso na repartição da desgraça dei-lhe o quinhão menor : a morte, que é um instante ; e reservei pa- ra mim a dor que é eternidade, como disse Gres- set. A demência d'essa catastrophe e d'essa onda, não dou á sociedade o direito de m'a pedir. O seu tumulo e a sua memoria são invioláveis, e perten- cem-me. O orgulho do meu crime é o orgulho do meu silencio. Quando eu disse no primeiro dia que tinha matado por causa de adultério, estava alluci- nado. Sou um homicida que espera tranquillamente a sua condemnação.» Ahi tens, meu filho, o que direi. Agora a ti o mais que direi só é uma cousa : que eu era o noivo de três annos mais desfeito em carinhos, e o marido mais digno pelo conselho e pelo exemplo.
Adivinhaste bem que não podia dizer mais nada. Olha que tu não podes dizer a ninguém as minhas tenções no tribunal. N'isso só olho para a eterni- dade, se a ha. Quando a matei, ajoelhei ao lado do leito, orei por ella, beijei-lhe muito a mão direita, ensopei-lh'a de lagrimas, e disse a Deus que eu por mim lhe perdoava. Seria incompleto esse perdão se me não pozesse agora entre o seu tumulo e a sociedade. E' o que cumpro.
Vi por entre as minhas lagrimas o plano do teu livro. Ensina-me tu as palavras com que te diga esta gratidão da minha alma. Meu querido Camillo, que destino é este nosso ?
E os teus sonhos ? E a recordação dos meus al- moços com essa querida metade das nossas mais doridas melancolias? Eu não posso ler nem recor- dar isto sem suífocar.
Adeus, meu querido Camillo.
De noite encosto-me ás grades, e peço a Deus
120 Correspondência epistolar
que alumie com as suas estrellas os meus queridos hospedes de Seide. Conta-me, se tiveres melhor saú- de, e lembrem-se sempre do amigo de ha quatro annos que queria poder ahi procurar no terraço as lagrimas que lá deixou uma noite, a ultima do nosso passado.
Pede a Deus a felicidade de vossos filhos o
velho amigo do coração
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo,
Abri a tua carta de hoje com a chicara do meu almoço diante de mim. Pois primeiro a servi a ella das minhas lagrimas !
Não sei como te pague tanto, meu singular ami- go e mestre ! Se fosse na minha mocidade, que or- gulhos se me não alevantariam doestes teus sublimes confortos ! Mas eu sei e sinto que me não ficaram dentro de mim as cinzas de orgulho nenhum. Agora só a minha alma se eleva, e a minha razão se aífir- ma e segura nas raizes com que tu a prendes no fundo da cova immensa e generosa do teu immenso peito ! Eu te agradeço como se tu me desses a luz interior.
Ninguém me desconvenceria hoje de que tu en- tendes melhor a minha alma do que eu próprio. Vejo-me melhor, e mais verdadeiro, e mais serena- mente n'esta exacta photographia das tuas pinturas, do que o meu espirito, atordoado pelas dores do coração, me vê a mim próprio. Tu, que já estiveste
Correspondência epistolar 121
preso, imagina o que eu terei soffrido ; mas acres- centa ao meu martyrio esta dor de recordar em cada echo e em cada luz uma lembrança pungente do passado ! Depois mal posso ler. Os livros sé- rios conservam-me horas pasmado nas suas paginas seccas e estéreis. Os livros dos desgraçados acor- dam-me o coração para m'o estalarem. O Altmeyer parece-me fulminado de raio ao pé das tuas santas promessas e esperanças. Tomei o outro dia um dos volumes do Byron, pensando que poderia com elle. Comecei a reler na primeira pagina o Manfredo, e dilatava-se-me o coração ao pedido d'aquelle grande desventurado que queria ... o esquecimento ; mas depois as imprecações dos espíritos evocados fize- ram-me terror •, salto todas as paginas e procurei aturdir a minha feroz imaginação com a leitura do que se lhe seguia. Era o Marino Faliero ! Imagina se eu poderia passar da terceira pagina. Que infer- nos ignorados deve saborear em nós o Satanaz in- visível dos encarcerados !
Eu deixar-me-hei levar da tua mão e do teu con- selho, meu querido Camillo.
Espero o teu livro como o céo do exilio para a minha alma.
Só peço a Deus que me reserve no mais puro do meu coração lagrimas dignas d'elle. Se tu quizeres que te empreste as tuas cartas, mando-t'as, porque ha n'ellas umas santas palavras que eu quereria na minha sepultura.
Adeus. Beija por mim os teus filhos.
Teu Vieira de Castro,
121 Correspondência epistolar
Meu querido Camillo,
Na tua contristadora carta dizes : Tenho eu a vaidade de crer que coopero em tua alma para que te desças d'essa opinião. Mais do que isso. Se a minha alma entender que lhe cumpre descer, serás mais do que cooperante : por ti o farei.
Ha uma confissão n'esta tua carta que me con- turba e fulmina. E' quando me dizes que as minhas desgraças teem posto em perigo a tua razão. A desventura faz-nos idiotas. Eu não sei as palavras da minha gratidão diante de ti. O que sei é o que faria depois da tua desgraça, filha da minha : suici- dava-me com uma bala que tenho alli.
Que é isto de me fallarem nos meus inimigos a quem daria gosto a minha condemnação?
Eu não tenho inimigos. Ha homens e mulheres que me detestam e que me odeiam, mas esses ho- mens não tiveram nunca uma nesga do meu cora- ção, nem um serviço do meu braço. Muitos feriu-os o meu insulto, a todos magoou mais ou menos a singularidade do meu destino; detestam-me, é na- tural. Mas o meu inimigo morreu, e se ha uma ou- tra vida além d'esta elle estará assistindo agora aos supplicios que me deixou. Esse é que foi o meu inimigo, porque lhe trouxe três annos os pés sobre o meu peito e sobre os meus lábios, porque o tra- zia ao collo a correr pelas salas, porque o levava sempre pela minha mão á mesa das nossas refeições, porque ainda oito dias antes de morrer o levava eu para a ponte d' Algés dando-lhe beijos pelo caminho e ameigando-a como a noiva, e esse inimigo quei- mou-me innocente e puro como eu sinto que era e
Correspondência epistolar i23
fui sempre para elle ! Se querem que não dê gosto aos meus inimigos, queiram também a minha con- demnação. Quanto mais infeliz eu for menos tran- quillo poderá sobreviver no outro mundo o inimigo que me matou.
Eu não penso nos meus inimigos da terra. Quem não tem direito de me offender e de me querer mal?
Que direito tenho eu de me queixar de qualquer, se todas as minhas virtudes, todos os meus afagos, todos roubei a todos por amor d'um que m'os pisou e atirou com elles ? Não te aíílijas. Se eu fosse enor- memente desgraçado, com tamanha luz que tenho na consciência, começava a crer que ou Deus não existia, ou presidia á minha sorte. Estes grandes brios da desgraça aprendi-os com bom mestre. Vê se te recordas em que outro cárcere se me enta- lharam na alma estas lições.
Dizem que veio muito dinheiro do Rio para o meu accusador. Deus é bom ! Se me dissessem que a mãi d'ella endoudecera ou morrera. Deus sabe o que me succederia. Sorrio para Deus. A quem aquelle dinheiro pôde fazer mal é ao meu inimigo ; a mim não.
Adeus. Beijo-te nas cândidas e socegadas phy- sionomias dos teus filhinhos.
Teu
Vieira de Castro.
124 Correspondência epistolar
Meu Jilho.
Não sei se te cega a adoração por mim. E' cer- to porém que eu defenderia o meu crime por modo estranho a todo o mundo, mas também sei que este paiz não dava jurados á minha palavra, e que, afora tu, ninguém quereria ser meu cliente.
O meu crime defende-se pelos dous motivos que o inspiraram : o amor apunhalado em mim, e o res- peito ultimo por mim prestado á mão homicida d'esse amor. Esta é que é a base ! Em mim ; por- que em mim esta é que é a verdade ! Eu defenderia o marido que matasse, se esse marido tivesse mor- to : por ter amado ; e por haver salvado o único respeito compativel com a memoria da metade do seu nome !
Esta a base da defeza.
Agora, como provar ?
Com a premeditação.
A premeditação é a eloquência, é a dignidade, é a santificação d'estes crimes !
Do marido que mata allucinado não sei o que pensou nem o que sentiu. Do que premeditou, sei que pensou em deixar puro aquelle respeito, e sei que sentiu as torturas d'aquelle amor incendiado com que lhe fizeram chamma, no coração !
Espero, agora mais que nunca, com o maior al- voroço o teu opúsculo. Eu imagino o que será !
Tenho duas cartas tuas.
Mando-te um folhetim do Vidal. (Nota 2.*). Mes- mo assim é dos que teem mais abertamente defen- dido esta causa. Que época ! Ainda nenhum rapaz defendeu isto !
Correspondência epistolar i25
Adeus, meu filho. Eu lembro-me com muito amor das tuas crianças. Beija-as por mim. Os meus respeitos e aífectos á mãi. Abraço-te.
Teu
José.
Meu querido.
Esteve hontem commigo o Julío. Prometti-lhe perguntar-te se leste o folhetim que elle publicou ha dous mezes a meu respeito. Se o não leste, mando-t'o. (Nota 3.^).
Eu devo muita gratidão a este rapaz. Raro me visitava d' antes, e poz o seu peito por mim n'esta grande desgraça. Quem primeiro lh'o varou foi al- gum dos meus amigos Íntimos aterrando-o com a imprudência de ter oífendido, com o orvalho de la- grimas que me dera, o ferro em braza dos ódios que me devem os outros.
Eu estou frio e indifferente. Ha uma cousa que se me não desencrava do cérebro. Já t'a disse. Quando penso no extremo com que beijava a mão que me matou, sinto-me sem direitos para condem- nar nenhuma outra.
Sinto-me completamente frio e indifferente para tudo o que é d'esta sociedade de veneno e lama. Por tal modo me sinto que nem desprezo lhes posso dar. Quando me faliam d'um miserável, quasi que o lastimo como a um que nasceu aleijado, ou a ou- tro que era são e se damnou. Isto é uma felicidade, porque é a independência da razão e do braço nos dias que Deus me destinar.
120 Correspondência epistolar
Adeus, meu querido Gamilio. Hoje não tive carta tua. Gomo estás? Eu escrevi- te hontem.
Os meus respeitos e saudades á nossa boa ami- ga, e beijos aos pequerruchos.
Abraço-te.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido.
Escrevo-te á pressa, mas não quero deixar de fa- zel-o hoje para que esta te encontre ainda em Sei- de, e se não extravie. Recebi a carta em que me dizias ir para Villa do Conde.
Eu vou passando. Tenho melancolias profundís- simas, e ás vezes desejava morrer sem dores. Nas minhas leituras pousa-me nas paginas incessante- mente a luz triste e desamparada como eu, de mui- tos dias do passado. Este mal nasceu incurável. Não podia deixar de ser.
Aqui não vem ninguém. Os raros que raro ap- parecem penso que se desobrigam forçadamente. Eu também já ouço com repugnância os passos de quem me procura.
A tudo isso faço duas excepções : o dr. Mattos, e o Pereira de Miranda, de quem me falias hoje. E* uma bella alma, e uma organisação anachronica n'este periodo.
Disseram-me hoje n'uma carta que aqui, e no Rio, se fazia correr o boato de que eu não queria defender-me ; que eu não estava seguro da minha justiça!
Correspondência epistolar 12']
Que humanidade !
Não me dóe tanto a cerração, calculada, ou sin- cera, do entendimento ao meu justo intuito.
O que me dóe é que não creiam que, se eu ti- vesse duvidas, eu próprio as expiaria logo confes- sando-as !
Mais. Quem me dera que podessem convencer- me de que matei uma alma pura!
Eu não teria sido nunca deshonrado, e iria pelo suicidio procurar a oífendida!
Chega agora o Reis. Um homem que o visitou disse-lhe que corria lá fora que eu requerera inven- tario, e que dava tudo a elle. E d'ahi, perguntei eu, que dizem sobre isso?
Resposta do homem:
cQue está e que fica muito em baixo!»
Deus existe, se não mentem estas minhas doces alegrias.
Dize á nossa amiga que tomara eu que me des- sem o degredo!
O maior mal dos meus inimigos é não terem nada contra a minha coragem ! O seu maior bem é estar em mim tudo contra a alegria da minha alma !
Adeus. Abraço-vos.
Teu
fieira de Castro.
Meu Camillo.
Recebi a tua ultima carta. Espero em Deus que te enganarás mais uma vez com os teus diagnósti- cos.
128 Correspondência epistolar
Se sentires melhoras, manda-m'o dizer, que me dás alegria.
O escuro da minha alma é pungentissimo. Tenho tido más noites. Porém conservo a razão e a saú- de. Assusta-me ás vezes a idéa de andar expro- priando com essas riquezas algum maior desgra- çado.
Adeus. Lembra-me muito a essas meigas crian- ças.
Teu
'Vieira de Castro,
€Meu querido amigo.
Tenho commigo a tua ultima carta. São as tuas palavras firmes e convencidas que me tiram por ve- zes d'esta atonia em que me sinto, paralysaçao de todas as faculdades e sensações.
Não me falles da tua saúde. Isso, e a maior ener- gia da tua letra, animam-me a suppôr que vaes me- lhor.
Entra o Santos Nazareth, moço de grandes qua- lidades e aptidões, que em Lisboa conhecerás um dia. Abraço-te.
Teu
T>ieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Escrevo-te em grande agitação nervosa. Quero agradecer-te as tuas cartas de ho)e, e pedir-te que
Correspondência epistolar i2g
me informes do teu estado ao passo que fores me- lhorando, como espero, e como ardentemente de- sejo no fundo do meu coração e da minha alma.
A tua carta das Caldas corta-me o coração. Eu só sei o que te devo, e por isso me dilacera o teu mal-estar.
Nas tuas cartas está já enthesourado o único brazão e fortuna que hei de dar aos meus sobri- nhos. Verão por ellas, quando forem homens, as dores que me pungiram, e os confortos que me salvaram.
Adeus. Se eu podesse saber todos os dias de ti!
Abraço-te todo no meu peito.
Teu
'Vieira de Castro.
Meu querido Camillo,
O Gresset citava-t'o eu porque de certo conhe- cias a phrase que fora dita por elle, mas que é de todos os desgraçados que antes e depois d'elle ti- veram de a entender.
Para o dia do julgamento já estava riscado.
Aíflige-me pensar que tenho pesado nas^dôres do teu bel lo coração, e fujo agora de provocar as tuas lagrimas com as minhas sensações da tua ul- tima carta. Atormenta-me pensar nas enfermidades que te torturam, e consola-me com as tuas melho- ras quando as tiveres. Peço á nossa querida amiga que me escreva por ti sempre que te possa custar isso.
Fizeste bem, ou antes não fizeste mal em dizer
VOL. I 9
i3o Correspondência epistolar
que eu não tenho remorsos nenhuns. Sou comple- tamente frio a todo o conceito que possam fazer de mim á excepção da mãi d'aquella senhora, mas a verdade é que eu não sobrevivia ao primeiro rebate de arrependimento. Quem pôde fazer o que eu fiz não pôde arrepender-se.
Tentarei fazer-tc a vontade. Quero traduzir o li- vro do Rapet, Manuel de morale et economie politi- que, que teve o premio de 10:000 fr. da academia das sciencias de Paris. Supponho-o um dos livros mais úteis d'este século. E' a sciencia e a moral romantisadas n'um conto amenissimo e santo. Em mim fez-me a impressão de um Evangelho. Se eu o traduzisse, era para o dar de graça ás classes po- bres, se o governo ou alguém quizesse publical-o. Veremos. A minha desgraça faz-me ver uma ironia pungente em qualquer tenção do meu espirito ulte- rior a ella.
Adeus. Tenho-te commigo. Se passares melhor, digam-me. Lembrem-se sempre de mim. Beijo os vossos filhinhos.
Teu
Vieira de Castro,
oMeu querido Camillo.
Tenho mais duas cartas tuas, consoladoras como todas as outras.
Tenho tido todos os dias ultimamente razão de amargura. Hoje mando ao António um jornal dos Arcos, em que me insultam, e lhe digo te remetta. O C. Lobo, que m'o mandou, diz que é de padres. Parece.
Correspondência epistolar i3i
Eu vou na mesma. Lembro-me muito do Ermo, penso n'elle, e de certo para alli irei logo, se me derem a liberdade, que não peço, e que tão pesada me será com a prisão. O Ermo chama me por muitos motivos. D'alli trouxe todo o coração e in* telligencia que dei ao mundo. Alli o tenho quasi de todo isento de memorias esmagadoras. Quasi, por- que lá passei ainda umas vinte e quatro horas no fim de 67. Isto faz-me profunda angustia. Tenciono porém dormir nas prim.eiras noites em casa d'aquelle santo abbade, se não poder logo habituar-me cá em baixo.
Não posso demorar me em Lisboa ou no Porto. Não poderei pois estar comvosco aqui. Facilmente comprehendes a razão d'esta impossibilidade. E é só uma: o nojo invencível d'esta sociedade, e o de- sejo de salvar puros os meus brios, a minha cons- ciência, e as minhas melancolias, na solidão po- voada das arvores que meu pai plantou para esta pouca de sombra que me é precisa e que me bas- ta. Tenho uns poucos de livros bons. Sei, e tem- m'o dito Deus em todas estas longas noites, que serei alli tão feliz quanto posso sêl-o.
Quando se fizerem lá mais negras as minhas nu- vens, confortar-me-hei antegostando a delicia das ferias que tu me darás em Seide, e alH também. N'isto penso com suavissimo contentamento.
Digo-te isto para veres que tinhas e não tinhas razão n'um ponto da tua ultima carta.
Adeus.
Abraço-te.
Teu
Vieira de Castro,
j32 Correspondência epistolar
Meu Camillo,
Estava hoje para escrever-te, e para Seide á nossa querida amiga, assustado e triste do teu silencio.
Deus te dê as melhoras todas !
Quero socegar-te a meu respeito. Penso que já te disse n'uma carta que os meus grandes medos eram que minha sogra endoudecesse.
Não sendo assim, quaesquer que sejam os ódios desencadeados contra mim, esses ódios dão-me for- ça e não provocam outros. Que mãi se ha de pôr do lado do homem que lhe matou uma filha, seja qual for a razão d'esse homem ? Eu mesmo não veria a mãi por detraz da heroina, se esta podesse existir.
Se eu pensasse na justiça dos homens, poderia ver o começo d'ella na recusa de todos os advoga- dos honestos ao procurador d'aquella boa senhora.
Em fim o que eu sinto é que devo ter força para esmagar as consequências torpes do meu infortúnio ; e, se Deus me dér vida, espero que me não falta- rão também nem a consciência nem a razão.
Já hoje encommendei o livro de Proudhon, que não havia em livreiro algum.
E' justíssima a tua veneração por esse espirito.
Eu tenho lido o Altmeyer, por pensar que a philosophia da historia me insulasse de mim pró- prio. Encontro n'elle um vasio immenso, e conden- sam-se mais as minhas duvidas na sua débil ex- posição.
Mandei hoje buscar quatro livros teus que me eram desconhecidos. Passo as noites com elles.
Tu recebeste a minha ultima carta que mandei para Seide?
Correspondência epistolar i33
E a nossa querida amiga recebeu a minha res- posta á sua ultima carta ?
Quando quer a snr.^ D. Anna ir ao Ermo ? Já ? Com que alvoroço me vem essa noticia ! Tu dirás se alguma cousa resolverem n'esse sentido, porque eu quero preparar com alguma ordem aquellas so- lidões para recebel-os.
Beijo-lhe as mãos á minha querida amiga, e abraço-te.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Das Caldas recebi, com a de hoje, quatro cartas tuas. Na ultima davas-me notáveis melhoras, e na penúltima aconselhavas-me o livro de Proudhon. Não recebi carta alguma de Seide com retrato. Sup- ponho pois comtigo que me teem subtrahido cartas além d'essa. Custa-me perdoar esse infame roubo, porque o é da muita paz que me deixa á minha alma a tua escripta.
O retrato muitas vezes o tenho desejado, e passo momentos todos os dias a contemplar-te n'outro que tem aqui na cadêa um moço infeliz chamado Reis, que te conhece e se accusa de não ter seguido os bons conselhos que em tempo lhe deste. (Nota 4.^). Eu tenciono um dia tirar um exemplar im- presso d'estas tuas cartas para dar n'ellas a meus sobrinhos o brazao das minhas penas e das minhas consolações. E' também um roubo a elles o que
i34 Correspondência epistolar
commetLem os miseráveis violadores da nossa coi respondencia.
Fazem-me profunda angustia os teus padecimen- tos. Tenho porém mais esperanças do que tu, e peço a Deus que sejam também os sustos da tua imaginação, c o cansaço da tua justa impaciência, que te escurecem mais o teu estado.
Quando te affligir escrever-me, já pedi á nossa querida e boa amiga que o fizesse por ti. Eu não posse hoje pensar em que tu me faltasses no mun- do. Foi preciso esse receio para eu sentir que ha- via ainda na terra uma sensibilidade que me pren- dia fora da minha familia. Sem ti na minha exis- tência, apavorar-me-hia o vácuo immenso dos meus olhos e da minha alma. Eu espero que terás saú- de, meu adorável amigo.
Os teus filhos! A esses darei eu sempre tudo, o meu tudo que será ? menos aquillo que possa magoal-os, o contagio da minha desgraça. Ainda os veremos crescer. Como com elles crescerão talvez as nossas agonias, é possivel que a vida nos não fuja.
Eu amo-te e venero-te.
Teu
Vieira de Castro.
Meu Camillo.
Tenho commigo o teu retrato, que todos os dias verei.
Agradeço t'o immensamente.
Sorri da tua innoccntc phantasia acerca dos ho-
Correspondência epistolar lòb
mens do jantar. Mais me vale o teu sonho, do que valeria a vontade real da maior parte d'elles.
Não tenho mais tempo hoje.
Abraço-te, e sou sempre
o teu velho
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
E' a primeira vez que escrevo de noite. E' que eu nunca me senti tão feliz depois que entrei na cadêa.
Eu te conto. No dia em que me entreguei á po- licia disse para o António, ao deixar a minha casa : «Não quero mais ver o mínimo dos objectos que ficam aqui. Todas as jóias e vestidos da senhora que morreu, cerra tudo e manda para o Rio de Janeiro.» Ao cabo de lo dias elle fez leilão da mo- bília, e foi a juízo assignar declaração competente. Resolveu não mandar as jóias, porque eu tinha di- vidas de réis 2:bzo^ooo contrahidas em 1868 depois da eleição da Maia, quando viemos para Lisboa com trens e cavai los. Mandar as jóias era fraudar os meus credores, que não tinham outra garantia. As dividas eram do casal, e não tinham servido para comprar um papel, nem um palmo de terra. Fez bem, e n'esse ponto resolvi eu o seguinte. Feito o inventario de que mandei separar duas partes, a do Rio entrega-se inteira ; da minha pagam-se as divi- das de ambos, e o resto, se o houver, é para asylos. Vem a ponto dizer-te que foi logo ordem para o
i36 Correspondência epistolar
Rio para desistir dos meus direitos á metade da le- gitima paterna da fallecida, no inventario que alli corre, e ordem de entregar as prestações do monte- pio recebidas pelo meu procurador desde a morte de meu bom sogro, as quaes não tinham vindo por causa do cambio. N'este ultimo paquete chegou a noticia do meu bello amigo Albino de Oliveira Gui- marães dando-me parte de ter feito a desistência. (Nota 5.^.
Ora tudo isto era magnifico, se não encalhasse na minha ignorância da jurisprudência, e creio que dos sábios que vivem commigo, e a quem isto era familiar.
Apparece na Correspondência de T^ortugal, no ultimo numero, insinuação de ladrão contra o meu adorável António por ter feito o leilão!
Tive um susto atroz quando suppuz que elle po- dia ser preso; fiquei contentíssimo quando ha pou- co me disseram que as culpas se podem desviar sobre mim.
Mas soube mais o seguinte : eu era casado por carta de metade ; tenho pois de dar ao inventario a minha quinta do Ermo, e dizem até que a coroa ofiferecida no Brazil, o que te repito a ti por ter graça !
Creio que valerá á pobre choupaninha a sua própria pobreza. Como as pedras preciosas pesarão mais do que ella, com cila ficarei talvez.
E ahi tens porque nunca me senti tão feliz : por um modo, desapressado da angustiosa espectativa de ver preso este anjo do António; por outro, a gloria immensa de me ver empurrado para a ex- trema indigência pela família que eu adorei!
Isto é o que me salva ! Nunca me senti tão se-
Correspondência epistolar i3i
guro de mim, tão certo de que a razão me não fu- girá jamais !
Para serem completos os meus sonhos devia o jury condemnar-me. O degredo, e uma banca de advogado em Loanda, seriam a satisfação inteira do meu orgulho, do único pobre orgulho que eu posso ter, que é o de me mostrar bem assim a eU lay se por ventura para lá do tumulo se sobrevive !
O António está aqui. Brevemente conto man- dar-te publicadas as cartas que elle vai dirigir á imprensa sobre isto, que não podia deixar-se pas- sar em silencio.
Trouxe-me uma noticia do Porto. O Jalles foi interrogar minha mãi sobre calumnias infames que te são conhecidas. Ella respondeu que se podesse estremar algum dos filhos pela .obediência e pela dedicação d'elle, era eu.
Levantou-se elle dizendo que em tal caso não era preciso fa\er auto! Este só era preciso se eu fosse o infame da maledicência publica.
Estou livre de ter um cancro na lingua, porque de nenhum modo me estimulam estes scelerados a cuspir-lhes, se os encontrar ainda.
Meu querido, has de estranhar a linguagem d'esta carta: é que eu nunca tive como hoje a cer- teza de não endoudecer. A pobreza com a máxima honra, e estas elevações que se me levantam, não da cabeça, mas da consciência, fazem-me tão feliz quanto eu posso scl-o !
Devia-te a ti, meu querido Gamillo, esta pri- meira expansão do meu primeiro jubilo de encarce- rado.
Recebi hoje a tua carta. E' nova reliquia para juntar ás outras que já tenho.
i38 Correspondência epistolar
Peço-te que trates bem em Seide as tuas melho- ras. Não abuses d'ellas. A tua letra denuncia-me a debilidade da tua vista. Ha dias o final de uma carta destacava salientemente do resto: vinha, como que espreitando, a letra, do mesmo modo que tu certamente espreitarias para escrevel-a. Não traba- lhes em quanto não estiveres bom.
Agradece por mim á nOssa querida amiga. Pa- ga-me bem o Jorge. Eu tenho o rostosinho d'essa criança pintado na memoria. Estou a vêl-o com a boquinha ligeiramente aberta, e os beicinhos esten- didos, a mirar-me muito serio, e tranquillamente.
Continuam as , minhas alegrias. Vou eu mesmo requerer o inventario, e dar o meu Ermosinho a elle.
A carta do António penso que te agradará. E' a historia do facto, provocada pela injuria. Resolvi porém pagar eu só as dividas.
Recebi a tua de hoje. Cá vai para o meu co- fresinho aonde as tenho todas. Hei de lêl-a pri- meiro ao Júlio, que vem cá hoje comer do meu caldo.
Estou bem. Abraço-te e beijo-te. Beijo os inno- centinhos todos, e a mão da mai.
Teu
José.
Correspondência epistolar i3g
Meu querido Camillo.
Tive mais dias de immensa melancolia. Deus queira que não voltem muitas vezes assim! Penso que foram uma reacção áquella tempestade d'odios em que te escrevi a ultima carta. Sinto que será eterna a minha immensa tristeza. Não penso no dia do meu julgamento, nem sei quando será. Por isso te não fallei n'elle. Crê na pureza da verdade com que te digo que peço a Deus ferventemente a minha condemnação. Não me julgues mal; eu te digo porque a quero. No dia em que me absolves- sem, fariam de rnim uma existência insanavelmente triste. A minha condemnação seria o pedestal eter- no da minha consciência, a firmeza do meu direito, a serenidade do meu sorriso perante Deus e a im- mortalidade ! Se me absolvessem era Deus que me fugia com o premio das minhas agonias. Depois, eu tenho ás vezes umas visões translúcidas que me sorriem das nuvens. Quanto mais eu soífrer aqui, mais sentirá ella ao lado de Deus, para onde eu creio que vão todas as almas, e as peccadoras pri- meiro, que eu não merecia a sua culpa! Se ha al- guma mulher que no outro mundo renasça orgu- lhosa do homem que deixou na terra, essa deve ser a que, depois de ter vivido, veio a morrer ás mãos do seu amor!
Esta visão salvou-me hontem. De mais: porque modo influirá ainda na fatalidade do meu destino a minha absolvição?
Oh ! crê, tu : não sabes com que fervores eu peço a Deus a distincção de uma pena injusta, e com quantos sorrisos de felicidade eu iria advogar
140 CotTespondencia epistolar
para pobres n'uma banca de Loanda! Tenho amei- gado tanto com esta esperança estas minhas noites eternas que seria quasi selvageria despedaçarem- m'a!
Ainda uma outra confidencia. Eu devo tudo a ti, meu querido amigo. Tu sabes qual é o único sonho que eu tenho? Eu t'o digo. E' que ainda antes de eu morrer, aquella senhora do Rio seja obrigada pela sua consciência, e pela voz d'além-tumulo de sua filha morta, a chamar-me, como me chamou sempre por mais de três annos: o seu querido Jilhol Eu quero, antes de morrer, o amor d'ella cheio de lagrimas, e a amizade de seus irmãos cheia de justiça ! Sei que hei de ter tudo ; o meu advogado fallará do céo.
Mas para isso o desterro era um bom auxiliar. Faria falta essa luz ao pé das outras que mais tarde ou mais cedo, accesas pela mão invisivel de um anjo que todos nós temos, lhes hão mostrar e alumiar serenamente a historia intima do meu noi- vado de trinta e oito mezes.
Aqui tens porque peço a Deus que me con- demnem. Olha lá, não me julgues mal. Na senhora que eu matei havia duas creaturas. Uma que se perdeu, e me perdeu. Essa, se resuscitasse, morre- ria de novo. Outra que era todo o meu espirito e toda a minha alma, aonde acordavam todas as mi- nhas virtudes e onde adormeciam todos os meus sonhos. Essa choral-a-hei sempre.
Hontem de noite pensei muito em ti. Queria es- cutar-te aquella suave persuasão com que tu ha oito ou dez annos me fallavas aqui, a mim e a ou- tros, da necessidade da fé. Uma noite, no Grémio, n'aquella saleta pequena aonde costumava conver-
Correspondência epistolar 14/
sar o José Estevão, fallaste diante de muitos. Lem- bras-te ?
A mim hoje bastava-me a fé que me deixasse verdadeiro o meu sonho.
Meu querido Gamillo, abraçar-te-hia longamente se te tivesse aqui. Nunca esquecerei o immenso que te devo. As horas de grande coragem mandas- te-m*as tu, e marcou-m'as o teu relógio na leitura das tuas cartas.
Treze de setembro ! Faz hoje mesmo quatro an- nos que embarquei para o Rio ! Porque não vi eu então na immensa amplitude do mar a medida dos espaços da minha desgraça? Que data, meu queri- do amigo !
Li ha poucos momentos urna carta em que se al- lude a uns convites e agradecimentos para uma mis- sa, feitos com insultos contra mim. Dizem-me que foram assignados por quem eu amei e amo tanto como a minha mãi. A minha vingança será sempre a mesma : fechar-lhe unicamente o meu coração para que ella não entre lá a suíFocar-me o amor que lhe tenho e terei sempre.
Se ella me chamasse ainda o seu querido filho!...
E' impossível. Não é?
Toma estas lagrimas do teu desgraçado amigo.
<£Meu querido Camillo,
O meu principal contentamento são as tuas me- lhoras. Hontem escrevi-te afflicto.
Na minha carta d'hontem dizia-te que era certo ter vindo a procuração quando te reflectia que ne- nhum advogado honesto quizera accusar-me. Res-
7^2 Correspondência epistolar
pondo á tua de hoje. Não dou força a ódio estranho. Acho lógico o de minha sogra, e agradeço a Deus a força que esse ódio me dá, c que a loucura d'ella me tiraria.
Escrevo-te pouco hoje. Annunciaram-me a visita do Jayme, e dir-te-hci o resultado da conferencia, em que eu não sei se a sua defeza poderá combi- nar com o meu propósito.
Abraço-te, meu querido.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Recebi a tua carta de hoje. Eu tenciono publicar a seu tempo as tuas cartas amantissimas e santas. Então t'o direi de novo.
Dizes-me hoje uma cousa que eu já sentia, mas que estimei ver dita por ti : é que para mim houve uma dor, e não poderh haver mais.
Ha dous dias que me sinto perfeitamente calci- nado. Chegaram cartas do Rio asseverando que mi- nha sogra
Eu sou escravo da lógica das minhas idéas c dos meus sentimentos. Essa senhora, cujas censuras fei- tas por ti eu lia a custo, tinha no meu coração e na minha alma o primeiro lugar. Hoje não tem o ulti- mo porque não tem nenhum. Era ha um anno viu- va de um homem que foi um santo, e tal santo, que Deus consentiu que lhe vilipendiasse a memoria de- pois de morto quem mais lh'a devera honrar e ve-
Correspondência epistolar 148
nerar ! Que mundo, meu Deus ! Eu acredito em Deus, se o contemplo nas harmonias sublimes da matéria; mas horrorisa-me explical-o se o estudo e o procuro n'estas monstruosidades do mundo moral: ensina-me tu, meu colossal e adorável Camillo.
Sinto, se tu o sentes, que conspirem contra o drama. Não me espanta. O contrario seria incohe- rencia com os ódios sempre crescentes com que a Providencia dos soberbos de sua desgraça me visi- ta na guerra acerba dos que te não perdoam a tua dedicação. Seja.
Adeus, meu querido Camillo.
Ah! O Jayme disse o outro dia ao António que estava satisfeito por pensar que defenderia trium- phantemente todas as paginas da Biographia. Elle é. também, como tu, maior que a sua terra.
Adeus. Sede bem felizes.
Teu
José.
Meu querido Camillo,
Ahi te mando a carta do António que se não pu- blica, porque o Jayme não quer. Eu obedeço-lhe. Elle quer que vamos saboreando o gosto de todas as calumnias para ser mais assombrosa a defeza ! No primeiro minuto custou-me ; voltou porém breve esta santa indifferença por tudo o que me está fora da consciência, e que nem deixa ser favor a minha conformidade.
Esquecia fallar n'essa carta da declaração feita logo em juizo, pelo António, depois do leilão dos moveis.
144 Correspondência epistolar
Resolvi não apresentar as dividas de 2:5ooííí50oo réis.
Hoje faço requerimento para inventario dando o Ermo, e tudo, como te disse.
Viu hontem o Júlio a tua carta, que o commoveu muito. E' um bello coração, parece-me. Elle falia hoje de ti n'um folhetim da Revolução. Creio que a tens ?
Como estás ?
As minhas saudades vos mando com estes meus novos e serenos contentamentos.
Abraço-te.
Teu
José,
Meu querido.
Resumo o meu correio de hoje. Deixaram-me pouco tempo para umas poucas de cartas com que eu tencionava passar o dia de hoje.
Tive hontem um dia triste. Amarguraram-me mui- tas cousas, mas sobre tudo a carta de D. Anna. Anni- quilou-me. O escrever-me ella, o que me escrevia, tudo isso me pôz no desalento em que veio encon- trar-me o Jayme. As três horas de conferencia com este também me magoaram muito, embora a im- pressão da tua memoria me affligisse sobre tudo. Disse ao Jayme qual era a minha resolução no tri- bunal. Aceitou-a. Será pois elle quem me defende, se Deus lhe der a saúde que eu vejo precária em todos os homens do grande talento e coração que vossês teem. Se elle não podesse defender-me, esti- maria que não me defendesse ninguém, não po- dendo tu vestir uma toga. O seu plano de defeza é
Correspondência epistolar 14S
o mais alto e sublime, porque é a verdade vista á luz do grande génio, e ao calor de uma alma de tamanho igual.
Sei que isto te contentará muito. Agora perdoa. Quando te dei uma resposta dúbia ao teu pedido, fugia de magoar a tua sensibilidade. Eu logo te dis- se que era impossivel arredar me do meu propósi- to. Nas individualidades caracterisadas como a mi- nha ha deliberações inabaláveis que é impossivel vencer.
Hoje tenho um dia mais feliz. Respirei quando vi a tua letra no sobrescripto. A tua carta encheu-me de contentamento. Agradeço-a a Deus, se Elleolha para isto, e se elle teve em conta os meus sobresaltos de vinte e quatro horas.
Carta tua que eu não accuse, é porque a não recebi.
Cá espero o teu outro retrato. Eu não tenho aqui nenhum meu, mas também não tenho o meu ulti- mo retrato. Os últimos que tirei são do Rio e de New- York, que deves ter. Consta-me que se ven- dem retratos meus, mas não sei de que modo ar- ranjados. Repugna mandar buscal-os aos infames que assentaram balcão no meu peito esmagado.
Tenho momentos horríveis, tenho. Mas espero não perder a razão, o que peço a Deus, que sabe que penso serenamente em perder a vida.
Adeus. Abraço-te meu querido amigo pela feli- cidade santa e augusta que me dá a luz immensa da tua divina inspiração.
Os meus affectos respeitosos á nossa querida amiga.
Beijo os vossos filhos.
Teu
José. voL. I 10
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14^ Correspondência epistolar
Meu querido Ca mil lo,
Entristeceu-me muito, muito, a tua falta de saúde. Não te posso dar mais nada, mas as commoçôes sinceras da minha alma aceita-as, e crê n'ellas. Morrer deve ser bom. Padecer é que eu acho hor- rível acima de tudo.
Eu pago com muita gratidão ao Germano, e te- nho dito em Lisboa aos politicos que elle é hoje um dos primeiros talentos para sustentar um par- tido.
Não me aíflige nem me alegra nada do meu jul- gamento. Estou n'uma sala de tecto muito baixo, e começa a pezar-me horrivelmente a cabeça, depois que o procurador régio de cá deu subitamente or- dem para que se me levantasse a permissão de ir renovar de ar respirado n'um patamar de duas ja- nellas, e de entrar n'um pequeno gabinete aonde lia e escrevia. SoíFro tudo docilmente quando sus- peito que é o dinheiro da senhora do Rio, que me dizem ter chegado em quantidade para me crivar nas publicações dos jornaes, visinhos da audiência, o que me irrita n'estas perseguições inesperadas, e que o próprio carcereiro d'esta casa me annuncia com os olhos e a voz trémulos de lagrimas.
Não esperava ter a força que sinto. Quando me disseram a mais sanguinolenta das calumnias que me assacavam, senti pelo mundo um despreso pro- fundíssimo com que hei de morrer. Agradeço a Deus esta força. Tenho mentalmente agradecido aos infames o pedestal das injurias para que o meu vulto era pequeno.
Queda ser julgado quanto antes, e no meio das
Correspondência epistolar 14J
iras de todos. A prisão aniquila-me, illumina-me o desterro; e, se me absolverem, tenho medo de não poder desprezal-os tanto ! O que eu queria era'que me julgassem.
O advogado contrario oíFereceu a biographia e os discursos no libello. Dizem-me que deseja provar o meu atheismo. Quem me dera ser elle !
Adeus, meu querido Gamillo. Beijo as mãos da nossa boa amiga, e abraço-te e aos vossos filhos.
Teu
José.
tMeu Camillo.
A tua carta veio desopprimir-me. Tenho tão pou- cas cousas com a minha alma, que estava a vêr quando o deus estúpido dos desgraçados me man- dava bestialmente á cadêa o estampido da tua morte.
Ha três dias que vivo n'uma tempestade do ódios brutaes. Não tem razão de ser especial. E' uma no- va chamma do meu inferno. Vivo, porque concor- da com os ódios o despreso incommensuravel que todos os dias se alimenta no ruido da canalha livre.
Vejo que aproveitas a saúde escassa pensando e trabalhando por mim. Deus queira que não com- movas ninguém ! O que eu quero é a raiva bestial de todos. Nunca pensei que tivesse tamanho sabor.
O Diário de Noticias falia, sempre que pôde, em mim para me tratar pelo preso fulano de tal . . .
14S Correspondência epistolar
De dentro de uma enxovia é que se conhece bem a lama que está lá fora !
Adeus. Abraco-vos.
Teu velho Vieira de Castro.
Meu querido Camillo,
A tua carta de hoje alegra-me de todo. Foi bom que se me atormentassem as outras dores com este susto que me mettcste para poder ter agora uma alegria. Hontem ficara eu inquieto com a falta de carta vossa, e aggravou a minha imaginação uma noticia da imprensa sobre o teu estado. Felizmente aquella noticia era naturalmente filha de informa- ções anteriores.
Tenho a agradecer-te uma nova delicadeza. Veio hontem aqui um caixeiro do Campos trazer-me um exemplar da 2.'' edição dos ^Brilhantes do bra:{tlei- ro, e offerecer-me todos os outros que eu quizesse escolher do catalogo appenso ao livro. Eu mostrei- Ihe os livros que ha pouco, na mesma loja d'elle, tinha mandado comprar. Entre estes estavam os Brilhantes, mas acceitei a tua fineza ficando com o exemplar da 2.* edição. Devolvi-lhe a elle o exem- plar da i.'\ por me parecer isso agradável ao pe- queno. Eu tinha comprado ha pouco: Os brilhantes, A mulher fatal, oAs memorias de G. do Amaral, e Vijite horas de liteira. Não tinha lido até hontem os dous primeiros. Quando os livros chegaram, toma- ram-me esses dous o Reis e o guarda-livros da ca- dêa, bom velhote que me ajuda a atravessar as
Correspondência epistolar I4g
tardes. Tomei eu o ultimo dos quatro n'uma noite por me dizerem que era um livro alegrissimo do principio ao fim. Ou eu li cousas que lá não esta- vam, ou quasi todo elle é de uma profundíssima melancolia. Muitas d'aquellas historias me aííligi- ram. Dias depois, as Memorias de G. do Amaral atormentaram-me igualmente, e resolvi adiar a lei- tura dos outros. Hontem porém animou-me á lei- tura dos Brilhantes a circumstancia de me serem enviados por ti. Deliciaram-me as cem paginas que li até á meia noite, mas hei de ler o resto de dia para me não intimidarem nas trevas os angustiosos lances ou tristes conceitos que presumo no curso d'esta historia. Depois, a pagina 8o d'este teu livro deixou-me com medo de encontrar novas e verda- deiras prophecias para mim.
Quem dera cá o fim de setembro, se Deus me não dá esta esperança de os ter cá para m'a levar mais tarde. Eu decerto aqui estou. Já te disse, e repito, que eu não dou um passo para abreviar o meu processo, nem sequer interrogo alguém acer- ca d'elle.
Agradeço-te muito a tua amoravel lembrança de pores á minha disposição os teus estofos. Que on- das nos separam dos tempos d'essa palavra ! Eu tenho commigo uma cadeira que já tive em Coim- bra e no Ermo, e uma cama de ferro onde dormia um dos meus criados. Não quereria eu que as tuas mobilias viessem fazer fausto a quem teria de pôr todos os dias diante d'ellas a sua toalha e talher de jantar.
Adeus, meu querido amigo. Espero com ancie- dade a confirmação d'estas boas e confortadoras noticias d'hoje.
i5o Correspondência epistolar
Os meus respeitos á nossa querida amiga. Beijo os vossos filhos.
Teu
Vieira de Castro,
Meu querido Camillo.
Recebi a tua carta de Braga. Continuo a esperar a ultima hora da tua convalescença. Deus a traga breve !
Eu morro de calor. A atmosphera tem concor- rido no adormecimento lethargico das minhas facul- dades, o que me dá a serenidade dos moribundos sem dor, embora o despertar depois para a vida me seja amargo, e tanto mais quão longo foi o in- tervallo do repouso.
Não trabalho. Leio bastante, e estudo o inglez com um homem que vem aqui três vezes por se- mana.
Voltou hontem o pequeno do Campos. Trouxe- me um exemplar da 2.'^ edição da Douda do Cau- dal, Eu tinha-lhe dito que tencionava mandar bus- car este livro quando acabasse a leitura dos outros. Elle teve a bondade de trazer-m'o logo. Disse-me que tu havias dado ordem especial para me traze- rem a Mulher fatal, mas que brevemente o fariam por quererem dar-me a 2.* edição. Mostrei então o exemplar que eu mandara comprar, c como fosse da i."^ edição, o pequeno levou-o, ficando de trazer opportunamente o da 2.'^ Este livro só então pode- rei lêl-o.
Hontem depois do meu jantar sentei- me na mi- nha poltrona do Ermo e de Coimbra, e conclui a
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leitura dos Brilhantes. As ultimas cem paginas li as constantemente através das minhas lagrimas. Cho- rei suavemente, e fez-me bem. Eu acho este livro adorável. E acho-o também um livro óptimo por todos os pontos.
Os teus livros tiveram sempre um grande poder na minha organisação psychologica, e agora é que eu o tenho sentido bem, n'este despenho de uma grande desgraça, em que eu recordo a sós commigo os pedestaes creados por ti para a consciência pura, contra que se levantam infrenes e estúpidas a ca- lumnia e a aífronta. Eu já mereci a Deus a supre- ma consolação de me sentir bem e feliz com os aleives dos perversos.
Esta santa superioridade começou a formar-se na minha alma aos i3 annos com a leitura dos teus livros, singularmente influentes em muitas saliências do meu destino.
Eu te agradeço tudo, meu querido amigo.
Vou mandar esta carta para as Taipas na certeza de que é o mais seguro.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Penso que serei julgado no dia 28. — O Diário de Noticias já hoje annunciou que as authoridades brazileiras pediram lugar ! Não poupam nada. Ha dinheiro a fartar, e diz-se que
para publicar, como publicou, os libellos da accu-
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sacão, sendo um d'elles a synthese das principaes torpezas com que me infamam ! Foi publicado no dia i8, porque n'esse dia expirava o prazo para apresentar a contestação, sabia-se que o defensor a reservava para a audiência, como o próprio Diário indiscretamente confessava no dia 19, e d'este mo- do ficavam as torpezas a lavrar até ao dia do jul- gamento ! E' o primeiro caso que se dá na im- prensa !
Meu querido amigo, peço a Deus forças para atravessar esta onda. Não me preoccupa a con- demnação do meu delicto ; apenas desejo, e espero da Providencia, que fiquem de todo esmagadas as calumnias infernaes com que o fizeram horrendo !
N'esses dias pedirei a algumas das tuas cartas a coragem com que ellas me salvaram já.
Abraço-te, meu querido amigo. Peço-te que faças com que os teus filhinhos orem a Deus para que me dê o heroismo sereno de que eu preciso para esta grande provação do meu julgamento. Adeus.
Os meus affectos á snr.'^ D. Anna. Parte do meu coração está comvosco.
Teu
José.
Meu querido Camillo,
As tuas cartas são a minha vingança e o meu desforço, ou antes — que eu sinto sinceramente que o desforçar-se ou vingar-se a gente de tal socieda- de é descer ao nivel d'ella — são ellas a consolação, a companhia, o amparo dos meus confortos inte- riores.
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Eu bem sabia para que serviria ao advogado a Biographia. Escrevi atrapalhadamente, se te dei a entender cousa contraria ao que me dizes hoje.
E' certo que o juiz marcará dia n'este mez para o julgamento. Suspeito porém que a parte diga a uma das testemunhas que não compareça, não prescinde d'ella, e provocará assim o adiamento para fevereiro. Gomo infâmia espero-a, como per- seguição agradeço-a a Deus. Veremos.
Li com satisfação a carta do Germano. Devol- vo-t'a. Gooperarei comtigo, sem que elle o saiba, no seu despacho. Sei que elle é concorrente a um lu- gar na Relação do Porto. Pedirei muito ao Pereira de Miranda que o proteja, e mostrarei que é me- nor a conveniência do Germano do que a d'elle e a do seu partido.
Continuam a perseguir-me. Fazia-me companhia na enfermaria aonde estou o Pedro dos Reis. Con- cedera o carcereiro que elle viesse aqui ficar ás noites. Agora mesmo levanta essa licença, e sei que é por ordem do procurador régio. Faz hoje mesmo seis mezes completos que entrei n'esta casa. Será a próxima noite a primeira que ficarei só. Deus não me foge da razão, espero-o, mas afflige-me isto. Acresce que li hontem na Correspondência de Por- tugal de 20 de maio o que alli se publicou contra mim. Entre as injurias que já te relatei, e de que se fez echo o advogado, avulta esta: «Suspeita-se que V. de Castro assassinara de combinação com o. . . * que se vai rindo caminho de Paris!»
1 O jornal referido citava o nome de José Maria d' Almeida Garrett.
(Nota do editor).
1^4 Correspondência epistolar
Chega a ser providencial esta infâmia. Se eu quizesse defender-me, querendo esganar ás minhas mãos o miserável de quem me faz parceiro o ulti- mo dos negros da imprensa do mundo, a defeza seria essa. Villões! negríssimos villões!
O Jayme caminha para o ideal da minha defeza, segunda me consta. Hontem namorava-o a idéa de não apresentar uma testemunha, de não offerecer um documento. Ouviu o meu coração !
Suspeita-se uma infamissima insidia na apre- sentação do Moraes Leal e dous villões que são dados com elle, sem se saber para quê, homens da plebe.
Adeus, meu querido Camillo. Beija o teu Jorge por mim.
Abraço-vos.
Teu
José Caridoso,
Meu Camillo,
Deves ter recebido hoje a carta que hontem te escrevi em resposta á tua ultima.
Vou pedir um grande obsequio á tua boa alma tão solicita a favor d'estranhos.
Peço te que ponhas o teu nome no memorial in- cluso, e o mandes ao Alves Matheus acompanhado de uma carta de verdadeiro empenho a favor d'esse padre, que elle já conhece, mas por quem se inte- ressará só depois do teu pedido.
Este padre é o que vem hoje romanceado na carta de Lisboa do Primeiro de Janeiro, Tem-me
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feito boa companhia, e eu tinha verdadeira vontade de servil-o:
Adeus. E' o dia 28 o destinado para o julga- mento. Não sei porém se o adiarão.
Saudades e aíFectos meus.
Teu
'Vieira de Castro,
Meu querido.
Tenho duas cartas tuas. Faz-me bem vêr-me tão altamente applaudido por ti. Nada tenho com o mundo. Não é por isso que me faz bem. Mas dou contas á minha consciência, e fico sereno, se as boas almas e os grandes espiritos como tu enten- dem que a minha desgraça teve pelo tumulo res- peitos dignos dos extremos que o meu amor dera sempre aos dias da felicidade.
Lê na minha alma. A minha alma é uma cousa immensa. Eu entendo que ficaram no mundo o corpo que penou, e as deliberações frias da alma que trahia. Para o céo passou a parte pura do es- pirito que Deus haverá recebido. Eu choro essa. Não sei se é virtude, se é fraqueza \ sei e sinto que é um luto irreparável nos dias do meu destino.
O que me vale são as minhas visões. Vejo-a a mirar-me, do céo á vontade com que cu me amor- talho para que no decoro do meu infortúnio nin- guém deixe de ver que a amei immensamente. Quando a minha dor me diz sempre, e ao cabo de tudo, que o meu crime era o meu dever, e orgu- lho único possivel da memoria d'ella, e o pudor e
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a dignidade de ambos, o meu anjo da guarda acrescenta: <e a redempção d'ella das angustias in- fernacs que a despedaçariam viva, quando sobre o coração lhe despenhasse Deus o peso de sua culpa!»
Ah!